O ENCONTRO

Dizia-me Sebastião Baptista, saudoso poeta de cordel, em torno de quem gravita esta história, que no sertão o diabo é vizinho de Deus. E ainda: “É preciso cuidado para não bater na porta de Um e encontrar, por equívoco, o Outro”. O próprio Sebastião, como adiante veremos, viveu essa circunstância. Aos 16 anos, nascido e criado na Vila do Teixeira, Serra da Borborema, sertão paraibano, trabalhava numa modesta tipografia, de que eram sócios o pai e o tio e cuja clientela eram os cantadores de cordel.

Ali imprimiam folhetos e os vendiam nas feiras, pendurados em cordas, sendo essa, segundo os estudiosos, a origem mais provável do nome cordel, cujo berço teria sido a própria Vila do Teixeira.

Ali instalaram-se, procriaram e versejaram as mais altas linhagens de criadores da poesia popular brasileira: os Baptista, os Guedes, os Nunes da Costa. Sebastião, que conheci já idoso, na feira nordestina de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, vendendo seus poemas em livretos, preferia crer que cordel derivava de cordis, coração. No seu caso e no de numerosos poetas populares, que extraem versos das profundezas cardíacas, não há a menor dúvida. Mas essa é outra história. Voltemos à nossa.

Importa dizer que, nessa idade, morreu-lhe o pai e a tipografia passou à posse exclusiva do tio, que desprezou questões de herança e sucessão. Limitou-se a conservar o emprego do sobrinho. Não o tratava bem, nem lhe ocultava o fato de que considerava sua orfandade um estorvo e de que preferiria vê-lo pelas costas. A mãe, por sua vez, não tardou a contrair novas núpcias. O padrasto também não lhe devotava afeição.

A saída era sair. Mas para onde ir aos 16 anos?

Sebastião jamais conhecera outro lugar. Seu horizonte máximo eram os setecentos e poucos metros de altura do Morro do Sabre, ponto mais alto do desfiladeiro da Serra, de além da qual ouvia muitas histórias, contadas pelos cordelistas, mas cujas fronteiras não ousara transpor.

Em regiões onde o progresso se recusa a penetrar, os poetas de cordel desempenham papel de jornalistas e historiadores. Dizem que ainda hoje é assim. Cabe-lhes atualizar o povo sertanejo sobre os acontecimentos da região, do país e do mundo. E dar-lhe ciência dos mistérios de Deus e da Natureza, das lendas universais, da constelação mítica da Bíblia, misturando tudo isso numa salada rítmica e poética, impregnada de música e beleza:

“Salomão, rei da Ciência/Sabedoria e grandeza/Sansão, o rei da força/ Absalão, da beleza;/Camões foi o rei dos poetas/Bocage, da safadeza” (Dimas Mateus)
E haja embolada, martelo agalopado, galope à beira-mar, martelo cruzado, gemedeira, invocação, mourão-de-sete-pés, sextilhas, trava-língua, redondilhas alternadas etc.

(“Cantei mourão a galope/versejando como entendo/vou passar pra gemedeira/como me pedem, eu atendo/há pouco cantei me rindo/ai, ai, ui, ui/agora canto gemendo") (Severino Pinto)

O cangaço, com seu séquito de bandoleiros lendários, infestava o sertão. Sebastião criara-se ouvindo, em estrofes ritmadas, a saga de valentes como Jesuíno Brilhante, José Gomes Cabeleira, Zé do Vale e outros jagunços do século XIX, mortos em luta com a polícia, a soldo de fazendeiros e políticos. Seus sucessores, Antonio Silvino, Virgulino Ferreira (o Lampião), Corisco e outros mais, os heróis de então, seguiam fornecendo, com bravura e truculência, mote e glosa à cantoria de cordel.
Mantinham viva a cruenta tradição sertaneja.

Próximo ao Teixeira, o nome mais presente e assustador era o de Sinhô Pereira, que já tivera bando próprio, mas que, de uns tempos em diante, por razões desconhecidas, preferira o combate solitário.

Dizem que seu afastamento, por volta de 1917, coincide com o advento de Lampião, o mais legendário dos cangaceiros — mas não necessariamente o maior. Com Sinhô, só ombreava Antonio Silvino.

