OS LOUCOS DE ZÍRON
   
 

“E no sonho do homem que sonhava,
o sonhado despertou”.                   
Ruínas Circulares
Jorge Luís Borges

Nós, os loucos de Zíron, não éramos muitos, na verdade apenas quatro, embora houvesse uma quinta pessoa – que aos nossos ouvidos chegara, ali também freqüentava, às escondidas –, ainda que em tempo algum, chegássemos a divisá-lo. Decerto por conta do hábito que cultivávamos de somente acordar no meio da noite, num lugar – é bom que se diga – onde o sol teimava em não se por. Mas isto ocorria apenas quando da proximidade da sexta estação, tempo em que o outono há muito recuperara as folhas que arrancara das suas árvores.

Zíron fora o nome que dera o velho Zaqueu, marinheiro de luas e nebulosas, assim que pusera os olhos sobre o penhasco arroxeado, que se erguia de permeio à branca espuma, formada às custas das muitas ondas que ali se quebravam. O irmão mais novo – ele avistaria –, acorrentado no lugar mais ao alto das alcantilosas rochas.

Desesperado, Zaqueu gritaria pelo seu nome: Zíron! Zíron! – tantas e tantas vezes, que despertaria os ecos emudecidos dos gritos dos desesperados. Quando enfim se calou, o silêncio que ali se fizera, foi por demais ensurdecedor, que de pronto, viria atiçar a orquestra de cigarras que ali dormitava. Zíron, alheio a tudo aquilo que a sua volta ocorria, sorria, de igual modo sorri um pássaro perdido na amplidão dos céus. Zaqueu jamais viria saber o motivo de tão insano sorriso, tampouco encontraria a razão que o levaram a acorrentá-lo no alto daquele penhasco. Mesmo depois, num tempo em que começaram a lhe plasmar as definitivas asas, se atreveu a tocar no assunto. Aprendera desde muito cedo a desprezar as respostas cujas perguntas desconhecia. Talvez por isso tenha ele enveredado pelos tortuosos caminhos do vício. Dera para beber: rum e orvalho, e nunca mais foi o mesmo. Quanto ao penhasco, herdaria aquele nome: Zíron; que ele, Zaqueu, quando inebriado, cria ser o seu irmão ali petrificado.

Todavia, isso foi há muito tempo, quando sequer havíamos pensado em trazer o penhasco e as revoltas águas a sua volta para o interior do porão. A partir de então, e somente por essa época, quando começamos a nos reunir naquele lugar, muito antes da casa ser construída, é que passamos a ser chamados de os loucos de Zíron, ainda que o restante da família afiançasse serem cinco os participantes da nossa trupe. Em resumo, compúnhamos o grupo: Onírico, o mais velho de todos, que como bem dissera, chegara, em tempos de antanho a pastorear vaga-lumes e enriquecera cultivando constelações. Abastado, veio juntar-se ao grupo, onde se permitia àquelas extravagantes ociosidades. O Outro – a quem nunca soubemos o verdadeiro nome – que fizera do pronome seu epíteto, foi o primeiro do grupo a trazer uma cadeira e se sentar na escuridão do porão – nesse período, era possível vislumbrar três equinócios médios da data, sendo dois às avessas, em cujo interstício a escuridão imperava – e, nos abeirados do penhasco, como era contumaz, se deixava levar pelo espírito contemplativo que ali se impunha. Havia ainda o Ribeiro, que viera na esteira do Outro, e como confidenciara, era oriundo de Lunaris, um lugar que, não raro, ele tentava nos convencer, localizava-se justamente no interior do penhasco de Zíron. Finalmente, e, para elucidar de uma vez por todas o emprego que ora se tem feito aqui e acolá, do pronome na primeira pessoa do plural, cumpro dizer não se tratar de nenhum artifício de narrativa, muito menos da parte do narrador, e sim o que alhures já se evidenciara. Isso mesmo. Sou eu o quarto membro dessa confraria, e o porão onde amiúde nos reuníamos, é parte da casa da minha mãe, uma construção antiga, composta de dezoito cômodos, todos eles com janelas que se abrem para o leste, uma solsticial exigência do seu primeiro morador, um tal de Merlim, todavia, isso nunca ficara comprovado, e, por conseguinte, pedimos desconsiderá-lo, a fim de não vir comprometer a veracidade dos outros fatos aqui relatados. Mas não nos atenhamos a minudências de tal monta.

