MAR DE AZOV
Contos. São Paulo: Melhoramentos, 1986
1º lugar no gênero conto da II Bienal Nestlé de
Literatura Brasileira
Hélio
Pólvora – heliopolvora@superig.com.br
O
mar desdobrava rolos de algodão na praia.
Mas
agora, e pelo menos nesta enseada, ele está barrento. As
ondas que se esparramam na areia, sob o foco do sol forte, trazem
um tom estranho — um vermelho corrupto, corrosivo, que talvez
pudesse chamar-se de ocre. Como se o mar, antes de daqui arrefecer,
houvesse passado, no seu incessante fluxo, por abruptos barrancos
de terra barrenta, e desprendido torrões que se desfazem
em pó e contaminam águas verdes, águas azuladas.
O
homem olha a ladeira que sobe até a praça de Olivença.
Não precisa ir lá em cima para saber que a praça
pequena e circular, com chão de grama, tem um cruzeiro e
uma igreja branca — e que dali, estendendo a vista, vê-se
o litoral tremeluzir à distância, orlado de coqueiros,
sob a espreita de um mar petrificado. São as distâncias
para o sul.
Dois
vultos descem um dia a ladeira. Vão de bicicleta e apertam
o pedal de freio. Ainda assim passam velozes, precipitam-se até
o fundo da enseada.
—
É longe, pai?
—
Um salto. Daqui a pouco a gente chega.
O
menino conhece essa expressão vaga que na maioria dos casos
encerra quilômetros, léguas.
—
Quantas léguas, pai?
—
Umas duas. Talvez duas e meia.
O
pai sempre diminui distâncias, por isso o menino elimina o
talvez. Duas léguas e meia, portanto, até o Pontal.
Uma légua tem seis quilômetros. Faz as contas. Quinze
quilômetros. Irão pela estrada de terra que margeia
o litoral e afunda entre coqueiros, ou seguirão as praias
para o norte, no rumo de Cururupe e Praia do Sul?
O
mar desdobra na areia rolos de algodão. Quer dizer, é
como se ao chegar perto da areia arriasse e desdobrasse fardos de
algodão, que acabam por se esfiapar na areia pardacenta,
às vezes fervendo, outras vezes formando um rendilhado silencioso.
À distância o azul se torna mais profundo, a praia
afunila-se e o sol de verão tonteia, criando a ilusão
de pingos em suspensão no ar, de inumeráveis pontos
de agulha doendo nos olhos.
—
Vamos pela estrada ou pela areia, pai?
—
Pela praia é melhor.
Pedalam.
A areia é compacta, faz lembrar a parede deitada de uma casa
recém-entaipada. O pai corre mais pelo meio, ele pende para
a fímbria do mar. Gosta de ver as rodas e o aro das rodas
levantarem borrifos. A areia ali é menos sólida, os
pneus da bicicleta afundam um pouco, ele precisa de mais força
nas pernas. Mas a água espadana, umas vezes as ondas calmas
desenrolam-se mais adiante, passando por baixo da bicicleta. O mar
é um animal gigantesco que arqueia o dorso, rouqueja e bufa,
rosna e geme ao seu lado, a seus pés. As ondas erguem-se
a poucos metros em forma de vagas, cavalgadas por manchas de espuma
que não tardam a quebrar — e ele tem a impressão
de correr à beira de um túmulo líquido que
poderá levantar-se de repente em forma de muralha e sepultá-lo.
Logo
adiante, o obstáculo inesperado de um pequeno promontório.
Sabe que é um promontório porque as lições
de geografia o descrevem como "uma ponta de terra rochosa e
elevada que avança pelo mar". Pois bem, aquele promontório,
onde já esteve várias vezes à procura de cocos
secos derrubados pela ventania ou à cata de cajus nos baixios
do outro lado, termina de forma escarpada e rude, em pedras negras
e limosas que se aglomeram semelhantes a cogumelos. Algumas estão
cobertas de pequenas conchas que contêm mariscos. O mar enfia
entre elas línguas rápidas e famélicas, parece
sorver ali, naqueles corredores, alimentos insuspeitados, e recuar
com a mesma presteza de cão farejador. A areia interrompe-se,
não podem passar por ali em suas bicicletas.
—
Desmonte. Vamos subir por aqui — diz o pai.
Galgam
a encosta. Em cima, o vento verga coqueiros, arranca palmas secas
e chia nas moitas de pitangueiras bravas. Visto dali de cima o mar
alarga-se, amplia-se como espelho que se preza, que recobre uns
três quartos da superfície do globo. O mar rastejante
e bordejante torna-se mar alto e alto-mar, é oceano. Descem
a outra encosta do promontório, reencontram a praia, voltam
aos selins das bicicletas.
