JULIANA


                                cor de chocolate
                                   cor de caramelo queimado
                                      cor de Coca-Cola espumando

ou de café, tanto faz.

Há várias semanas que nos encontrávamos naquela maldita Estrada de São Lázaro. Que ainda não era de todo maldita, mas apenas uma droga de rua como outra qualquer, entre tantas que jamais me atraíam, mas, porém, contudo, no entanto, todavia, sempre atrapalhavam o andar: tinha-se de passar por elas se espremendo entre os carros estacionados nas calçadas e os que trafegavam no exíguo asfalto. Então, enfim, me acompanhem, isto é o certo: naquele instante inicial, a Estrada de São Lázaro era só mais uma destas ruas soteropolitanas impossíveis de se passar em paz. E eu tinha que andar por ela pra assistir aulas suprimíveis ? como todas as aulas, aliás ? na Faculdade de Filosofia, da Universidade Federal da Bahia.

Ufa! Como cansa tanta referência assim.

Façamos uma pausa para uma longa respiração: 1, 2, 3, 4, 5, 6...

Ok.

E daí?

Daí, nada. Isto é, por enquanto.

A menina, a da cor, a que eu falava acima, estudava também lá.

Não, não era minha colega, apenas estudava lá, em São Lázaro: o seu horário de saída coincidia quase sempre com o meu de entrada.

Não quero descrevê-la, porque não me interessa lembrar nada com exatidão, correr atrás de detalhes que causam sofrimentos, essas coisas humanas, masoquistas, banais. Se muito tento, me assaltam à mente as cores misturadas dos carros estacionados, dos carros em movimento, de roupas & caras de pessoas, dos pedaços de chão, do mar escaldante, longe, em Ondina, como a nos convidar: venha, abandone tudo, escape da inutilidade das coisas e mergulhe.

Ah, o mar de Ondina visto do topo da Ladeira de São Lázaro! O brilho metálico das ondas às 14 da tarde! Como eu resistia?

Não sei. Simplesmente: eu resistia.

Sei que não a buscava, pelo menos no princípio, não. Eu não amava Juliana, digamos que: eu apenas ia andando no meu campo de ação, e ela, ela ia no campo dela também. Quando nossos olhos, vez por outra, se cruzavam, os meus deixavam escapar qualquer coisa como: ela está de cabelos molhados hoje, bonita esta combinação de vermelho com roxo, ou de branco com azul, ou de amarelo com marrom, enfim, sei lá, Juliana variava demais nas cores.

Porém, no entanto, todavia: um outro dia diferente vem, salta na memória, muda o rumo da normalidade dos nossos encontros. Neste dia, eu estou entrando pelo portão escancarado e Juliana não está saindo com livros & pasta na mão; eu estou procurando sua cor & seu sorriso, mas inúmeras meninas passam sem ostentá-los pra mim; eu estou sentindo uma coisa estranha no estômago e estou indo em direção ao banheiro; eu estou abrindo a porta do banheiro e vendo um riso na penumbra das 3 da tarde ? porque, sim, todos os banheiros da UFBA têm penumbra de má arquitetura às 3 da tarde; estou pondo as mãos nos bolsos só pra fazer gênero, estou pensando e dizendo: que coisa gostosa te ver por aqui.

Então, a nova pausa.

O olhar e a cor de Juliana se expandindo pelo espaço mínimo do banheiro público. Pelo espaço mínimo de luz.
Encostei-a na parede.

O mútuo silêncio entre nós. Resultado da febre tardiamente percebida, talvez.

Grudada à minha, a concha dela nos apertava tanto que ficamos visivelmente marcadas depois. Quem quer que estivesse por ali e nos olhasse, sem cera no cérebro e sem necessariamente muita malícia, perceberia.

Mas não sei se havia alguém a nos olhar, a nos medir.

Ela saiu na frente, amarrando os cabelos, eu fui beber uma Coca. Não nos sorrimos. Acho. Apenas nos separamos.

E, de repente, naquela tarde, desisti da aula. Estava me sentindo bem, porém, cansada de afogar minhas tardes em atividades alheias. Qual era de fato meu desejo naquele instante? Estar com ela. Com Juliana. Não perder mais um milímetro desse nosso tempo que, sabe-se o mundo inteiro, escorre tão facilmente, feito queda de chuva. Por isso, disse pra mim mesma: não, vida inútil, hoje não. Saindo, quase em seguida, em busca dela, de Juliana, louca pra alcançá-la, quem sabe tomar um sorvete, quem sabe dizer as palavras que não nos dissemos meia hora atrás, quando nos atracamos feito cobras, no banheiro.

Mas já se sabe: a vida se desdobra de maneira inacreditável sem que sequer tenhamos tempo de acompanhar a linha racional de seus acontecimentos. Talvez, nem haja racionalidade alguma nos acontecimentos da vida, é verdade, é possível, enfim, que posso dizer?

Não sei, realmente, não sei.

Falei bobagem com um colega que ia chegando, que ele tava engordando, já dava uns bifinhos, eu estava indo embora, desistira de assistir aula, queria mais era tomar sorvete, ele vinha comigo? Não? Então a gente se encontrava domingo no Cinema do Museu. Ok?, eu disse, tá certo, ele respondeu, jogamos beijinhos no ar. Até ali, por mais que não tenha boa memória, sei, acho, desconfio, pressinto: até ali o ar era normal. Só começou mesmo a rarear lá fora, quando vi Juliana ao longe.

