Versos de Sabedoria

Encanador, caldeireiro,
Desenhista, funileiro,
Ajustador, serralheiro,
Ferreiro por tradição.
Soldo, pinto, monto e corto
Moldo e faço fundição
Construo casa e barracão
E trabalho todo dia
E ainda faço poesia
Mais não é por profissão.

 “Curriculum vitae”
Wilberto de Souza Leite

 

No poema acima, que abre o livro Via Láctea, Wilberto de Souza Leite, Seu Wilberto, como o conhecemos, dá uma pista para entendermos a sua poesia: a de que ela não é vista como uma profissão. Dela, o poeta não pretende tirar nenhum proveito prático, nenhum lucro ou qualquer forma de benefício material. Para isto, ele solda, pinta, monta e corta, acumulando fazeres. E, se ainda lhe sobra tempo para fazer poesia, podemos indagar: para quê? Com qual motivação? Com qual objetivo?

Agora, com a publicação, pela primeira vez, de sua produção poética, tantas vezes falada e recitada por ele, entre seus amigos mais próximos, dentre os quais tenho a satisfação de me incluir, podemos talvez encontrar algumas respostas – e elas estão aqui, espalhadas, explícita ou implicitamente, nestas páginas. E é sobre isto que quero falar, aqui, nesta breve apresentação.

Em primeiro lugar – e antes que algum leitor mais apressado me acuse de confundir as instâncias do “eu lírico” e do autor propriamente dito, aquele que assina o livro e que, num gesto de generosidade, convida-me para prefaciá-lo – quero chamar a atenção justamente para a estreitíssima margem que parece haver entre a voz que diz os poemas, e o Wilberto autor. [O verbo “parecer”, neste caso, é um recurso de precaução, porque, como todos sabemos, os poetas são, sobretudo, uma espécie muito especial de “mágicos” que sempre surpreendem com um coelho na cartola. Da mesma forma, uma margem estreitíssima não é uma margem inexistente, de forma que mais coisas podem transitar nela do que sonha a nossa vã filosofia].

Mas, feitas as ressalvas, podemos afirmar com certa tranquilidade que reconhecemos, nos poemas de Wilberto de Souza Leite, a pessoa de seu Wilberto; que os 84 poemas que compõem este livro constituem-se, portanto, como uma voz que expressa os sentimentos, valores, experiências e, sobretudo, a sabedoria de um homem que chega aos 79 anos de idade ciente de que o tempo que viveu lhe rendeu muitos aprendizados. E que essa expressão chega para nós, leitores, com um frescor e uma vivacidade tal que logo nos cativa, como no poema “Minha idade”, que diz.

Minha idade é uma menina
Que vive a me acompanhar.
Todo dia ela aparece
Bem cedinho ao sol raiar.
Vem alegre, vem brincando,
Pelas horas caminhando,
Sem pressa para chegar.

Dela, eu sempre gostei.
Desde que aqui cheguei,
Juntinho de mim, ficou.
Todo dia se renova,
Trazendo pra mim a prova
De que o tempo não passou.
E o tempo, esse mestre amigo,
Que sempre foi bom comigo
E vive a me ensinar,
Me disse que é eterno,
Que é um velhinho moderno,
Que eu não devo me apressar.

É, portanto, o aspecto lúdico, aliado à sabedoria – liberta de pose e de qualquer afetação – que consiste o segundo ponto que quero ressaltar. O poeta, aqui, está bem mais próximo da tradição oral, popular, que tem na experiência de sua própria vida, a matéria que alimenta seus versos. Experiência esta embasada num forte sentimento religioso, cristão, que tem no amor ao próximo sua maior significação. Como se vê neste “Agradecimento”:

A ti, oh! Pai Criador,
Agradeço o pai que tive
Agradeço o pai que sou.
Todo o amor que recebi
A meus filhos transferi
E sem dele tirar nem por.
Hoje vejo satisfeito
Que todos trazem no peito
Uma centelha de amor.

A poesia é, para Wilberto, uma expressão amorosa, um canal de comunicação, marcado fortemente por uma Ética e por uma Moral, num sentido edificante, mas nunca dogmático. Com leveza, uma das qualidades exaltadas pelo escritor Ítalo Calvino, nosso poeta circula por variados caminhos da existência humana, trazendo, de cada um deles, uma mensagem cativante, uma exortação, uma advertência, um segredo, um conselho.

Vejamos este poema, “Desencontro”, no qual expressa a triste solidão dos seres e das coisas:

Eu vi o dia beijando
A boca da noite fria
Ela chorando beijava
A boca quente do dia
Lamentado o infortúnio
De um ser noite e o outro ser dia.
E nos dias atuais
Também há história linda
De alguém que não pode mais
Com alguém que não pode ainda.

Ou, em “Eu e o rio”, quando, num diálogo com o Velho Chico, denuncia os males que nele se acumulam, e conclama o povo para a “santa guerra” de sua preservação. Seus poemas são recitados de um lugar especial, onde o poeta, o mestre, o conselheiro e o amigo se encontram, para dizer:

Companheiro que passas nesta estrada,
Traça bem traçado teu destino
Não importa se é noite ou sol a pino,
Se é manhã, se é tarde ou madrugada.
Tua marcha deve ser cadenciada
Deixa a pressa de lado e segue lento
Porém, onde fores, vai atento
Pra cumprir a contento essa jornada.
Na estrada da vida há torvelinho,
Não se pode medir suas distâncias
Não se cruza duas vezes um caminho
Caminhando nas mesmas circunstâncias.
Cuida bem e vai sem embaraço
Segue atrás, no meio ou vai adiante
Sem esquecer que a viagem mais distante
Sempre começa com o primeiro passo.

Que a leitura deste livro lhe seja proveitosa, caro leitor, como um amigo verdadeiro, com o qual podemos compartilhar nossos mais profundos sentimentos.

 

Carlos Ribeiro
Salvador, junho de 2011

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