Quartas Histórias

LIVRO_Quartas_Histórias
QUARTAS HISTÓRIAS
Rinaldo de Fernandes (Org.)
Rio de Janeiro: Garamond, 2006
352 páginas – tel.: (21) 2504-9211
editora@garamond.com.br

 

QUARTAS HISTÓRIAS REESCREVEM GUIMARÃES ROSA
O CONTO BRASILEIRO DO SÉCULO 21

APRESENTAÇÃO
CHORO ESCONDIDO

à memória
de Severino Moura

Primo Ribeiro e primo Argemiro. Os dois protagonistas do conto “Sarapalha”. À beira do rio Pará, em Minas Gerais, numa fazenda decadente, numa região despovoada devido a um surto de malária, os dois, sentados num casco de cocho emborcado, febris (Ribeiro aqui e ali delirando muito), tremelicam abatidos pela sezão. No conto, a natureza é exuberante, viva, até demolidora: “A gameleira, fazedora de ruínas, brotou com o raizame nas paredes desbarrancadas”. Contrastando com ela, a decadência humana, a piora permanente dos primos, dois pequenos proprietários rurais, já à beira da morte. O leitor, em certo passo, começa a se perguntar: por que Argemiro deixou sua propriedade e veio viver com Ribeiro? Por que não partiu para longe como os outros da região? Em seu delírio, Ribeiro espreita Luísa: “…elas estão passando… Vão umas atrás das outras… Cada qual mais bonita… Mas eu não quero, nenhuma!… Quero só ela… Luísa…”. Luísa é a ex-mulher, que, após três anos de casados, o deixou por um boiadeiro (o “capeta”). Luísa linda, leve, quase uma lenda para o personagem. Ribeiro nunca se recuperou, nunca conseguiu sarar sua paixão. Padece do corpo e da alma. O foco narrativo sofre, de repente, um ligeiro deslocamento – e entramos nos pensamentos de Argemiro, ficamos sabendo que ele veio morar com o primo por uma razão superior: também amava Luísa (e queria “só viver perto dela”, para “poder vê-la a todo instante”). Paixão poderosa, platônica – nunca teve coragem de trair o primo. E mais: nunca teve coragem de tocar no assunto com o outro. Um dia, os dois ainda tremelicando no cocho (que, emborcado, servindo apenas de assento, é signo da decadência da propriedade), Argemiro confessa a Ribeiro o seu “segredo”, a sua paixão pela mulher: “Eu… eu também gostei dela, primo… Mas respeitei sempre… respeitei o senhor… sua casa… Nós somos parentes…”. Ribeiro, furioso, expulsa-o de suas terras. Argemiro anda, quase um espantalho humano, seguido, até certo trecho, pelo perdigueiro Jiló (que é sensitivo e, como a velha Ceição, personagem secundário do conto).

Essa é uma das ricas histórias de Guimarães Rosa que são recontadas na presente coletânea. O desafio que propus aos autores aqui reunidos certamente não foi dos mais fáceis: recriar narrativas do mais inventivo escritor brasileiro. Após sobretudo os anos 60, a literatura brasileira se urbanizou bastante. O nosso regionalismo como que se esgotou entre os autores do Romance de 30 (Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, em especial) e o caso absolutamente atípico do autor de Grande sertão: veredas (sobre o romance de Rosa, afirmou Antonio Candido, no célebre ensaio “O homem dos avessos”: “A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e pelo nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico, – tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro à matriz regional para fazê-lo exprimir os grandes lugares-comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, – para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e que na verdade o Sertão é o Mundo”). O regionalismo das décadas recentes, como bem avaliou Walnice Nogueira Galvão no artigo “Musas sob assédio” (Mais!, Folha de S. Paulo, 17/03/2002), é “sobrevivência”, ou “tardio”, entabulando “um contraponto com o thriller urbano”, cujo principal representante é Rubem Fonseca. Embora soando “extemporâneo”, segundo a estudiosa, o regionalismo sobreviveu da seguinte maneira: numa vertente “realista” (João Ubaldo Ribeiro “em parte”, Francisco Dantas); numa vertente “mágica” (J. J. Veiga, Murilo Rubião, Antonio Torres); e nas narrativas de Jorge Amador (que o teria praticado por décadas, até 2001, ano da morte do escritor).

