TESOURA DE OURO
Também
sou de profissão barbeiro. Ainda menino, aprendi o ofício
com meu pai, Quintino Arembepe dos Santos, Tino Arembepe, por quase
meio século o maior especialista do “Tesoura de Ouro”.
Depois de muitos anos de cabelos, barbas, bigodes, costeletas e
cavanhaques bem-cortados e cuidadosamente aparados, meu pai comprou
essa barbearia que agora me pertence. Respeitado por fregueses do
povo e autoridades, Tino Arembepe era mestre-de-obras, arquiteto,
engenheiro, escultor e ourives na arte de embelezar as pessoas pelo
trato da barba e dos cabelos. Não embelezava todo mundo,
é verdade. Muitos clientes saiam do “Tesoura de Ouro”
com a aparência pior do que ao chegar, apesar do serviço
caprichado de meu pai; mas aí, a culpa era da Providência,
que distribui pelo mundo feições desiguais. Não
adianta: se o sujeito é muito feio, corte de cabelo nenhum
dá jeito; alguns até ajudam a realçar a feiúra,
pelo contraste entre o penteado bonitinho e o rosto desajeitado.
Digo por experiência de ofício. Meu pai me ensinou
a manusear a máquina zero (ah, pelei muitos cocos....) e
outras mais modernas. Hoje, a máquina esta aposentada; é
tudo na tesoura, moderninho. Homem agora não quer os cabelos
muito curtos. Muitos preferem uns cortes de frescos, desses que
a gente vê na televisão: os cabelos partidos ao meio,
penteados para os lados, cheios no topo da cabeça e rentes
na base do pescoço. O que posso fazer, se o freguês
é quem manda? É corte de fresco? — penso com
minha tesoura então lá vai: tec, tec, tec, tec, tec,
tec, e eu podando a juba do pirobo. Gosto do meu trabalho: amolar
a tesoura e a navalha, friccionar o pincel no potinho com o creme
de barbear, cobrir a queixada do cliente com a espuma, retirá-la
com a lâmina, como um marceneiro ao polir a superfície
de uma madeira até ela ficar lisinha e (barba já feita),
queimar o local com loção; cortar e fazer o pé
do cabelo e, por último, tascar o talco no cangote do freguês.
Outro dia discuti com um rapaz que não queria me deixar colocar
o talco após o corte. Faço questão, é
a marca registrada do barbeiro, é a nossa etiqueta, insisti.
O fedelho quis chiar, mas terminou concordando. Já cortei
todo tipo de cabelo: carapinha, blequepáuer, lisos, longos
e ralos. Não tenho preferência por nenhum deles; qualquer
um cai na tesoura (tec, tec, tec, tec, tec, tec); afinal, se cabelo
fosse mesmo bom, a terra comia. Havia um advogado, Simão
Rubens Gonçalo que, apesar de careca, era um dos meus clientes
mais assíduos para fazer o cabelo. Pois não se deu
que mesmo calvo de nascença, esse Simão Rubens tinha
a mania de colocar uma peruca na cabeça lisa e, toda semana,
me pedia para lhe aparar os cabelos. Vinha sempre com uma peruca
diferente. Devia ter uma coleção delas; excentricidade
de rico, pois o tal Simão Rubens tinha muito dinheiro. Na
primeira vez em que sentou na minha cadeira de barbeiro, pensei
que estivesse de gozação. Quem já viu aparar
uma peruca e ainda mais numa barbearia? O advogado instalou-se na
cadeira, olhou atentamente as folhinhas de mulher nua, abriu um
jornal, bocejou e disse: “tenha a bondade de aparar-me essa
incomodatícia cabeleira”.