Esta
enseada, o homem pensa, não mudou nada. Também por
que houvera de mudar? Está talvez mais acanhada, menor. Eu
cresci, ela encolheu aos meus olhos. Afora isso, os coqueiros se
alteiam e se perfilam da mesma forma, o vento tira de suas palmas
acordes rangentes, aqui eu me banhei, naqueles rochedos, agora tão
inermes quanto antes, catei mariscos em poças de água,
e dali, em manhãs de mar calmo, atirei o meu anzol. Ardores,
ardências, ardentias. Aqui estivemos três anos atrás.
Três anos, apenas três? Foram mais, já se passaram
cinco. Me lembro que o carro ficou embaixo daqueles dois coqueiros,
junto à cabana, que era para pegar sombra, ela no seu jeito
mudo e calmo tirou o vestido, apareceu já de maiô preto
peça única. Mulher pequena, magra, com mais de cinqüenta
anos, a carne já bamba no busto e nas coxas, uma perna um
pouco mais curta que a outra. Somente então reparava no defeito,
percebia que ela coxeava ligeiramente. Atravessaram a areia, tão
larga que parecia duna ou areal, não fosse sua rasa e lisa
superfície, e chegaram ao mar. Ou o mar chegou-se. Melhor
dizendo, todos se chegaram, eles e o mar, em movimento único
de manobra, o mar insinuando a ponta espumante de suas águas,
eles fazendo saltar grãos de areia na polpa dos polegares
dos pés. Entregaram-se ao mar, que bramia de maneira surda,
pacificada, cantante, um bramido de fera satisfeita. Deixaram-se
envolver por seu abraço cálido, solto; os corpos tensos
e brancos relaxaram então, a pele começou a formigar
com as quenturas do sol e do sal. Os trópicos rolavam nas
vagas e nas ondas, corriam para o que parecia ser a central geradora
das máximas luminosidades. É preciso guardar esse
instante, o homem pensou então. Guardar, pelo menos, o contorno
desse instante. E foi ao carro apanhar a máquina fotográfica.
As cores, disse a si mesmo, jamais repetirão esses jorros
e feixes de luz, jamais reproduzirão toda essa algaravia
prismática — mas não importa. Eu a porei num
porta-retratos de pinho, ela no seu maiô negro e gestos desajeitados,
cercada por um esplendor de luz mais intenso que um halo, que um
arco-íris. Bateu metade das exposições e ela
protestou, guardasse seu filme para melhores retratos. Depois foram
banhar-se na antiga Fonte do Tororomba, hoje transformada em balneário.
Ah, o que não daria por aquelas fotos. A pessoa que sem dúvida
recolheu a máquina e o filme no meio do mato, junto aos destroços,
não era sentimental, não pensava nos outros, do contrário
teria enrolado bem o filme, esperado no dia seguinte a notícia
nos jornais para, a partir daí, tentar a devolução
do que, somente para ele, o homem acidentado e redivivo, teria valor.
Ele lhe daria a máquina, ficaria com o filme.
O
homem volta ao automóvel, avança devagar pelo asfalto
da estrada litorânea. Na praia, além do promontório
de pedras negras que parecem pústulas entre as ondas rasas,
ninguém à vista.
Os
músculos das pernas começaram a doer. Pela primeira
vez o menino tem consciência de que a praia até o Pontal
dos Ilhéus é um estirão, perde-se na bruma
da manhã alta, no lusco-fusco agulhante do sol, que arranca
reflexos da areia molhada.
O
pai pára a bicicleta, penetra a distância com a mão
em pala sobre os olhos.
—
Mon Dieu — diz o pai —, je vous remercie par toute cette
beauté.
Abre
os braços, ri com gosto.
—
Que língua você falou, pai?
—
Francês.
—
E o que significa?
—
Senhor, muito obrigado por toda esta beleza.
Resolvem
caminhar para descansar as pernas. O pai está alegre. Larga
a bicicleta e cai de joelhos.
—
Thank you, my Lord. God is my Lord.
—
Agora você falou outra língua — diz o menino.
—
Sim. Inglês. Já leu a Bíblia?
—
Já. Somente o Gênesis e um capítulo sobre Gedeão
e os madianitas.
—
Sei — diz o pai — Está no Livro dos Juizes.
—
Mas o que o senhor falou?
—
Eu disse: Obrigado, meu Deus.
Silenciam.
O sol projeta suas sombras oblíquas, mais curtas à
medida que o meio-dia se acerca, que o sol desce do meio do céu
qual fio teso com luminária. O mar rasteja, prosterna-se.
Ondas retrocedem, expondo graçuás fora de seus buracos.
—
Eu imitei Robinson Crusoé — diz o pai.
—
Como assim pai?
—
Naquele trecho em que ele sobe a um monte, abre os braços
e exclama: Deus é o meu Senhor. Em inglês, God is my
Lord.
—
Ahn.
Continuam
a andar, a empurrar as bicicletas.
—
Pai — diz o menino.
—
O que é?
—
Não me lembro de Robinson dizer aquilo. Eu li o livro.
—
Talvez eu tenha ouvido no filme — diz o pai.
