MAR DE AZOV


Contos. São Paulo: Melhoramentos, 1986
1º lugar no gênero conto da II Bienal Nestlé de Literatura Brasileira

Hélio Pólvora – heliopolvora@superig.com.br

O mar desdobrava rolos de algodão na praia.

Mas agora, e pelo menos nesta enseada, ele está barrento. As ondas que se esparramam na areia, sob o foco do sol forte, trazem um tom estranho — um vermelho corrupto, corrosivo, que talvez pudesse chamar-se de ocre. Como se o mar, antes de daqui arrefecer, houvesse passado, no seu incessante fluxo, por abruptos barrancos de terra barrenta, e desprendido torrões que se desfazem em pó e contaminam águas verdes, águas azuladas.

O homem olha a ladeira que sobe até a praça de Olivença. Não precisa ir lá em cima para saber que a praça pequena e circular, com chão de grama, tem um cruzeiro e uma igreja branca — e que dali, estendendo a vista, vê-se o litoral tremeluzir à distância, orlado de coqueiros, sob a espreita de um mar petrificado. São as distâncias para o sul.

Dois vultos descem um dia a ladeira. Vão de bicicleta e apertam o pedal de freio. Ainda assim passam velozes, precipitam-se até o fundo da enseada.

— É longe, pai?

— Um salto. Daqui a pouco a gente chega.

O menino conhece essa expressão vaga que na maioria dos casos encerra quilômetros, léguas.

— Quantas léguas, pai?

— Umas duas. Talvez duas e meia.

O pai sempre diminui distâncias, por isso o menino elimina o talvez. Duas léguas e meia, portanto, até o Pontal. Uma légua tem seis quilômetros. Faz as contas. Quinze quilômetros. Irão pela estrada de terra que margeia o litoral e afunda entre coqueiros, ou seguirão as praias para o norte, no rumo de Cururupe e Praia do Sul?

O mar desdobra na areia rolos de algodão. Quer dizer, é como se ao chegar perto da areia arriasse e desdobrasse fardos de algodão, que acabam por se esfiapar na areia pardacenta, às vezes fervendo, outras vezes formando um rendilhado silencioso. À distância o azul se torna mais profundo, a praia afunila-se e o sol de verão tonteia, criando a ilusão de pingos em suspensão no ar, de inumeráveis pontos de agulha doendo nos olhos.

— Vamos pela estrada ou pela areia, pai?

— Pela praia é melhor.

Pedalam. A areia é compacta, faz lembrar a parede deitada de uma casa recém-entaipada. O pai corre mais pelo meio, ele pende para a fímbria do mar. Gosta de ver as rodas e o aro das rodas levantarem borrifos. A areia ali é menos sólida, os pneus da bicicleta afundam um pouco, ele precisa de mais força nas pernas. Mas a água espadana, umas vezes as ondas calmas desenrolam-se mais adiante, passando por baixo da bicicleta. O mar é um animal gigantesco que arqueia o dorso, rouqueja e bufa, rosna e geme ao seu lado, a seus pés. As ondas erguem-se a poucos metros em forma de vagas, cavalgadas por manchas de espuma que não tardam a quebrar — e ele tem a impressão de correr à beira de um túmulo líquido que poderá levantar-se de repente em forma de muralha e sepultá-lo.

Logo adiante, o obstáculo inesperado de um pequeno promontório. Sabe que é um promontório porque as lições de geografia o descrevem como "uma ponta de terra rochosa e elevada que avança pelo mar". Pois bem, aquele promontório, onde já esteve várias vezes à procura de cocos secos derrubados pela ventania ou à cata de cajus nos baixios do outro lado, termina de forma escarpada e rude, em pedras negras e limosas que se aglomeram semelhantes a cogumelos. Algumas estão cobertas de pequenas conchas que contêm mariscos. O mar enfia entre elas línguas rápidas e famélicas, parece sorver ali, naqueles corredores, alimentos insuspeitados, e recuar com a mesma presteza de cão farejador. A areia interrompe-se, não podem passar por ali em suas bicicletas.

— Desmonte. Vamos subir por aqui — diz o pai.

Galgam a encosta. Em cima, o vento verga coqueiros, arranca palmas secas e chia nas moitas de pitangueiras bravas. Visto dali de cima o mar alarga-se, amplia-se como espelho que se preza, que recobre uns três quartos da superfície do globo. O mar rastejante e bordejante torna-se mar alto e alto-mar, é oceano. Descem a outra encosta do promontório, reencontram a praia, voltam aos selins das bicicletas.