Sinhô nesse tempo vagava a esmo pelo sertão e, dizia-se, não poupava os que tinham a infelicidade de cruzar-lhe o caminho. Morte nas costas tinha pra mais de um cento. Matava por qualquer cisma, mesmo quando a vítima não lhe oferecia resistência.

Em versos, sua lenda circulava, na boca dos cantadores:

“Ao público vou contar/ a história de minha vida/os crimes que cometi/ como me fiz homicida/ e porque julgo minh’alma/ eternamente perdida”. (Francisco das Chagas Baptista)

Sinhô Pereira: nome cuja menção era sempre sucedida por um sinal da cruz e pela expressão “cruz credo, te esconjuro”.

Sebastião acostumou-se a essas histórias de cangaceiros, os justiceiros do sertão. Sabia-os próximos, mas não os temia. Ouvira dizer que jagunço nunca mata repentista, pois os quer vivos para criar raça, dar curso a seus feitos e imortalizá-los no imaginário popular.

Cantador é a memória ambulante do sertão. Por isso, é preservado pelos dois lados — polícia e jagunços.

Mesmo em meio a tal cenário, a instância mítica que mais freqüentava os devaneios adolescentes de Sebastião era o Rio de Janeiro, capital do país, naqueles anos finais da década dos 30 do século XX. Sonhava com seus arranha-céus, praias e cafés elegantes, que contemplava extasiado em fotos de revistas vendidas na tipografia. Queria trabalhar nas redações dos grandes jornais, publicar versos, ouvir discursos na Câmara e Senado, ilustrar-se.

Na praça central da cidade — praça em sentido figurado, considerando-se a presença de um coreto no meio de pequena área circular, onde as pessoas se reuniam para conversar, observar, silenciar —, o único proprietário de fonógrafo nas redondezas, dono de birosca, colocara em torno alto-falantes.

Em determinadas horas do dia, ouviam-se sambas-canções nas vozes tristes e melodiosas de Orlando Silva, Mário Reis, Francisco Alves, Noel Rosa, Araci de Almeida, orquestradas quase sempre por Pixinguinha, acompanhadas por regionais como o de Benedito Lacerda.

Sebastião sonhava em conhecer o Rio, tornar-se poeta, libertar-se da tirania doméstica — transcender o Teixeira, abraçar o mundo.

Suas noções geográficas, no entanto, eram limitadas, confusas. Imaginou que, de posse de pequeno farnel, cantil e alguns trocados, poderia cruzar a Serra, chegar ao litoral do estado e daí descer ao Rio de Janeiro, localizado pelos seus conterrâneos vagamente “ao sul”.

Num dia de muita irritação com os excessos do tio tirano, decidiu agir. Muniu-se de velho e desbotado embornal do Exército, herança do pai (que, por sua vez, a recebera do avô, veterano da Guerra do Paraguai), encheu-o de mantimentos — rapadura, carne de sol, farinha —, providenciou cantil e água fresca e, com a roupa do corpo, partiu para o Rio de Janeiro.

A pé.

Franzino, aparentava uns 14 anos. Não tinha a mais remota noção dos perigos que o rondavam. Desconhecia distâncias, limites humanos em deslocamentos. Jamais examinara um mapa. Não desconfiava que, entre o Teixeira e o Rio de Janeiro, havia alguma coisa em torno de três mil quilômetros, entremeados por mundos diversos, bandos e bandoleiros, regiões ressequidas e desérticas, sem vivalma, onde até os mortos se recusam a assombrar.

Sebastião nada avaliou. Ignorância é matéria-prima da ousadia. Sabia apenas que, para além do Teixeira, em alguns dias de caminhada, chegava-se à capital do estado. De lá, seria mais fácil localizar e alcançar o Rio de Janeiro. Tempo e disposição não lhe faltavam.

Antes do nascer do sol, pôs-se a caminho. No fim da tarde, já transpusera a Serra e aproximara-se de Taperoá. De lá, na seqüência, chegaria a São João do Cariri e, depois, a Campina Grande, cidade próspera, onde planejava pouso mais prolongado, quem sabe emprego temporário, para depois seguir viagem. Não tinha pressa. Podia passar dois, três anos viajando, até chegar ao Rio de Janeiro.

