DAS COISAS E DOIS ELEFANTES AZUIS
VIRADOS DE COSTAS
O QUE NÃO PODE SER
Contos. Salvador: Banco Capital, 90 páginas.
Ilustrações: Fernando Oberlaender
Renata Belmonte – renatabelmonte@yahoo.com.br
Sabe, ninguém sabe. E meu dia de ontem foi assim:
acordei em torno de umas nove horas. Estando bastante atrasada, tomei
um banho de gato, joguei o cabelo para trás e banhei apenas
o corpo. Cheguei a ficar aborrecida quando, por descuido, molhei parte
da franja, mas me prometi, como já havia feito outras mil vezes,
que compraria uma touca de plástico, assim que saísse
do trabalho. Vesti uma roupa antiga, a primeira que encontrei pela
frente, tive apenas o cuidado de combinar o sapato com a bolsa, sempre
achei o fim da picada calçado preto com acessório marrom
e vice-versa. Engoli um suco de laranja e disse para o Pedro que não
tinha tempo para conversar com ele naquela hora, pedi que ligasse
para o meu celular, no final da tarde. Falei para a Carol fazer os
deveres com atenção, prometi um castigo caso o contrário.
Escovei os dentes, passei um pouco de batom e gastei quase cinco minutos
tentando achar a chave do carro, dentro de minha própria bolsa.
Fiquei bastante irritada com a minha bagunça e prometi que
ia organizar minha vida. No outro dia, tudo seria diferente. Minha
casa vai ficar um brinco, praticamente aquelas de filme americano
dos anos cinqüenta. Eu vou começar a dormir cedo, todos
os dias, assim nunca mais me atraso para o trabalho. Os meninos terão
das dezenove as vinte e uma horas para me falarem sobre o seu dia,
para contarem as suas coisas. O único assunto proibido é
o pai, a nova namorada do pai, o novo apartamento do pai, a nova vida
do pai. Já basta ter que me encontrar com ele, aos domingos.
Filho tem que ficar com a mãe, porque é ela quem cuida
mais, é ela quem se responsabiliza por tudo, é ela quem
ama mais. É muito fácil pegar para passear nos finais
de semana, comprar roupas novas, aumentar a mesada. Difícil
é dar as broncas do dia-a-dia, admitir que a filha adolescente
é uma péssima aluna, discutir com ela sobre o horário
das festas, sobre o que deve usar, ect. Pelo menos, o menino não
dá trabalho, é muito ajuizado, já está
na faculdade. No meio do caminho, parei numa sinaleira. Uma senhora
bem gorda, dentes desconhecidos, rugas fortes riscando o rosto escuro,
cabeça enrolada em um pano, me pediu uma-ajuda-pelo-amor-de-Deus.
Eu até tinha uns trocados, mas sabia que o sinal já
ia abrir, então falei: fica para a próxima. Ela me lançou
um olhar ofendido como se me perguntasse: e quando é a próxima?
Será que você não vê que uma velha morta
a fome como eu não tem próxima? Com essas condições,
você acha que ainda vou viver muito para esperar a sua próxima?
Por dois segundos, cheguei a me sentir culpada pela minha própria
inércia, depois deixei de me importar, para que viver muito
sendo velha e estando em uma condição tão miserável
quanto aquela? Além do mais, diariamente, me pedem dinheiro.
É bom que sobrem essas moedas, na próxima parada, vou
trocá-las pelo amor de Deus com um desses meninos malabaristas,
pelo menos sei que estou investindo em arte. Fechei a janela e a observei
indo à direção dos outros carros, praguejando
essas coisas que o povo de antigamente costuma resmungar. Algo que
deve ser o contrário de Deus lhe abençoe, estilo o Diabo
que lhe carregue, essas coisas. Dei risada desses meus pensamentos
bobos, realmente, é uma diversão dirigir, é o
único momento em que posso ficar sozinha comigo mesma sem interrupções,
sem coisas para resolver, sem telefonemas para atender. Liguei o rádio
e estava tocando uma música do meu tempo, acho que se chama
Dont´t Dream It´s Over, não sei como é o
nome da banda que toca, sempre digo que vou comprar o cd e acabo esquecendo.