Caminham
mais um pouco, há trechos em que a areia está mais
seca, mais fofa. Os pés quebram a superfície da areia,
nos calcanhares, e afundam de lado. Olhando para trás, o
menino vê as marcas paralelas dos pneus das bicicletas. A
areia ainda molhada é um mosaico.
—
É um dos Salmos de Davi — diz o pai.
—
O quê? — diz o menino.
—
A frase Deus é o meu Senhor.
—
Ahn.
Na
parte superior da praia, perto do mato da estrada, os graçuás
mostram-se mais afoitos, fora de seus buracos.
—
Pai?
—
Hem?
—
Mãe sabe que a gente está indo?
—
Sabe não. É surpresa.
Sentam-se
num cepo solto de jangada e enxugam o suor do rosto.
—
Tenho fome — diz o menino.
—
Está bem. Vamos comer.
O
automóvel segue a trinta quilômetros por hora. O homem
olha para os dois lados da rodovia. Sítios e mais sítios,
quase todos cercados. Àa vezes as cercas descem até
o mar, só faltam transformar em propriedade privada a praia,
os rochedos, o mar e as gaivotas. Loteamentos, casas por enquanto
espaçadas. Positivamente estamos longe do tempo em que o
Tororomba era uma fonte funda e terapêutica no meio do mato
e os índios da região não se escoravam, bêbados,
no balcão das bodegas. O que me prende a esta região,
o que me atrai para cá?, ele pergunta. Sim, porque eu não
gosto daqui. Detesto estas cidades que vivem e respiram em função
da riqueza, que pensam apenas na acumulação de capital.
Quem não consegue ter, porque foi cuspido fora pelo sistema
ou porque se preocupou muito mais com o ser, é um eterno
marginalizado na opinião dos que ostentam e esbanjam bens.
E, no entanto, volto sempre aqui, talvez em busca de uma identidade
não propriamente perdida, senão dispersa em certas
paisagens, diluída em algumas vivências, despedaçada
em um que outro acontecimento. Necessidade de expiação,
a mesma que faz alguns criminosos de velhos romances policiais reverem
o cenário de suas torpezas? O homem ao volante engrena o
carro, pisa de leve no acelerador. Coqueiros, areias alvas manchadas
pelo verde tisnado de uma vegetação rala começam
a passar. Imediações da praia do Cururupe onde desemboca
um braço do manguezal. Por ali passaram naquele final de
tarde calma e quase deserta de dia útil, a caminho do Pontal
dos Ilhéus, após as fotografias na enseada de Olivença.
Três ou quatro dias depois que ele, a mais de mil quilômetros
de distância, sonhara com ela de uma forma que não
lhe parecera premonitória. O vulto escuro do avô, para
o qual ele se dirige no sonho. O avô não o abraça
porque nunca foi homem de gestos afetuosos. Apenas pousa a mão
em seu ombro e olha-o fundo. E então, por cima do ombro do
avô, ele vê que ao lado do túmulo do avô
há um túmulo vazio, cavado quem sabe há pouco.
Maré
montante lá atrás. Maré de água viva
ali na frente. Mar crespo. Estaremos no novilúnio, com o
sol e a lua em conjunção?, pergunta o homem a si mesmo.
Fluxo. O misterioso fluir e refluir de águas, seus movimentos
estacionários e de subida de nível, segundo antiqüíssimas
leis gravitacionais — e isso em todos os oceanos, em todos
os mares, até mesmo nos golfos, baías e estuários.
O mênstruo diário dos mares e seu recolhimento.
Na
praia, baixa-mar, o menino resolve molhar-se antes de desatarem
o guardanapo com o lanche. Ao despir-se perto do lugar onde as ondas
mais vanguardeiras vão desfalecer e retrair-se, ele se sente
enrubescer. É a presença do pai mais acima. Sobre
o cepo da jangada desfeita. Devo estar crescendo mesmo, ele admite.
Daqui a pouco, mais uns dois ou três anos, estarei homem.
Como se processará a mudança, qual a minha participação
nela? A onda envolve-o, pousa-lhe na pele o débil resíduo
de sal que o sol não tardará a evaporar, deixando-a
vermelha e a seguir brônzea. Se as vagas que mal percebo no
mar alto, além da linha do litoral, rolassem em direção
contrária, iriam quebrar-se com certeza em costas da África,
em ilhas, em baías cujo nome eu ignoro. Mas sabe onde fica
o Mar de Weddell, o Mar de Barrow, o Mar do Norte, o Mar de Baffin,
o Mar Morto. Mares abertos, mares interiores. Veste a calça
curta sobre a pele molhada.
—
Pai, muitas vezes eu penso: o que vou ser na vida.
—
Você se refere a uma profissão? — diz o pai.
—
Sim. A uma atividade.
—
Você será doutor.
—
O senhor não é doutor.
—
Não.
—
E sente falta?
—
Não é bem isso.
Acabam
de comer, deitam-se na areia com as mãos entrançadas
sob a nuca.