O desafio aqui, desde o início, era de duas ordens: 1) fazer com que autores que produzem sobretudo literatura urbana se voltassem para o ambiente rural, mas de forma oblíqua, através da ótica de um escritor consagrado; 2) enfrentar o universo e, mesmo, a linguagem desse autor genial que é Guimarães Rosa. Desafio e tanto. Toparam, todos aqui, meio que atônitos, alguns inibidos. Mas a inibição logo virou aventura – boa e prazerosa aventura. Resultado: há contos neste livro que são peças do mais alto valor. Há, mesmo, aquelas antológicas.

Pedi aos autores que recriassem contos do Sagarana, publicado em 1946, ou passagens do Grande sertão: veredas, que saiu em 1956. Assim, a presente coletânea presta ainda homenagem, respectivamente, aos 60 e 50 anos de lançamento das duas obras-primas de Guimarães Rosa. Mas o livro não se resume a isso. Atesta o grande talento de autores brasileiros contemporâneos, alguns ainda bem jovens. Atesta a vitalidade do nosso conto mais recente, cujos praticantes pipocam por todas as regiões do país, numa profusão, por assim dizer, de textos de qualidade (boa parte deles postos na Internet). Este livro, portanto, poderá ficar como um marco da literatura brasileira contemporânea – pelo desafio, já dito, de recriar um autor em princípio inimitável e pela versatilidade dos contistas. Trata-se, em linhas gerais, de um livro regionalista feito por autores que, à exceção de alguns poucos, não passaram pela experiência do campo.

Aleilton Fonseca remonta o “causo” de Maria Mutema, do Grande sertão: veredas. Amador Ribeiro Neto, Bernardo Ajzenberg, Geraldo Maciel, Godofredo de Oliveira Neto, Marilia Arnaud e W. J. Solha retecem o “Sarapalha”. Antonio Carlos Viana, Marcelino Freire, Luzilá Gonçalves Ferreira, Pedro Salgueiro e Raimundo Carrero reatam o “Duelo”. André Sant’Anna, Carlos Ribeiro e Maria Alzira Brum Lemos repassam “A volta do marido pródigo”. Antonio Carlos Secchin, Ataíde Tartari e Fernando Bonassi removem o “São Marcos” (“Güenta o relance, Izé!”). Carlos Gildemar Pontes reinventa “Minha gente”. Deonísio da Silva revê o julgamento de Zé Bebelo. Cecília Prada, Marcelo Carneiro da Cunha e Suênio Campos de Lucena reabrem o “Corpo fechado”. Fabrício Carpinejar recorta uma tira do Grande sertão… João Anzanello Carrascoza reveza personagens do Sagarana. José Castello e Sérgio Fantini remarcam “A hora e vez de Augusto Matraga”. José Rezende Jr. e Nelson de Oliveira replicam o pacto de Riobaldo com o Diabo. Leila Guenther e Paulo Franchetti redobram-se no Grande sertão… Mário Chamie repisa: “pão ou pães, é questão de opiniães”. Miguel Sanches Neto relê figura do romance de Rosa e garante: “Otacília disse”. Nilto Maciel retém “O burrinho pedrês”. Ricardo Soares ronda de jipe pelo Grande sertão… Ruy Espinheira Filho recita a “Conversa de bois”. Silviano Santiago recolhe um órfão dos sertões. Tércia Montenegro repara a briga de Diadorim com Hermógenes. E Ronaldo Correia de Brito revoa no Grande sertão…

Este organizador traz “Sariema”, baseado numa personagem secundária de “A hora e vez de Augusto Matraga”, tornada agora protagonista – e que termina vingando as violências que sofre de Matraga na história original. O conto pertence a O perfume de Roberta, meu livro mais recente, publicado por esta mesma Garamond no final de 2005.

