OS BANDIDOS
Contos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 152 páginas
Aramis Ribeiro Costa – aramisrcosta@ig.com.br
Gato Preto alisou com orgulho o cabo do Taurus 38, enfiado
na cintura, escondido pela camisa para fora das calças. Camisa
barata e velha, calças de tecido grosseiro e surrado, sapatos
velhos e gastos. Em compensação, o revólver era
caro e novo, roubara-o com muita facilidade, fazia três ou quatro
meses, do porta-luvas de um carro estacionado no Comércio.
Desde então, não se desgrudara mais daquela arma, como
se ela fizesse parte do seu corpo. Cara de Lata, andando silenciosamente
ao lado dele, viu o gesto, sorriu, alargando um pouco a pequena boca
quase sem beiços, onde faltavam vários dentes. Também
trazia um revólver na cintura, igualmente escondido pela camisa
para fora das calças, mas não tinha o apego que Gato
Preto demonstrava pelo revólver dele. Arma a gente tem uma
hoje outra amanhã, pensava ele. Às vezes a gente perde
a arma na luta e pega a do inimigo. Tanto fazia. O importante era
estar armado.
— É hoje — disse Gato Preto com a sua voz grossa,
voz que parecia sair do peito largo e não da garganta. Falou
todo animado, olhando para Cara de Lata, os olhos grandes arregalados,
deixando ver o branco dos olhos. — Tô precisando de grana,
meu compade.
E repetiu mais baixo, o olhar fixo para diante, como se falasse para
si mesmo e Cara de Lata nem andasse ao lado dele:
— Tô precisando de grana.
Cara de Lata tornou a sorrir discretamente, alargando um pouco a boca
pequena, sem dizer palavra. Mas concordava, tinham de fazer alguma
coisa, ele também estava precisando de grana. Não tinham
planejado nada para aquele final de tarde, mas oportunidade não
faltava. A cidade era um vasto campo de trabalho, com ruas ermas,
estacionamentos desertos, pessoas distraídas ou indefesas,
carros estacionados sem vigilância. Otários. A cidade
estava cheia de otários, pensava ele, agora sem mover um único
músculo do rosto. A tarde estava indo embora, a noite vinha
caindo depressa, as luzes eram acesas, mas ainda não iluminavam
o suficiente. Passaram andando pela porta do cemitério, os
dois se benzeram. Primeiro Gato Preto, depois Cara de Lata, imitando
o companheiro. É bom não brincar com alma do outro mundo,
dizia às vezes Gato Preto, quando a conversa ia para esses
assuntos de morte e depois da morte, que era a parte desconhecida,
a parte que ninguém sabia como era. Gato Preto não tinha
medo de nada, nem de polícia nem de bandido, matava como quem
dá um tapinha nas costas de um amigo, esfaqueava com a naturalidade
e o prazer de quem palita os dentes, mas não passava pela frente
de um cemitério sem se benzer. Mesmo porque, é preciso
que se diga, não tinha cemitério na cidade que não
tivesse alguém despachado por ele, e a forma de se proteger
do desconhecido era aquela, benzendo-se. Benzeu, estava resolvido,
não pegava nada. Nem praga. Nem encosto. Nem macumba.
Agora desciam a Ladeira do Campo Santo em silêncio, cada um
com seus pensamentos. No final da ladeira, como se fosse o chefe,
Gato Preto virou à esquerda, descendo a outra ladeira, mais
íngreme, que leva à Avenida Centenário. Cara
de Lata apenas seguia, no seu passo um tanto displicente. Gato Preto
tinha faro, sabia encontrar as oportunidades. Ia atento, o andar macio,
o olhar esperto, como quem caça. Cara de Lata tinha tanta confiança
no instinto de caçador dele, que nem se preocupava, deixava
que ele encontrasse o trabalho. Pouco adiante, descida parte da ladeira,
Gato Preto estacou; com a mão, fez com que o companheiro também
parasse.
— Cara — ele disse, com sua voz grossa, que parecia vir
do peito largo.
— Olhe lá. Que mulé, hein?
Cara de Lata olhou e viu, a mulher branca, ainda moça e bonita,
de cabelos negros escorridos, com uma capa branca e longa, desabotoada,
esvoaçando sobre o vestido verde. Tinha uma maleta branca na
mão. Andava apressada, saindo do prédio adiante e caminhando
para o estacionamento em frente.