—
Eu queria mesmo era viajar — ele diz.
—
Tem algum lugar em mira? — diz o pai.
—
O Mar de Azov.
—
Onde fica?
—
Nos confins da Rússia. Na Ásia.
—
Quem procura sempre acha — diz o pai.
As
lições de geografia. Os nomes dos rios. "Você
é ótimo em potamografia", dissera-lhe a professora.
As capitais de países e territórios asiáticos.
Pérsia ou Irã, capital? Teerã. Afeganistão,
capital? Cabul. Butã, capital? Punacá. Nepal, capital?
Catmandu.
—
Não se atormente demais — diz o pai.
—
O quê?
—
Você está crescendo, vai ser homem já. Sem sentir.
Uma
gaivota solitária passa sobre suas cabeças e, mais
adiante, parece deter-se no ar, depois mergulha em busca de peixe,
como pedra largada no ar.
—
Usará calça comprida — diz o pai. — Mudará
de comportamento. E terá desejos.
—
Que espécie de desejos?
—
Vários. Muitos. Desejos de mulher. De formar família.
Desejos de ir e de vir, ambições, frustrações.
—
O que é ser homem, pai?
O
pai pensa.
—
Ser homem é assumir a realidade.
—
Assim como Robinson?
—
Assim como o Robinson Crusoé.
Estou
mudando, sim senhor, ele pensa enquanto sente uma dormência
preguiçosa de músculos fatigados. Estou confuso. Lembra-se
que dias atrás, no Pontal dos Ilhéus, ele estava diante
do mar, a caminho do mar — e custou a ir para o mar, a banhar-se.
Vestia calção vermelho. Calção muito
curto, rasgado na bunda, colado ao corpo, acentuando saliências,
modelando reentrâncias. Pescadores recolhiam redes. Os braços
trabalhavam em cadência, avançavam e retrocediam como
se governados pelo ritmo de marcha inaudível. As ondas entreteciam
música que parecia canção de ninar. Seria bom
espichar-se na areia, deixar que a água em avanço
o atirasse para um ou outro lado, para cima e para baixo, igual
àquele toro de madeira que não cessava de mudar de
pouso. Daí a pouco as redes estariam em terra, escorrendo
água pelas malhas negras, revelando dorsos escamosos. Mulheres
e moleques já se acercavam dos pescadores. Desejou estar
ali, mas deixara-se apanhar de calção, sentado na
grama, bem na frente de janelas agora povoadas por mulheres, de
portas onde se escoravam homens, da calçada onde um senhor
idoso armara espreguiçadeira para ler jornal. Queria erguer-se
com naturalidade, caminhar para o mar, entrar na água —
e, no entanto, sentia-se preso ao chão por uma enorme âncora.
Outros meninos não hesitariam, provavelmente o contratempo
do calção colante e rasgado talvez nem existisse em
suas cabeças. A maré começava a encher. Se
ele não se decidisse logo a mãe poderia aparecer à
porta, proibir-lhe o banho em hora de maré cheia. As ondas
esparramavam-se na areia em sucessivos baques fofos, as redes cada
vez mais próximas na Praia do Pontal. Uma corrida até
o mar resolveria tudo, ainda que gargalhadas explodissem às
suas costas. Olhou para trás, colheu de relance expressões
das pessoas nas calçadas, nas janelas. Não teriam
o que fazer? Melhor recolherem as cadeiras, voltarem às suas
ocupações domésticas. As redes já chegavam
à praia, a música das ondas parecia-lhe agora triunfal.
Foi então que ele começou a se arrastar pela grama,
as mãos espalmadas apoiando-se no solo, projetando o corpo.
Movimentava-se com extremo cuidado. Ia ao encontro do mar. Alcançou
a borda da areia, lançou um olhar desconfiado para trás.
Ninguém ria. Esfregou um pedaço grande de nádega
que aparecia pelo buraco do calção: a pele estava
escoriada e vermelha, o sal do mar lambeu-a, ele gritou.
—
Vamos embora — diz o pai.
Levantam-se,
sobem para os selins, pedalam. A marcha torna-se mais lenta, a areia
parece mais solta. Avistam ao longe um pontilhão, um fascinante
braço de água que parece prolongamento do mar. Mas
a água é mais escura e, pelo menos dali, dá
impressão de imóvel, estagnada.
—
É uma laguna — diz o pai.
Afinal,
Cururupe.