Como nunca aparecera por ali quem nos quisesse bisbilhotar, fomos, pouco a pouco trazendo para o interior do porão, alguns utensílios pessoais, coisas de que nos valíamos para permanecer por mais tempo a observar aquela luta interminável do rochedo contra o mar, como bem dissera o poeta. É bem verdade que, quando no inverno, não obstante o cuidado que possuíamos, por conta do vento sul que penetrava através das frestas da porta, grandes vagas acabavam por se formar. Em decorrência, a inquietude daquelas águas, mais do que revoltas, transbordavam pelas janelas basculantes que ali existiam, indo encharcar por demais o jardim – reduto materno cercado dos mais variados zelos. Assim se dera um dia. Como era de se esperar, o ocorrido de pronto chamou a atenção de minha mãe, que sem pestanejar, inquiriu acerca dos molhados. Polvilhadas as desculpas com a criatividade dos mentirosos de plantão, mamãe aquietaria as suas curiosidades.

Foi por essa época que aprendi uma lição: Nem somente de fogo se vale o diabo em seus ofícios. 

Era março. O céu escolhera aquela madrugada para desabar. Manhãzinha. Uma chuva fina ainda caía. Fazia frio. O vento assobiava por entre as venezianas. Farfalhavam as folhas nas árvores dos quintais dos arredores. O jardim à frente da casa estava alagado. Cavalos marinhos se misturavam às roseiras. Margaridas dividiam espaço com estrelas do mar. Uma embarcação adernava por entre os hibiscos. Destroços à deriva. Era uma caravela, que acabara rompendo a parede lateral do porão e, ali fora atirada pelas águas bravias. Igual a toda mulher, que sempre se atêm a algum detalhe, como é consabido, a mãe espichou o olhar na direção da embarcação e apenas estranhou a falta do mastro principal, mas sequer suspeitou que ele se partira durante a tempestade, quando a nossa caravela, em sua busca tenaz da segurança de um porto, sobraçara perigosamente sobre os altos penhascos que emolduravam a entrada do canal que conduzia ao nosso porão, e nada mais disse. Estávamos, os loucos de Zíron, todos juntos, bem a sua frente e, ao sinal do seu apito naval, perfilamo-nos sobre o piso do improvisado cais que se tornara o pátio de entrada da nossa casa. Ela olhou-nos de esguelha, militarmente, e fez lá as suas anotações e deduções. Naquele átimo, tivemos certeza que seríamos poupados da reprimenda por conta dos estragos causados em seu jardim, quando vimos ela atentar para a ausência do quinto personagem que – para todos da família – compunha a nossa trupe, justamente aquele que jamais nos deparamos. “Deve ter sido ele – disse a mãe, referindo-se ao ausente, deixando entrever um quê de ternura em sua fala –, senão não estaria, agora, a se esconder” – e riu, enquanto enxugava as suas brancas e delicadas mãos no avental de cor de azeviche, que trazia preso à sua cintura.

Então pediu que tirássemos os sapatos molhados e entrássemos. Havia bolo de puba, broas de milho e munguzá. De um bule esmaltado subia o cheiro do café coado há pouco. Sentados à mesa, partilhávamos aquelas guloseimas, nós, os loucos de Zíron. Num repente, quase que concomitantemente, avistamos o nosso penhasco, em meio à leitosa espuma que lhe escorria as alcantiladas escarpas amareladas, rompendo o tampo de madeira da mesa e a toalha quadriculada que a cobria. Um silêncio se fez, envolto numa atmosfera de temor. Aproximava-se o instante em que seríamos desmascarados. O ar da sala se tornara pastoso. Permanecemos calados. O silêncio somente seria quebrado pela voz de mamãe: “Cuscuz de milho com leite de coco! Nenhum dos quatro vai comer um pedaço?”                                               

                                                                   
                                                                   Alfredo Gonçalves de Lima Neto
alfredolimaneto@gmail.com