O que vi, de fato?

Um baque, uma queda. Larva queimando a pele, os olhos.

O que vi é suficiente pra não me deixar mais em paz: Juliana caída no asfalto cinza, esburacado. Muita, muita gente em torno dela. O motorista do Corsa verde-abacate saindo de dentro do carro nervoso, dizendo a todos que, por Deus, ele não tivera culpa, todos ali eram testemunhas, ele não tivera culpa nenhuma, todos viram, não?

Fui pra cima dele feito bicho, com cadernos, pontapés, ódio, cuspe, palavrões. As pessoas se dividiram: ele não teve culpa, ele teve, sim. Me seguraram, me pediram calma.

Não sei quem levou Juliana às pressas pro hospital. Sei que esqueci o ódio do cara e corri atrás de um táxi. Juliana não vai, não pode morrer, era o que eu pensava, alto, pro mundo inteiro ouvir. Mas ali só havia o taxista, que do meu mundo não quis saber. Apenas dirigia. Dirigia por uma cidade que não acabava. Um ônibus da BTU quebrado atrapalhava o trânsito na subida da Cardeal. Xinguei-o, xinguei a empresa, a prefeitura, todos os passantes, daquela até a 5ª geração. Desgraçados, malditos, estavam arruinando minha vida, xingava e dizia que o HGE era, sem dúvida, o pior hospital do planeta.

E era pra lá que ela ia. Foi pra lá que levaram Juliana, naquele dia estranho, confuso, incomum.
De repente, eu já não estou dentro do táxi, eu ando, ando, ando a pé.

Sei que não é mais o mesmo dia, porque não há sol e chuvisca pra caralho no Campo Santo.
Eu subo a ladeira e olho o relógio, cuidando para não chegar atrasada.

Tenho pouco dinheiro no bolso, peço ao florista pra fazer desconto pra uma pobre estudante de Filosofia, mostro-lhe a carteirinha da UNE.

Não. Não era possível, ele não fazia desconto pra estudantes.

Só pude comprar, então, meia dúzia de rosas. Rosas vermelhas que perfumam, que se oferecem a amantes, eu comprei para ela.

Abri caminho no meio dos estudantes que abarrotavam o Campo Santo.

Por causa dos meus cabelos curtos, sumindo dentro do boné, minha falta de seios visíveis, meu desajeito em andar, um repórter veio e me atalhou, perguntando:

? Ei, você era namorado ou amigo de Juliana?

Namorada, eu quis dizer, e detesto a porcaria de telejornal que você faz.

Mas não, não era o caso, não precisava atacá-lo, não precisava responder, não precisava pensar. Tudo começava a ficar mais lento pra mim.

Acho que vi Juliana umas 100, talvez 200 vezes, no portão da UFBA, eu chegando, ela saindo. Só nos amamos uma única vez, no banheiro da faculdade, num beijo com gosto de atraso, num abraço pedindo eternidade, pedindo mais um pouco, pedindo pra sempre.
Quis falar com ela uma única vez. Aquela, justamente aquela, quando a vida, de súbito, decidia levá-la pro inalcançável, pro oculto, pra bem longe de mim.

E como poderia eu saber, naquele momento, se os pais dela eram o casal do lado esquerdo do caixão: ela de óculos escuros e cabeça baixa, ele de terno e choro escorrido? Ou o casal do lado direito: ela amparada por uma senhora mais velha ? a avó de Juliana, talvez? ?, ele de olhos fixos no rosto sereno da filha, que emergia, cercado de flores brancas?

Não poderia, não pude, não sei.

Fiquei cada vez mais lenta, como quem se move com ferraduras ou grilhões.

Entregar as flores vermelhas a uma Juliana que não estava mais ali pra agradecer.

Tocar a face dela sem vida.

Não segurar a tristeza, deixar escorrer devagar, bem de mansinho a dor.

Pensar sem querer que a cor de café com leite estava desfeita.

A cor de Coca Cola espumando. A cor de chocolate quente.

Nenhuma palavra dela eu guardei. Não sei sequer se houve qualquer palavra de sua boca no instante em que estivemos a sós.

Sei, porém, acho até que isto deve ser eterno: sei e sempre saberei do gosto, do cheiro, do gozo elétrico dela grudado ao meu.

Haverá de bater, junto com a saudade, um desejo forte de dizer o que não disse pra ela, aquela única vez possível, dentro da escassa claridade das 3 da tarde num banheiro público, dizer alto pro mundo inteiro ouvir: puta-que-pariu, como você é gostosa, Juliana.

É o que eu deveria ter lhe dito: você é linda, divina, perfeita, maravilhosa. Você & sua cor de chocolate quente. Você & sua cor de Coca-Cola-espumando-com-gelo. Sua cor de caramelo-queimado. Ou de café-com-leite. Ou de café puro. Enfim, tanto faz.

Este conto faz parte de O livro dos elefantes ou como não morrer entre as estrelas, ainda inédito. O conto ganhou menção honrosa no Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, da Revista Cult.

Állex Leilla – www.allexleilla.blogspot.com