Levava consigo razoável quantia: cinqüenta mil réis (uns cem dólares de hoje), fruto de obstinada poupança, em alguns anos de trabalho na tipografia. Naquelas bandas, era muito dinheiro. Dava para garantir sobrevivência de um só por uns seis meses. Achava que, com o que levava no embornal e o dinheiro, não teria problemas.

Eis que, no terceiro dia de jornada, começam as surpresas. Sebastião perde a trilha de Taperoá. Adentra o deserto já sem mantimentos, o cantil pela metade. Disseram-lhe que naquele rumo não tardava a achar pouso, e que, com mais dois dias, chegava a Campina Grande. Informaram-lhe errado ou entendera mal a informação. Dava no mesmo.

Estava perdido.

Debaixo de céu sem nuvem, pisando em chão escaldante, caminhou o dia inteiro. Não encontrou vestígios de gente. A fome apertou; a água no fim. Começa o desespero. O que fazer? Voltar, nem pensar. Não teria energia para caminhada tão longa sem perspectiva de alimento. E para a frente, o que haveria? A quantas horas estaria de algum abrigo?

Escurecia. Decidiu dormir. O sono alimenta, foi o que conseguiu pensar. Ao amanhecer, teria forças para melhor refletir. Custou a relaxar. A fome atrapalha, atormenta. Não estava acostumado, mas dormiu, sono sofrido, desprovido de sonho.

Pela manhã, dois goles de água do cantil. Era preciso economizar — e rezar. Rezou e seguiu. Procurava não pensar muito na situação em que estava. Apenas caminhava. No final da tarde, o calor cada vez mais insuportável, a água secando, o estômago roncando, as resistências chegavam ao fim. Fome, pensamento confuso, ímpeto de comer terra, cacto, morder a própria carne. Vontade de gritar, explodir – véspera do desespero.

Sem forças, deixa-se cair ao solo, contempla o horizonte vermelho — o sol se põe. Uma nuvem de poeira aponta próximo em sua direção. Aperta os olhos, a mão em concha por sobre as sobrancelhas: é um homem a cavalo.
 — Bendito, louvado seja, seja lá quem for! – exclama.

Era Sinhô Pereira, em traje de gala: chapéu de couro, bacamarte arrevesado, facão na cinta, peixeira do outro lado, barba por fazer, ruindade e desconfiança, impaciência e cuidado.

— Quem sois vosmicê e o que traz no embornal?

Sebastião explicou: cantador do Teixeira, no rumo da capital, perdido na trilha de Taperoá, há dois dias sem comer e já sem água no cantil. Disse isso tudo com lágrimas nos olhos, sorriso juvenil, de quem encontra o anjo da guarda nas entranhas do inferno.

Sinhô Pereira, sem descer do cavalo, ficou em silêncio, assuntando, contemplando aquele menino. Em circunstâncias normais, o executaria sumariamente e se apossaria de seus pertences. Não costumava perder tempo com estranhos, sobretudo naquelas redondezas, seu refúgio e fortaleza.

Algo, porém, o deteve. Era a primeira vez que via alguém alegrar-se com sua presença, a louvar sua chegada:

— Bendito, louvado seja, seja lá quem for!

Sinhô fez o cavalo arrodear Sebastião. Examinou-o bem. Não tinha armas e dava sinais de fraqueza. Deu-lhe o cantil, que Sebastião agarrou e sorveu com volúpia. Pediu:

— Comida, pelo amor de Deus. Tenho comigo cinqüenta mil réis. Posso pagar.

Sinhô perturbou-se: cinqüenta mil réis! Apeou. Auxiliou Sebastião a levantar-se e o fez montar a cavalo. Puxando o animal pela rédea, levou-o alguns metros adiante, onde instalara acampamento.

Lá, próximo ao fogo, diante de pequena panela, tira da cabeça o chapéu de couro, empapado em suor — suor de hoje misturado ao de ontem, ao de sempre. Coloca dentro do chapéu parte da comida que está na panela, estende-o a Sebastião:

— Come.

