A DOCE LEI DOS HOMENS
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C´est
la douce loi des hommes
De changer l´eau en lumière
Le revê en réalité
Et les ennemis en frères.
Paul Eluard |
Era
gostoso caminhar, os pés descalços sobre a areia úmida,
espiando o sol que ia nascendo, bem longe, atrás das palmeiras
e do farol de Itapuã. Estava como num encantamento, mais
ou menos igual ao daquela tarde em que, na colina verde de Mont‘Serrat,
senti o corpo trêmulo da primeira namorada. Ou quando, uma
manhã, descobri o mistério e a maravilha de um sorriso,
o sorriso do meu primeiro filho.
Assim
eu caminhava.
Tudo
desapareceu quando vi o homem sobre a areia. Esqueci o sol e o mar,
as espumas que se desmanchavam na praia também esqueci; como
se tudo desaparecesse. Como se a vida sumisse de repente e, substituindo-a,
surgisse a morte.
Ele
estava caído sobre a areia. Já não me recordo,
exatamente, se andei ou se corri. Lembro que procurei socorrê-lo,
mas logo o vi morto, ou melhor, tive a impressão de que estava
morto. Voltei a ouvir o mar, e, de novo reparando nas espumas que
se dissolviam a seus pés, imaginei que talvez fosse um náufrago
ou um suicida. Estava vestido, dos sapatos à gravata.
Agora,
tantos anos passados, já não lhe recordo a fisionomia.
Relembro alguns dos traços essenciais. Mas, os detalhes configurativos,
esses elementos tão definidores, eu os esqueci. Não
era velho. Talvez uns 28 ou 30 anos. Um pouco magro, mas não
o bastante para ser notado. Numa palavra: era um homem comum, sem
nada de extraordinário, um desses homens que fazem a multidão
e nela se integram. Sei, ademais, que era sereno, sem angústias
aparentes. De sua serenidade jamais hei de esquecer.
Apalpei-lhe
o peito, buscando o coração. Queria saber se estava
morto. Ele, então, sorriu. Espantei-me. Devo ter revelado
terror, porque procurou tranqüilizar-me:
—
Fique calado!
Balbuciei
qualquer coisa e ele, de novo, sorriu. Um sorriso calmo, espontâneo,
um sorriso que seu rosto tornava necessário, um sorriso...
Não sei bem explicar: direi apenas, sem temer exageros, que
nenhum outro rosto poderia sorrir como o dele. Sem beleza, mas sereno,
algo infantil, um pouco feminino talvez.
Ainda
deitado, com os olhos no céu, pediu-me:
—
Por favor, jogue fora esta caixa. Jogue no mar.
Em
uma caixinha de pastilha. Fiz-lhe a vontade e ele suspirou. Depois,
disse:
— O senhor nunca me viu.
Confirmei,
batendo a cabeça.
—
Talvez — acrescentou — o senhor nunca mais me veja.
—
Depende...
—
Não, o senhor jamais me verá novamente. Salvo...
—
O quê?
Sorriu
uma vez e disse com misteriosa certeza:
—
De qualquer forma, o senhor jamais me esquecerá.
Levantou-se,
sacudiu a roupa e pediu que eu o acompanhasse. Obedeci, e quando,
na curva da estrada, um ônibus apareceu, ele falou com rapidez:
—
Por favor, diga-me seu nome e endereço.
Mas
uma vez obedeci. Atônito, voltei à praia e, ao chegar
onde o tinha encontrado, vi-me com um embrulho nas mãos,
um embrulho que ele me tinha dado.
Agora,
o administrador do cemitério, as famílias dos que
morrem, os médicos que são legistas, meus parentes,
com exceção, apenas, de minha esposa — agora,
talvez eles pensem que sou um louco.
Antigamente
eu não lia, nos jornais, as notícias de crime. Sempre
as odiei. Entendo que, apresentadas com sensacionalismo, mal escritas,
desumanas pelos objetivos que perseguem, elas estimulam novos crimes.
Sobretudo se se relacionam com suicídios.
Contudo,
depois que o encontrei, eu devorava essas notícias, atento
aos seus menores detalhes, e sempre que lhe presumia a participação,
num crime ou suicídio, notadamente suicídio, eu ia
pessoalmente verificá-lo. Ah! Quantas vezes me reencontrei,
sofrendo terrivelmente nos espetáculos degradantes das necropsias!
Quantas vezes senti, contra meus olhos, dezenas de olhos que me
feriam, nos enterros a que compareci, intruso e desvairado, querendo
encontrá-lo.
Nunca
me disseram, jamais tiveram a audácia da menor alusão,
mas eu sentia que os parentes tratavam-me como a um estranho, sem
naturalidade, e, por cúmulo de azar, o administrador do cemitério
veio morar em minha rua, a todos falando que eu, mais de uma vez
pedira-lhe que abrisse os caixões de modo a permitir-me ver,
com meus olhos, os rostos dos mortos.