Abaixo do texto de apresentação de cada autor aparecem uma ou duas frases indicando a narrativa de Guimarães Rosa em que foi baseado o conto. Uma coisa importante: os contos da presente publicação podem ser lidos independentemente de o leitor conhecer ou não as histórias originais de Guimarães Rosa. Certo: o conhecimento do texto do qual o conto partiu poderá facilitar a vida do leitor, clarear mais as coisas. Mas não o impedirá, em absoluto, de entender os contos aqui publicados. A coletânea cumpre ainda, agora em outra frente, o papel de despertar a curiosidade daqueles que desconhecem a obra do autor mineiro.

Agradeço a atenção de todos os contistas aqui reunidos. Agradeço ainda a Marcus Accioly, pelo poema “João Guimarães Rosa”; a Affonso Romano de Sant’Anna, pela crônica “João, o Rosa”; a Daniel Piza, pelo artigo “Esse mundo chamado João”; a Sônia Maria van Dijck Lima, pelo ensaio “Sagarana causou polêmica” (o poema, a crônica, o artigo e o ensaio, além de três textos muito conhecidos – um de Antonio Carlos Jobim, outro de Carlos Drummond de Andrade e um terceiro de Graciliano Ramos –, vêm postos nas primeiras seções do livro); e ao editor Ari Roitman, por acreditar no projeto.

Argemiro, no “Sarapalha”, em certo momento diz que não sabe como Ribeiro não morreu quando Luísa foi embora com o boiadeiro. Ribeiro, recurvado no cocho, o ar de assombro, assopra:

“– Chorei no escondido.”

RINALDO DE FERNANDES
Escritor e ensaísta

Conto
TRAÇOS CENOGRÁFICOS DE SALINO LALÃTHIEL

ATO I

Num estado de intensa concentração (pode-se mesmo sentir-se o ar denso à sua volta), o Diretor Pós-Moderno, seja lá o que isto signifique, ao lado de seu Assistente, busca inspiração para a árdua tarefa de adaptar para o teatro o conto Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo, de Guimarães Rosa. Começa, mais uma vez, a declamar o texto, como se recitasse um mantra: “Nove horas e trinta. Um cincerro tilinta. É um burrinho, que vem sozinho, puxando o carroção…”

…quando uma idéia lhe ilumina o semblante…

… havéra! como não atinei com isto antes? faz o seguinte: tira o burrinho, uf!, e some com o carroção! leva o preto, esquece a terra, some com o taipal da traseira e o barranco. desponta outro cenário… a`bom?… paisagem urbana, sim! não se diz que os tempos, hoje, estão mais propícios para as histórias de cidade? mire, então, e veja: à esquerda o ônibus velho, sacolejando, a nuvem de fumaça preta saindo pelo cano de descarga. atrás o elevador. em frente o mercado, vê? as barraquinhas de flores, a praça do cordel, o zum-zum dos carros que embocam pela contorno, para a cidade alta. ali, as pedras gastas da igreja da conceição, os edifícios mal conservados do comércio; acolá, as lojas sombreadas pelos casarões do centro histórico. o velho monumento da fonte luminosa. as palmeiras imperiais… atrás a marinha e o porto, os prédios velhos, as lojas decadentes, as bibocas e os botecos. o mato nas encostas. adiante o horizonte morrendo, os veleiros pontilhando o mar azul da baía, os barcos. azuis vermelhos amarelos. prédios cinzentos, ar esfumaçado, a enseada do unhão… (luzes no palco! mais luzes!).