— Aquilo ali é um hospital, não é, Cara?
— Acho que é.
— E a dona gostosa parece médica. Não é?
— Parece — concordou Cara de Lata.
— Não tem mais ninguém no estacionamento —
observou Gato Preto, com seus olhos de gato, que enxergavam até
no escuro. — Vamo lá, Cara. A janta tá servida.
É sentar e comer.
— Vamo — concordou Cara de Lata.
Gato Preto tinha umas pernas compridas, andava rápido e silencioso
como um gato, subia também em muros e árvores como um
gato, ninguém o pegava. A cor da pele completara o apelido,
que ele próprio adotara no lugar do nome. Cara de Lata tinha
de fazer um pouco de esforço para acompanhá-lo. Mas,
em dois tempos, aproximaram-se da mulher pelas costas. No estacionamento
deserto ela abriu a mala do carro, pôs a maleta, tirou a capa
branca, colocou também na mala do carro, tornou a pegar a maleta.
O Taurus saiu rápido da cintura de Gato Preto e o cano foi
encostado entre duas costelas da vítima.
— Fique quieta, dona, se não quiser morrer. É
um assalto.
Ela não se mexeu, apenas arregalou os olhos, ficou pálida,
a respiração suspensa, enquanto Gato Preto ordenava:
— Entre no carro. A gente vai dar um passeio. A senhora dirige.
Cara de Lata fechou a mala do carro, tomou a maleta da mão
dela. Então foi uma operação muito rápida
e silenciosa, como se tivesse sido ensaiada. Cara de Lata tirou seu
revólver da cintura e ficou ao lado da mulher, até que
ela entrasse no carro no lugar do motorista e destravasse as outras
portas. Enquanto isso, Gato Preto dava a volta e entrava no carro
pelo outro lado, sentando-se na frente e reassumindo, com o seu Taurus,
o controle da vítima. Em seguida, Cara de Lata guardou o revólver
e entrou por uma das portas traseiras, acomodando-se no banco de trás
com a maleta.
— Qual é o seu banco, dona? — foi perguntando Gato
Preto, logo que se viu outra vez dono da situação.
Ela respondeu com voz entrecortada, a voz tremia tanto quanto as mãos
e as pernas, não ia poder dirigir daquela forma. Estava pálida,
muito pálida, os olhos brilhando, o olhar de pânico passando
rápido do rosto do bandido para o revólver que ele lhe
apontava, do revólver para a rua, da rua de volta para o rosto
do bandido. Quando olhava a rua, era com esperança de que alguém
acudisse, quando voltava a olhar o bandido e o revólver, mostrava
no olhar aflito um desespero enorme. Parecia que ela ia chorar, a
cara já era de choro e os olhos estavam brilhando. Tudo isso
acontecia muito rapidamente. Enquanto isso, no banco de trás,
Cara de Lata abria e remexia a maleta.
— Carla — ele informou, com alguns documentos na mão.
— O nome dela é Carla. E é médica.
— Muito bem, dona — disse Gato Preto, para quem as informações
não pareciam ter grande importância. Apontava o revólver
com impaciência, os olhos grandes olhando muito em torno, para
ver se alguém estava observando. — Vamo logo com isso.
Dê logo a partida. Vamo embora.
Mas a chave tremia na mão da médica, ela não
acertava enfiar no buraco da ignição para dar a partida.
Nervosa, com os olhos rasos de lágrimas, não conseguia
deixar de fitar o bandido, o revólver e a rua alternadamente,
sempre na esperança de que alguém a socorresse.
— O que o senhor vai fazer comigo? — perguntou com a voz
trêmula, saindo da garganta com dificuldade.
— Olhe pra frente — ordenou Gato Preto, com o cano do
Taurus apontado. — Nada de choro. E ande logo com essa porra,
senão eu mato a senhora aqui mesmo.
Mas ela não conseguia ligar o motor, a chave sacudindo junto
com a mão. Gato Preto arrebatou a chave da mão dela,
ele mesmo meteu no buraco da ignição, virou, deu a partida.
— Vamo com isso, dona. Vamo com isso — ordenou, fazendo
como ela fazia, olhando para ela e à volta deles ao mesmo tempo.
Um senhor de marcha lenta passou a curta distância, mas nem
olhou para o carro. Logo em seguida passou um casal abraçado,
a mulher chegou a olhar para o veículo, mas não pareceu
notar nada estranho. Também, se notasse, não ia fazer
nada, no máximo comentar discretamente com o companheiro e
talvez só mais adiante procurariam algum policial. Mas não
havia nenhum policial por ali por perto.