Engasguei. Incomodatícia, pode até ser (pensei com
minha tesoura), cabeleira, jamais. Tratava-se apenas de uma peruca
vermelha que lhe caia tão bem quanto uns óculos de
sol num rinoceronte. Cortei-lhe mesmo assim os falsos cabelos, com
muita cautela para a peruca não cair ao impacto de uma escovada
mais forte. “Tem um bonito cabelo, senhor”, elogiei,
após o serviço. Simão Rubens sorriu, deu-me
uma boa gorjeta, ajeitou, com pequenas apalpadelas, sua cabeleira
ao espelho e saiu satisfeito. Voltou toda semana à barbearia,
durante cinco anos e meio, até a sua morte. Morreu envenenado
por um tônico capilar que comprara no Marrocos e com a cabeça
não mais pelada e sim coberta de pústulas enegrecidas,
derivadas da solução mágica que não
lhe dera a cobiçada cabeleira, mas a morte prematura e humilhante.
Os inimigos de Simão Rubens zombaram do coitado: morrer daquele
jeito, com o coco em perebas, diziam, impiedosos. O vaidoso advogado
foi enterrado com uma peruca importada de Paris, que pertencera
a um nobre da corte de Luís XVI, o guilhotinado, como noticiou
um jornal escandaloso. Pobre Simão Rubens. Era um bom cliente;
oxalá tenha conseguido no outro mundo a bela cabeleira que
tanto desejou nesse. O maior orgulho de meu pai foi ter cortado
os cabelos do presidente João Goulart, pouco antes de sua
excelência fugir do país, com medo dos milicos. Por
insistência do senador Fenelon Filho, de quem sempre cortava
os cabelos e fazia a barba na Bahia, Tino Arembepe fora a Brasília,
acompanhar, no tribunal, o julgamento de uma ação
trabalhista contra o “Tesoura de Ouro”. A viagem, que
o fez cagar-se no avião (conto esse detalhe porque essa é
uma historia verídica e, quando se fala a verdade, não
se deve omitir nada), foi paga pelo senador, em cujo apartamento
meu pai ficou hospedado. Ao chegar ao Distrito Federal, Fenelon
Filho (que Deus o conserve na santa paz), soube que o barbeiro oficial
do presidente da República quebrara a perna, ao brigar com
a mulher que o corneava, justamente no dia do corte de cabelo presidencial.
Por privar da intimidade de João Goulart, o senador acabou
levando meu pai para tão honrosa tarefa. O presidente não
tinha lá muitos cabelos, mas mesmo assim, aquele corte foi
a maior glória profissional de Tino Arembepe. Depois do serviço,
ele até pensou em pendurar a tesoura. Estava realizado. Voltou
de Brasília com a indenização ganha, e consagrado
por várias reportagens em jornais. O “Diário
de Noticias” da época estampou: “O Tesoura de
Ouro corta os cabelos do Presidente Goulart”, confundindo
a razão social do salão em que meu pai trabalhara
com o nome do barbeiro. “A Tarde” foi mais longe: publicou
uma fotografia de meu pai, sorridente, aparando os cabelos de sua
excelência, envolta num avental de barbeiro como um freguês
qualquer. “Foi o melhor cliente que já tive, elogiou
Tino Arembepe”, complementou o jornal. Guardo a sete chaves
os recortes dos jornais da época. Com o dinheiro da indenização,
meu pai abriu sua própria barbearia. Para ela vieram muitos
clientes do “Tesoura de Ouro”, que só a Tino
Arembepe confiavam suas preciosas cabeças e queixadas. Trabalhamos
quinze anos juntos, até meu pai morrer. Morreu de câncer
no estômago, repetindo em sua agonia, que se fosse para o
céu apararia de bom grado, as madeixas luminosas dos anjos,
ou, em caso contrário, se Deus o castigasse com o ácido
do inferno, empunharia sua tesoura para cortar as crespas asas do
demônio. Enterrei-o com a sua inseparável tesoura.
Fregueses antigos e novos foram ao sepultamento . Depois da morte
de meu pai, mudei o nome do estabelecimento. De “Barbearia
Pai e Filho”, o ponto passou a se chamar “Barbearia
Béveli Rio”, nome americano, muito apropriado para
esses tempos modernos e de muita estrangeirice. Deu certo. Depois
de “Béveli Rio”, a clientela até aumentou.
