TRÍVIO: POESIA E PROSA – CONTOS – CRÔNICAS

Ao tomarmos como referência um dos significados da palavra “trívio” – aquele que determina uma tripla divisão ou ramificação e, portanto, uma origem comum para os “ramos” (ordinariamente ruas e caminhos, mas que, no caso específico deste livro, refere-se aos contos, poemas e crônicas de três escritores maduros, cientes de seu ofícios), somos instados a colocar a seguinte questão: qual seria o ponto comum a esses três autores, o lugar de onde vêm e no qual se ramificam, revelando, cada um, seu próprio estilo, sua própria voz? Em outras palavras: o que há de comum na aparente diversidade dos textos que o leitor tem agora em mãos?

Temos algumas pistas. O fato dos autores viverem em Valença, pólo econômico e cultural do Recôncavo baiano, exercendo suas atividades literárias, longe das supostas facilidades das grandes cidades e das capitais; de pertencerem às mesmas agremiações literárias e culturais, aos mesmos blocos etílicos, à mesma opção pelo “exercício radical da cultura”, é, naturalmente, uma delas – mas, insuficiente. O que, segundo me parece, dá unidade a esta obra seria um determinado tipo de atitude diante do mundo, fruto de um olhar irônico, ácido, corrosivo, que Marcos Vieira, Alfredo Gonçalves e Araken Galvão dirigem à espécie humana, ou seja, a nós, seus semelhantes.

Charles Henrique, personagem central dos contos e poemas de Vieira, é, talvez, a melhor “encarnação” desse olhar. Verborrágico, falastrão, “quando já alto pela bebida”, é, em meio à fauna do bar que frequenta, a voz que destoa, que incomoda, mas que também questiona e galvaniza (o verbo, aliás, remeteria, sem nenhum prejuízo, ao sertanejo assumido e ex-guerrilheiro do Caparaó, Galvão, a quem, não por acaso, um dos textos é dedicado).

Essa visão também está, e não com menor intensidade, no coveiro defunto do instigante conto “Reminiscências de um coveiro”, de Alfredo:  aquele que, já morto, no início da narrativa – tal como Brás Cubas, de Machado de Assis, ou como Lester Burnham, do filme Beleza americana, de Sam Mendes – vê e descreve as intenções nada meritórias, ocultas sob a capa das convenções e da hipocrisia, dos que ali acorrem para enterrá-lo. E que o fazem, finalmente, numa estranha espécie de assassinato do morto. Uma interessante peça de “humor negro”, se nos permitem a expressão politicamente incorreta.

Politicamente incorretas, aliás, seria uma boa definição para as crônicas de Araken Vaz Galvão, que desafia os leitores – sobretudo as leitoras, especialmente as feministas e militantes das minorias – com afirmações arrepiantes, a exemplo de… bem, o(a) leitor(a) verá por si mesmo(a). Tal como um Charles Henrique ainda mais desassombrado, Galvão assume sem reservas a condição de “preconceituoso” e “machista”, “criado dentro de rígidas normas da cultura sertaneja de outrora”. Embora, como deixa entrever, não poucas vezes, nas entrelinhas dos seus discursos, preserve um quê de ternura mal disfarçada. (Agrada-me, especialmente, a crônica “Início e fim”, na qual, longe das polêmicas de gênero e raça, discorre  sobre uma de suas grandes paixões: a literatura.)

Mesmo num outro sentido da palavra “trívio” – agora como convergência, na qual, partindo de origens diversas, esses “ramos” cruzam-se num ponto comum, num compartilhamento – salta à vista esse denominador comum: o da voz dissonante, desencantada, maldosa e amarga, mas também corajosa, que, como constata Vieira, no seu poema “Charles Henrique vai ao parque de diversões”, Não há mais mágicos. / Não há mais magia. / Nunca houve.

Carlos Ribeiro

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