Carla meteu o pé esquerdo na embreagem, pôs o direito
no acelerador, engatou a ré e olhou para trás, onde
Cara de Lata continuava mexendo na maleta branca, pegando e contando
o dinheiro que achava, tentando saber tudo sobre ela. Mas as pernas
dela tremiam. O carro fez um recuo brusco, deu um tombo para trás
e interrompeu.
— Puta que pariu! — berrou Gato Preto com raiva, voltando
a olhar agoniado à volta. — Essa dona tá fodendo
minha paciência.
— Não posso, não posso — choramingou ela,
com total descontrole; agora as lágrimas escorriam dos seus
olhos.
— Cale a boca, sua porra! Se chorar, eu meto bala — Gato
Preto voltou a olhar para ela com os olhos grandes e o olhar duro;
falava apontando o cano do Taurus, o dedo nervoso no gatilho; se fizesse
pressão, disparava.
Carla queria obedecer, mas as lágrimas desciam dos olhos uma
atrás da outra, borrando a maquiagem, lambuzando a cara. Cara
de Lata ofereceu:
— É melhor eu dirigir.
— Você dirige mal pra cacete — disse Gato Preto
sem olhar para ele.
— Mas dirijo. E essa dona aí não vai a lugar nenhum.
— Agora não dá — disse Gato Preto, visivelmente
apreensivo. — Agora tem que ser ela. A gente tem que sair daqui
depressa.
Tornou a voltar-se para ela, irritadíssimo:
— Depressa, entendeu, sua porra?
Ele mesmo tornou a virar a chave na ignição, o motor
do carro tornou a pegar. O Taurus 38 continuava apontado, o dedo tenso
no gatilho.
— Leva essa porra, mulé! Aqui já dá pra
sair. Engate a primeira. Vamo logo ou vai morrer agora! Quer morrer?
— Não senhor. Por favor, não me mate!
— Então vamo.
Ela engoliu em seco, fazia um esforço enorme para conter as
lágrimas. Voltou a comprimir a embreagem com a perna trêmula,
engatou a primeira, tornou a pressionar o acelerador. No seu nervosismo,
agarrava e apertava o volante com as duas mãos. As mãos
estavam úmidas. O carro começou a movimentar-se aos
trancos, parecia que ia tornar a interromper.
— Pise, mulé! Meta o pé! — ordenou Gato
Preto com sua voz grossa e profunda, quase aos gritos, olhando ao
mesmo tempo para ela e à volta, o cano do revólver apontado.
Até os solavancos do carro podiam fazer com que o dedo pressionasse
o gatilho.
Ela afundou o pé no acelerador, o carro ganhou velocidade ladeira
abaixo, fez a curva, entrou perigosamente na avenida. Logo adiante,
Gato Preto ordenou que ela virasse para a direita, entrando pela Avenida
Garibaldi, onde o trânsito devia estar desimpedido. Ela obedeceu,
pisando fundo o acelerador. O carro disparou. Era um veículo
pequeno, de motor pouco potente, mas era novo e desenvolvia bem. Agora
a noite fechava sobre a cidade e as ruas ganhavam o tráfego
pesado das horas de maior movimento; mas o trânsito fluía
desimpedido na larga avenida.
— Onde tem um caixa eletrônico do seu banco, dona? —
quis saber Gato Preto. O cartão eletrônico do banco já
estava em poder de Cara de Lata.
Carla ia responder, mas Cara de Lata respondeu antes.
— Eu sei. Tem uma agência no Rio Vermelho.
— Então vamo pra lá — ordenou Gato Preto.
— Sabe onde fica, dona?
Ela fez que sim com a cabeça. Estava ali e não estava,
como no turbilhão de um pesadelo, pensando ao mesmo tempo no
perigo daquela situação e na família, o filho
pequeno e o marido, que não sabia se ia tornar a ver. Pensava
com terror no que podiam fazer com ela aqueles bandidos. Queriam dinheiro,
provavelmente iam querer também o carro, mas seria só
isso? A lembrança do filhinho, que talvez ela não visse
nunca mais, fez com que ela suplicasse, sem diminuir a velocidade
do automóvel nem tirar os olhos da avenida:
— O senhor tire o dinheiro que quiser, leve o carro, leve tudo,
mas me deixe ir embora. Por favor, me deixe ir embora, não
me mate.