este é o cenário. ã-han? passemos, agora, à ação. aqui está: o ônibus adentra a praça. dele salta nosso herói, lalino, ou melhor… como convém à uma cidade litorânea: salino… salino lalãthiel, o marido pródigo, com seus cabelos pretos, brilhantinados, xêi de novioras, bamboleando, sorridente, descarado e salamistrão. prosa, só… ele, velho conhecedor das putas do taboão e do meia três. (uma pitada de jorge amado até que cai bem. nhem?). pode colocar, ali, pois?, o cenário móvel: os edifícios esfumaçados ao fundo, os cantadores, ambulantes, mendigos e trambiqueiros. o que pensam? ora-pois: “l´evém ele, o sem-vergonha do salino, com sua conversinha mansa, com suas pilhérias para engabelar os trouxas”. bem sabe disso seu marrão, o gerente da área, que fecha a cara quando o vê chegando com seus dentes branquíssimos de fora, contrastando com a pele negra, com a camisa amarela aberta no peito – e no mêi um medalhão dourado, diz ele, distintivo não se sabe bem de quê.
agora, os diálogos. resumi-los ao máximo, pois? lançar as vozes, nos quatro cantos da sala, si-mul-ta-ne-a-men-te: – bom dia! – boa tarde! como passou de ontem? – bem. já sabe, não é? só ganha meio dia. – que é que eu hei de fazer? acordei com uma tosse que quase nem vinha… fiquei com cisma de não querer passar o vírus. a saúde dos amigos pra mim é tudo! – hum… – mas o senhor vai ver como eu toco meu serviço e ainda faço este povo trabalhar… – não se venha! deixa os outros em paz… se der conta do seu serviço, já está mais do que o esperado. – (tossindo) deixe comigo. pode contar no relógio: em meia hora eu tiro o atraso! já, já, seu marrinha. “quem não trabuca, não manduca”!… mas que dia, heim?!
seu marra olha pra cima, e, mesmo com o céu azul, pincelado por uma ou outra nuvem alva, concorda:

– que dia!!

a-pois, então, revejamos: o cenário, os prédios, o ônibus chegando, o mulato saltando do ônibus, falando com seu marrão, o chefe diz o serviço precisa render, ele promete serviço, a turma olha de longe, dá o aspecto de quem está recebendo uma ovação (mas é mesmo um bom filho-da-puta esse salino!!!). e, logo-logo, todos os vendedores das bodegas da parte baixa do elevador fazem rodinha em volta dele, que lhes conta a história que ouvira no subúrbio ferroviário, pra lá das casinhas brancas com janelas azuis e os varais de roupas que são vistos por quem passa de trem pras distâncias de plataforma, paripe e sabe-se-lá-onde, você sabe, ninguém mais se aventura… (atenção para o diálogo):

– que terra, heim? ainda estou para conhecer lugar melhor para se viver. essa gente aqui da cidade é que diz que lá só tem fumaça de pretos… mas isso é inveja, e não é pouca! pois lhes digo que não vejo hora de arranjar um dinheirinho extra pra comprar um sitiozinho lá naquele meio de mato: uns dez alqueires qualquer, só de mato-de-lei… mando levantar uma casinha, com jardim em redor, mas só com flor do mato, que não vou querer parasita em volta. e uma cerquinha viva, com trepadeira pr´alastrar e tapar, misturadas, de toda cor. ah, e um galinheirozinho no fundo, pra me fornecer os ovos do almoço e da janta. uns pés de alface, outros de limão, outros de fruta-pão, e um tanque grande pra colocar umas tilápias. pra que mais?

(vê a cena? os homens em silêncio. na cabeça de cada um, limões carregados, frutas-pães, tanques repletos de peixes.)

– vê lá se sou homem pra ficar a vida toda alisando balcão!
neste momento, atenção!, generoso, o maus-bofes, entra em cena. a voz dele ressoa forte. chega para comprar um cigarro; agora ri, encostado no balcão de uma das vendas. e completa, em voz baixa, mas alta o suficiente pra salino ouvir:

– quanta conversa mole, heim? cês num tem outra coisa melhor pra jogar fora?

– te sara de invejas, siô! pode ver ninguém com amizade, que já começa intrigando? – diz lá um. e eis que alguém, meio escondido por trás da rodinha, aventura falar, com a voz mais cordial que encontra: né nada! e voltando-se pra salino, acrescenta, quase como se suplicasse:

– conta pr´ele, vá: as terras fartas.

salino, sem se perturbar, estende o maço de cigarros.

– pode tirar mais. vocês, eh, também?…

(generoso vacila, por quase um décimo de segundo, mas aceita, calada a boca, porque é sovino razoável e sabe ser grato, valendo a pena.)

– humm…

– estava aqui contando uma história… favas velhas, sei. mas, como uma história puxa outra, já estou lá na frente, diante de um viveiro enorme, cheio de pombos, canários e cardeais. numa chácara que se estende por dois montes donzelos, com cheiro de peito de menina moça; e uma varzeazinha onde todas as sementinhas que ali se põem crescem em árvores portentosas, não sabe? e toda qualidade de frutas… até azeitona!