É
mesmo provável que meu filho mais velho ache estranho —
ou melhor, achasse estranho — que eu lhe desculpasse tudo,
até mesmo folhear meus livros, tudo enfim, menos tocar, sequer
tocar, naquele embrulho. Foi como uma maldição. Agora,
felizmente, já estou livre. Repito: reencontrei-me. De novo
sou um homem tranqüilo, de novo compreendo o velho Gorki afirmar
a nobreza da palavra homem, a beleza de seu significado.
Creio
que, até agora, não me fiz entendido, como desejo.
De modo que é melhor contar a história, passo a passo,
tal como as coisas sucederam.
Já
assinalei, que, quando ele partiu, no ônibus, fiquei de posse
do embrulho que me havia entregue. Talvez não me tenha dito
nada. Na realidade, tenho a certeza que não falou. Mas, dominou-me
a convicção — de onde nasceu, não sei
— de que eu não deveria abrir o embrulho antes que
mo ordenasse. Assim decidi, não obstante estar igualmente
convicto de que jamais o tornaria ver.
E
guardei o embrulho como se fora um objeto sagrado, não o
violando. Assumira, comigo mesmo uma obrigação natural,
sem imposições, senão as que me ditavam a consciência
e, talvez o coração.
Alguns
anos se passaram, não sei quantos. A partir daquele fim de
madrugada, quando o encontrei, perdi, em certa medida, a noção
do tempo. As semanas foram dias, os meses foram os anos. Anos de
angústia e desespero, dias e noites terríveis ao longo
dos quais, sem razões que o conhecimento explicasse, transfigurei-me,
perdi a tranqüilidade, o bom humor, entregando-me a prolongados
momentos de solidão, essa solidão que nos conduz a
olhar para dentro de nós mesmos, valorizando cada detalhe,
cada minudência. Mas, não era a solidão calma
que permite a análise ponderada, a valorização
consciente. Era um exame turbulento, produzindo angústias,
crescente intranqüilidade, porque, nada, absolutamente nada,
explicava a mudança do meu comportamento. Não explicava
porque aqueles rápidos minutos em que o conhecera tinham
sido tão poderosos e tão significativos, exigindo-me
tanto. Não explicava a certeza com que ele me falara (“...
o senhor jamais me esquecerá”) e o motivo porque, como
um tolo, obedecia; e, obedecendo, modificava completamente a minha
vida. Às vezes exprobrava-me, tinha ímpetos de agarrar
o embrulho e atirá-lo ao fogo, libertar-me. Mas eram ímpetos
passageiros; e, logo após, a lassidão voltava, as
angústias vinham em seguida — e eu me prostrava àquela
incerteza, àquele estúpido desespero. Essa hesitação
passou a marcar minha conduta, em tudo, durante dias, semanas, meses
sucessivos, e eu tinha consciência de que minha esposa sofria
comigo, sem saber da origem de tudo aquilo e mais sofria porque
ignorava o remédio que me poderia salvar. Ela apenas sabia
do embrulho, sabia que ali estavam os motivos de meus sofrimentos,
nada mais. Quanto de tortura suportou, sem uma palavra de protesto,
sem um gesto de recriminação! Presumo o que não
imaginou, e, imaginando, o que não desejou fazer para ajudar-me,
inutilmente.
Uma
noite, a vi inteiramente mudada, como se soubesse de tudo, como
se ela própria tivesse vencido a angústia. Surpreendi-me,
sobretudo porque ela sorria com desvelo. Perguntei:
—
Alguma coisa?
—
Sim, uma carta — e de novo sorriu.
—
Onde?
—
É dele!
A
princípio revoltei-me e quase gritei:
—
Quem mandou abrir?
Muito
calma, como um médico a convencer um enfermo, ela respondeu:
—
Você sempre me autorizou a abrir suas cartas.
Veja:
nada distingue esta das outras. O envelope comum, o seu nome e o
endereço escrito a máquina, nada que...
Consegui
dominar-me e pedi:
—
Perdão...
Ela
sorriu, seus olhos azuis brilharam de alegria. Caminhou em direção
ao meu gabinete. Depois de entregar-me a carta, pretextou algo (não
me recordo o que) e saiu. Com sofreguidão comecei a ler...
A carta? Vou transcrevê-la:
“Amigo...
Você
receberá, dentro de pouco tempo, notícias minhas.
Não se inquiete. Pesa-me o remorso de ter transformado sua
vida, tirando-lhe, talvez, um pouco, de calma, acrescentando, às
suas preocupações cotidianas, uma outra preocupação.