— Cale a boca e dirija — ordenou Gato Preto.
Por alguns minutos o carro deslizou na avenida, com maior ou menor
velocidade, a depender do tráfego, parando apenas por instantes
nos sinais fechados, sem que a vítima e os bandidos dissessem
palavra. Então, ao sair da avenida e entrar no bairro do Rio
Vermelho, ela disse:
— A agência é logo ali. O que o senhor quer que
eu faça?
— Pare perto. No outro lado da rua — ordenou Gato Preto.
Ela obedeceu, o carro foi parado do outro lado da rua, a algumas dezenas
de metros da agência bancária. O bandido deu as instruções.
Cara de Lata pegou o cartão magnético do banco, anotou
as senhas e partiu para a agência, enquanto Gato Preto permanecia
no carro estacionado, com o revólver disponível, vigiando
a vítima e os passantes.
— Não tente nada — avisou. — Se tentar, leva
chumbo. Entendeu?
Ela sacudiu a cabeça que sim. Não demorou muito, Cara
de Lata estava de volta e reinstalava-se no banco de trás.
— Então? — quis saber Gato Preto.
— Uma merda — disse Cara de Lata. — Uma merreca.
Metendo a mão no bolso, tirou todo o dinheiro que conseguira,
menos de quinhentos reais. Gato Preto ficou furioso.
— É só isso que a senhora tem na conta, dona?
Só isso?
Ela sacudiu a cabeça, estava outra vez chorando.
— É, sim senhor. Só tenho isso.
— E na poupança? A senhora não tem nenhum dinheiro
na poupança?
— Não senhor, não tenho poupança.
Cara de Lata confirmou que o visor do caixa automático não
mostrara nenhuma poupança.
— E outro banco? A senhora não tem outro banco?
— Não senhor — disse ela, em desespero.
Cara de Lata confirmou que não havia, na bolsa da vítima,
nenhum outro cartão de nenhum outro banco. Gato Preto sentia
muita raiva, sentia raiva dela e começava a sentir raiva também
de Cara de Lata, que estava sempre confirmando o que ela dizia. Teve
vontade de liquidar com aquela mulher ali mesmo, um tiro bem dado
e pronto. Largavam tudo ali e iam embora andando, como se nada tivesse
acontecido. O dedo afagava o gatilho do Taurus, a vontade de atirar
aumentava. Mas não era conveniente fazer um disparo ali, com
pessoas passando, com carros passando. Na verdade, era impossível
fazer aquilo ali, além de ser prejuízo. Ultimamente
ele e Cara de Lata não estavam roubando carros, apenas pegavam
dinheiro vivo. Tiravam o dinheiro do caixa automático e iam
embora largando a vítima, sem complicações, complicação
só quando a situação exigia. Mas, diante de tão
pouco dinheiro, sentiu a tentação de ficar com o carro.
E pensou também que aquela mulher ali não era de se
jogar fora, aquelas pernas, aquelas coxas, aqueles peitos, aquela
cara bonita, seguramente não era de se jogar fora, bem podiam,
ele e Cara de Lata, se divertir bastante.
Ela voltou a suplicar, as lágrimas continuando a cair incontrolavelmente
dos olhos aflitos:
— O senhor não já teve o dinheiro, moço?
É tudo o que eu tenho na conta. O senhor leva também
o carro, leva tudo e me deixa ir embora. Eu vou embora e fico calada,
não dou queixa. Eu juro que não dou queixa.
Gato Preto fechou ainda mais o semblante, que já estava carregado.
Ficava puto da vida quando a vítima queria bancar a esperta.
Achava que podia resolver tudo com dinheiro, como se ele fosse um
merda necessitado, que se contentasse com qualquer trocado. Vá
levando, seu merda, vá levando! Leve tudo e me deixe, não
já teve o dinheiro? Grande dinheiro! Grande puta!
— Cale a boca — ordenou com raiva. — Ligue essa
porra, vá dirigindo.
— Pra onde? — quis saber ela, outra vez em pânico.
— Vá dirigindo, já disse — e, como da outra
vez, girou ele mesmo a chave na ignição, ligando o motor.
Ela obedeceu e voltaram a rodar, atravessando as ruas estreitas e
congestionadas do Rio Vermelho em direção a Amaralina.