O
homem estaciona o carro à sombra de uma amendoeira e vai
até a borda do estuário. Nessa água escura
e rasa deve ter caranguejo, pensa. Sobe até a ponte. Naqueles
tempos era pontilhão, a travessia de veículos fazia-se
com o maior cuidado, aprumando as rodas sobre dois troncos. Olha
para baixo, para a extensão de areia. O manguezal encontrou
o seu repouso, derramou-se no seio do mar. Eu quase afundei ali,
ele pensa. Creio que tinha dez anos, vinha de Olivença com
meu pai, de bicicleta, e me senti cansado. Não estava habituado
a fazer esforço físico, era um menino franzino e sensível,
dado a leituras. Sentiu a areia ceder. Talvez não fosse exatamente
areia. Talvez uma espúria mistura de areia e terra, faltando-lhe
uma consistência qualquer de argamassa; e seus pés
foram afundando, ele os retirava com a força empregada por
alguém que caiu em atoleiro. Região lagunosa, guaíba,
brejo disfarçado à beira-mar. Ouviu a terra ou a areia
mexer-se embaixo, como se agitada por minúsculos abalos sísmicos,
e as pernas desceram mais, com aquele rumor pegajoso e visguento
de patas de mula ou pernas de gente em tremendo lodaçal.
Largou a bicicleta, a terra ao redor cedeu mais ainda, como se chupada
por línguas subterrâneas, ele se viu com terra e areia
pela cintura. Somente então pensou em areias movediças
— aquelas armadilhas da natureza preparadas para aventureiros
em países exóticos.
—
Pai — gritou.
O
pai ia adiante, não ouviu.
—
Socorro — ele gritou. — Pai, me acuda.
Socorro,
eu gritei então, no atoleiro lagunoso, e meu pai me arrancou
pelos braços. Da outra vez, cinco anos atrás, eu nada
disse. Me lembro que me pus de pé com ajuda de alguém.
Essa pessoa, creio que um homem, me perguntou se eu podia me agüentar
sozinho. Respondi que sim. A pessoa foi socorrer outras vítimas.
Depois de algum tempo, ignoro se minutos ou segundos, me vi entrando
no banco traseiro de um automóvel que ainda cheirava a novo,
e descobri que minhas mãos sangravam, que do meu rosto pingava
sangue, que meu corpo doía todo como se eu tivesse levado
uma grande surra — uma surra de pau, dada para matar. Somente
então eu falei. "Vou sujar seu carro de sangue".
"Foda-se o carro", respondeu o vulto.
—
Foi um atoleiro perigoso — diz o pai.
O
menino caminha até o mar para remover a lama das pernas e
da calça.
—
Areias movediças — ele diz por cima do ombro.
—
Não creio — diz o pai. — Um simples atoleiro,
um mangue.
Resolveram
abandonar a praia, pegar a estrada marginal de terra e cascalho.
A princípio as bicicletas avançam com maior velocidade
apesar das pernas doloridas. Mas há trechos ruins, de lama
e pedras pontiagudas. Os pedregulhos soltos no leito irregular dão
à estrada aparência de rio seco de montanha, parecem
cacos de vidro. As rodas da bicicleta resvalam, batem, o avanço
torna-se penoso, já se sentem prenúncios de começo
de fim de tarde.
—
Pai, vamos chegar tarde?
—
Parece que sim.
—
Vamos chegar de noite.
—
Talvez não.
Pedalam
mais um bocado.
—
Como é, batuta, já desistiu do Mar de Azov?
O
menino ri.
—
Quando chegar em casa vou direto para a cama — ele diz.
Quantos
quilômetros faltam? Bem que gostaria de distinguir logo as
formações graníticas, cobertas de limo e mariscos,
que identificam na Praia do Sul o início do povoado do Pontal.
Visto de cima, da estrada, o mar está mais verde, um verde
concentrado de fundo de garrafa. E o mar desenrola incansavelmente
seus fardos de algodão, que avançam paralelos até
a metade da faixa da areia. Ali eles refervem e se dissolvem no
refluxo. A praia adquire então uma faixa espelhante, de linóleo.
Areia densa, firme, quase argamassa, onde os pés não
afundam, onde os pés deixam apenas débil traço.
Meio
entorpecido, não sabe direito como aquilo aconteceu. Sentiu
somente o choque repentino da roda da bicicleta contra um obstáculo
— e a dor no braço. As mãos soltaram-se do guidão,
o corpo caiu de lado, o braço esticado chocou-se contra a
pedra à margem da estrada. Não pode jurar, mas tem
a impressão de que ouviu um estalo.
Sabe
que houve uma desgraça. Por isso não se levanta logo.
Limita-se a olhar o braço direito que agora parece encolhido,
penso, como asa quebrada de ave. O pai corre até ele, ergueu-o
pelas axilas.
—
Calma — diz o pai. — Você quebrou o braço.
Ele
estanca o choro.
—
Chore se quiser, se isso lhe faz bem — diz o pai.
O
choro sai entrecortado, sufoca palavras.
—
Chorar alivia — diz o pai. — Já chorei algumas
vezes.
—
Mesmo quando cresceu? — ele diz.
—
Mesmo depois de crescido. Já adulto. Agora, preste atenção.
Vou rodar a parte inferior do seu braço para que o osso volte
ao lugar certo. Para ajustar a fratura, ouviu bem?
—
Sim, senhor. Vai doer?
—
Vai. Quer que eu conte até três?
—
Quero.
—
Um, dois, três.
