Oitenta

oitenta
Oitenta: passado e futuro
Aleiton Fonseca e Carlos Ribeiro (org.)
Contos. Edição comemorativa da Coleção dos Novos.
Salvador. BDA Bahia, 1995
175 páginas
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Poetas: Aleilton Fonseca, Mirella Márcia, Roberval Pereyr, Iderval Miranda, Washington Queiroz, Marcos Ribeiro,
Contistas: Orlando Pereira dos Santos, Carlos Ribeiro, Dalila Machado, Iracema Villalba, Lázaro Torres, Sebastião Valença Filho, Chico Muniz e Diógenes Moura.

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Apresentação:

Os escritores presentes nesta coletânea não têm em comum uma determinada forma de expressão estética. Tampouco alimentam a intenção de representar um movimento, nem de se afirmarem como uma geração literária. O seu ponto de convergência – a Coleção dos Novos, editada pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, no início dos anos 80, reunindo autores então considerados emergentes – é marcado pela diversidade: de estilo, de visões de mundo e, talvez, de concepções sobre o fazer literário.
Essa diversidade – que, a exemplo do universo com sua miríade de formas, sons, cores e silêncio, forma uma secreta unidade – se apresenta aqui num mosaico cujo elemento unificador nos escapa, recusando-se uma definição que o sintetize, que lhe dê um sentido específico.Diante dessa dificuldade, optamos por procurar num elemento extraliterário o título para este livro. Encontramos em Oitenta o nosso ponto de união. Nos anos 80, de certa forma pouco expressivos, tempos de crise e de transição, encontramos a semente dos trabalhos que ora submetemos ao leitor. É certo que os autores já ultrapassaram aquela fase e buscam agora colher os resultados desses anos de experiência, definindo, cada qual, o seu estilo e o seu lugar no quadro da literatura mais recente.Esperamos que esses textos, como elementos de um mundo em revolução permanente, possam conquistar e conservar, do passado e do futuro, da tradição e da modernidade, um presente. Um presente que se justifique (e nos justifique) pela linguagem, pela poesia.Os 14 escritores publicados na Coleção dos Novos estão aqui presentes. Este fato em si é expressivo, pois demonstra que, passado tanto tempo, todos aceitaram o desafio da escrita literária por vocação e ofício, dando plena continuidade a suas carreiras. Cada autor foi responsável pela indicação de seus trabalhos. Para estabelecer a ordem de publicação na coletânea, adotamos como critério a mesma seqüência em que apareceram na Coleção de acordo com a série, poesia ou prosa. Quanto à ordem dos gêneros, resolvemos, por razões editoriais, iniciar com os textos dos poetas.Oitenta, em seu caráter comemorativo, reúne apenas estes poetas e contistas. No entanto, reconhecemos a importância de outros escritores baianos cujos primeiros trabalhos surgiram também nos anos 80 e fazem parte do panorama da literatura atual. Enfim, somos todos caminheiros, em busca das formas e linguagens literárias que possam se afirmar como expressão de um novo século.
Os organizadores
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Trecho de O chamado da noite
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I. A noite é um deserto
Eu a vi pela primeira vez, ao lado do Teatro Castro Alves, na entrada para o Garcia, naquela hora do crepúsculo em que toda a gente passa aflita com não-sei-o-quê, e ela passando no meio da multidão com a expressão suave de quem não sabia pra onde estava indo. Havia muitas mulheres, hoje em dia há sempre um grande número de mulheres nas ruas, nos escritórios, nos hospitais, em toda parte, mas aquela mulher de repente se sobressaía, não sei por que, talvez porque tivesse os cabelos curtos e parecesse uma francesinha revolucionária dos anos 60 dos filmes de Godard, porque todas as francesas dos anos 60 dos filmes de Godard parecem revolucionárias por não saberem de onde vêm nem para onde vão, mas eu que sempre sei para onde estou indo (o que me torna às vezes triste) senti uma estranha e súbita afinidade com ela e o impulso de segui-la, de não deixá-la ir, de não deixá-la morrer, como tristemente ocorre a todas as mulheres que desaparecem, simplesmente, como um naufrágio, e se vão perdidas esquecidas, para um futuro melancólico, sem saber que eu poderia salvá-las se não fosse assim um homem ocupado, que tem sempre algum lugar para ir, alguma coisa para fazer, tantas coisas para fazer que em última instância se traduzem em milhões de coisas não feitas, e ela apareceu como uma mulher impossível porque não é concebível encontrar uma francesa dos filmes de Godard na esquina do Campo Grande com o Garcia, próximo ao TCA, numa tarde de janeiro, não é possível vê-la presente ali indo embora para desaparecer como sonho, como delírio de um homem que caminha também para desaparecer nesse deserto que chamam de Meia Idade, ou maturidade, e que nada mais é que um imenso desencanto, um pátio frio varrido para sempre de