Esta enseada, o homem pensa, não mudou nada. Também por que houvera de mudar? Está talvez mais acanhada, menor. Eu cresci, ela encolheu aos meus olhos. Afora isso, os coqueiros se alteiam e se perfilam da mesma forma, o vento tira de suas palmas acordes rangentes, aqui eu me banhei, naqueles rochedos, agora tão inermes quanto antes, catei mariscos em poças de água, e dali, em manhãs de mar calmo, atirei o meu anzol. Ardores, ardências, ardentias. Aqui estivemos três anos atrás. Três anos, apenas três? Foram mais, já se passaram cinco. Me lembro que o carro ficou embaixo daqueles dois coqueiros, junto à cabana, que era para pegar sombra, ela no seu jeito mudo e calmo tirou o vestido, apareceu já de maiô preto peça única. Mulher pequena, magra, com mais de cinqüenta anos, a carne já bamba no busto e nas coxas, uma perna um pouco mais curta que a outra. Somente então reparava no defeito, percebia que ela coxeava ligeiramente. Atravessaram a areia, tão larga que parecia duna ou areal, não fosse sua rasa e lisa superfície, e chegaram ao mar. Ou o mar chegou-se. Melhor dizendo, todos se chegaram, eles e o mar, em movimento único de manobra, o mar insinuando a ponta espumante de suas águas, eles fazendo saltar grãos de areia na polpa dos polegares dos pés. Entregaram-se ao mar, que bramia de maneira surda, pacificada, cantante, um bramido de fera satisfeita. Deixaram-se envolver por seu abraço cálido, solto; os corpos tensos e brancos relaxaram então, a pele começou a formigar com as quenturas do sol e do sal. Os trópicos rolavam nas vagas e nas ondas, corriam para o que parecia ser a central geradora das máximas luminosidades. É preciso guardar esse instante, o homem pensou então. Guardar, pelo menos, o contorno desse instante. E foi ao carro apanhar a máquina fotográfica. As cores, disse a si mesmo, jamais repetirão esses jorros e feixes de luz, jamais reproduzirão toda essa algaravia prismática — mas não importa. Eu a porei num porta-retratos de pinho, ela no seu maiô negro e gestos desajeitados, cercada por um esplendor de luz mais intenso que um halo, que um arco-íris. Bateu metade das exposições e ela protestou, guardasse seu filme para melhores retratos. Depois foram banhar-se na antiga Fonte do Tororomba, hoje transformada em balneário. Ah, o que não daria por aquelas fotos. A pessoa que sem dúvida recolheu a máquina e o filme no meio do mato, junto aos destroços, não era sentimental, não pensava nos outros, do contrário teria enrolado bem o filme, esperado no dia seguinte a notícia nos jornais para, a partir daí, tentar a devolução do que, somente para ele, o homem acidentado e redivivo, teria valor. Ele lhe daria a máquina, ficaria com o filme.

O homem volta ao automóvel, avança devagar pelo asfalto da estrada litorânea. Na praia, além do promontório de pedras negras que parecem pústulas entre as ondas rasas, ninguém à vista.

Os músculos das pernas começaram a doer. Pela primeira vez o menino tem consciência de que a praia até o Pontal dos Ilhéus é um estirão, perde-se na bruma da manhã alta, no lusco-fusco agulhante do sol, que arranca reflexos da areia molhada.

O pai pára a bicicleta, penetra a distância com a mão em pala sobre os olhos.

— Mon Dieu — diz o pai —, je vous remercie par toute cette beauté.

Abre os braços, ri com gosto.

— Que língua você falou, pai?

— Francês.

— E o que significa?

— Senhor, muito obrigado por toda esta beleza.

Resolvem caminhar para descansar as pernas. O pai está alegre. Larga a bicicleta e cai de joelhos.

— Thank you, my Lord. God is my Lord.

— Agora você falou outra língua — diz o menino.

— Sim. Inglês. Já leu a Bíblia?

— Já. Somente o Gênesis e um capítulo sobre Gedeão e os madianitas.

— Sei — diz o pai — Está no Livro dos Juizes.

— Mas o que o senhor falou?

— Eu disse: Obrigado, meu Deus.

Silenciam. O sol projeta suas sombras oblíquas, mais curtas à medida que o meio-dia se acerca, que o sol desce do meio do céu qual fio teso com luminária. O mar rasteja, prosterna-se. Ondas retrocedem, expondo graçuás fora de seus buracos.

— Eu imitei Robinson Crusoé — diz o pai.

— Como assim pai?

— Naquele trecho em que ele sobe a um monte, abre os braços e exclama: Deus é o meu Senhor. Em inglês, God is my Lord.

— Ahn.

Continuam a andar, a empurrar as bicicletas.

— Pai — diz o menino.

— O que é?

— Não me lembro de Robinson dizer aquilo. Eu li o livro.

— Talvez eu tenha ouvido no filme — diz o pai.

