Metropole TV entrevista o escritor Carlos Ribeiro

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Despertar político:

A entrevista, publicada na TV METRÓPOLE, traz uma declaração incompleta e parcialmente verdadeira. O meu desconhecimento em relação à ditadura militar refere-se apenas ao período da minha infância e início da adolescência (1964 a 1974). Ao entrar na faculdade de Jornalismo, em 1977, participei de assembleias e de duas grandes passeatas que foram violentamente reprimidas pela Polícia Militar. Sobre elas escrevi o seguinte trecho do meu romance O chamado da noite:“(…) porque a verdade, desculpem a minha monstruosa alienação, mas a verdade é que passei muitos anos achando que este é mesmo um país que vai pra frente, ô, ô, ô, ô, ô, e até hoje me lembro daquela musiquinha e fico vendo noventa milhões de patetas em ação pra frente Brasil, do meu coração, e acreditem, meus prezados não-leitores que só ouvi falar alguma coisa sobre os Negros Tempos da Ditadura quando, no primeiro ano colegial, em 1974, no Colégio Central, eu e o meu caríssimo amigo Geraldo, dando margem aos nossos nascentes pendores jornalísticos, resolvemos editar um jornalzinho escolar – o Pesquisa. O nosso brilhante jornal, tão candidamente muitíssimo bem comportado, nos trazia a grande vantagem do prestígio perante a direção do Colégio, que nos acolheu, como um Bom Pai, para nos orientar pelas sendas do Bem – e isto, como viríamos a descobrir depois, era necessário, porque havia, em algum lugar daquele Sagrado Templo do Saber, o Mal. O Bem tinha a cara de professores sorridentes, diretores envolventes, salas limpas, cafezinhos e uma agradável sensação de conforto e segurança. O Mal, por sua vez, se apresentou na figura de um aluno barbudo, com uma cara suspeitíssima, que, juntamente, com os seus sombrios companheiros, nos atalhou em algum dos inúmeros corredores da escola, com intenções malignas, querendo nos convencer a incluir no jornal informações estranhas sobre manifestações contra a tal da Ditadura – e foi aí, caro leitor, que ouvi pela primeira vez, com um misto de perplexidade e espanto, essa palavra que trazia consigo uma sombra e uma dúvida. Mas como acreditar que aqueles sujeitos tão mal encarados pudessem estar falando a verdade? Não estariam, ao contrário, querendo nos envolver em negócios escusos? Aliás, eu já vinha suspeitando que aquele cara era um… desculpe-me a palavra: um maconheiro (falo baixo pra ninguém nos ouvir). E, devo dizer, que não existia nada de mais terrivelmente demoníaco naqueles tempos do que os tais dos hippies maconheiros (aliás, estas duas palavras eram indissociáveis, pois todo maconheiro tinha que ser hippie, e todo hippie tinha que ser maconheiro, e como a palavra hippie tinha um significado assim meio vago, nada impedia que aquele barbudo pudesse ser também um hippie maconheiro, ou seja, um diabo chifrudo muito feio), e essas impressões acho que vêm da minha infância quando vi o nosso paraíso encantado de Itapuã ser invadido por aquela horda de homens e mulheres sujos e maltrapilhos, aos quais minhas tias e primas se referiam como a uma espécie de amigos do Canhoto, e o Canhoto, você deve saber, é um bicho muito do melequento, um malajambrado, um mosquento, um cafuçu, caneco virado, um canheta, um tinhoso, um coisa-à-toa, coisa-ruim, excomungado, exu, inimigo, malino, sarnento, um nem-sei-que-diga, e o hippie maconheiro era tudo isso e muito mais, mas tudo isso era cercado por um fascínio, por um mistério, e de vez em quando eu gostava de me deixar ficar pensando na hipas, pois ouvira dizer que elas faziam aquilo com qualquer um, até com menino, e nem preciso dizer como isso mexia com a minha imaginação, pois só mais tarde descobri que dentro de mim havia também um hippie que se amarrava num barato, mas essa é uma outra história, e o que eu quero dizer é que o barbudo – que depois vim a saber que, horror dos horrores, era também comunista, e além de hippie maconheiro, comunista, aí já era demais pra minha cabeça, pois o bicho era, então, o próprio Satanás em pessoa querendo me tirar do Caminho – Xô! E então comecei a querer evitá-lo, mas o diabo é que Geraldo deu pra ficar lá de ti-ti-ti com o cara, e eu já muito preocupado, e ele deu pra querer fazer a minha cabeça, me esculhambando com umas palavras muito ofensivas mesmo, como aquela tal de alienado, que eu não entendia muito bem, mas