Vi-lhe os gestos, naquela aurora, junto ao mar. Vi-lhe o terror,
mas não apenas o terror, nos olhos, quando você me
julgou morto. Vi que você não procurou saber quem eu
era, quem eu sou, para socorrer-me. Compreendi, então, que
você vê no homem, antes de tudo, um semelhante. Não
direi que pessoas como você sejam raras. Ao contrário:
acredito, e minha experiência de vida o comprova, que todos
os homens são bons. A vida — essa vida que vivemos
— é que os modifica, por força de razões
as mais diversas. A índole, como fenômeno próprio
de cada pessoa, é uma ficção, desde que se
isole essa pessoa do conjunto social. Na praia, o primeiro que me
encontrou — era noite ainda — apalpou-me o coração,
não para senti-lo bater, para encontrar vida ou morte. Buscava-me
o bolso, e no bolso a carteira. Levou-ma. Um outro, ao ver-me caído,
murmurou — “um afogado!” – e correu, tomado
de medo. Creio que não falou a ninguém. Depois, você
apareceu. O primeiro, um ladrão; o segundo, um covarde; o
terceiro, um homem.
Por
isso eu lhe confiei o pacote. Não sei porque, tinha a certeza
— devo continuar a tê-la? — que você não
o abriria buscando seu conteúdo. Explico-lhe agora: são
cartas. São cinco cartas. Repito: tenho certeza que você
não as violou, não as leu, e essa certeza provém
de uma suposição que me anima: a de que você
e eu somos, de certo modo, iguais.
São
cinco cartas de um suicida. O suicida fui eu. Será que você
considera o suicídio como um ato de covardia? Creia-me: Existem
momentos em que somente a morte salva, somente a morte remedia.
Pensei ter vivido esses momentos, e busquei, na praia, a morte.
Talvez deva dizer que sou um ex-suicida. Porque sobrevivi àqueles
momentos. Imagine isto: um homem constrói toda a sua vida
acreditando numa certeza, a ela se sacrificando, matando sentimentos
profundos, sufocando desejos, justificando erros. E, de repente,
todo o mundo que construía, no plano ideal, explode. A certeza
era uma farsa. Talvez um cínico, diante de tal problema,
dissesse: “bem, amanhã é outro dia...”
Talvez um calculista frio, mestre na análise de sentimentos
e imune a paixões, um a um, todos os aspectos do problema,
considerasse suas causas e suas conseqüências, permitindo-se
uma autocrítica percucientíssima, no fim do que se
consideraria disposto a outra, repetindo Camões “muda-se
o ser, mudam-se as substâncias...” Eu não. Porque
sou como o poeta, eu sou todo coração!
Por
que sobrevivi? Por que não caminhei águas adentro,
atendendo ao que alguns dizem ser o chamado do mar?
Não
me creia louco. Escute: quando eu buscava a morte no mar, no mar
havia vida. Compreende? No mar havia jangadas, nas jangadas os pescadores,
havia lua no céu, o vento batia nas folhas dos coqueiros,
eu ouvi cantigas de crianças, de todas as crianças
do mundo eu me lembrei, desejando que se dessem as mãos e
cantassem a cirandinha... Foram momentos magníficos e eu
renasci para a vida. Volvi-me todo para mim, apaixonado, apaixonado...
Compreenda:
não era aquele o momento de morrer. Não era aquela
a minha morte.
Não
me quero alongar mais. Se, porventura, você for como eu —
assim acredito — toda essa explicação será
desnecessária. Você também se voltará
para dentro de si e as coisas aparecerão claras, lúcidas.
Um
abraço, um caloroso abraço. Recomende-me à
sua esposa. Têm filhos? Se vocês os têm —
desejo que sim — façam com que cantem rodas, cantem
a história do cravo e da rosa, façam com que compreendam
que a suprema alegria da vida é a de poder sonhar sem dormir,
sonhar como eu sonhava, naquele começo de dia”.
A
carta não trazia assinatura, senão um garrancho, um
J imenso, seguido de um a ou um o. Não sei bem. O que é
importante, todavia, é o seu PS. Assim:
“Queime
as cartas, todas as cinco cartas”.
Queimei-as
e, quando o fazia, minha esposa reapareceu. Ainda sorria, e como
eu sorrisse também, olhando o fogo muito belo, ela perguntou:
—
Ele parecia doente?
Respondi:
—
Não! Ao contrário...
—
Lembro-me daquela madrugada. Falei mesmo que você cometeria
uma imprudência se saísse, para a praia, apenas de
“short”. Recorda? Depois você voltou, trazia e
embrulho, todo machucado. Não fizemos o nosso passeio...
Interrompi-a:
—
Sairemos agora!
Os
garotos — são três — dormiam. Andamos como
namorados, de mãos dadas. A lua iluminava a praia, o mar
cantava suas canções, o vento batia nas palmeiras
e elas dançavam. Nem por um minuto ousamos falar. Belo é
o mundo do silêncio, quando se ama. Os olhos libertam toda
a sua riqueza de expressão, as mãos valorizam ao máximo
os seus movimentos, um simples gesto substitui todo um poema. E,
depois, a calma invade tudo, o mundo desaparece — apenas ficam
os amantes, as águas, a noite, a natureza.
Publicado
em: A Ostra Azul. Organização Guido Guerra.
Salvador: Artes Gráficas, 1998.
Ariovaldo
Matos (1926-1988)