Caminham mais um pouco, há trechos em que a areia está mais seca, mais fofa. Os pés quebram a superfície da areia, nos calcanhares, e afundam de lado. Olhando para trás, o menino vê as marcas paralelas dos pneus das bicicletas. A areia ainda molhada é um mosaico.

— É um dos Salmos de Davi — diz o pai.

— O quê? — diz o menino.

— A frase Deus é o meu Senhor.

— Ahn.

Na parte superior da praia, perto do mato da estrada, os graçuás mostram-se mais afoitos, fora de seus buracos.

— Pai?

— Hem?

— Mãe sabe que a gente está indo?

— Sabe não. É surpresa.

Sentam-se num cepo solto de jangada e enxugam o suor do rosto.

— Tenho fome — diz o menino.

— Está bem. Vamos comer.

O automóvel segue a trinta quilômetros por hora. O homem olha para os dois lados da rodovia. Sítios e mais sítios, quase todos cercados. Àa vezes as cercas descem até o mar, só faltam transformar em propriedade privada a praia, os rochedos, o mar e as gaivotas. Loteamentos, casas por enquanto espaçadas. Positivamente estamos longe do tempo em que o Tororomba era uma fonte funda e terapêutica no meio do mato e os índios da região não se escoravam, bêbados, no balcão das bodegas. O que me prende a esta região, o que me atrai para cá?, ele pergunta. Sim, porque eu não gosto daqui. Detesto estas cidades que vivem e respiram em função da riqueza, que pensam apenas na acumulação de capital. Quem não consegue ter, porque foi cuspido fora pelo sistema ou porque se preocupou muito mais com o ser, é um eterno marginalizado na opinião dos que ostentam e esbanjam bens. E, no entanto, volto sempre aqui, talvez em busca de uma identidade não propriamente perdida, senão dispersa em certas paisagens, diluída em algumas vivências, despedaçada em um que outro acontecimento. Necessidade de expiação, a mesma que faz alguns criminosos de velhos romances policiais reverem o cenário de suas torpezas? O homem ao volante engrena o carro, pisa de leve no acelerador. Coqueiros, areias alvas manchadas pelo verde tisnado de uma vegetação rala começam a passar. Imediações da praia do Cururupe onde desemboca um braço do manguezal. Por ali passaram naquele final de tarde calma e quase deserta de dia útil, a caminho do Pontal dos Ilhéus, após as fotografias na enseada de Olivença. Três ou quatro dias depois que ele, a mais de mil quilômetros de distância, sonhara com ela de uma forma que não lhe parecera premonitória. O vulto escuro do avô, para o qual ele se dirige no sonho. O avô não o abraça porque nunca foi homem de gestos afetuosos. Apenas pousa a mão em seu ombro e olha-o fundo. E então, por cima do ombro do avô, ele vê que ao lado do túmulo do avô há um túmulo vazio, cavado quem sabe há pouco.

Maré montante lá atrás. Maré de água viva ali na frente. Mar crespo. Estaremos no novilúnio, com o sol e a lua em conjunção?, pergunta o homem a si mesmo. Fluxo. O misterioso fluir e refluir de águas, seus movimentos estacionários e de subida de nível, segundo antiqüíssimas leis gravitacionais — e isso em todos os oceanos, em todos os mares, até mesmo nos golfos, baías e estuários. O mênstruo diário dos mares e seu recolhimento.

Na praia, baixa-mar, o menino resolve molhar-se antes de desatarem o guardanapo com o lanche. Ao despir-se perto do lugar onde as ondas mais vanguardeiras vão desfalecer e retrair-se, ele se sente enrubescer. É a presença do pai mais acima. Sobre o cepo da jangada desfeita. Devo estar crescendo mesmo, ele admite. Daqui a pouco, mais uns dois ou três anos, estarei homem. Como se processará a mudança, qual a minha participação nela? A onda envolve-o, pousa-lhe na pele o débil resíduo de sal que o sol não tardará a evaporar, deixando-a vermelha e a seguir brônzea. Se as vagas que mal percebo no mar alto, além da linha do litoral, rolassem em direção contrária, iriam quebrar-se com certeza em costas da África, em ilhas, em baías cujo nome eu ignoro. Mas sabe onde fica o Mar de Weddell, o Mar de Barrow, o Mar do Norte, o Mar de Baffin, o Mar Morto. Mares abertos, mares interiores. Veste a calça curta sobre a pele molhada.

— Pai, muitas vezes eu penso: o que vou ser na vida.

— Você se refere a uma profissão? — diz o pai.

— Sim. A uma atividade.

— Você será doutor.

— O senhor não é doutor.

— Não.

— E sente falta?

— Não é bem isso.

Acabam de comer, deitam-se na areia com as mãos entrançadas sob a nuca.