Carla tremia, as mãos úmidas comprimindo o volante com
força, o pé trepidando no acelerador, fazendo com que
o carro andasse às vezes aos solavancos, como se ela estivesse
aprendendo a dirigir. Gato Preto pedia pressa, ficava nervoso com
os solavancos. Queria que ela corresse sempre que os sinais de trânsito
abriam e o tráfego desafogava, não gostava daquele lugar
de tráfego intenso, de muitas sinaleiras, de muitos policiais
e guardas de trânsito nas calçadas, de pedestres que
podiam notar alguma anormalidade nos passageiros do veículo
e dar o alarme.
Agora iam em silêncio, cada com seus pensamentos. Carla pensava
no que ia acontecer com ela, pensava no filho pequeno e no marido,
imaginava que talvez não os visse nunca mais. Gato Preto pensava
em quanto lucrariam com a venda do veículo e também
no que iam fazer com a vítima, que, apesar de enraivá-lo,
ele estava achando uma mulher bonita e bem-feita de corpo. E Cara
de Lata pensava insistentemente que conhecia aquela mulher de algum
lugar. Desde que voltara da agência bancária e pudera
vê-la melhor de frente, aquilo estava na cabeça dele.
Um rosto familiar, alguém com quem ele já estivera,
já falara, já tratara em alguma ocasião. Angustiado,
falou, como se pensasse alto:
— Eu conheço essa dona de algum lugar.
— De onde? — quis saber Gato Preto, sem dar muita importância
ao que Cara de Lata dizia.
— Não sei. Mas conheço.
E, voltando-se para a vítima ao volante:
— A senhora me conhece de algum lugar, dona?
— Não senhor — ela disse, com a voz tremida, sem
tirar os olhos úmidos do tráfego. — Nunca vi o
senhor.
Voltaram a fazer silêncio. O carro saiu do Rio Vermelho, atravessou
Amaralina e chegou à Pituba. Cara de Lata não insistiu.
Mas ficou pensando naquilo. De repente, associando a impressão
forte ao fato dela ser médica, ocorreu-lhe de onde a conhecia.
— Já sei! — exclamou, aliviado, no banco de trás,
como se tivesse descoberto uma coisa extraordinária.
— Sabe o quê? — perguntou Gato Preto, com a voz
grossa e a cara fechada.
— De onde eu conheço essa dona.
— De onde? — Gato Preto agora parecia um pouco mais interessado.
Em lugar de responder, Cara de Lata perguntou à vítima:
— A senhora não trabalha no Pronto-Socorro do Estado?
— Trabalho — ela confirmou.
— É médica de criança, não é?
— Sou.
— Pois é — concluiu Cara de Lata, todo contente.
— É de lá que eu conheço a senhora. Um
dia, de madrugada, eu levei a minha filha ao Pronto-Socorro. Ela estava
cansando muito e com febre alta, era uma pneumonia, e a senhora tratou
dela. Agora me lembro. A senhora estava de plantão. Mandou
tirar a chapa, botou soro, internou. Ela ficou boa.
Carla tirou o olhar da avenida e levou-o, esperançoso e rápido,
ao retrovisor à sua frente. No pequeno espelho do retrovisor,
a cara feia de Cara de Lata, com o nariz comprido e achatado rente
ao rosto, a boca pequena quase sem beiços e as gengivas com
poucos dentes aparecia risonha, sem aquela expressão de fria
indiferença que ele mostrara até então. Ela fez
um esforço supremo de memória, lembrou-se do homem,
no meio da madrugada, em meio a dezenas de outros atendimentos de
crianças graves, entrando aflito no ambulatório de pediatria
com a filha dispnéica e febril nos braços; lembrou a
cara feia, o nariz comprido e achatado, a boca pequena sem beiços,
as gengivas com poucos dentes, lembrou a preocupação
dele naquela noite com a menina. Sem tirar as mãos úmidas
do volante e o pé trêmulo do acelerador, voltou a olhar
o tráfego à sua frente. Mas, ofegante, não se
conteve:
— Estou me lembrando do senhor, sim, estou me lembrando da sua
filha. Eu tratei a sua filha. O senhor não vai me fazer mal,
não é?
Cara de Lata ia responder, mas Gato Preto fulminou-o com os olhos
grandes e o olhar duro. Cara de Lata recolheu a resposta e o sorriso.
