O CAMINHO DOS ANCESTRAIS

Nossos ancestrais eram brancarrões violentos, domadores de gados, índios e sóis, homens de sangue no olho a desafiar à morte. Nossos ancestrais eram assassinos destemidos, não gostavam de se banhar e pegavam as mulheres à força. Eram rudes, eram cavalos, para eles o novo mundo era um céu aberto, à faca, à foice, ao ritmo da fome e das águas moldando as pedras. Nossos ancestrais eram deuses decaídos em busca do chefe do bando, trotando nos caminhos do inferno, no fundo, não desejavam nada mais que sentar-se no trono dourado de Lúcifer. Nossos ancestrais eram isso tudo e muito mais. Em um certo sentido eram ainda piores do que tudo que se disse deles, mas a verdade, é que não eram maus.

Dizem que vieram boiando sobre o sal. Traziam feridas no corpo e estômagos apodrecidos pelas comidas estragadas. Tinham os membros adoecidos e se orgulhavam disso. Desembarcaram num dia qualquer e abandonaram as praias. Subiram os montes, atravessaram as serras, rasgaram os rios. Chegaram ao planalto sertanejo e se espalharam como uma peste. Fizeram guerra aos índios e construíram seus templos. Seu Deus era forte e arrogante. Escravizou os outros, manipulou as estrelas, enganou as serpentes. Faziam seus ninhos e procriavam como ratos. Fediam. Rezavam. Estupravam. Nossos ancestrais eram assim. Cometeram atrocidades. Desbravaram desertos. Tiraram leite das pedras. Vestiam-se de couro e dormiam sobre os cavalos. As virilhas suadas, os dentes estragados. Sabiam manejar as armas e os terços. Essa é a história verdadeira, sem invencionices. A cruz e a espada. O sonho do ouro e as ilusões da fé. Nossos ancestrais eram bem perversos, disso não há dúvidas, mas ao final, não eram tão maus assim.

Trouxeram artes e mortes. Deram nós às manhas dos mitos. Aprenderam os perigos da noite dormindo um olho por vez. Gostavam da terra, gostavam da vida, gostavam do sexo saudável das índias. Fizeram tantos filhos e desgraças que ninguém ousaria contar. Apesar de tudo eram boa gente. Barbas por fazer e um destino inexorável. Não gostavam do mar, nem das terras do além. Aqui estavam mais próximos à verdade da morte e do amor. Aqui podiam ser deuses. Ninguém era inocente, tudo que era vivo trazia a marca sagrada da culpa. Eram um bando de aventureiros sanguinários. Saqueadores. Mercenários. Arrotavam batalhas contra estranhos infiéis. Teciam as veias da terra e as crinas do cavalo. Cobriam as fêmeas. Devoravam seus corpos com uma fúria desmedida. O enigma deles era um ódio bolorento, ríspido, que agredia as frágeis defesas do mundo. O enigma deles é que apesar de tudo o que já foi dito e repisado, não eram tão maus.

Em nome do Nome e da esperança foram desfolhando o tempo. Fizeram cair as vestes e chover peixes enquanto bebiam vinho. Aprenderam a tirar álcool da cana do caju e do milho. Aprenderam a comer batatas. Aprenderam a mascar coca e fumar maconha. Aprenderam a carne que se oculta nas veredas dos sonhos. Embaraçaram desejos e realidades. Engravidaram mulheres e árvores. Aplacaram o cio da terra com seus membros viris. Eram machos e não gostavam do mar. Eram muitos e o que fizeram foi escrito. Eram terríveis. Espalhavam doenças. Destruíam as aldeias. Degolavam crianças. Arrasaram outros povos, mas não eram maus, isso não eram.