— Eu queria mesmo era viajar — ele diz.

— Tem algum lugar em mira? — diz o pai.

— O Mar de Azov.

— Onde fica?

— Nos confins da Rússia. Na Ásia.

— Quem procura sempre acha — diz o pai.

As lições de geografia. Os nomes dos rios. "Você é ótimo em potamografia", dissera-lhe a professora. As capitais de países e territórios asiáticos. Pérsia ou Irã, capital? Teerã. Afeganistão, capital? Cabul. Butã, capital? Punacá. Nepal, capital? Catmandu.

— Não se atormente demais — diz o pai.

— O quê?

— Você está crescendo, vai ser homem já. Sem sentir.

Uma gaivota solitária passa sobre suas cabeças e, mais adiante, parece deter-se no ar, depois mergulha em busca de peixe, como pedra largada no ar.

— Usará calça comprida — diz o pai. — Mudará de comportamento. E terá desejos.

— Que espécie de desejos?

— Vários. Muitos. Desejos de mulher. De formar família. Desejos de ir e de vir, ambições, frustrações.

— O que é ser homem, pai?

O pai pensa.

— Ser homem é assumir a realidade.

— Assim como Robinson?

— Assim como o Robinson Crusoé.

Estou mudando, sim senhor, ele pensa enquanto sente uma dormência preguiçosa de músculos fatigados. Estou confuso. Lembra-se que dias atrás, no Pontal dos Ilhéus, ele estava diante do mar, a caminho do mar — e custou a ir para o mar, a banhar-se. Vestia calção vermelho. Calção muito curto, rasgado na bunda, colado ao corpo, acentuando saliências, modelando reentrâncias. Pescadores recolhiam redes. Os braços trabalhavam em cadência, avançavam e retrocediam como se governados pelo ritmo de marcha inaudível. As ondas entreteciam música que parecia canção de ninar. Seria bom espichar-se na areia, deixar que a água em avanço o atirasse para um ou outro lado, para cima e para baixo, igual àquele toro de madeira que não cessava de mudar de pouso. Daí a pouco as redes estariam em terra, escorrendo água pelas malhas negras, revelando dorsos escamosos. Mulheres e moleques já se acercavam dos pescadores. Desejou estar ali, mas deixara-se apanhar de calção, sentado na grama, bem na frente de janelas agora povoadas por mulheres, de portas onde se escoravam homens, da calçada onde um senhor idoso armara espreguiçadeira para ler jornal. Queria erguer-se com naturalidade, caminhar para o mar, entrar na água — e, no entanto, sentia-se preso ao chão por uma enorme âncora. Outros meninos não hesitariam, provavelmente o contratempo do calção colante e rasgado talvez nem existisse em suas cabeças. A maré começava a encher. Se ele não se decidisse logo a mãe poderia aparecer à porta, proibir-lhe o banho em hora de maré cheia. As ondas esparramavam-se na areia em sucessivos baques fofos, as redes cada vez mais próximas na Praia do Pontal. Uma corrida até o mar resolveria tudo, ainda que gargalhadas explodissem às suas costas. Olhou para trás, colheu de relance expressões das pessoas nas calçadas, nas janelas. Não teriam o que fazer? Melhor recolherem as cadeiras, voltarem às suas ocupações domésticas. As redes já chegavam à praia, a música das ondas parecia-lhe agora triunfal. Foi então que ele começou a se arrastar pela grama, as mãos espalmadas apoiando-se no solo, projetando o corpo. Movimentava-se com extremo cuidado. Ia ao encontro do mar. Alcançou a borda da areia, lançou um olhar desconfiado para trás. Ninguém ria. Esfregou um pedaço grande de nádega que aparecia pelo buraco do calção: a pele estava escoriada e vermelha, o sal do mar lambeu-a, ele gritou.

— Vamos embora — diz o pai.

Levantam-se, sobem para os selins, pedalam. A marcha torna-se mais lenta, a areia parece mais solta. Avistam ao longe um pontilhão, um fascinante braço de água que parece prolongamento do mar. Mas a água é mais escura e, pelo menos dali, dá impressão de imóvel, estagnada.

— É uma laguna — diz o pai.

Afinal, Cururupe.

