Travessias Singulares: pais e filhos

LIVRO_Travessias_Singulares

TRAVESSIAS SINGULARES: PAIS E FILHOS
Rosel Soares Bonfim (ORG.)
Anajé-Bahia: Editora Casarão do Verbo, 2008
375 páginas

Casa do Verbo

PAIS E FILHOS, O CONFLITO / Urariano Mota

Contistas: Aleilton Fonseca, Altair Martins, Aluísio de Azevedo, Antonio Torres, Aramis Ribeiro Costa, Armando Avena, Carlos Heitor Cony, Carlos Ribeiro, Charles Kiefer, David Oscar Vaz, Domingos Pelegrini, Hélio Pólvora, J. J. Veiga, João Anzanello Carrascoza, João Filho, Jorge Medauar, Lino de Albergaria, Machado de Assis, Menalton Braff, Miguel Sanches Neto, Moacyr Scliar, Moreira Campos, Nei Leandro de Castro, Nelson de Oliveira, Nilton Soares Pereira, Raimundo Carrero, Renard Perez, Ricardo Soares. Roberto Schultz, Silviano Santiago, Uriano Mota, Wander Piroli, Nelson de Oliveira, Aramis Ribeiro Costa, João Filho e Aleilton Fonseca.

 

Conto
O ENCONTRO

Quanto tempo estivera parado diante da janela, diante do prédio cinzento, entre os casarões centenários, sob o sol pálido banhando os telhados e os pátios desertos e silenciosos? Em minha mente, procurava reconstituir um tempo que há muito se perdera – e enquanto a janela, no segundo andar, continuava vazia, eu podia ver ali o menino construindo um mundo de sonhos, de horizontes largos e luminosos.

Imóvel, diante do prédio e da janela que um dia se abrira para o infinito, eu pensava: em que momento da minha vida perdera o poder mágico, a alquimia espontânea que me possibilitava, sem que o percebesse, transformar o mundo corrompido num luminoso presente? Em que porto esquecera a varinha de condão que encantava tudo sobre o que pousava?

O prédio era uma esfinge que eu hesitava decifrar. Mas havia uma porta e ela poderia ser aberta e o passado revisto mais uma vez, talvez a última.

Entrei no prédio. Subi as escadas lentamente e pensei que ainda era tempo de desistir. De que adiantaria tentar ressuscitar algo que o tempo engolira?

– É inútil! – pensei. E bati.

O homem tinha os olhos cansados e era diferente da imagem que eu guardara do meu pai.

– Boa tarde – disse ele. – O que o senhor deseja?

– Vim saldar uma dívida – falei sem saber ao certo o que dizer. – É que faz muitos anos vi aqui, neste apartamento, nascer o mundo. Aqui eu vivi os meus primeiros anos e agora quero encontrar-me um pouco com o que fui, se o senhor me permite.

O homem me olhou demoradamente e por instantes pensei que reconhecera o filho por trás da máscara que os anos tecera. Por instantes pensei tê-lo em meus braços, mas lá estava ele silencioso e distante. Limitou-se a dizer, com brandura.

– Entre.

Seguiu à minha frente, guiando-me pelo estreito corredor – o mesmo que, em outro tempo, era infinitamente grande, como um planeta. Mas tudo encolhera e o que havia nele de mágico e misterioso reduzira-se a um conjunto insignificante de tijolos e tintas. Na cozinha, as antigas rachaduras, e no banheiro, entrevisto pela porta, o pequeno tanque de água que era na realidade o meu lago sagrado.

Na sala, sobre a mesa uma Bíblia, em latim.

– Isto eu não herdei do meu pai, esse gosto pelas línguas antigas, esse refinamento e essa busca.

– Do jeito que o senhor fala, parece que o admira muito.

– Eu o amava – falei, e neste momento senti que os meus olhos ganhavam um novo brilho -, mas acho que ele nunca soube disto. Não quero parecer sentimental, mas lamento muito não ter sido possível demonstrar-lhe o quanto o amava, realmente.

O homem parecia interessado nas minhas palavras. Indicou-me a cadeira, e pousando a mão sobre a Bíblia, que eu recolocara na mesa, disse:

– Ele o deixou?

Hesitei em responder. A tarde estava calma, como sempre a guardara na minha memória. Pensei com uma ponta de tristeza que eu podia ser uma criança, ainda. Mas onde estava minha mãe? E o meu irmão? Tudo estava tão silencioso!

Vi então o meu rosto num espelho, no outro lado da sala, e não tive mais dúvida.