Às vezes falava demais, dizia o que não devia dizer
e Gato Preto ficava furioso com ele. Sem tirar o dedo do gatilho,
Gato Preto ordenou:
— Chega de conversa. A senhora dona somente dirija, sem falar.
O veículo agora atravessava a Pituba, cujas largas avenidas
também apresentavam tráfego intenso. Fosse mais tarde
e corriam o risco de pegar uma das batidas habituais da polícia
naquele bairro. Então, seria difícil escapar. Mas, naquela
hora de grande movimento de tráfego, isso não acontecia.
Finalmente, a noite fechada protegia a ação dos bandidos.
Deixando a Pituba, o veículo ganhava a orla, afastando-se dos
centros mais movimentados. Carla imaginava que o marido já
havia chegado em casa, o filho pequeno já havia sido alimentado
pela babá. Imaginava também que, mesmo estando acostumado
com seus horários incertos de médica, o marido já
devia estar notando seu atraso e sua falta de notícias. Gato
Preto, sem largar o gatilho do revólver, despreocupava-se com
a rua, olhando mais fixamente para as pernas dela, os peitos, o rosto
bonito, imaginando o prazer que podia tirar de tudo aquilo. Cara de
Lata não sabia para onde iam nem o que iam fazer, deixando
que Gato Preto comandasse a operação. Naquele instante
apenas pensava num prato fundo de feijão com arroz, carne e
farinha, pois sentia fome. Por ele, largavam aquela mulher e o carro
em algum lugar e iam comer alguma coisa, aproveitando que estavam
com dinheiro no bolso. Aliás, não entendia por que Gato
Preto continuava mandando que a mulher dirigisse. Enfim, ele era o
chefe, devia saber o que estava fazendo.
Nisso, ouviram um toque abafado de telefone celular dentro da maleta
que Cara de Lata deixara ao seu lado, no banco de trás. Carla
estremeceu. Devia ser o marido, querendo notícias dela. Gato
Preto virou-se para trás, enquanto Cara de Lata abria a maleta
e pegava o telefone.
— Desligue isso — ordenou Gato Preto.
Cara de Lata obedeceu rapidamente, sem dizer palavra, e o silêncio
voltou ao veículo. Passou pela cabeça de Gato Preto
que podiam usar o telefone celular da vítima para pedir dinheiro
ao marido dela ou a outra pessoa qualquer da família. Devia
ser casada, mas, se não fosse, devia ter alguém que
lhe pagasse o resgate. Mas seqüestro prolongado não era
a sua especialidade, dava trabalho, havia a necessidade de um esconderijo
seguro, as negociações tinham de ser muito bem-feitas
ou corriam o risco de serem descobertos. Era melhor não entrar
nessa área, contentarem-se com o pouco dinheiro retirado do
banco e a venda do carro. Até seria melhor deixarem a vítima
em paz, não mexerem muito com ela, largarem-na em qualquer
lugar, levando com eles o dinheiro e o carro. O diabo é que
aquela mulher não era de se jogar fora, aquelas pernas, aqueles
peitos, aquela cara bonita, aquilo tudo o estava deixando com muita
vontade. Carla sentia o olhar dele em cima dela, seu pavor aumentava.
Sua única esperança era o homem de trás, o do
nariz comprido e achatado que se lembrara dela ter cuidado da filha
dele. Suas mãos continuavam suando no volante, as pernas tremiam.
Arriscou:
— Pra onde nós estamos indo, moço? O que o senhor
vai fazer comigo?
— Calada, já disse — ordenou Gato Preto, apontando
o Taurus.
O silêncio voltou ao veículo. A comprida avenida da orla
tornava-se curta. À medida que iam para mais longe, mais aumentava
o medo de Carla. Um medo como jamais sentira, como jamais pensara
que pudesse sentir. Passava por sua cabeça, em certos momentos,
meter bruscamente o pé no freio, abrir a porta e sair correndo,
mesmo arriscando-se a receber uma bala. Mas o cano do Taurus apontado
para ela paralisava-a. Sabia que, ao menor movimento que fizesse no
sentido de se salvar, estaria morta. Aquele homem ali da frente, de
olhos grandes e duros sobre ela, seria mais rápido.