O homem estaciona o carro à sombra de uma amendoeira e vai até a borda do estuário. Nessa água escura e rasa deve ter caranguejo, pensa. Sobe até a ponte. Naqueles tempos era pontilhão, a travessia de veículos fazia-se com o maior cuidado, aprumando as rodas sobre dois troncos. Olha para baixo, para a extensão de areia. O manguezal encontrou o seu repouso, derramou-se no seio do mar. Eu quase afundei ali, ele pensa. Creio que tinha dez anos, vinha de Olivença com meu pai, de bicicleta, e me senti cansado. Não estava habituado a fazer esforço físico, era um menino franzino e sensível, dado a leituras. Sentiu a areia ceder. Talvez não fosse exatamente areia. Talvez uma espúria mistura de areia e terra, faltando-lhe uma consistência qualquer de argamassa; e seus pés foram afundando, ele os retirava com a força empregada por alguém que caiu em atoleiro. Região lagunosa, guaíba, brejo disfarçado à beira-mar. Ouviu a terra ou a areia mexer-se embaixo, como se agitada por minúsculos abalos sísmicos, e as pernas desceram mais, com aquele rumor pegajoso e visguento de patas de mula ou pernas de gente em tremendo lodaçal. Largou a bicicleta, a terra ao redor cedeu mais ainda, como se chupada por línguas subterrâneas, ele se viu com terra e areia pela cintura. Somente então pensou em areias movediças — aquelas armadilhas da natureza preparadas para aventureiros em países exóticos.

— Pai — gritou.

O pai ia adiante, não ouviu.

— Socorro — ele gritou. — Pai, me acuda.

Socorro, eu gritei então, no atoleiro lagunoso, e meu pai me arrancou pelos braços. Da outra vez, cinco anos atrás, eu nada disse. Me lembro que me pus de pé com ajuda de alguém. Essa pessoa, creio que um homem, me perguntou se eu podia me agüentar sozinho. Respondi que sim. A pessoa foi socorrer outras vítimas. Depois de algum tempo, ignoro se minutos ou segundos, me vi entrando no banco traseiro de um automóvel que ainda cheirava a novo, e descobri que minhas mãos sangravam, que do meu rosto pingava sangue, que meu corpo doía todo como se eu tivesse levado uma grande surra — uma surra de pau, dada para matar. Somente então eu falei. "Vou sujar seu carro de sangue". "Foda-se o carro", respondeu o vulto.

— Foi um atoleiro perigoso — diz o pai.

O menino caminha até o mar para remover a lama das pernas e da calça.

— Areias movediças — ele diz por cima do ombro.

— Não creio — diz o pai. — Um simples atoleiro, um mangue.

Resolveram abandonar a praia, pegar a estrada marginal de terra e cascalho. A princípio as bicicletas avançam com maior velocidade apesar das pernas doloridas. Mas há trechos ruins, de lama e pedras pontiagudas. Os pedregulhos soltos no leito irregular dão à estrada aparência de rio seco de montanha, parecem cacos de vidro. As rodas da bicicleta resvalam, batem, o avanço torna-se penoso, já se sentem prenúncios de começo de fim de tarde.

— Pai, vamos chegar tarde?

— Parece que sim.

— Vamos chegar de noite.

— Talvez não.

Pedalam mais um bocado.

— Como é, batuta, já desistiu do Mar de Azov?

O menino ri.

— Quando chegar em casa vou direto para a cama — ele diz.

Quantos quilômetros faltam? Bem que gostaria de distinguir logo as formações graníticas, cobertas de limo e mariscos, que identificam na Praia do Sul o início do povoado do Pontal. Visto de cima, da estrada, o mar está mais verde, um verde concentrado de fundo de garrafa. E o mar desenrola incansavelmente seus fardos de algodão, que avançam paralelos até a metade da faixa da areia. Ali eles refervem e se dissolvem no refluxo. A praia adquire então uma faixa espelhante, de linóleo. Areia densa, firme, quase argamassa, onde os pés não afundam, onde os pés deixam apenas débil traço.

Meio entorpecido, não sabe direito como aquilo aconteceu. Sentiu somente o choque repentino da roda da bicicleta contra um obstáculo — e a dor no braço. As mãos soltaram-se do guidão, o corpo caiu de lado, o braço esticado chocou-se contra a pedra à margem da estrada. Não pode jurar, mas tem a impressão de que ouviu um estalo.

Sabe que houve uma desgraça. Por isso não se levanta logo. Limita-se a olhar o braço direito que agora parece encolhido, penso, como asa quebrada de ave. O pai corre até ele, ergueu-o pelas axilas.

— Calma — diz o pai. — Você quebrou o braço.

Ele estanca o choro.

— Chore se quiser, se isso lhe faz bem — diz o pai.

O choro sai entrecortado, sufoca palavras.

— Chorar alivia — diz o pai. — Já chorei algumas vezes.

— Mesmo quando cresceu? — ele diz.

— Mesmo depois de crescido. Já adulto. Agora, preste atenção. Vou rodar a parte inferior do seu braço para que o osso volte ao lugar certo. Para ajustar a fratura, ouviu bem?

— Sim, senhor. Vai doer?

— Vai. Quer que eu conte até três?

— Quero.

— Um, dois, três.

