NHÕ GUIMARÃES PELOS GERAIS*

NHÔ GUIMARÃES
Romance. São Paulo: Editora Bertrand Brasil, 176 p.
Ilustrações Juraci Dórea - Tel: 21- 2585-2070

Aleiton Fonseca - aleilton@terra.com.br


Nhô Guimarães sabia tirar proveito dos olhos nas estradas. Viajar pelo sertão é uma aventura que data dos velhos tempos. A estrada é boa companheira para quem sabe trilhar seus atalhos e veredas. Para andar bem, é preciso saber as horas certas: partir, parar, pernoitar, espiar as paragens — conhecer os sinais. Para todo afazer há ciência e jeito. Para uns, a viagem é busca ou serviço, para outros é só aventura. Para Nhô Guimarães era um assunto, que ele apreciava aprender o sertão.
De tanto viajar, se conhece de onde vêm os ventos. O senhor medite: mestre é aquele que sabe aprender. Ele fez uma travessia longa, de muita importância para seus escritos. Se aventurou nas poeiras, passagens das mais supimpas, com os demais. Depois, ele mais falava, contando os causos de fora a fora. Estive ciente por atender os vaqueiros aqui chegados. No terreiro todo aí fora se arrancharam para o descanso e o de-comer, os animais espalhados convivendo amigos. Eles – uns deitaram na grama, outros fizeram fogo em gravetos, mexeram farinha e carne seca de seus embornais. E eu fiz questão, servi água, chá e café. Quem chega até minha porta é pra ser servido. Isso, o certo, a gente faz: as honras da casa no sertão.
Por aqui mesmo não passava a trilha certa, era pelos arredores, como o costume de sempre. De longe se avistava a boiada, como rio se arrastando na terra. De cá a gente via poeira, chifraria do gado, uns peões a cavalo, tocando. Era por lá a passagem. Vez por outra um aboio vinha, no meio dos berros, para a boiada não despistar. Mas quiseram, aqui estavam: dei boas-vindas.
Eu fiz fé que Nhô Guimarães desviou do caminho certo, por um pouco bocado de chão, só para se arranchar em nosso terreiro, trazendo os abraços suados, cheiro de vacas e histórias para matar a saudade. Fez o certo. Ora, qual: foi o bem melhor que mais fosse, uma idéia muito excelente. Ele nos apresentou aos homens. Manu estava perto, cuidando da plantação de ervas, atentou para aquilo lá tudo vindo, daí reconheceu o amigo. Nhô, ele vinha, o escrito boiadeiro, de gibão, chapéu, com os óculos, bem do seu, sossegado, a cavalo. Eta diá! Nhô chegando, na surpresa! Eu botasse água no fogo para um café ligeiro. O coração se alegrava. Foi: vinham os outros peões, homens quase calados, alguns eram conhecidos da gente, e até se via um meninozinho no meio deles. Esse terreiro todo, daqui por lá tudo, nas redondezas, tudo coalhado de gado, adubando a terra com estrume fresco. Era bom avistar aquela fartura de gado em viagem. Eh, sertão!
Ele vinha, e se aproximando, chegou à frente, no pinote, bem faceiro, com dois homens grisalhos, dizendo a salva:
— Ó, de casa, aqui se acha abrigo para uns pobres? — pilheriou.
— Cheguem à frente, a casa é vossa — foi Manu sorrindo.
Aquela tamanha alegria. Foi um tirar chapéu, apertos de mão, abraços. Dei de beber a eles, uns espantavam o calor com o chapéu. Daí a mais, só os ajeitos e as conversas. Os homens prestavam atenção no companheiro, pouco sabendo de suas importâncias, mas com cara de satisfeitos. Os caminhos eram trilhas de muitas perguntas. Nhô Guimarães por tudo a saber e anotar, no sempre, os seus riscos e debuxos no papel. Os aconteceres do mais sertão, lhe dissessem de tudo. Eles ensinavam, com as palavras certas, sobre bichos e matos e tratos. Ou no gaguejo de saber, sem falar claro e preciso de se entender melhor. Nhô reperguntava no quente, dizia o mesmo, para saber se era aquilo o certo que tinha imaginado. Eles se entendiam, mesmo o algum que fizesse menos cara boa, por vezes de não querer lhe dar trelas. Uns outros, sem tomar parte em conversas, só espiando de olhar atravessado. Principalmente Nhô Zito, de olhos só mesmo passarinhando em derredor. Nhô Manuelzão era quem mais sabia ensinar, sempre bom de prosa e de aventura. Os demais, estes cismavam: onde já se viu boiadeiro assim fanfando, todo lorde, bem do seu, de finos óculos? Ora! Essa viagem era para retratos e anotações, que vinha junto um moço com ordens bastantes. Isso pra quê, não perguntei. Mas, de certo, para estampar a travessia em papel, para outra gente saber de tudo e conhecer as aventuras de Nhô Guimarães pelos Gerais.
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* Capítulo 20 do romance Nhô Guimarães, lançado pela Editora Bertrand Brasil, em agosto de 2006. Nessa ficção, uma sertaneja, personagem rosiana, assume a voz e narra as andanças do escritor mineiro pelos Gerais, acrescentando suas próprias histórias e esperanças.

Aleilton Fonseca, 47, é baiano, mestre em Letras (UFPB) e doutor (USP), publicou 11 livros em poesia, ficção e ensaios, é co-editor das revistas Iararana, e Légua & Meia , e pertence à Academia de Letras da Bahia.