Travessia Dramática

Rita no pomar

Romance de Rinaldo de Fernandes é um  convite à
decifração, no qual o leitor, ao cabo de tudo, defronta-
se consigo próprio, por trás de suas próprias máscaras.

Rita no Pomar é o primeiro romance de Rinaldo de Fernandes. Pode-se, sem prejuízo da coerência, defini-lo como uma novela – ou, ainda, um conto, que, a partir do seu núcleo básico, do seu epicentro, expande-se em ondas que vêm, pouco a pouco, penetrando a sensibilidade do leitor, adquirindo novas tonalidades, multiplicando perspectivas, aprofundando a sua estranha e não pouco perturbadora ambiguidade.

Em enxutíssimas 90 páginas, Rita no pomar tem sua gênese no conto “Rita e o cachorro”, de 7 páginas, publicado no livro O perfume de Roberta, de 2005. E se, neste, pode-se encontrar, com mais facilidade, as noções de densidade e intensidade, definidoras do gênero, é naquele que se pode penetrar, com mais profundidade, na segunda história: o relato secreto, o sentido oculto, a narração cifrada, apontados por Ricardo Piglia em suas Teses sobre o conto. O que, de certa forma, o contradiz.

Como toda boa literatura, o livro de Rinaldo é um convite à decifração, no qual o leitor, ao cabo de tudo, defronta-se consigo próprio, por trás de suas próprias máscaras. Como em alguns dos seus melhores contos, a exemplo de “O cavalo”, “Duas margens”, “O mar é bem ali” e “O perfume de Roberta”, Rita no pomar guarda nas entrelinhas a sua vocação – que é a vocação, plena, de Rinaldo de Fernandes, como ficcionista. Por isso, a leitura dos seus textos, é, ao final, sempre, um convite à releitura.

Como se diz na orelha do livro, de forma bem acertada, “Rita no Pomar parece, à primeira vista, um texto inofensivo”. Nele, encontram-se elementos aparentemente  simples: uma jornalista, revisora de textos, que, após deixar a cidade de São Paulo, instala-se numa paradisíaca praia do litoral paraibano. Ali, sobrevive como garçonete, compra uma casa numa praia semi deserta – a Casa do Pomar – e ocupa suas horas brancas escrevendo minicontos, preenchendo um diário caótico e conversando, longamente, interminavelmente, com o seu cão Pet. Conversando? Seria mais preciso dizer, como o faz Silviano Santiago, no posfácio, realizando “um monólogo a dois, em que o cachorro é mero e indispensável acessório teatral”.

É nesse monólogo, nesse intenso fluxo de consciência, que a narradora reconstrói, de forma fragmentária, mas sem que se deixe perder o fio narrativo, uma história, na verdade, uma travessia – dramática –, mas uma travessia cujas margens mantêm-se, ao final, opacas, indistintas, inquietantes, pois que o seu sentido, se existe, prescinde totalmente de uma conclusão.

Embora haja, ao final, uma revelação, uma revelação terrível que redimensiona os sentidos do texto, a história de Rita continua sendo uma espécie de castelo com passagens secretas e calabouços, apenas pressentidos, mas fora do ângulo de vista do seu incauto visitante. As palavras com as quais Rita se revela, são as mesmas que a esconde.

Quem é, de fato, Rita? Uma vítima de traições sucessivas dos seus grandes amores – André e Pedro? Uma, como diz Silviano Santiago, “solitária e descontente com a sorte que lhe coube no latifúndio das grandes empresas jornalísticas e no submundo universitário das pequenas falcatruas”, que “migra para o Nordeste supostamente em pleno e alvissareiro desenvolvimento sustentável”? “Uma Medéia tropical, no melhor estilo serial killers de Hollywood”? O que podemos dizer, se não é possível afirmar sequer que o seu discurso é, de fato, verdadeiro ou mesmo real?

Não importa. No reino da ambiguidade instaurada, o texto de Rinaldo tem a grande qualidade de oferecer ao leitor “uma forma bela e incompleta de ver o mundo fragmentado e degradado e as pessoas miseráveis e partidas que nele vivem”. “A se expor, mais uma vez, a diáspora, só que, desta vez, num sentido inverso”, diz Santiago, “são as vidas secas do Sul Maravilha que migram para o Nordeste”, com a intenção de “lavar a alma carcomida pela violência na metrópole”.

Mas, nem aqui há uma saída, pois que, no texto implacável de Rinaldo de Fernandes, a violência, como um vírus, viaja com aquela que mais dele deseja livrar-se. Eis, portanto, um romance representativo da nossa tragédia – aquela mesma que você vê, como mera informação, pobre e descontextualizada, nas páginas dos jornais, nas telas das TVs. Rita no Pomar é um esforço – um admirável esforço – no sentido de compreendê-la.

À luz das narrativas (2009)
Carlos Ribeiro

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