que achava que alienado mesmo era a puta que o pariu, ou burguês, idem, e foi assim que o nosso primeiro empreendimento jornalístico fracassou, pois não era possível, você sabe, dirigir um órgão de imprensa com diferenças ideológicas tão sérias, e esta era outra palavra que ficou em minha cabeça durante anos a fio, e mesmo na Universidade fiquei um tempão me sentindo um jerico por não entender direito o que era aquela tal de ideologia, e até hoje me detenho para refletir sem ainda ter chegado a uma conclusão muito convincente, afinal de contas, é bom ou não é bom se ter uma ideologia? Qual é a ideologia deste texto? Qual é a minha ideologia? Será que continuo sendo um burguês de merda, como dizia Geraldo, e ele dizia isto de uma maneira que até parecia que o Satanás era eu e não aquela malta, e, meus amigos, o fato é que continuamos aquela briga por muitos anos, anos a fio, e se a nossa amizade não degenerou numa guerra civil foi porque, afinal de contas, nós éramos os nossos próprios melhores amigos. E de batalhas em batalhas, fomos percebendo que, afinal de contas, nem ele era comunista, nem eu um capitalista burguês, e chegamos até a compartilhar alguns carreirões da polícia juntos nos velhos bons tempos de faculdade, 1977, 1978, como naquela passeata que saímos do Campo Grande e, muito burristicamente (quem eram os estrategistas daquelas passeatas, pelo amor de Deus?) entramos na rua João das Botas, que é um corredorzinho muito besta, que foi fechado nas duas extremidades pela polícia que só teve o trabalho de baixar o cacete de um lado e do outro, mas eu encontrei uma passagem, pela residência universitária, para a Araújo Pinho, que fica paralela à outra, no que fui seguido por um monte de estudantes que, como eu, se safaram, e até hoje nem me agradeceram, e acho que muitos deles hoje estão por aí nas agências de publicidade, nas câmaras de vereadores, nas assembleias estaduais e federais e nas universidades sem saberem que escaparam de tomar cacete graças a mim; mas pior mesmo foi aquela outra passeata que começou também no Campo Grande, seguindo pelo Vale do Canela, onde passou a ser engrossada por um monte de gente, aquele povão das favelas, que acho eu pensaram que se tratava de um bloco de carnaval ou coisa parecida, pois me lembro muito bem que a gente ia gritando, todos sérios e graves, “Abaixo a ditadura! “Abaixo a ditadura!”, e eles repetiam, numa alegria de só ver, “Abaixo a pica dura! Abaixo a pica dura!”, e eu até achei aquilo muito curioso, mas curiosa mesmo foi a surpresinha que eles tiveram quando de repente, ao chegarmos numa ladeira que dá acesso ao Tororó, apareceu aquela barbaridade de soldados da PM que já foram soltando os cachorros (no sentido literal e figurado) e as bombas de gás lacrimogêneo, e foi aquele massacre, e, rapaz, eu senti foi um medo danado, porque eu era um dos primeiros, e quando todo mundo se virou pra correr, passei a ser um dos últimos, e você sabe que, em se tratando de passeata, os últimos a correr serão os primeiros a apanhar, mas o meu anjo-da-guarda me ajudou, e quando virei uma esquina me meti debaixo de um fusca, no que fui acompanhado por um matusquela que seguiu meu exemplo, mas achou de querer ficar levantando a cabeça pra ver a cena, e eu senti foi uma raiva danada daquele imbecil, vê se pode, quando a gente devia se esconder todinho todinho sem deixar nem um fio de cabelo de fora, ele ficava levantando aquela cabeça de bagre pra ficar espiando, e se um soldado, bastava um, o visse, adivinha só quem iria apanhar junto, e então, claro, puxei o pateta pelo pescoço, e ficamos os dois ali debaixo do fusquinha, vendo as botas dos soldados pisando a dois palmos dos nossos narizes, e aquela confusão, gritos, latidos, bombas e o diabo a quatro, até que as coisas foram se aquietando, se aquietando, se aquietando, até que a gente só podia ouvir vozes distantes, e enfim, silêncio. E foi aquela, acho eu, a última grande passeata, antes do processo de Abertura, e de um novo tempo no qual já não precisávamos ficar sussurrando coisas que, afinal de contas, todo mundo sabia e não ameaçavam ninguém. Saí do meu esconderijo estupefato com tudo aquilo e, mais do que nunca, consciente de que um mundo de inocência havia ficado para trás. O diabo agora tinha outro nome… (O chamado da noite, Sette Letras, 2007, ps. 78-82).

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