Sebastião não hesita: a fome faz o cardápio. Atraca-se ao chapéu, servindo-se avidamente com a própria mão, sem qualquer asco ao suor do cangaceiro, misturado à comida, uma gororoba de conteúdo inidentificável, temperada pelo cheiro ativo do couro. “Foi o melhor almoço que já comi em toda a minha vida”, disse-me ele, quarenta e tantos anos depois.

Findo o banquete, anoitecia. Sinhô, em silêncio e apenas por gestos, indica o chão para o rapaz, que, saciado e exausto, se deita. Puxa o facão da algibeira e o finca ao solo, demarcando a fronteira entre ele e o hóspede. Sebastião assusta-se, treme, mas mantém silêncio. Sinhô deita-se à pequena distância.

Ninguém dorme.

Noite tensa; a cada mexida do cangaceiro, Sebastião sobressalta-se. Ninguém diz nada, mas cada qual sabe que o outro está vigilante, à espreita. Caça e caçador à espera do rito trágico, que não se consuma. Sinhô não sabe o que o detém: cinqüenta mil réis!

Jamais hesitou em matar, assaltar; jamais sensibilizou-se com coisa alguma. Roubara viúva, matara padre, depredara igreja, estuprara noiva em dia de casamento. E agora, ali, diante de um estranho, com cinqüenta mil réis, dinheiro que lhe daria conforto por muitas semanas, hesitava.

— Bendito, louvado seja!

A frase o imobilizara. Que poder misterioso deflagrara nele tais sentimentos? Quem era esse ser desconhecido que emergia de dentro de si próprio, apossava-se de sua vontade e o dominava, impedindo qualquer gesto agressivo ao estranho? “Bendito, louvado seja!”

O dia amanhece. A claridade tranqüiliza Sebastião. Se em trevas nada ocorreu, na luz é improvável. Mantém-se mesmo assim em guarda. Sinhô levanta-se, puxa o facão do solo, joga-o à distância, sorri para o hóspede. Acende o fogo, prepara o café. Oferece-lhe um cigarro de palha: cinqüenta mil réis...

Fumam sentados, em silêncio. Ao final de alguns minutos, Sinhô ergue-se:

— É hora de vosmicê seguir. Nesse rumo, em três ou quatro horas, se chega a Cabaceiras. De lá pra Campina Grande é mais um dia e meio de caminhada. Vosmicê tem santo forte. Nunca diga a ninguém que tem tanto dinheiro. Cinqüenta mil réis endurece o coração de qualquer um.

— Se o senhor quiser, pode ficar com eles.

— Não, não sei por que, não quero. E me faça um favor: não diga a ninguém que encontrou Sinhô Pereira, que foi bem tratado e que teve dinheiro recusado. Não posso me desmoralizar.

Sebastião estremeceu: Sinhô Pereira, o cujo, o filho do demônio, o ceifador de vidas, ali, à sua frente, no papel de salvador. O diabo vizinho de Deus — o Todo-Poderoso em território inimigo, exercendo vizinhança providencial. Não era tudo: preservara-lhe os cinqüenta mil réis e dera-lhe, por meio do excomungado Sinhô Pereira, jagunço com mais de um cento de almas na contabilidade das trevas, água e comida para seguir viagem. Do pântano de inclemência em que vivia imerso, encontrara e estendia-lhe a generosa flor da solidariedade.

O cangaceiro repetiu o pedido; Sebastião, confuso, aquiesceu. E tornou a proferir, agradecido, a frase que desencadeara tudo:

— Bendito, louvado seja!

Ambos no íntimo sabiam que haviam sido instrumento de misterioso processo de transformação, que faria com que cada qual levasse o restante da existência para avaliar e compreender. Nenhum dos dois jamais seria o mesmo.

De Sinhô Pereira, soube-se que se retirou do cangaço e tornou-se seguidor do Padre Cícero Romão Baptista. Não se sabe como morreu. Sebastião viajou três anos. Fez pouso e repouso em diversas cidades, vendendo poesia, fazendo biscate. Viveu no Rio de Janeiro o resto dos seus dias. E, por mais de cinco décadas, cantou em prosa e verso seu inesquecível e definitivo encontro com Deus na pele do diabo.
Bendito, louvado seja!

 

Ruy Fabiano
Os Arquivos de Deus
Editora Novo Século, 2008