– Sim, há muitos anos. Eu era ainda um menino. O senhor sabe: era difícil para um menino, naquela época, ver o homem que existia por trás da autoridade do seu pai. Assim a vida o deixou e dele ficou em mim uma imagem tênue e delicada. Ainda hoje busco, nos meus sonhos, encontrar o homem que existia além daquela imagem. O homem que, de alguma forma, sou eu… e que perdi.

Enxuguei, constrangido, a lágrima que escorreu na minha face.

– Desculpe-me. Devo estar lhe aborrecendo.

– Não – apressou-se em dizer. – Continue…

– Eu… eu o procuro sempre num sonho que se repete, mas que nunca tem fim. Mas penso que consigo compreendê-lo hoje um pouco mais.

Nesse momento ouvi um ruído no quarto ao lado e vi o menino.

– Este é o meu filho – disse o homem chamando o menino que aproximou-se timidamente.

E indicando-me com a mão, acrescentou:

– Carlos, este é o senhor…

– Carlos – murmurei com o cuidado de nem sequer respirar. O menino estendeu-me a mão e toquei como num sonho a matéria que há muito tempo fazia parte apenas de uma lembrança precária e inconstante. O menino me olhou como se me reconhecesse, como se visse a si mesmo naquela face em que o seu sol interior já não brilhava com tanta plenitude. Quis abraçá-lo, aproximar-me mais dos sentimentos e sonhos que habitavam aquela mente jovem e fresca como uma semente plantada numa terra primitiva, convivendo ainda sem o saber com monstros ancestrais.

Procurei palavras para dizer-lhe, mas não as encontrei. O menino recolheu a mão e escondeu-se atrás do pai, que sorria.

– Perdoe-me – falei sem esconder a minha perturbação. – Mas ele me lembra alguém muito querido que há muito tempo não vejo. O senhor sabe: a essa altura da vida, as perdas são muito dolorosas quando olhamos para trás.

O homem suspirou, o menino retornou ao quarto, ao silêncio. Um vento fresco entrou pela janela e era um vento antigo que parecia querer revelar a tarde com seus mistérios. Percebi no rosto do homem uma sombra. Pareceu triste quando disse:

– Veja, lá está ele novamente mergulhado no seu mundo. Para ele não mais existimos. Viver o presente é sua maior dádiva. A nós cabe apenas preservar esse santuário que não mais compreendemos, garantir-lhe um futuro bom, se é que podemos garantir alguma coisa.

O homem me olhou e vi cansaço nos seus olhos. Ele era, como eu, um homem solitário. Sim, agora eu podia sentir a sua dor e toda a sua tragédia. Senti no meu coração, simultaneamente, uma alegria radiante e uma tristeza esmagadora. Olhando para aquele homem frágil, à minha frente, fiz um esforço sobre-humano para não dizer-lhe: “Pai! Por que me abandonaste? Porque foste embora quando eu não podia ainda te olhar como homem e dizer-te: Eu te amo, pai! Mas assim, de repente, partiste e deixaste-nos num rápido momento…”

E então eu disse:

– Senhor, faz muitos anos que perdi meu pai num acidente. Mas continuo a vê-lo em sonho, assim, frente a frente comigo, sem contudo nada poder dizer ao homem cuja ausência deixou um grande vazio em mim. Que posso dizer a alguém cuja existência se limita a um breve encontro que se repete sempre sem chegar a lugar algum? Que dizer a um homem que nunca chega a existir realmente, mas que sempre retorna por força do sonho e da saudade?

O vento tocou-me o rosto mais uma vez e um ruído vindo de um ponto distante, remoto e longínquo, como de um outro universo, por um breve instante quase interrompe a imagem daquele rosto sério que me olhava. O menino brincava no quarto e senti doer a idéia de que poderia perdê-lo mais uma vez e para sempre. De um ponto distante, remoto e longínquo do universo vinha algo enorme e avassalador, como uma onda terrível que destruiria aquela realidade construída com os fios tênues da memória e da fantasia.

“Que dizer a alguém que nunca chega a existir realmente, mas que sempre retorna pela força do sonho e da saudade? Pai, por que me abandonaste? Por que partiste… Eu te amo…”

Então percebi que tudo se perdera, mais uma vez. Tudo recuou – o homem, o menino, o apartamento, a rua – e tudo se diluiu no Nada. Do quarto, na penumbra, deitado sobre a minha cama, ouvi o jato que cortava o céu e que lá das suas alturas, sem o saber, interrompera o encontro pelo qual tanto ansiava o meu coração.

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