Em Itapuã, Gato Preto ordenou que ela virasse à esquerda,
como se fosse para o aeroporto. O tanque de gasolina estava em mais
de meio, não havia necessidade de abastecê-lo. Cara de
Lata não entendia o trajeto, não tinham combinado nada
sobre aquilo e, por ele, a operação já estava
terminada. Mesmo porque, ele estava com fome. E quando ele sentia
fome não tinha vontade de fazer mais nada. Estavam com o dinheiro,
o melhor era livrarem-se da mulher e do carro o quanto antes. Mas
não questionava. Gato Preto devia ter um plano e ele respeitava
o companheiro. Gato Preto sempre sabia o que fazia. Por isso era o
chefe. Passaram pelo bairro de São Cristóvão,
seguiram pela Estrada do Coco. Então Gato Preto apontou uma
entrada adiante, uma ruazinha estreita, de barro, que saía
da estrada principal, e ordenou:
— Entre ali.
Carla obedeceu. Diminuiu a velocidade do veículo e, dobrando
à direita, entrou pela estradinha indicada pelo bandido. O
lugar era completamente deserto e escuro, aquela parte não
tinha luz elétrica, era iluminada apenas pela luz esmaecida
da lua cheia. Dirigindo devagar na estradinha de barro bastante esburacada,
com o pé trêmulo no acelerador, o cano do revólver
apontado para ela, Carla rezava todas as preces que lhe vinham à
cabeça, fazia promessas, pensava no filho e no marido. Então
Gato Preto mandou que ela desse outra virada no volante, levando o
veículo para fora da estradinha. O carro avançou mato
adentro, por entre arbustos e pequenas árvores, sacudindo fortemente
nas depressões e saliências do terreno. Finalmente Gato
Preto mandou que ela parasse e ele mesmo, virando a chave na ignição,
interrompeu o motor. Ela tornou a perguntar, com a voz presa na garganta,
o pavor no olhar:
— O que o senhor vai fazer comigo, moço? Me deixe ir
embora, por favor!
Gato Preto agora não parecia zangado, nem apreensivo. Pelo
contrário, olhando-a muito com seus olhos grandes, sorria satisfeito.
Virou-se para trás, perguntou ao companheiro:
— Esta mulé é bem gostosa, não é,
Cara? Repare as pernas, os peitos! Um mulherão. Não
tem dinheiro, mas é um mulherão. Que acha?
Cara de Lata tinha reparado, sempre reparava nas mulheres. Tinha percebido
desde o primeiro olhar que se tratava de uma mulher de rosto bonito
e muito bem-feita de corpo. Mas, desde que a identificara como a médica
que tratara da sua filha, desinteressara-se. Já estavam com
o dinheiro, o melhor que faziam era deixarem-na ir em paz e darem
por encerrada a operação. Ia dizer isso, mas Gato Preto
já estava dando a ordem:
— Pra fora do carro, dona. E nada de tentar escapar. Saia devagar.
Se correr, leva bala.
Carla obedeceu e Gato Preto saiu também pela mesma porta, logo
atrás dela. Cara de Lata abriu a sua porta, saiu também
do veículo. Do lado de fora, na penumbra da luz da lua, os
três vultos olhavam-se com expressões diferentes. Cheia
de pavor, as lágrimas descendo pelo rosto, Carla apelou para
Cara de Lata:
— Por favor, moço, por favor! Eu tratei a sua filha!
— Silêncio! — ordenou Gato Preto, antes mesmo que
Cara de Lata pudesse dizer alguma coisa. Estava outra vez com o semblante
carregado.
Ela obedeceu, Cara de Lata também não se animou a dizer
nada. Gato Preto olhou à volta. Ali já não havia
necessidade de ficar apontando o revólver, ela não podia
fazer mais nada; por isso ele o enfiou na cintura da calça.
Logo adiante havia uma pequena clareira atapetada de capim. Gato Preto
fez um gesto:
— Vamo até ali, dona.
Carla respirava ofegante, o pavor estampado no rosto, as lágrimas
pulando interminavelmente dos olhos. De repente, em lugar de obedecer,
correu na direção oposta à que ele lhe ordenara.
Gato Preto correu atrás. Com suas pernas ágeis, alcançou-a
rapidamente e já foi se atirando sobre ela, arrancando-lhe
as roupas, apalpando-a, metendo a mão onde podia. Longe de
se deixar dominar, Carla passou a lutar com desespero, gritando, mordendo,
chutando, debatendo-se. Gato Preto gritou para Cara de Lata, com a
voz grossa e profunda, entrecortada pelo esforço:
— Ajude aqui, Cara! Cê não quer também esta
mulé, não? Ajude aqui!