– azeitona de lata não pega! não dá!

– ora se dá! vocês ainda hão… compro breve meus alqueirinhos, e há de ser pra lá do subúrbio, onde a baía pára de dar voltas… (e estão todos com a cabeça cheia de voltas, quando alguém sopra: olha os fregueses, seus malandros! e num segundo todos se dispersam, voltando para as portas das bibocas, para trás dos balcões sujos, mas agora tomados de sonhos, comentando, aqui e ali, os planos de salino).

– idealista, heim?

– lá é o que não é.

– mas os dois montes donzelos, com cheiro de peito de menina moça…

– uhmmmm!!!

– pois o que esse me arrelia mesmo – diz generoso – é esse jeito de não se importar com nada! só falando, e se rindo contando vantagens… parece que vê passarinho verde toda-a-hora… se reveste de bobo!

– é, mas, seja-não: é só esperto, que nem mico-estrela…

– qual! é só prosa… pirão d´água sem farinha!… se ao menos cuidasse de sua obrigação… se acha muito ladino, e nem enxerga que o espanhol anda rondando a casa dele. eu sempre digo: quem tem mulher bonita e nova, deve trazer debaixo de olho…

– é mulher séria, e gosta dele, muito…

– não sei… às vezes me parece que ele é sem-brio, que não se importa. acho que eu, como amigo, devo chamar à ordem…

– melhor não mexer com essas coisas, de família dos outros. isso nunca dá certo!

– tem perigo não. é só dar as indiretas!

nhor? o diálogo está confuso? ninguém sabe direito oqueédequem? então vamos enxugar tudo. olha aí: vamos enxugar os diálogos, porra! mas, sem exagero, pois?…

mais tarde (atenção, luz: aquela tonalidade crepuscular), após o expediente, o maus-bofes, intriguento que só ele, se aproxima do grupo que se forma, mais uma vez, em volta de salino. e tenta soltar o veneno:

– apois então, seu salino, como é mesmo o nome do espanhol? aquele seu vizinho!

– ora, generoso. você vem com espanhol, espanhol!… eu já estou farto dessa espanholaria toda… inda se fosse alguma espanhola, isto sim! (ah! ah! ah! riem os demais). generoso tenta retomar o fio da conversa, pra espalhar a intriga, mas salino já virava a curva da prosa, descrevendo, de fio a pavio, as gringas que freqüentavam os sítios do subúrbio – sem descontar as ruivas e louras, as chinesas e africanas, pois nem só de espanholas vivem os homens – lá mesmo onde pretende plantar sua chácara.

– e eu que nem sei por que vocês ficam por aqui batendo em prego sem estopa para catar essas roxas descalças, o que me dá até vergonha ver tanta falta de vontade de ter progresso. mas, claro, que vocês nem podem fazer idéia do que fazem as lorinhas, upa! de olho azul, perfumadas e metidas em seda e chinelinhos de saltos vermelhos, verdes, azuis… pintadas que nem as de circo-de-cavalinho… e é só “meu bem” pr´a lá, e “meu docinho” pr´a cá, que a gente fica até no sem-jeito…

– no subúrbio, salino?! – diz um lá muito não convencido.

– tem lugar lá, que de dia e de noite está cheio de mulheres bonitas!… mas, bonitas de verdade, feito santa moça, feito retrato de folhinha… tem de toda a qualidade: francesa, alemanha, turca, italiana, gringa… é só a gente chegar e escolher… elas ficam nas janelas e nas portas, vestindo de pijama… de menos ainda… só vendo, seus biboqueiros! cambada de malandros!

e, mais uma vez, o papo largo, a conversa mole desarmando os espíritos, a curiosidade de saber mais novidades sobre as terras ricas do subúrbio, onde as fêmeas dão em penca, como bananas, e pracati-pracatá, quando se ouve a voz grossa de seu marrão. (música!)

