Um doce tempo perdido

Margot Lobo Valente é uma escritora bastante conhecida dos leitores baianos. Vencedora do Prêmio da Academia de Letras da Bahia, 1992, com o texto teatral Convidados para o jantar, e do concurso de contos da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Sobrames, é autora de títulos nas áreas de poesia, teatro, crônica e ficção, com destaque para a literatura infantil. Nestas Recordações da Faculdade de Medicina da UFBA no Terreiro de Jesus, ela nos traz um apanhado dos diversos gêneros literários que lhe são familiares, com um objetivo explícito: o de homenagear a instituição que tantas alegrias lhe proporcionou, na juventude, e à qual deve a sua formação como médica.

Utilizando-se da prosa, do verso, da ficção e de imagens para imprimir as lembranças de uma fase marcante de sua vida, Margot se expressa, neste livro, através de sonetos laudatórios e evocativos, de um conto amoroso, de fotografias antigas e de 25 crônicas ou relatos, nos quais retrata os passos da jovem estudante, ela própria, no início dos anos 50, desde o primeiro contato com a centenária instituição até a sua formatura e, mais tarde, seu retorno à faculdade, como monitora da cadeira de Patologia Clínica.

Um trecho do livro retrata o encantamento que ela sentiu ao adentrar, pela primeira vez, a veneranda instituição: “Parei em frente ao prédio antigo. Austero. Deixei-me ficar olhando a grande porta da entrada, as inúmeras janelas de madeira nobre, pesada. Foi com muita emoção que subi as escadas por onde haviam entrado muitos luminares da Medicina deste país, através do tempo. / Não fora ela a primeira escola de medicina e Cirurgia do Brasil, fundada ainda por D. João VI? / Entrei. Parei novamente para observar o chão artístico, construído em preto e branco, as colunas jônicas afilando para o céu, os capitéis lá no alto”.

As recordações de Margot são antes de tudo um acerto afetivo com o seu passado, mas também uma saudação nostálgica aos colegas, professores e funcionários com os quais conviveu. São também um apelo para que se conserve esse valioso patrimônio cultural, histórico e arquitetônico, que, diz ela, sofre “na UTI do desleixo humano”, uma indagação sobre seu destino e um gesto de esperança, contido nestas cálidas reminiscências de um doce tempo perdido.

 

Carlos Ribeiro

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