Hoje, quando sair do trabalho, com certeza, vou passar no shopping
para fazer isso, aproveito a ida e vejo a touca de plástico.
Eu adoro escutar essa música, me transporta para os meus dezoito
anos, para as minhas primeiras sensações como mulher,
para o prazer da liberdade, para meu primeiro namorado... É
uma pena que meus dezoito anos tenham durado tão pouco. Ainda
vivendo minhas experiências iniciais, tive que assumir uma maturidade
precoce, um casamento fora de hora. Pedro nasceu antes de eu completar
dezenove, era um menino lindo no colo de uma menina linda. Não
me surpreende o fato de meu marido ter escolhido pela separação,
agüentamos demais juntos. Quando fiquei grávida, ainda
éramos cheios de sonhos, pensávamos que ia ser tudo
mais fácil do que realmente foi. Eu mudei muito, ele mudou
muito. Já fazia um tempo que as coisas não andavam bem
entre nós. Eu gostaria de ter conhecido outras pessoas, de
ter me apaixonado e desapaixonado várias vezes como acontece
com qualquer adolescente. Eu adoraria não ter vivido tudo com
tanta seriedade, com tanta tensão. Não que eu não
ame meu filho. Não sei como seria a minha vida sem ele. Apenas
acho que ele poderia ter vindo em outras circunstâncias, em
outra situação. Teria sido melhor para todos. Mas não
me arrependo, nunca me arrependi, de não ter tido coragem de
fazer um aborto. Sim, confesso, pensei em fazer, só que não
consegui colocar a idéia em prática e é isso
que importa. A Carol veio cinco anos depois, já numa fase de
mais tranqüilidade. É tão parecida comigo! Bagunceira,
desobediente, animada, vaidosa... É por isso que fico no seu
pé, tenho medo que faça o que fiz, que não escute
os meus conselhos e acabe cometendo uma besteira, estragando a sua
adolescência, se comprometendo pelo o resto da vida. Cheguei
no prédio do escritório e a rua estava lotada, não
tinha onde estacionar. Dei algumas voltas e resolvi parar em um beco
próximo. Saltei e comecei a andar depressa. No meio do caminho,
pensei que tinha esquecido de travar o carro, então resolvi
voltar e acabei desistindo na mesma hora. Eu sempre acho que meu carro
está aberto e, quando volto, percebo, pela milésima
vez, que me enganei. Eu acho que isto de trancar o carro se tornou
para mim tão involuntário quanto piscar os olhos, por
isso decidi com firmeza que não ia retornar. Além do
mais, eu estava muito atrasada e meu sapato teimava em machucar meus
pés, fazendo aquelas feridas que acabam virando calos. De tão
apressada, tentei parar de ficar tentando pisar apenas nas listras
brancas da calçada, maluquice tem hora e lugar. Desviei de
umas garrafas vazias encostadas na esquina da rua (achei que era algo
relacionado com macumba) e entrei no edifício do escritório.
Subi no elevador e apertei o botão indicativo do doze, o número
do meu andar. Lembrei que não gostava desse número besta,
nem treze, nem onze, insignificante, sem-graça e pretensioso.
Estava me olhando no espelho, quando as portas se abriram. Neide apareceu
com a sua cara habitualmente oleosa, temos que discutir uns processos
urgentes mais tarde. Fiz que concordava com a cabeça e, antes
de ir para a minha sala, passei na da Carla. Abri a porta e não
tinha ninguém. Percebi que ela tinha mudado a decoração,
no canto de sua mesa, virados de costas, estavam dois pequenos elefantes
azuis vestidos em uma espécie de colete de indiano. Não
sei nem porquê, mas os achei um tanto estranhos. Não
combinavam com o estilo do escritório, pareciam vivos, eram
incomuns, objetos atípicos naquele ambiente. Senti um mal-estar
invadir a minha alma, uma sensação de inadequação
tomou conta de mim. Estranha sou eu por achar essas miniaturas esquisitas.