Mas Cara de Lata olhava a cena sem se decidir. A única pessoa
que ele gostava verdadeiramente era a filha. Pela filha era capaz
de matar, de roubar, de fazer o que fosse preciso. E aquela mulher
tratara da filha, no meio da madrugada, num momento em que a menina
corria perigo de vida. Enquanto lutava, Carla pedia:
— Me largue! Por favor, me deixe! Me deixe ir embora!
Cara de Lata aproximou-se devagarinho, enquanto Gato Preto tentava
sozinho dominar a vítima e, sem alterar a voz, pediu:
— Deixe essa mulé ir embora, Gato.
Mas o outro, agarrado à mulher já quase sem forças,
mas que ainda tentava esquivar-se, não lhe deu ouvidos. Cara
de Lata, sem mover um músculo do rosto, aproximou-se mais e
repetiu mais alto:
— Deixe essa mulé ir embora, Gato.
O outro parou o que estava fazendo. Segurando a mulher extenuada com
seus braços fortes, perguntou:
— O que você está dizendo aí, imbecil? Por
que não vem me ajudar com essa mulé?
— Deixe essa mulé ir embora, Gato.
— Por quê? Você ficou maluco? Uma mulé desta!
— Ela tratou da menina.
— Que menina?
— Minha filha. Ela tratou da minha filha. Deixe ela ir embora.
— Você ficou maluco! Vou deixar essa mulé ir embora
porque tratou da sua filha? Ora essa, Cara! Você ficou doido!
Mas Cara de Lata tirou o revólver da cintura e, com seu olhar
frio, sua boca pequena, sua cara que parecia uma lata, apontou para
o companheiro e ordenou:
— Deixe essa mulé ir embora, Gato.
O outro franziu a testa, afrouxou os braços. Conhecia Cara
de Lata, era fácil de ser manobrado, em geral não discutia
as decisões dele, mas, de vez em quando, implicava com alguma
coisa. Nessas ocasiões, devia ser levado a sério. Já
vira Cara de Lata matar friamente e ele não parecia estar brincando.
Mesmo assim, ordenou:
— Largue isso, Cara. Cê não tá em seu juízo.
— Deixe essa mulé ir embora, Gato — repetiu Cara
de Lata. — Não vou dizer de novo.
Gato Preto obedeceu. Largando a vítima, esperou. Cara de Lata
disse:
— Vá embora, dona. Pegue o seu carro e vá embora.
Ela não esperou segunda ordem. Com o vestido aberto, os cabelos
desgrenhados, descalça, correu para o carro. Cara de Lata viu-a
correr. Então, guardou o revólver na cintura. Mais que
depressa Gato Preto sacou o Taurus, mirou a vítima já
próxima do carro e apertou o gatilho. Um disparo certeiro.
Carla tombou para diante sem dar um grito, caindo inerte no chão.
Cara de Lata voltou-se indignado:
— Por que você fez isso?
Agora era Gato Preto quem segurava a arma, a dele estava na cintura.
— Você acha que eu ia deixar ela ir embora e denunciar
a gente? E levar o carro, deixando a gente com essa porcaria de dinheiro?
Cara de Lata fechou os punhos, contraiu a boca e os olhos. Gato Preto
era um bicho, não adiantava discutir com ele, no final ele
sempre fazia o que queria. Em silêncio, caminhou até
a vítima, de bruços e imóvel no chão,
virou-a.
— Está morta — disse.
— Eu sei — disse Gato Preto com a maior frieza, tornando
a guardar o revólver na cintura e aproximando-se. — Agora
você dirige.
Cara de Lata ficou parado um instante, mas não discutiu. Entrou
no carro, ligou o motor, enquanto Gato Preto entrava pela porta do
carona.
— Você estragou tudo — disse Gato Preto. —
A gente ia se divertir.
Cara de Lata não respondeu. De fato, dirigia muito mal, nisso
Gato Preto tinha razão. Mas conseguiu dar ré, fazer
a manobra, esquivar-se das árvores e dos arbustos e voltar
à estradinha de barro, que ia dar na estrada principal. Estava
emburrado. Mas, dirigindo no asfalto, descontraiu o semblante.
— Tô com fome — disse, já esquecido de tudo.
— Vamo comer alguma coisa — concordou Gato Preto.
Então Gato Preto ligou o rádio do carro e escolheu uma
estação onde tocava uma música de que ele gostava.