anjos e demônios, de mistério, e é nesse pátio que ela passa agora como uma única flor que resiste e vejo que perdê-la seria renunciar para sempre ao mistério, trocá-lo pelo bom senso que diz: veja, é muito infantil correr atrás de francesinhas improváveis na rua, porque você é um homem sério e sensato e homens sérios e sensatos devem saber o seu lugar; um homem sério e sensato sabe que deve fazer coisas sensatas, que deve escrever coisas sensatas, um homem que caminha para esse pátio de racionalidade e bom senso, para esse pátio cuja expressão exata está nas palavras estabilidade, segurança, conforto, esse pátio que exige um bom posicionamento na vida, papéis definidos, atitudes convencionais, enfim, eis o que me reserva o futuro se não sair por aí correndo atrás de mulheres que não existem porque aquela mulher não existe e se tiver paciência poderei vê-la desaparecer para sempre e para sempre me convencer de que realmente não seria bom para mim seguir um fantasma, pois os fantasmas são imprevisíveis, os fantasmas são imprevisíveis, lembre-se disso, e o mundo já é muito perigoso mesmo para os que planejam bem o futuro, para os que têm a segurança de um emprego e o abrigo do lar e da família e horários fixos e trabalho, enfim. Então eu pensava nisso enquanto a via passando por trás de carros e ônibus, de um velho aleijado e são cada vez mais numerosos os velhos aleijados na rua, e só então vi que caminhava com os mesmos passos de uma namorada minha de juventude, que tinha o mesmo porte altivo, ela que muitas vezes quase me bateu com seus ciúmes alucinados, mas que amei ao meu modo; ela tinha algo da sua doçura e um jeito sério e ao mesmo tempo moleque de… oh, mas então ela era ao mesmo tempo todas as mulheres que amei e nenhuma delas porque era única, porque era única mesmo, única como Romy Schneider ou como Mônica Vitti e desafio qualquer um a achar uma mulher que se pareça com Mônica Vitti e ela era assim, única e o reflexo do sol de verão, esse mesmo sol poente que faz meus pensamentos vaguearem sem ordem e sem disciplina mas com imensa preguiça tropeçando nas árvores e nos carros e nas ruas e nas mulheres que passam e se vão sem sequer me olharem, pois acho que elas pensam que eu nem mais existo, que sou ninguém como o personagem de um filme que assisti há muitos anos no cine Guarani antes que mudassem o nome dele para Glauber Rocha o que acho muitíssimo errado isso de descobrir um santo para vestir outro, pois aquele nome era, como vocês devem saber, uma justa homenagem à ópera de Carlos Gomes e isso tinha a vantagem belíssima para mim de ainda criança ouvir na abertura do espetáculo com toda solenidade as cortinas se abrindo e aquela música linda linda tchan tchararan tchan tcharanran tchan tchan tchan tchan tchan tchan tchan tchan tchan tchan tchan tchan tchan tchanranran e eu lá mas são justamente essas e outras coisas que desaparecem pouco a pouco da minha vida que se transforma naquele pátio frio e deserto sobre o qual falei há pouco e que estou aprendendo a chamar agora de Meia Idade, e acho que Meia Idade é algo assim como um elefante sem tromba como aquele da crônica de Rubem Braga; mas esse também não tem rabo e, creiam, não existe nada mais bonito num elefante do que aquele rabinho, pois é o rabinho que torna um elefante gente, é o rabinho que o faz ser aceito entre nós como nosso irmãozinho caçula ou como o garotinho mais novo da rua, aquele que quer ser grande, e o que ele tem de mais adorável é isso de querer ser grande, é isso que nos faz rir dele com ternura, pois sabemos (mas não dizemos para ele, claro, o que seria uma grosseria imperdoável) que ele é apenas uma criancinha; e sabemos que o elefante é um elefante, embora o recebamos em nossa casa e o convidemos para um chá; mas enfim ele vai se instalando se instalando e quando damos conta já não podemos mandá-lo embora pois ele não saberia o que fazer na rua e as ruas hoje são, como vocês devem saber, muito estranhas e perigosas e decididamente não são lugares adequados para um elefante, e no final das contas acharemos muito bom termos em casa conosco um elefante; mas um elefante sem tromba e sem rabo é uma deformação, ou melhor, uma aberração pois lhe falta a graça e a vitalidade, então Meia Idade é algo assim como um monstro, mas não um monstro de verdade como os monstros da Antiguidade, é um monstro marcado pela ausência, pela precariedade, pelo não, um monstro que não nos devora, que não nos ataca como devem todos os monstros fazer; e que se limita a ficar parado diante de nós e aos poucos roer a nossa vida; e nós o deixamos roer a nossa vida quando achamos que não vale a pena fazer nada mais do que seguir a rotina, com segurança e comodidade pois não são esses os valores máximos da nossa civilização, a nossa suprema conquista? E enquanto a moça passava e desaparecia lentamente por detrás dos carros eu via Meia Idade ali parado, ao meu lado, rindo para mim, como se isso fosse possível.