Clarão do firmamento, poeira, calor, brasa, tempo. Aos socos e aos trancos inventaram o mundo. Foi à força que nos fizeram. Somos filhos de sua violência. Somos herdeiros de seu ódio. Somos uma conseqüência de sua brutalidade. Nos chamam os homens do norte. Os homens dos sertões do norte. Somos mais alegres e mais bêbados. Somos mais bárbaros e cometemos estupidezes com mais freqüência. Nossa natureza é mineral, não temos raízes, abrigamos o calor do sol. Sabemos dizer coisas que não devem ser ditas. Sabemos matar. Nunca sentimos náusea. Há sangue em nossas mãos e cachaça em nossos cérebros. Aprendemos a fumar. Não temos esperança. Nossa memória, nossa herança, nossa vingança. Há música em nossa poesia. Somos suaves. Sonhadores. Desesperados. Enterramos os amigos com as próprias mãos e sem sinais de lágrimas nos olhos. Somos a chuva. A tempestade. O cão raivoso que morde e mata. O cão que rói o osso. A realidade da fábula. Encarnação do mito. Sonho de escárnio da vida. Cobriram as éguas com o fogo das feras e nos fizeram. A terra nos pariu e nos amamentou com o leite das bestas. Suas tetas de néon brilham penduradas no horizonte. Já faz tempo que é domingo e chove. Já faz tempo que nossos cavalos galopam a esmo. Nossos antepassados tinham bom faro, eram caçadores, eram guerreiros, atravessaram o mar em busca do mal e das especiarias. Trouxeram a miséria, a peleja e a missão abreviada. Enfeitaram o mundo com lunários perpétuos. Furaram os olhos dos pássaros e lhes deram rabecas. Estenderam cordas nas feiras e pregaram as histórias de suas façanhas. Eram medonhos. Eram assombrosos. Os espíritos sempre lhes acompanharam. Quando passavam tangendo o gado, seguido por seus cães, ouvia-se o murmúrio dos mortos. A procissão seguia no escuro. Nunca olharam para trás. Esqueceram o mar. Incendiaram os barcos. Mataram o passado. Tornaram-se deuses. Nossos ancestrais foram os que macularam os rios. Foram eles que estenderam estes esqueletos às margens do caminho. Prenderam essas cruzes no coração das aldeias. Instalaram o ódio entre nós. Em nome de Deus julgaram o mundo e escreveram a história. Em nome dos mortos cobriram nosso futuro de escaravelhos. Sabiam o que faziam, não pediram perdão, nem eram tão maus assim.

Possuíam nomes comuns e vontades sobre-humanas. Seus cavalos voavam. Seus cães não dormiam. Suas mãos eram as mãos sombrias do destino. Nossos ancestrais povoaram desertos. Mataram pessoas. Destruíram deuses. Tinham feridas sobre o corpo. Exalavam mau cheiro. Eram viris. Não se desfaziam dos pêlos que lhes nasciam à face. Não hesitavam diante das mulheres. Oravam e espalhavam cruzes. Semearam o que somos. Nos presentearam com a ira. Ao pé da santa cruz o cheiro de enxofre. O diabo estava em todo lugar. O diabo é antigo. O diabo se disfarça do que queira. Nossos ancestrais duelaram com o diabo. Seus corpos eram marcados. Seus corpos eram gigantescos e monstruosos. Seus corpos ainda estão guerreando em nossos corpos. Nossos ancestrais não sofriam dos nervos. Somos sensíveis à nossa origem. O mel das frutas na cantoria de viola. O mel das folhas nas tardes sem-fim das aleluias. Salve-Rainha, doçura nossa, talho de chicote. Açoitaram, estropiaram, torturaram a carne. Gemidos em vale de lágrimas. Aurora. Pesadelos. Nada é em vão. Estamos aqui. O horizonte nos chama. Eles não eram maus. Nossos passos singram a terra. Nossos instintos perpetuaram a existência. Deus, agora, está contra nós. Nossos ancestrais estão contra nós. Suas efígies, seus brasões, suas lanças. O gado passa. O vaqueiro sopra seus aboios. Os cães seguem a mórbida caravana. A morte, vestida de negro, ao som de velhos menestréis. Já faz tempo demais que abandonamos a terra prometida. Não voltaremos, mas sabemos que, apesar de tudo, eles não eram tão maus assim.