– ô seu lino! faz favor!

silêncio geral. chama-o à parte. e vai direto ao ponto:

– do que jeito que está, a coisa assim não vai… o senhor é um rapaz inteligente, de boa estampa… precisa dar exemplo… eu cá, palavra que até gosto de gente assim, que sabe conversar… que tem rompante… mas o serviço precisa render, seu lino!

– ora, seu marrinha, eu hoje até que estou com uma coragem doida de trabalhar!

– é bom… vê-se que o senhor é um rapaz inteligente, de boa figura… e, aqui entre nós, bem que eu gosto de gente assim… – e ia dizendo mais alguma coisa, quando viu o administrador da área, seu waldemar, chegando…

– alguma coisa, seu waldemar?

– nada, não. Quero só lembrar a esse seu salino, que ele não deixe de ir hoje. está ensinando a patroa a tocar violão, mas já tem dias que ele não aparece lá em casa…

– foi por doença, seu waldemar. (tossindo) mas pode contar que estarei hoje, lá, no sem-falta! – e dito isto, despediu-se, com seu andar pachola, sumindo em meio à gente que subia e descia o elevador. seu waldemar acompanhou, com o olhar condescendente, os seus passos de corta-jaca. E acrescentou o comentário, encerrando a conversa.

– mulatinho levado! entendo um assim, por ser divertido. e não é de adulador, mais sei que não é covarde. agrada a gente, porque é alegre e quer ver todo-o-mundo alegre, perto de si. isso, que remoça. isso é reger o viver.

enquanto conversam, lá no fundo da praça, numa roda de capoeira, vozes entoam o refrão da chula:

(e aqui, com a fala de seu waldemar, o canto dos capoeiras e um empurrãozinho do diretor, a cena se encerra incompleta, ao modo de um final de primeiro ato).

ATO II

O Diretor Pós-Moderno, seja lá o que isto signifique, andando para um lado e outro do palco, com o ar extremamente denso à sua volta, parece muito preocupado. Fuma um cigarro após o outro, como se remoesse velhas cismas…

… não dormi esta noite. a verdade, a-bem, é que passei toda a noite c´os personagens do conto pulando na minha cabeça, misturado com outros, mais do que reais. e o pior era a vozinha criticando, aos meus ouvidos: é preciso organizar melhor os elementos! os personagens estão muito soltos! os diálogos estão misturados! ninguém sabe o que é seu e o que é de guimarães! os críticos, que não entendem nada da intertextualidade, aqueles ignorantes, vão querer lhe acusar de plágio, oh, meu Deus! assim ninguém vai entender zorra nenhuma! rosa está é se virando na sepultura! você está completamente perdido! etc. de forma que cheguei hoje ao teatro mal humorado, cara amarrada, e fui logo chutando o pau da barraca. mandei acelerar a montagem do cenário, a escolha dos atores e quando dei por mim, lá estava, absorto, na segunda parte do conto, no olhar de restante ternura de maria rita (quem vai fazer o papel da maria rita?) sobre o mulato salamistrão. (e tem coisa mais formosa do que essa maria rita, heim? oh, sei que não devo me envolver com os personagens, que devo manter a minha objetividade). mas eis que, na manhã seguinte, ao ver que salino não fora trabalhar, ela fica esperando, coitadinha, uma nova lua-de-mel. “enfeitou-se melhor, e, silenciosa, com quieta vigilância, desenrolava, dedo a dedo, palmo a palmo, o grande jogo, a teia sorrateira que às mulheres ninguém precisa de ensinar”. bonito, heim? mas, agora, o filho-da-puta do salino, perdoem-me a intromissão, mas ainda vou matar esse sacana, anda pela casa, fuma e remexe no fundo da mala, busca fotografias de mulheres, gringas, polacas, e arranjando, no bem dentro, umas boas justificativas para o seu plano, enquanto maria rita, lindinha que só, arruma as vasilhas nas prateleiras. e ele pensa, conforme está no conto: boazinha bem que ela é… e bonita… (demora os olhos nos quadros de guerras antigas, numa paisagem africana com um locomovente rinoceronte…). mas como comparar com aquele oceano de curvas e olhos (escuros, azuis, verdes)… mais de cem? mil?!… e é só escolher: louras, de olhos verdes… ruivas, morenas, negras… pra toda e qualquer hora… e se ria da idéia estúpida de que houvesse toda aquela diversidade no subúrbio ferroviário (essa gente é mesmo muito da besta), ora qual, sabia que teria que ir mais longe… bem longe… deixando ritinha pra nunca mais. sabia que ela gostava dele, mas como toda mulher gosta. gostasse especial, mesmo, não chorava com saudade da mãe… não brigava quando ele saía com os amigos nos sábados à tarde para o baba no campo da refinaria, com uma esticadazinha no boteco para refrescar a goela. enfim, não achava ruim seu jeito de viver… gostasse, brigavam?… e na revista de cinema havia uma deusa loira, com lindos pés desnudos, e uma outra, morena, com muita pose e roupa pouca.
(corte. falo para o Assistente que não podemos nos deter muito nos detalhes, que desse jeito a peça vai ficar grande demais, que não vamos conseguir patrocinador para um espetáculo de três horas de duração, deste jeito só na broadway! então, eis aqui, a solução: vamos cortar radical: lançar um telão no fundo com um resumo da história e a voz em off: salino, que não quer porra nenhuma com a hora do brasil, resolve largar tudo, tá entendendo? inclusive a mulher, maria rita, ah, filho de uma égua!, que é assediada pelo vizinho espanhol, para buscar a boa vida, no sul do país. (esqueça a conversa do subúrbio ferroviário, que isto já está uma esculhambação só). aaã! joga o resumo no telão, aê!)