Uma
dor lancinante.
—
Agora — diz o pai —, você segura o braço
com a mão esquerda. Aperte bem. Aqui. Assim mesmo.
O
pai afasta-se, o suor pinga-lhe do rosto.
—
Não saia daí, ouviu? Não deixe de apertar.
Vou buscar socorro.
—
Sim, senhor.
Volta
mais de meia hora depois, traz algumas ripas de bambu, um facão
e barbante. Apara as ripas no comprimento certo, brande o facão
como se fosse plaina para desbastar a madeira. Aplicadas sobre a
carne e fixadas pelo barbante, em nós fortes, as ripas substituem
por enquanto o gesso que imobiliza membros fraturados. Por fim,
o pai improvisa uma tipóia com o guardanapo em que trouxeram
o lanche.
"Vou
sujar o seu carro", ele diz. "Foda-se o carro", respondeu
o vulto. Sentado quase à beira do assento, aprumado e formal
como criança que pela primeira vez vai à escola, ele
sentia o sangue escorrer da boca, dos lábios, de feridas
nas têmporas e perto dos olhos. De quando em quanto baixava
as mãos e via o sangue fluir por entre os dedos, pingar no
assento, no chão do automóvel, enquanto nas costas
das mãos e no punho a coagulação já
começava. Se o deixassem assim sentado, em lugar calmo, ele
acompanharia o lento escorrer de seu sangue, a inexorável
dissipação de sua vida, pingo a pingo, sem fazer um
gesto para estancar aquele fluxo, até desmaiar e apagar-se.
Despertou em plena noite numa cama de hospital. A primeira coisa
que viu foi uma grande mancha negra, de sangue pisado, numa das
coxas. Quis mexer-se — a espádua direita doeu, as costelas
pareciam furar a carne com os estilhaços de suas extremidades
talvez partidas. Sentia o rosto inchado, um dos lábios estava
muito grosso. Com dificuldade umedeceu a boca com a língua.
Parentes que montavam guarda viram-no acordar do seu sono traumático,
precipitaram-se. "Onde está minha mãe?",
ele perguntou. Os parentes entreolharam-se. "Em outro hospital",
responderam. "Mas ela está bem?", insistiu. Os
parentes entreolharam-se outra vez. "Está reagindo bem",
disseram. E então ele pensou: está morta. Nos próximos
três dias continuou a pedir notícias da mãe.
Disseram-lhe que ela levara uma pancada forte no peito, o médico
havia operado. Mas que passava bem. E ele pensou ainda: está
morta, sepultada. No quarto dia dos quinze que passou no hospital
ele deixou de se informar a respeito da saúde da mãe.
Os parentes estranharam, até que um deles, menos paciente,
chegou e disse-lhe um dia, à hora em que as luzes se acendiam
na cidade: "Sua mãe morreu". Ele nada disse. O
parente insistiu: "Sua mãe morreu". Ele encarou
o parente e respondeu: "Foda-se".
Chovia,
lembrava-se que chovia.
Chuva
miúda, uma peneira d´água. Esta última
imagem ficou impressa em sua memória — a dos pingos
miúdos no asfalto, uma saraivada de balas inaudíveis.
Na cena seguinte ele se revê de pé, no meio de um mato
ralo. Alguém acaba de erguê-lo e pergunta: "Você
se agüenta sozinho?" Entre uma e outra cena, um lapso
que espera um dia ainda preencher. Um censor empunhou a tesoura
e cortou alguns metros do filme, ele pensa com um sorriso quase
imperceptível, deitado na cama do hospital. Quando saiu ao
fim de quinze dias e já podia movimentar-se com algum esforço,
os parentes levaram-no a passeio para distraí-lo, casualmente
mostraram-lhe a curva. "Foi aqui", disseram. "Seu
carro derrapou, saiu da pista e desceu, capotando, a ribanceira",
Ele olhou a curva que não era das mais fechadas, que sequer
tinha aviso de curva perigosa. E tudo que pôde dizer então
foi: "Curva boba".
A
tarde começa a enternecer-se, quer dizer, abranda o calor,
reduz a luminosidade, introduz o crepúsculo. O homem ao volante
continua a trinta quilômetros por hora. Passa pela ponte de
Cururupe, olha os enfezados arbustos do mangue à esquerda,
observa que os sítios e as casas se tornam menos espaçados.
Estrada deserta, limpa e seca. Nenhum animal vagando na pista, nenhum
boi lerdo a cruzar o asfalto. Também não se avistam
manchas de óleo que, em dia de chuva fina, são perigosas,
derrapantes. A praia ao lado não passa de muda extensão
de areia indiferente. Por aqui mesmo, o homem pensa, um menino caiu
da bicicleta trinta anos atrás e fraturou o braço
numa pedra. E o pai, eu me lembro como hoje, depois de voltarem
à praia, ansiosos por avistar a Praia do Sul e o casario
do Pontal dos Ilhéus, animava o menino: "Agora tá
perto. É apenas um salto. Mais força nessas pernas,
se não você nunca chegará ao Mar de Azov".