Uma dor lancinante.

— Agora — diz o pai —, você segura o braço com a mão esquerda. Aperte bem. Aqui. Assim mesmo.

O pai afasta-se, o suor pinga-lhe do rosto.

— Não saia daí, ouviu? Não deixe de apertar. Vou buscar socorro.

— Sim, senhor.

Volta mais de meia hora depois, traz algumas ripas de bambu, um facão e barbante. Apara as ripas no comprimento certo, brande o facão como se fosse plaina para desbastar a madeira. Aplicadas sobre a carne e fixadas pelo barbante, em nós fortes, as ripas substituem por enquanto o gesso que imobiliza membros fraturados. Por fim, o pai improvisa uma tipóia com o guardanapo em que trouxeram o lanche.

"Vou sujar o seu carro", ele diz. "Foda-se o carro", respondeu o vulto. Sentado quase à beira do assento, aprumado e formal como criança que pela primeira vez vai à escola, ele sentia o sangue escorrer da boca, dos lábios, de feridas nas têmporas e perto dos olhos. De quando em quanto baixava as mãos e via o sangue fluir por entre os dedos, pingar no assento, no chão do automóvel, enquanto nas costas das mãos e no punho a coagulação já começava. Se o deixassem assim sentado, em lugar calmo, ele acompanharia o lento escorrer de seu sangue, a inexorável dissipação de sua vida, pingo a pingo, sem fazer um gesto para estancar aquele fluxo, até desmaiar e apagar-se. Despertou em plena noite numa cama de hospital. A primeira coisa que viu foi uma grande mancha negra, de sangue pisado, numa das coxas. Quis mexer-se — a espádua direita doeu, as costelas pareciam furar a carne com os estilhaços de suas extremidades talvez partidas. Sentia o rosto inchado, um dos lábios estava muito grosso. Com dificuldade umedeceu a boca com a língua. Parentes que montavam guarda viram-no acordar do seu sono traumático, precipitaram-se. "Onde está minha mãe?", ele perguntou. Os parentes entreolharam-se. "Em outro hospital", responderam. "Mas ela está bem?", insistiu. Os parentes entreolharam-se outra vez. "Está reagindo bem", disseram. E então ele pensou: está morta. Nos próximos três dias continuou a pedir notícias da mãe. Disseram-lhe que ela levara uma pancada forte no peito, o médico havia operado. Mas que passava bem. E ele pensou ainda: está morta, sepultada. No quarto dia dos quinze que passou no hospital ele deixou de se informar a respeito da saúde da mãe. Os parentes estranharam, até que um deles, menos paciente, chegou e disse-lhe um dia, à hora em que as luzes se acendiam na cidade: "Sua mãe morreu". Ele nada disse. O parente insistiu: "Sua mãe morreu". Ele encarou o parente e respondeu: "Foda-se".

Chovia, lembrava-se que chovia.

Chuva miúda, uma peneira d´água. Esta última imagem ficou impressa em sua memória — a dos pingos miúdos no asfalto, uma saraivada de balas inaudíveis. Na cena seguinte ele se revê de pé, no meio de um mato ralo. Alguém acaba de erguê-lo e pergunta: "Você se agüenta sozinho?" Entre uma e outra cena, um lapso que espera um dia ainda preencher. Um censor empunhou a tesoura e cortou alguns metros do filme, ele pensa com um sorriso quase imperceptível, deitado na cama do hospital. Quando saiu ao fim de quinze dias e já podia movimentar-se com algum esforço, os parentes levaram-no a passeio para distraí-lo, casualmente mostraram-lhe a curva. "Foi aqui", disseram. "Seu carro derrapou, saiu da pista e desceu, capotando, a ribanceira", Ele olhou a curva que não era das mais fechadas, que sequer tinha aviso de curva perigosa. E tudo que pôde dizer então foi: "Curva boba".

A tarde começa a enternecer-se, quer dizer, abranda o calor, reduz a luminosidade, introduz o crepúsculo. O homem ao volante continua a trinta quilômetros por hora. Passa pela ponte de Cururupe, olha os enfezados arbustos do mangue à esquerda, observa que os sítios e as casas se tornam menos espaçados. Estrada deserta, limpa e seca. Nenhum animal vagando na pista, nenhum boi lerdo a cruzar o asfalto. Também não se avistam manchas de óleo que, em dia de chuva fina, são perigosas, derrapantes. A praia ao lado não passa de muda extensão de areia indiferente. Por aqui mesmo, o homem pensa, um menino caiu da bicicleta trinta anos atrás e fraturou o braço numa pedra. E o pai, eu me lembro como hoje, depois de voltarem à praia, ansiosos por avistar a Praia do Sul e o casario do Pontal dos Ilhéus, animava o menino: "Agora tá perto. É apenas um salto. Mais força nessas pernas, se não você nunca chegará ao Mar de Azov".