resume: salino lalãthiel acha que maria rita não gosta dele o suficiente. compara ela com as fotos da deusa loura, com lindos pés desnudos, e uma outra, com muita pose e roupa pouca; e chega à conclusão: ela perdeu! levanta dinheiro (algum saldo, pouco), conversa com seu marra (“está direito. você é mesmo maluco, mas mais o mundo não é exato. se veja…”), e com seu waldemar (“mas que é que já vai fazer, seu salino?… quer a vagabundagem inteirada?”). toma dinheiro emprestado do seu ramiro, o vizinho espanhol, “o senhor me empresta o dinheiro, que é o que falta… se não, eu não posso ir… sem dinheiro, não vou. não vou ir… como é que posso?!…” – a-pois, e como não haveria de dar? – e ainda manda um recado para ritinha: “olha, fala com a ritinha que eu não volto mais, mesmo nunca. vou sair por esse mundo, zanzando. como eu não presto, ela não perde… diz a ela que pode fazer o que entender… que eu não volto, nunca mais…”

“E foi assim – diz Rosa, ao final do segundo capítulo –, por um dia haver discursado demais numa pausa de hora do almoço, que Eulálio de Souza Lalãthiel veio a tomar uma vez o trem das oito e cinqüenta e cinco, sem bênçãos e sem malotagem, e com o bolso do dinheiro defendido por um alfinete-de-mola. Procurou assento, recostou-se, e fechou os olhos, saboreando a trepidação e sonhando – sonhos errados por excesso – com o determinado ponto, em cidade, onde odaliscas veteranas apregoavam aos transeuntes, com frinéica desenvoltura, o amor: bom, barato e bonito, como queriam os deuses”.

e lá se foi nosso herói, com seus cabelos pretos, brilhantinados, xêi de novioras, bamboleando, sorridente, descarado e salamistrão. prosa, só… ele, velho conhecedor das putas do taboão e do meia três. foi, com bilhete de ida (sem volta), com destino ao rio de janeiro, onde morreria, duas semanas depois, vitimado por uma bala perdida, na favela do vidigal, enquanto o diretor pós-moderno, antecipando-se ao espanhol, arranchou-se com maria rita, na pedra do sal, vizinho à ex-casa de vinícius de moraes, em itapuã, longe, bem longe, dos reclames do Assistente, que, num acesso de histeria, incendiou o teatro, inconformado com o fato de o diretor pós-moderno, seja lá o que isto signifique, ter ignorado solenemente (e impunemente), a melhor parte do conto de rosa: aquela que lhe justifica o título e o gênio.

Enquanto isso, na praça – quentíssima e em festa – os capoeiras continuavam a exultar.

Leia: A impossível volta do marido pródigo

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