A Sabedoria da Vida é o Domínio de Si Próprio

Recomendo que se inicie a leitura do livro A sabedoria da vida é o domínio de si próprio1, do poeta e artista plástico Geraldo Florêncio de Carvalho, por sua biografia, à página 4. Ela permite ao leitor situar-se no universo cultural do autor e dá maior densidade ao livro, tal a força da experiência humana ali registrada: a de um nordestino-alagoano que aos oito anos de idade começou “a trabalhar como garçom de uma lanchonete no Ceará”, para ajudar na sobrevivência de uma família com dez filhos, um pai desempregado e uma mãe que sustentava a prole “matando bode, carneiro, galinha e vendendo nas portas com tabuleiro na cabeça”.

Vale a pena conhecer a experiência desse aprendiz atento da vida, Geraldo Carvalho, que a certa altura do seu livro, diz: “Depois de alguns anos trabalhei na construção civil, quebrando pedra. Com onze anos de idade, saí com meu pai pelo mundo, andando a pé com a maca nas costas atrás de emprego, dormindo na rua e comendo de esmola. Viajamos quatro meses a pé. Andamos por três estados. Ceará, Piauí e Paraíba. Só comia e bebia água quando alguém nos dava”.

Sentiu, então, na pele, que a fome é ruim, mas a sede é muito pior.

Foi numa penosa jornada, nos idos de 1942, em plena ocorrência da Segunda Guerra Mundial, que o pai de Geraldo ficou sabendo da existência dos “soldados da borracha”: milhares de nordestinos que seguiam sozinhos ou com suas famílias para a   Amazônia com o objetivo de cortar seringueira para fazer borracha e atender a demanda internacional dos Aliados na luta contra o nazi-fascismo.

Diante da falta de perspectivas em sua terra, e da seca que, segundo Carvalho, “era tão grande, mas tão grande”, que quando “olhávamos aquela caatinga, parecia que tinha pegado fogo”, lá se foi o casal e seus dez filhos viver a experiência dramática de chegar à Amazônia sem quase nenhum dinheiro no bolso.

Passaram por um “campo de concentração”, no Ceará, onde “tinha seguramente, uma faixa de seis mil nordestinos esperando embarque”; navegaram no Afonso Pena, um dos três navios que transportavam os “soldados” com suas famílias e que por muito pouco escapou de ser afundado por um submarino alemão (o que viria a acontecer na viagem de volta ao nordeste, com a morte de quase todos os passageiros); viveram durante meses, precariamente, em Manaus, até que uma chata (embarcação utilizada em águas rasas) os levou, numa viagem de 49 dias, à cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre.

Lá, finalmente, a família se instalou num “engenho de moer cana e fazer açúcar gromichó que é chamado em outros lugares de açúcar mascavo”, iniciando uma nova fase da sua saga: a da sobrevivência dos trabalhadores nordestinos nos seringais da Amazônia e na construção de uma cultura expressiva que chega, hoje, aos grandes centros urbanos, através das religiões que utilizam o chá Hoasca, a exemplo do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal – UDV, do qual, aliás, Geraldo Florêncio de Carvalho é um dos dirigentes. O irmão dele, Florêncio Siqueira de Carvalho2, também mestre na UDV, é autor de um belo livro, No coração da floresta: vivências de um caboclo da Amazônia (Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico, 2002), no qual narra a experiência de “habitar por 16 anos as regiões profundas da Amazônia, isolado de todos os recursos de conforto e segurança da civilização”.

E o que nos traz Geraldo Florêncio de Carvalho neste seu livro? Em primeiro lugar, uma visão positiva da experiência humana diante da vida, das suas travessias, do seu sofrimento. Não há, em uma linha sequer do seu livro, a mais leve sombra de queixume e de amargura pelos enfrentamentos que a vida lhe trouxe. Eis, por exemplo, o que diz a respeito de sua infância e adolescência ao lado do pai e da família.

Eu trabalhava das seis da manhã às cinco da tarde todos os dias minha mãe levava o almoço para nós no local de trabalho. Trabalhei dos doze anos até os vinte na agricultura. Cortava lenha no machado, brocava floresta, capinava de enxada, carregava cana para o engenho em cima de boi, fazia farinha, plantava milho, arroz, feijão, cana, batata e colhia. Trabalhei um tanto, quando criança. Para mim foi a coisa melhor da minha vida; foi meu pai ter me ensinado a trabalhar. Porque para mim, trabalho é honra e dignidade. Melhor do que ficar na rua cheirando cola, usando drogas, roubando, matando e estuprando. Por isso é que hoje sou um homem. Se eu fizer uma viagem para qualquer lugar do mundo, sem um real no bolso, quando eu chegar lá eu não passo fome. Por que? Por que eu me sinto feliz trabalhando e tenho várias profissões: agricultor, servente de pedreiro, pedreiro, ferreiro, carpinteiro, pintor de casa, chofer profissional; escultor de argila, gesso, cimento, resina poliéster, bronze e outros. Para mim o maior desafio é fazer aquilo que eu nunca fiz, de coisa boa é claro”. (Página 63)