— Pai, eu não agüento mais — diz o menino.

— Agüenta, sim. Falta pouco.

O braço na tipóia, apertado pelas tiras de bambu, vai ficando dormente. Ele sente comichão na palma, no cotovelo. Um formigamento passa do antebraço ao cotovelo, propaga-se ao braço e à espádua.

— Pai, só um descanso. Um só.

— Está bem — diz o pai.

As bicicletas empurradas pelo pai tombam na areia molhada. Sentam-se. O pai passa a mão nos cabelos, examina o horizonte com olhar alheado.

— Daqui a pouco anoitece — diz.

Sentado com as pernas recolhidas, perto do lugar onde as ondas soltam suas últimas línguas, o menino descobre na areia sinais de vida. Os buracos de minúsculos diâmetro foram feitos por pequenos caranguejos brancos chamados graçuás. Disfarçam-se bem, têm cor aguada, parecem ter vários olhos. Percebem qualquer tentativa de aproximação, saem correndo de banda, muito ligeiros, enfiam-se no primeiro buraco que aparece. É preciso muita destreza para pegar um. Às vezes não estão ocultos em buracos. Ficam, apenas, à superfície da areia. A onda vem, lava a areia e revela o casco do graçuá. Não havendo indícios de perigo próximo, ele não se mexe. Continua por alguns segundos no mesmo lugar, aguarda o retorno da onda e então, em movimentos ágeis de suas pinças, entranha-se mais na areia. Ou então corre, oculta-se em lugar mais fofo. Há uns bem grandes.

— São muito sabidos esses graçuás — o pai diz.

— É verdade.

— Não podem cometer erros — diz o pai.

— Como assim?

— Um erro lhes será fatal. Já o homem, este pode errar. Mais de uma vez. Muitas vezes, até.

O menino ouve calado.

— Errando — diz o pai — o homem acumula o que se chama de experiência. Quer uma boa definição de experiência?

O menino balança a cabeça.

— Experiência é uma sucessão de erros. Eu me refiro, claro, a experiência de vida, que é mais do que vivência

— Então os mais velhos são os mais experientes — diz o menino.

— Às vezes. Aprendem com os erros que praticam, tiram lições de seus desacertos e suas desventuras. Sofrem.

— E depois?

— Depois, ficam sábios. Sabedoria é isso: o filtro da experiência.

— Pois eu pensava que sábio era o homem culto, doutor.

— Também, mas não necessariamente — diz o pai. — Para mim, sabedoria é o conhecimento direto e pessoal da vida. E cultura é experiência.

— Está bem — diz o menino. — Esses graçuás são sábios.

— Instintivamente sábios — diz o pai.

Ficam calados alguns instantes. A água já espalha no ar um toque de frio.

— Os velhos erram menos porque tiveram tempo de se aprimorar mais — diz o pai. — Mas não pense que sabedoria é privilégio deles, ou de todos os velhos deste mundo.

— Certo — diz o menino.

— E agora, batuta, vamos pra casa?

— Vamos.

Recomeçam a andar. A praia começa a apresentar pequenas poças das ondas.

— Robinson era sábio, pai?

— Era, sim. Ficou sozinho na ilha, defronte de si mesmo, e aprendeu a se conhecer.

