Ventos das Cordilheiras

Sérgio Castro Barreto, que já nos havia presenteado com o relato de uma viagem à região amazônica, em Ventos do Norte, abre mais uma vez o seu baú de memórias para compartilhar a rica experiência que viveu, em 1993, numa viagem pelas geladas paragens do altiplano andino.

Agora, em vez de florestas e rios amazônicos, é para Santa Cruz de La Sierra, La Paz e Cusco, com especial destaque para os sítios arqueológicos do “Vale Sagrado” dos Incas, de Huayna Picchu e Machu Picchu, que ele nos transporta, ao retratar a experiência realizada por um grupo que compartilha uma forma singular de autoconhecimento.

Mais do que diário de viagem, ou relato de uma “iniciação” (palavra, aliás, inadequada neste contexto), Ventos das Cordilheiras é o registro de viagens (assim mesmo, no plural) que se entrecruzam em pelo menos três territórios: o geográfico, da região visitada, com suas paisagens luminosas e culturas fascinantes; da memória, com experiências revividas e reminiscências íntimas; e, last but not least, de um imaginário abundante, fruto das “meditações” referidas pelo autor. Todos eles permeados por reflexões que ligam as partes à procura incessante de um significado espiritual.

Muito pouco é dito, nestas páginas, sobre o grupo, além do fato de ser composto por homens e mulheres de várias formações profissionais (engenheiros, professores, médicos, comerciantes, estudantes, publicitários, terapeutas, músicos… guiados por um homem identificado como “nosso líder” ou “maestro”). Da mesma forma, os ensinamentos compartilhados pelos viajantes nas sessões realizadas em locais privilegiados e cuidadosamente escolhidos, num roteiro minuciosamente traçado, não são explicitados.

A ênfase, neste percurso marcadamente pessoal – justamente por ser marcadamente pessoal – se dá, portanto, nos dois últimos territórios: da memória e do imaginário; das reminiscências e dos símbolos através das quais um sentimento e um pensamento se revelam.

Como um contador de histórias, no sentido tradicional do termo, Sérgio Barreto expõe situações vividas por ele e por seus personagens, reais e fictícios, procurando sempre extrair delas uma moral, um ensinamento. Como podemos ver no seguinte trecho:

Quando pensamos que nosso caminho está sem obstáculos eis que, como um castelo de areia, tudo desmorona; o caos se instala, perde-se o brilho, a vida torna-se triste aos nossos sentidos e a única vontade é sumir; mas, sumir para onde se tudo está em nós? Por que tanta desventura? Pacientemente, devemos encarar a nossa realidade com coragem e confiança, procurando ter consciência desta realidade momentânea, para poder sair deste medo que é prejudicial ao crescimento moral e espiritual; o que parece ser o fim é apenas o começo; é a ponta do fio do novelo da nossa existência que devemos desenrolar para nos conhecermos intimamente; é a vida corrigindo o nosso rumo para caminharmos melhor em busca da felicidade, que, mesmo parecendo ser efêmera é real; esta busca é a nossa missão de todos os dias; cada pessoa deve refletir sobre suas ações e condutas, e transformar-se praticando o bem, reconhecendo que estamos aqui para sermos felizes e fazendo os outros felizes.

 Como explorador da dimensão espiritual da vida, a partir das vivências decorrentes de suas meditações, compartilha com seu leitor símbolos que falam por si, mesmo quando atravessados por explicações e interpretações.

Voamos por sobre as matas, sobre os rios e subimos até as nuvens, e ao passarmos por uma densa nuvem, um frio gélido se apossou de mim e me arrepiei; estávamos numa outra dimensão; um som celestial, um silêncio de paz. Aquela borboleta era um anjo que agora se apresentava sem as suas asas; sua roupa era toda branca e brilhante, reluzente. Já nos encontrávamos caminhando por um imenso, florido e belo jardim. Crianças, jovens e adultos, em harmonia, desfrutavam desta paz; brincavam e sorriam, conversavam e liam neste ambiente de luz e amor. Não éramos vistos, porém víamos tudo o que se passava a nossa volta. Estávamos, agora, em frente a um grupo de nove pessoas que, sentados em forma de um semicírculo sobre um tapete azul estendido na grama, escutava atentamente aquele que lhes falava.

Ler este Ventos das Cordilheiras é, portanto, realizar também um ato de decifração; é explorar camadas diversas de um acontecimento (a viagem física, geográfica) que se bifurca em caminhos nos quais podemos encontrar, aqui e ali, vestígios de nós mesmos, da nossa própria caminhada. Sabendo, como bons decifradores, que os ventos e as cordilheiras dos Andes têm, neste caso, uma correspondência real e profunda num lugar misterioso que existe dentro de cada um de nós.

E que, como nos mostra Sérgio Barreto, é preciso estar atento a ele.

Carlos Ribeiro

 

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