BODE VELHO



Era um burro baio, com o pêlo mais tirado para a cor comum aos bodes sertanejos, ou seja, amarelo ouro desmaiado, puxado a castanho. Daí o seu nome: Cabrito. Era um burro, ao contrario da maioria dos membros da chamada sociedade de consumo de hoje, muito inteligente. De uma inteligência ponderada e tranqüila. Cabrito era muito calmo e manso de coração, como o é também o filho do deus dos burros. Nunca dava um coice e só não oferecia a outra face, se em uma delas fosse chicoteado, porque nos burros os golpes são dados na anca. E as ancas não se devem oferecer, sob o perigo de se colocar em dúvida a masculinidade – ou macheza, para o caso dos burros – ademais elas estão aí, uma a cada lado, como dois planos inclinados, ao alcance de quem vai montado ou que por detrás vai tocando.

Sei que para muares há várias designações. Os burros, que são da espécie dos mus, são híbridos, por ser o resultado da cruza do cavalo com a jumenta ou do jegue com a égua. Por isso são estéreis, ou seja, não se reproduzem. As fêmeas são chamadas de mulas. Aos machos, alguns o chamam de burricos, ainda que na minha terra burrico sejam os jumentos. Há outra controvérsia com seus nomes, por serem animais muito resistentes tanto no trabalho de tração, de carga ou mesmo de montaria em regiões montanhosas, existe uma tendência à generalização e todos os animais de carga dessa espécie são chamados de mulas, independente do sexo. Mulas de carga, ou simplesmente bestas de carga.

Mas isso são generalizações técnicas, que não vem ao caso nesta história. Como eu só tinha dez anos, Cabrito era minha cavalgadura preferida, nele tinha aprendido a montar, e nele ia a toda parte, como agora que me dirijo à fazenda Santa Maria, onde nasci, de propriedade do meu avô paterno, buscar laranja-cravo. Era a época e havia muitas, em muitos pés. Embora eu tivesse apenas dez anos, era um menino do sertão, e conhecia bem a estrada real que se dirigia até Rio Branco, às margens do rio de Contas, passando pelo vilarejo chamado de Pulga do Campo, onde tinha uma rancharia e aonde eu fora muitas vezes comprar pequenas coisas, a mando de minha mãe, em uma venda que lá havia. Mas, dessa vez, não me dirigia para lá. Nem mesmo cogitava em dar uma escapada – lá, na venda, costumavam aparecer cantadores, com suas violas e seus improvisos muito me atraiam. Ademais, não era sábado, dia que tais aparições ocorriam.

Dobraria à esquerda, antes de chegar a Pulga do Campo, entrando pela cancela da entrada da Santa Maria, logo depois do velho pé de cajá mirim – de cujo tronco se retirava a grossa casca para confeccionar efêmeros anéis – atravessaria a pequena roça de cacau, passava próximo à casa onde nasci, seguiria um pouco mais, e chegaria ao laranjal. Assim pensei, assim procedi.

A impressão que me causavam as árvores cobertas de frutos, quase todos maduros, nunca me abandonou. Que lindos são os frutos quando se é criança...

Contemplei-os, por instantes. Mas logo a contemplação estética deu lugar à necessidade de saboreá-los. Apeei da sela e Cabrito ficou ali, por perto, cortando o capim tenro com seus potentes dentes. Comecei a chupar laranjas, pegava as maiores, algumas, colocava no saco, levando para esse fim, e chupava-as, chupava-as, e chupava-as sem parar. Chegou um ponto que o estômago dava sinais de já estar satisfeito, mas a gula não mo permitia parar, apenas as chupava mais lentamente. Nesse afã, comecei a notar que a tarde desvanecia. As sombras que anunciam a aproximação da noite, no mato, são lúgubres, assustam. Tratei de colocar o saco sobre a cela, para atá-lo na garupa de Cabrito. Isso resultou em um enorme esforço. Estava pesado, o corpo pedia um repouso para a digestão, mas a noite ameaçava a chegar, e a chegar rápido. Mas ainda não tinha razão para desesperar-me. Com muito esforço e sentindo um certo mal-estar, consegui meu intento. Desespero começou a chegar quando descobri que não conseguia subir à sela, o corpo estava muito pesado. E eu tentava e em vão tentava. O pânico aproximando-se. Cabrito, com sua costumeira paciência, observava-me. Novas tentativas. Ufa! Consegui, finalmente.

A volta foi tranqüila, a mesma paisagem minha conhecida, a casa onde nasci, a represa à esquerda, em baixo, no fundo do vale, a pequena roça de cacau, a cancela, o centenário pé de cajá na estrada real, o trecho este que era calçado de paralelepípedos, o riacho, à esquerda coberto de tabuas, a casa do coqueiro – onde nascera dois dos meus irmãos, antes de mim. O coqueiro, que parecia tocar no crepúsculo. Nisso, pensava, mais não via claramente nada, a paisagem se descortinava a minha frente por entre névoa, porque a barriga cheia, o passo cadenciado de Cabrito, fizera-me dormitar. Eu apenas imaginava a estrada, minha conhecida, se abrisse os olhos veria os cajueiros, as jaqueiras, os abacateiros. Mas eu continuava cochilando, imaginei a curva, fazendo aparecer a casa grande da fazenda Veneza, indicava que, logo que atravessasse a ponte do sangrador da represa, estaria na segurança em casa, entregando as laranjas e contando lorotas sobre minha proeza e ouvindo minha mãe dizer que já estava ficando preocupada.

Estava neste ponto da minha viagem de volta, quando senti que uma mão passava um lenço para limpar minha boca. Foi tão suave o gesto que não me assustei, continuei cochilando. Depois ouvi uma voz ainda mais suave:
— Vamos tomar logo seu leite, vovô, bem quente e comer seus biscoitos. Depois vou trocar seu fraldão e vamos rezar para não acontecer nenhum imprevisto, e que o vovô possa dormir bem sequinho a noite toda.

Mas o menino queria falar das laranjas, de Cabrito, da casa onde nasceu, da fazenda Veneza, que era do seu avô, onde ele estava chegando montado em um burro, trazendo um saco de laranjas. O menino queria dizer que ele não era seu próprio avô, não era nenhum avô, que ninguém podia envelhecer assim, tão de repente. Quis gritar: Eu não sou meu avô. Mas só consegui balbuciar “Cabrito”, “Cabrito”.

Ouviu ainda a voz murmurar com muita doçura.

— Qual cabrito qual nada, vovô, vamos entrar logo, que está ficando frio e o sereno da tarde faz mal a bode velho...


Araken Vaz Galvão
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