Certas viagens inúteis ou desastradas, pensa o homem ao volante. Pois uma vez ele não embarcou para o Mar de Azov? Mas isso foi depois. Ah, pensa, enquanto calca mais o acelerador, quatro dias feriados, incluindo o Primeiro de Maio, e mais um que pretendia roubar ao trabalho. Quase uma semana. Então ele vistoria o automóvel, senta-se ao volante e parte. Pouco mais de dois mil quilômetros, ida e volta. O tempo de chegar, abraçar a mãe, dormir, conversar com a mãe, dormir, levar a mãe a passear, dormir, rever certas cenas, algumas paisagens, voltar. A estrada é uma fita que umas vezes se enrola em curvas, outras vezes se estende reta, igual, monótona. Viaja à noite, entra pela madrugada. Não ultrapasse quando a faixa for contínua. Grande declive. Verifique os freios. Curva perigosa. Início da faixa para caminhões. Fim da faixa para caminhões. Obras a trezentos metros. Obras a cem metros. Desvio. Abastecimento. Ponha um tigre no seu carro. Tranqüilometragem. Churrascaria Gaúcha, rodízio. Neblina. Serra. Quem observa a sinalização evita acidentes. Cuidado, animais na pista. Luzes baixas ao passar por outro veículo. Madrugada alta. Em gestos maquinais ele torce o volante para a direita, para a esquerda, freia, acelera, contorna um boi, uma vaca, evita atropelar um bezerro, um burro. Árvores adquirem configurações fantásticas à luz dos faróis. Cercas, casas, sinalizações, até a própria estrada, só se identificam a poucos metros de distância; somente ali, no último instante, ele sabe por onde continuar, qual a estrada real e a ilusória. Está chegando. Faltam quantos quilômetros? Não vai parar agora, quer dormir em casa depois de abraçar a mãe, de comer alguma coisa gostosa que ela com certeza vai preparar às pressas. Mas eu teria o direito de trazer de longe, de mais de mil quilômetros de distância, o meu tédio, o meu enfado, os meus pesares e fadigas, as minhas doidas alegrias, a minha violência? Não uma violência que eu porventura cultivasse, mas a violência de ritmo que me foi imposta lá, a violência na qual entrei aos poucos, sem perceber, e que aos poucos tomou conta de mim, ditou os meus humores e os meus atos, transformou-se sem eu perceber em segunda natureza. Teria eu o direito de trazer da cidade grande uma parcela da violência coletiva, indesejada por mim porém absorvida à revelia, e distribuí-la então por pessoas sossegadas, que, pelo menos, aparentavam viver em paz? Teria eu esse direito? De modo algum — e creio não tê-lo exercido. E no entanto fui o escolhido pelo Anjo da Morte. Sabe, mãe?, diz ele, agora pisando mais fundo no acelerador, rumo ao Pontal dos Ilhéus, com aquela pressa com que, um dia à noite, cinco anos atrás, largara-se pela rodovia interminável, sabe que eu embarquei para o Mar de Azov? Peguei um avião da KLM em Amsterdã, depois de ver os últimos originais de Van Gogh que ainda não conhecia, incluindo aquele medonho trigal sobrevoado por um bando de corvos. O avião encheu-se de indonésios morenos de cara redonda, árabes de turbante e filipinos e malásios irrequietos. Saltei em Atenas, meti-me num hotel e pela manhã, ao abrir o cortinado, quase bati a cabeça nas ruínas da Acrópole, aquelas mesmas dos meus livros antigos de leitura. Nunca estive tão perto do Mar de Azov, mãe. Apenas eu não entendi então que aquela viagem, aquela busca, aquela consulta eram inúteis. Eu não entendi, somente agora, que fui ao Mar de Azov uma e várias vezes, já deixei que suas águas me escorressem por entre os dedos.
O automóvel dispara. Pontal está perto. O homem vê mais embaixo, à direita, as primeiras formações graníticas onde escachoam as ondas, levantando espuma. É a Praia do Sul. Ela continua um pouco, vai dar no morro em que outrora havia um farol e que era habitado por uma reclusa ordem de frades. Ao sopé do morro também chega, do outro lado, a Praia do Pontal, que principia, a bem dizer, na foz do rio Cachoeira.

— Desistiu? — diz o pai.

O menino está caído sobre o seu lado bom.

— Desisti — diz ele.

— Somente os velhos, os muitos velhos desistem — diz o pai.

Sustenta com a mão esquerda as duas bicicletas engatadas pelos guidões e levanta o menino pela axila.

— Isso, força. Pode se apoiar forte — diz o pai.

Enlaça-o com o outro braço, entram assim unidos no Pontal, pela rua da praia, perto do morro do farol.

— Mãe vai levar um susto quando nos ver — diz o menino.

— É verdade. Ela só nos esperava amanhã.

— Vou dormir logo — diz o menino.

— Depois que eu chamar o médico — diz o pai.

Passam vagarosos, arrastados, sob a tamarineira e o pé de fruta-pão.

O menino sente o sono fechar-lhe os olhos, forçar-lhe a boca em longos bocejos.

— Pai, viver é difícil?

— Claro que é — diz o pai.

— Difícil como o quê?

— É difícil assim como... como transportar na mão um copo cheio de água, por exemplo.

— A água não pode derramar — diz o menino.

— A água não deve derramar — diz o pai. — Mas transborda, sim senhor, por mais que se tenha cuidado.

— E daí? — diz o menino.

— Carregue sempre água, que é a melhor das bebidas, a única inofensiva — diz o pai.

— Sim, senhor.

— Cuidado para não levar soda cáustica, formicida ou simplesmente um copo de amargura — diz o pai.

— Sim, senhor.

— Se levar veneno, todo cuidado é pouco para o copo não entornar — diz o pai.

— Sim, senhor.

— Assim você chegará um dia às margens do seu Mar de Azov — diz o pai.

— Sim, senhor — diz o menino.

Está em casa, o mar do Pontal apenas rumoreja às suas costas. Empurra a porta.

— Mãe — ele diz.

Ninguém responde. Ele vai entrando.

— Mãe, voltei.