O BALÃO AMARELO



A feira cobria toda a extensão da praça. Homens, mulheres e crianças comendo, comprando, vestindo, experimentando. Os carros no estacionamento subiam uns nos outros, gritavam. Casais encostavam-se em árvores, encolhiam-se em bancos. A lua acolhia e iluminava. Meu bem vinha caminhando ao meu lado quando parou e anunciou que precisava fazer uma ligação. Assenti, feliz que estava com o novo anel no dedo, imitação de aliança quase igual à dele. Da cadeira esquecida numa barraca, eu o olhava na fila, aguardando gente apaixonada falando distante. E acompanhava a movimentação colorida e alegre à minha frente. Próximo, pais afoitos continham meninos diante de um homem que enchia de gás balões coloridos. Era um rapaz e não se inquietava com os pedidos e protestos tenazes das crianças, apenas baixava a alavanca quando a boca do balão estava encaixada no pistom. Provavelmente tinha filhos e vendia balões para sustentá-los. Meu bem, paciente, após a espera na fila, finalmente conseguiu chegar ao orelhão. Mordi os lábios. O rapaz enchia os balões um a um. No final, dava-lhes um nó, entortava, torcia, até que adquirissem uma forma engraçada qualquer. Quando começava a esculpir um balão amarelo longo como uma cobra, este teimou e desafiadoramente se desprendeu de suas mãos. Meu bem sorria longe, o fone entre o rosto e o ombro e uma das mãos no bolso do jeans. O balão amarelo dançava lento no vácuo. Estalei os dedos. Meu bem agora falava animado. Eu não o ouvia. De repente parou, deteve os olhos em mim e se virou de costas. Procurei o balão no céu. Ele já avançava sobre os postes de luz improvisados. E recordei da estranha manhã em que eu era muito pequeno e mal tinha aprendido a andar. Estava só, na frente da nossa casa, no meio da rua, numa ladeira. No final, o Lago. A cidade era uma armação desdentada, e nós ainda morávamos em casas coletivas de madeira, próximo ao Paranoá. Tive medo de tropeçar, cair, rolar e parar dentro das águas do lago. Estava só e ainda hoje não sei como havia chegado ali nem como fiz para sair de lá. Eu não sabia falar, e o medo paralisara meu choro. Sentia que uma fatalidade me levaria a cair, rolar e parar dentro das águas para morrer afogado. Não sei como saí. O balão amarelo ganhava altura e diminuía de tamanho. Meu bem virou novamente. Ele falava e eu reparava no quanto ele era forte, no quanto me inspirava segurança e proteção. Fez um aceno para que eu mantivesse a calma. O balão estava agora quase no meio do céu. De alongado, tornou-se redondo. Redondo como a bola que meu pai me jogava para que eu chutasse desajeitado. Estávamos na areia e alguns colegas e vizinhos brincavam conosco. Eu não sabia chutar direito, dava com os pés nos montes e reentrâncias da areia e via os outros rir. Mas meu pai não ria, insistia e jogava a bola para mim. Eu errava e não me sentia ridículo por errar. O balão não era mais amarelo. Virara um ponto branco igual às estrelas. E como estrela se apagou no mistério da noite. Eternizou-se. Meu bem desligou o telefone e veio em minha direção. O tempo era não mais que uma mentira, a vida tão simples quanto passear na feira e pedir um doce, alcançando com o coração o que anos de esforço e tentativas não me deram, sendo eu um pequeno balão amarelo a fugir de hábeis mãos, ilustrar o escuro do céu e saber que nada era tão importante quanto estar ali, ao lado do meu bem, considerando como um tesouro o anel de brilho falso apertado no dedo.

Lima Trindade
(in “Corações blues e serpentinas”. São Paulo: Arte Pau Brasil, 2007.)