Além do mais, todo mundo sabe que elefantes de costas significam
sorte e dinheiro. Fui para a minha sala, sentei na cadeira e liguei
o computador. Peguei os processos que estariam na pauta no dia e comecei
a lê-los. Um tempo se passou até meu celular tocar. O
que o Pedro quer me ligando essa hora? Disse a ele que estou super
ocupada. Melhor atender, talvez seja algo importante. Atendi.
Sim,
sim, agora relembrando acho que sim, sim, tinha como saber. Acho
que vou ligar para Neide, talvez ela tenha notado algo de estranho.
Não, não, não, ela é minha inimiga.
Não, não, é melhor ficar sozinha, quero que
todos esqueçam que existo, quero que me deixem em paz, quero
sair desse lugar e não voltar nunca mais. Sim, sim, vejo
os sinais, apenas neste momento, compreendo, vejo os sinais. Assim
foi o meu dia de ontem: saí atrasada para o trabalho, parei
na sinaleira e não dei dinheiro para a velha mendiga. Ela
me rogou uma praga. Liguei o rádio e estava tocando uma música
do meu tempo, Dont´t Dream It´s Over, lembrei da minha
adolescência, da gravidez, do casamento. Estacionei o carro
perto do escritório, meus pés doíam, desviei
de um trabalho de macumba, apertei o doze, vi a Neide, entrei na
sala da Carla, observei os dois elefantes. Sim, sim , sim, tudo
está fazendo sentido. A mendiga e sua praga, Don´t
Dream It´s Over, a gravidez, a dor dos pés, o trabalho
de macumba, o doze, os dois elefantes. Não, não, não,
não pode ser! Como eu não vi, como não consegui
compreender a mensagem? Se tivesse ao menos caído um temporal,
se um corvo preto tivesse cruzado o céu...Não, não,
não é justo! Eu não tive culpa de não
perceber, eu não tive culpa de não compreender. De
quem é essa voz que falou comigo, de quem, de quem, de quem?
Por quê me avisou quando já não dava mais tempo,
por quê não percebi para poder impedir? Por quê,
Deus, por quê, por quê, por quê? Por quê
você está fazendo isso comigo, por que não me
deu os sinais de uma forma mais precisa? Por quê não
me deixou saber que era a despedida, por que não me permite
sentir como foi o nosso último contato, por quê, por
quê?
Você
falou assim: Mãe ,preciso contar uma coisa. O que, o que,
o que? Já olhei pelo seu quarto, Não, não,
não posso suportar, o quarto não, mexi nas suas caixas,
revirei os seus álbuns, procurei por um diário. Já
liguei para seus amigos, Não, tia, me desculpe, não
sei dizer. Olhei o lixo na esperança de algum papel perdido,
algum bilhete, qualquer coisa, qualquer coisa, meu filho. No seu
caderno de faculdade, nada, nos seus desenhos de homens fortes,
nada, nada, nada, nada. Vamos filho, me diga, me conte, me fale.
Vou fechar os olhos e recriar aquele momento, Sim, Pedro, podemos
conversar. O que você queria me dizer, o que pretendia me
falar? Seria algo relacionado com seu pai, sua irmã, sua
faculdade? Diga, meu filho, conte, fale, não me deixe assim!
Meu filho, por quê, por que você está fazendo
isso comigo? Não, meu filho, não assim sem me avisar,
sem um último abraço, sem o nosso habitual beijo jogado
no ar de despedida.
Ah,
meu filho, por quê você tinha que morrer?
Em
seu enterro, os elefantes me disseram: Foi tudo sua culpa, foi tudo
sua culpa. Lembra o que você disse, ontem, pela manhã?