Ao lado desta sua admirável qualidade, há a sua vocação de instrutor da vida que extravasa de sua biografia para os seus poemas. Bem diversamente da tradição da poesia moderna, na qual a sabedoria desvinculou-se da arte, sobretudo no que se refere a qualquer intenção de ensinamento ético ou moral, os textos de Carvalho não perdem do foco a mensagem que a motiva. Daí o caráter pedagógico dos textos, aliás, já visíveis dos títulos: “Domínio de si próprio”, “O amor de uma criança”, “Plantio e colheita”, “Amor de mãe”, “Puro amor”, ou neste “Amor do beija-flor”, em que diz:

O amor veio da rosa.
A rosa vem do amor.
O orvalho banha a rosa,
E o pássaro beija a flor.
E o pássaro
Beija-flor

O amor da esperança…
O amor do beija-flor…
Quem ama o mal espanta
Amando com puro amor.

Assim a esperança
Espera chegar o amor.

O amor veio da rosa.
A rosa veio do amor.
A flor que é a rosa.
A rosa que é o amor.

A flor que é a rosa.
A rosa que é o amor.

Dividido em duas partes o livro desdobra-se em conselhos, máximas, louvações. E, sintetizando todos os textos, a epígrafe do próprio autor: “A sabedoria da vida é o domínio de si próprio”.

Os poemas de Geraldo Florêncio de Carvalho justificam-se pelo que sua voz expressa: a experiência de um homem que, mais do que um cidadão brasileiro, é um sobrevivente das profundas desigualdades sociais deste país e cuja história é o argumento mais sólido da necessidade de fazer-se ouvir. Sua sabedoria é expressa em palavras simples e objetivas, mas significativas para quem se dispuser a ouvi-las, pois, como diz Paulo R. Rocha, na apresentação do livro, “Geraldo escreve poesia pelo sentimento, pela beleza da natureza, a mulher, as águas, o sol, a lua, as estrelas…”

Salvador, 1º de agosto de 2010
Carlos Ribeiro

1 N. A. Geraldo Florêncio de Carvalho morreu em junho de 2013. Os originais do livro continuam inéditos.
2 N. A. Florêncio Siqueira de Carvalho morreu em 23 de junho de 2012.

6 comentários em “A Sabedoria da Vida é o Domínio de Si Próprio

    • 23 de abril de 2018 em 02:01
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      Prezado (ou prezada?) Fe, o livro em questão não chegou a ser publicado. Uma pena, pois o M. Geraldo quis muito fazê-lo. Com a morte dele, não sei quem ficou com os originais. Um abraço.

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  • 6 de dezembro de 2017 em 02:25
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    Convivi com o Sr Geraldo Carvalho por muitos anos e escutei por diversas vezes sua história de vida, sua vivência sofredora e, principalmente, as memoráveis lições de vida que ele sempre nos transmitia ao contar trechos de sua experiência de vida. Tinha o dom de cativar as pessoas, inclusive as crianças, onde a mim me cativou quando eu tinha apenas 10 anos de idade. Saudades é o que sinto desse amigo e avô, como ele me falava que eu era seu Neto. Bela história para ficar registrada em nossas lembranças. Parabéns ao escritor M Carlos Ribeiro.

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    • 23 de abril de 2018 em 01:59
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      Prezado Ângelo, boa noite. Antes de mais nada, desculpe a demora em responder. Fiquei um tempo considerável sem visitar esta seção do meu site. Havia até esquecido que ela existia. Realmente, nosso prezado M. Geraldo carvalho, de saudosa memória, foi uma pessoa singular e com o dom de cativar ao qual você se refere. Infelizmente ele não consegui publicar o livro em vida. A essa altura, nem sei quem ficou com os originais. Agradeço as felicitações. Grande abraço.

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  • 6 de dezembro de 2017 em 12:53
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    Belo texto que antecipa a beleza do livro. Certamente que terei um exemplar na mão. Onde adquirir?

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    • 23 de abril de 2018 em 01:55
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      Caro Marcio, desculpe a demora em responder. Fazia um tempo considerável que não visitava esta seção do meu site. O fato é que o nosso querido amigo M. Geraldo Carvalho desencarnou sem publicar o livro. Não sei a essa altura quem ficou com os originais do livro. É o que sei. Um abraço.

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