—
Pai, eu não agüento mais — diz o menino.
—
Agüenta, sim. Falta pouco.
O
braço na tipóia, apertado pelas tiras de bambu, vai
ficando dormente. Ele sente comichão na palma, no cotovelo.
Um formigamento passa do antebraço ao cotovelo, propaga-se
ao braço e à espádua.
—
Pai, só um descanso. Um só.
—
Está bem — diz o pai.
As
bicicletas empurradas pelo pai tombam na areia molhada. Sentam-se.
O pai passa a mão nos cabelos, examina o horizonte com olhar
alheado.
—
Daqui a pouco anoitece — diz.
Sentado
com as pernas recolhidas, perto do lugar onde as ondas soltam suas
últimas línguas, o menino descobre na areia sinais
de vida. Os buracos de minúsculos diâmetro foram feitos
por pequenos caranguejos brancos chamados graçuás.
Disfarçam-se bem, têm cor aguada, parecem ter vários
olhos. Percebem qualquer tentativa de aproximação,
saem correndo de banda, muito ligeiros, enfiam-se no primeiro buraco
que aparece. É preciso muita destreza para pegar um. Às
vezes não estão ocultos em buracos. Ficam, apenas,
à superfície da areia. A onda vem, lava a areia e
revela o casco do graçuá. Não havendo indícios
de perigo próximo, ele não se mexe. Continua por alguns
segundos no mesmo lugar, aguarda o retorno da onda e então,
em movimentos ágeis de suas pinças, entranha-se mais
na areia. Ou então corre, oculta-se em lugar mais fofo. Há
uns bem grandes.
—
São muito sabidos esses graçuás — o pai
diz.
—
É verdade.
—
Não podem cometer erros — diz o pai.
—
Como assim?
—
Um erro lhes será fatal. Já o homem, este pode errar.
Mais de uma vez. Muitas vezes, até.
O
menino ouve calado.
—
Errando — diz o pai — o homem acumula o que se chama
de experiência. Quer uma boa definição de experiência?
O
menino balança a cabeça.
—
Experiência é uma sucessão de erros. Eu me refiro,
claro, a experiência de vida, que é mais do que vivência
—
Então os mais velhos são os mais experientes —
diz o menino.
—
Às vezes. Aprendem com os erros que praticam, tiram lições
de seus desacertos e suas desventuras. Sofrem.
—
E depois?
—
Depois, ficam sábios. Sabedoria é isso: o filtro da
experiência.
—
Pois eu pensava que sábio era o homem culto, doutor.
—
Também, mas não necessariamente — diz o pai.
— Para mim, sabedoria é o conhecimento direto e pessoal
da vida. E cultura é experiência.
— Está bem — diz o menino. — Esses graçuás
são sábios.
—
Instintivamente sábios — diz o pai.
Ficam
calados alguns instantes. A água já espalha no ar
um toque de frio.
—
Os velhos erram menos porque tiveram tempo de se aprimorar mais
— diz o pai. — Mas não pense que sabedoria é
privilégio deles, ou de todos os velhos deste mundo.
—
Certo — diz o menino.
—
E agora, batuta, vamos pra casa?
—
Vamos.
Recomeçam
a andar. A praia começa a apresentar pequenas poças
das ondas.
—
Robinson era sábio, pai?
—
Era, sim. Ficou sozinho na ilha, defronte de si mesmo, e aprendeu
a se conhecer.
Certas
viagens inúteis ou desastradas, pensa o homem ao volante.
Pois uma vez ele não embarcou para o Mar de Azov? Mas isso
foi depois. Ah, pensa, enquanto calca mais o acelerador, quatro
dias feriados, incluindo o Primeiro de Maio, e mais um que pretendia
roubar ao trabalho. Quase uma semana. Então ele vistoria
o automóvel, senta-se ao volante e parte. Pouco mais de dois
mil quilômetros, ida e volta. O tempo de chegar, abraçar
a mãe, dormir, conversar com a mãe, dormir, levar
a mãe a passear, dormir, rever certas cenas, algumas paisagens,
voltar. A estrada é uma fita que umas vezes se enrola em
curvas, outras vezes se estende reta, igual, monótona. Viaja
à noite, entra pela madrugada. Não ultrapasse quando
a faixa for contínua. Grande declive. Verifique os freios.
Curva perigosa. Início da faixa para caminhões. Fim
da faixa para caminhões. Obras a trezentos metros. Obras
a cem metros. Desvio. Abastecimento. Ponha um tigre no seu carro.
Tranqüilometragem. Churrascaria Gaúcha, rodízio.
Neblina. Serra. Quem observa a sinalização evita acidentes.
Cuidado, animais na pista. Luzes baixas ao passar por outro veículo.