Qualquer dia desses coloco um menino para me ajudar (meus filhos
não querem saber de tesoura, desejam ser doutores, o mais
velho já está até na faculdade). Ensino o ofício
ao garoto e lhe pago qualquer mixaria. Também tenho fregueses
importantes: médicos, vereadores, deputados, jogadores de
futebol, desembargadores, jornalistas. Uma vez cortei os cabelos
de Francisco Cuoco. Ele estava de ferias em Salvador e veio à
minha barbearia. Sentou na cadeira, com afetação de
galã, e pediu que lhe aparasse os cabelos, já ultrapassando
os ombros. Não precisava mais deles compridos; acabara de
filmar a novela em que necessitava de uma vasta cabeleira. Pode
deixar, Seu Francisco. Sabe, minha patroa assiste todos os dias
a sua novela. Peguei a tesoura, borrifei com água os cabelos
do ator e fui cortando: tec, tec, tec, tec, tec, tec. Ele não
deixou-me fazer o pé do cabelo. Tudo bem, o senhor é
quem manda. Troquei a tesoura grande por uma menor e — tic,
tic, tic, tic, tic, tic — aparei os fios mais pontudos para
deixar a cabeleira certinha. Depois pus o talco no cangote do artista.
Pronto, Cristiano; quer dizer, Seu Francisco; é que eu também
assisto, de vez em quando, “Selva de Pedra”. Pedi um
autógrafo ao ator. É para Alzira, minha patroa, ela
gosta muito do senhor e do Tarcísio Meira também,
só não aprecia Tony Ramos, acha enjoado. Cuoco rabiscou
sua assinatura num lenço de papel, pagou o corte e foi embora
sem agradecer, nem dizer “até logo”. Gente metida,
essa de televisão, pensei com minha tesoura. Gosto de tomar
umas pingas, mas somente nos dias de folga. Barbeiro que se preza,
não deve andar por aí bebendo, a torto e a direito,
à vista ou fiado, a fim de não correr o risco de tremer
as mãos ao usar a navalha. Graças a Deus, em muitos
anos de ofício, nunca cortei ninguém; somente uns
beliscãozinhos com a tesoura, num momento de distração
(alguém me chamando, uma mosca azucrinando o ouvido...).
Certa vez quase dou uma navalhada num sujeito. Foi num bar. Tinha
ido beber num dia de descanso. O homem estava bêbado e disse
que todo barbeiro é viado, pois passa o tempo todo alisando
a cara dos clientes. Respondi que aquele procedimento era necessário
para deixar a barba bem escanhoada e a cabeleira apilada. “Bicha!
Todo barbeiro é bicha”, berrou o ébrio. Muita
gente segurava o riso no bar. Pai de família, cumpridor dos
meus deveres conjugais e extraconjugais, não podia engolir
o desaforo. Afinal, era barbeiro; não cabeleireiro de madame.
Puxei a navalha do bolso avancei disposto a retalhar o desaforado.
Quatro mãos me seguraram. O borracho foi empurrado para fora
do bar. Tropeçou, se aprumou, cambaleou e ainda presepou:
“alisa homem, hic”. Fiquei vermelho de raiva. Nunca
mais o vi. Foi a sorte dele. Chamar de viados todos os representantes
de uma profissão honrada, enobrecida pela tesoura de Tino
Arembepe e de tantos outros barbeiros... Tomara que tenha morrido
de cachaça. Agora eu estou aqui, nesse calor infernal, nesse
tédio de quatro da tarde. Dia fraco. Só um bigode
para aparar e ainda por cima ralo. Alzira querendo televisão
nova; os meninos, dinheiro para viajar de férias escolares.
Eu não quero tirar a reserva da caderneta de poupança,
o investimento é bom e o governo garante. Oba! Aí
vem um cliente; vasta cabeleira. Pego maquinalmente a tesoura. Se
for para tosar, é só dar as ordens, penso avançando
em direção ao freguês, tesoura engatilhada,
saboreando de antemão o corte: tec, tec, tec, tec, tec, tec...
Este
conto faz parte do livro A garota do outdoor, publicado pelo selo
As Letras da Bahia, da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia,
em 2006.
Elieser
César – eliesercesar@hotmail.com