Você não queria esse filho, você pensou em fazer
um aborto, você queria voltar a ser livre, desejou nunca ter
ficado grávida. Seu desejo foi concretizado, aí está
o seu filho, morto.
Não,
meu filho, é mentira! Eu sempre lhe amei, desde pequenino,
desde que você era apenas um bebê. Eu não sou
sua assassina, meu filho, eu não sou, eu não sou.
Diga para eles que fui uma mãe boa, que lhe dei tudo que
precisava. Neide, o que você está fazendo aqui? Aliás,
o que todas estas pessoas desconhecidas estão fazendo aqui?
Nos deixem em paz, voltem para suas casas, vocês não
passam de uns abutres, fingem que se importam, mas só querem
saber os detalhes mais terríveis para depois repetirem pelo
telefone e ficarem aliviados por não ter sido com nenhum
de vocês. Vá embora sua mendiga velha, pare de rir
do meu desespero, era você quem deveria estar nesse lugar,
a próxima da fila é você. Não, não,
meu sonho não está acabado, meu filho vai voltar para
a minha barriga, vai nascer de novo, vai se levantar e dizer que
tudo não passa de um engano, de um mal-entendido. Vamos ser
muito felizes juntos, eu, ele, Carol e Jorge, vamos voltar a ser
uma família unida. Você vai se formar, eu vou lhe entregar
seu diploma, sua sala vai ser ao lado da minha. Nenhuma macumba
vai nos atrapalhar, nenhuma praga sua, sua velha filha da puta,
vai destruir minha vida, vai acabar com a vida do meu filho. Vocês
vão ver, seus dois elefantes imbecis, vocês vão
ver, vocês vão ver...
Atendi.
Não, não é o Pedro. Estou ligando do celular
dele para avisar que houve um acidente. Sinto muito, seu filho morreu.
Ah,
meu filho, por quê você morreu, por quê, ontem,
você fez isso comigo, por quê com você e não
comigo? No fundo, meu filho, eu sempre achei que quando algo de
ruim vai acontecer, o mundo se prepara para enviar sinais, achava
que existia uma lógica por trás de todos acontecimentos
ruins, eu pensava que, na hora certa, eu saberia os indícios
para poder me preparar ou, quem sabe, impedir. Não, não
há lógica em nada. Essa coisa horrível que
eu sinto é e pronto. Estranha, sem nome, terrível,
realmente, uma coisa, pesada, enorme e azul. Vou ter que viver para
sempre com esse peso, jamais vou lhe esquecer. Que esse Deus secreto
lhe receba de abraços abertos e lhe ame tanto quanto eu.
Sabe, meu filho, agora, eu acho que ninguém de nada sabe...
Acabou
adormecendo. Ela não sabia que ele iria lhe responder: Esqueça,
mãe, é bobagem. Falo com você em outra hora.
Ela também não sabia que, em um dos seus velhos livros
de Clarice, estava a seguinte frase: "A vida não pode
se brincar porque, em pleno dia, se morre".
Amanhã
acordaria, mais uma vez, sem a touca de plástico, o cd e,
agora, seu filho.
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* O conto acima integra o livro O que não pode ser vencedor
do Prêmio Banco Capital 2006, com orelha de Vanessa Buffone
e prefácio de Mayrant Gallo. O livro foi premiado pela comissão
formada pelos poetas Cleberton Santos, Damário Dacruz e pela
professora de literatura, ensaísta e poeta Mirella Márcia.
RENATA BELMONTE nasceu em Salvador, em 13 de março de 1982.
O que não pode ser é o seu segundo livro. O primeiro,
Femininamente, venceu o Prêmio Brasken Cultura e Arte de 2003.
Renata Belmonte, que estreou em 2002 com a publicação
do conto “Em cima da estante de vidro” na revista eletrônica
Blocos on Line, possui colaborações em suplementos
literários como Balaio de Textos, Tribuna Feirense e Cronópios.
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