Madrugada alta. Em gestos maquinais ele torce o volante para a direita,
para a esquerda, freia, acelera, contorna um boi, uma vaca, evita
atropelar um bezerro, um burro. Árvores adquirem configurações
fantásticas à luz dos faróis. Cercas, casas,
sinalizações, até a própria estrada,
só se identificam a poucos metros de distância; somente
ali, no último instante, ele sabe por onde continuar, qual
a estrada real e a ilusória. Está chegando. Faltam
quantos quilômetros? Não vai parar agora, quer dormir
em casa depois de abraçar a mãe, de comer alguma coisa
gostosa que ela com certeza vai preparar às pressas. Mas
eu teria o direito de trazer de longe, de mais de mil quilômetros
de distância, o meu tédio, o meu enfado, os meus pesares
e fadigas, as minhas doidas alegrias, a minha violência? Não
uma violência que eu porventura cultivasse, mas a violência
de ritmo que me foi imposta lá, a violência na qual
entrei aos poucos, sem perceber, e que aos poucos tomou conta de
mim, ditou os meus humores e os meus atos, transformou-se sem eu
perceber em segunda natureza. Teria eu o direito de trazer da cidade
grande uma parcela da violência coletiva, indesejada por mim
porém absorvida à revelia, e distribuí-la então
por pessoas sossegadas, que, pelo menos, aparentavam viver em paz?
Teria eu esse direito? De modo algum — e creio não
tê-lo exercido. E no entanto fui o escolhido pelo Anjo da
Morte. Sabe, mãe?, diz ele, agora pisando mais fundo no acelerador,
rumo ao Pontal dos Ilhéus, com aquela pressa com que, um
dia à noite, cinco anos atrás, largara-se pela rodovia
interminável, sabe que eu embarquei para o Mar de Azov? Peguei
um avião da KLM em Amsterdã, depois de ver os últimos
originais de Van Gogh que ainda não conhecia, incluindo aquele
medonho trigal sobrevoado por um bando de corvos. O avião
encheu-se de indonésios morenos de cara redonda, árabes
de turbante e filipinos e malásios irrequietos. Saltei em
Atenas, meti-me num hotel e pela manhã, ao abrir o cortinado,
quase bati a cabeça nas ruínas da Acrópole,
aquelas mesmas dos meus livros antigos de leitura. Nunca estive
tão perto do Mar de Azov, mãe. Apenas eu não
entendi então que aquela viagem, aquela busca, aquela consulta
eram inúteis. Eu não entendi, somente agora, que fui
ao Mar de Azov uma e várias vezes, já deixei que suas
águas me escorressem por entre os dedos.
O automóvel dispara. Pontal está perto. O homem vê
mais embaixo, à direita, as primeiras formações
graníticas onde escachoam as ondas, levantando espuma. É
a Praia do Sul. Ela continua um pouco, vai dar no morro em que outrora
havia um farol e que era habitado por uma reclusa ordem de frades.
Ao sopé do morro também chega, do outro lado, a Praia
do Pontal, que principia, a bem dizer, na foz do rio Cachoeira.
—
Desistiu? — diz o pai.
O
menino está caído sobre o seu lado bom.
—
Desisti — diz ele.
—
Somente os velhos, os muitos velhos desistem — diz o pai.
Sustenta
com a mão esquerda as duas bicicletas engatadas pelos guidões
e levanta o menino pela axila.
—
Isso, força. Pode se apoiar forte — diz o pai.
Enlaça-o
com o outro braço, entram assim unidos no Pontal, pela rua
da praia, perto do morro do farol.
—
Mãe vai levar um susto quando nos ver — diz o menino.
—
É verdade. Ela só nos esperava amanhã.
—
Vou dormir logo — diz o menino.
—
Depois que eu chamar o médico — diz o pai.
Passam
vagarosos, arrastados, sob a tamarineira e o pé de fruta-pão.
O
menino sente o sono fechar-lhe os olhos, forçar-lhe a boca
em longos bocejos.
—
Pai, viver é difícil?
—
Claro que é — diz o pai.
—
Difícil como o quê?
—
É difícil assim como... como transportar na mão
um copo cheio de água, por exemplo.
—
A água não pode derramar — diz o menino.
—
A água não deve derramar — diz o pai. —
Mas transborda, sim senhor, por mais que se tenha cuidado.
—
E daí? — diz o menino.
—
Carregue sempre água, que é a melhor das bebidas,
a única inofensiva — diz o pai.
—
Sim, senhor.
—
Cuidado para não levar soda cáustica, formicida ou
simplesmente um copo de amargura — diz o pai.
—
Sim, senhor.
—
Se levar veneno, todo cuidado é pouco para o copo não
entornar — diz o pai.
—
Sim, senhor.
—
Assim você chegará um dia às margens do seu
Mar de Azov — diz o pai.
—
Sim, senhor — diz o menino.
Está
em casa, o mar do Pontal apenas rumoreja às suas costas.
Empurra a porta.
—
Mãe — ele diz.
Ninguém
responde. Ele vai entrando.
—
Mãe, voltei.