Com a Palavra O Escritor

LIVRO_Com_a_Palavra_O_Escritor
COM A PALAVRA O ESCRITOR
Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado – Casa de Palavras, 2002
251 páginas,
R$ 20,00
Tel: (71) 3321-0070
fcjamado@veloxmail.com.br

Depoimentos dos escritores Zélia Gattai, Ruy Espinheira Filho, Judith Grossmann, Hélio Pólvora, Myriam Fraga, Guido Guerra, Antonio Brasileiro, Maria da Conceição Paranhos, Florisvaldo Mattos, Fernando da Rocha Peres, Ildásio Tavares, Claudius Portugal, Herberto Sales, Helena Parente Cunha, José Carlos Capinan, Cleise Mendes, Antonio Torres, Elizabeth Hazin, Aramis Ribeiro Costa, Carlos Ribeiro, Cyro de Mattos

DEPOIMENTO ESCRITO PARA SER LIDO NO EVENTO “COM A PALAVRA O ESCRITOR”, REALIZADO EM AGOSTO DE 1997
Carlos Ribeiro

Ao receber o convite das minhas amigas, Myriam Fraga e Evelina Hoisel. para participar deste Com a palavra o Escritor, percebi, com certa estranheza, que precisaria percorrer, não apenas os caminhos da memória, mas também os do esquecimento. Ao procurar reconstituir os elementos que compõem a minha história, no trato com a palavra escrita, deparo-me com um território no qual procuro discernir, muitas vezes inutilmente, as fronteiras entre a realidade e a imaginação. Rememorar, para mim, é, portanto, mais do que qualquer outra coisa, tomar consciência do esquecimento, como um viajante que só tem consciência real de que não conhece uma determinada região, ao conhecê-la.

Penso mesmo que o espanto que sentimos, diante desse terreno misterioso e fascinante da vida pregressa (o tempo perdido), seja um dos aspectos fundamentais da expressão artística. Assim, ao tentar escrever sobre o que vivi, termino escrevendo sobre o que penso que vivi; e ao deixar escoar por entre os dedos a matéria viva da vida sentida e vivida, sinto-me mergulhado naquela solidão dos que se percebem, não diante de sua história real, mas da sua mitologia pessoal.

Resta-me essa ilusão de sinceridade – com a qual me apresento diante de vocês. Sinceridade esta que se justifica pela linguagem com a qual recrio a minha própria história. Nesse sentido, posso dizer, como o poeta Lêdo Ivo, que “sou o que a linguagem me deixa ser”.

Falar sobre mim é uma tarefa que me leva a um lugar onde a palavra, a imagem e a memória se encontram numa fonte comum – o Eu – que é, na minha opinião, o centro de toda forma de expressão artística, mesmo das que procuram negar o sujeito, em nome de uma objetividade, na maioria das vezes enganosa e mistificadora.

Mas arrisco dizer que, de todos esses elementos, talvez seja a imagem o meu ponto de partida, ou o ponto de apoio que encontro para dizer o que sei. Iniciarei portanto esta conversa com o escritor com uma imagem que sintetiza bem a minha relação com o ato de escrever.

Esta imagem pode ser encontrada no ponto mais distante que a minha memória até hoje pôde tocar: um pequeno apartamento localizado na rua Silva Jardim, no Taboão, em pleno Centro Histórico de Salvador, em frente ao prédio conhecido como bola verde, ao lado do Plano Inclinado do Pilar. Ali, para onde a minha família se mudou por volta de 1960, quando eu não tinha completado ainda dois anos de nascido, encontro as minhas primeiras e mais remotas lembranças. Numa delas, lembro-me bem, eu estava sentado no chão, no quarto, meio que perdido entre as sombras que a tarde mergulhava no recinto, quando ouvi um ruído estranho do que penso hoje que teria sido um liqüidificador. Era quase noite e o barulho penetrava nos meus domínios de silêncio e solidão de uma forma inexplicavelmente fascinante e perturbadora. Segundo me recordo, levantei-me e, cruzando lentamente o corredor, cheguei à cozinha onde estavam minha mãe e uma velha tia. Elas preparavam alguma coisa num liqüidificador, que me pareceu um objeto um pouco zangado e desagradavelmente barulhento.

Abro aqui um parêntesis para dizer que aqueles objetos fascinantes: o liqüidificador, a radiola, a grande TV de botões amarelos, o estabilizador de voltagem que reagia como um monstrinho mal-humorado às intensas variações de energia, eram para mim mais que objetos prosaicos e utilitários. Eles eram o mundo novo que se apresentava diante dos olhos de uma criança que ainda não sabia distinguir o natural do artificial. Eram portanto, natureza, tanto quanto uma árvore ou um gato.

E assim, o que foi uma impressão, consolidou-se na minha memória, ao passar dos anos, como uma realidade inquestionável. Muitos anos mais tarde, entretanto, eu ouviria de uma velha tia a afirmação surpreendente de que, naquele início dos anos 60, não havia ainda nenhum liqüidificador na minha casa. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que uma das minhas primeiras e mais marcantes lembranças estava ligada a algo que não existiu! Em outras palavras: que uma das imagens mais antigas, presentes na minha memória, seja uma ficção, uma invenção.

Tomo a liberdade de trazer para vocês essa lembrança, talvez banal, para ilustrar o que penso ter sido a primeira vez que uma fantasia se impôs, na minha memória, como realidade ou representação da realidade: não escrita, é verdade, mas sonhada e rememorada. Uma cena revista, retocada e aprimorada ao ponto de se tornar mais real para mim do que muitas outras coisas que realmente vivi. Mas não foi a única. Quantas vezes encontrei, nas minhas lembranças, cenas de filmes (às vezes até aquelas que eu mais gostava), que simplesmente desapareciam quando eu os revia, frustando-me e, sobretudo, deixando-me com a ponta de suspeita de que alguém andava a escondê-las, para me confundir?

O que posso concluir disto? Que a minha própria vida, recriada pela memória, é uma ficção? Talvez possa afirmar, com razoável grau de certeza, que a minha ficção é o resultado da confluência de uma memória infiel com uma imaginação um tanto excessiva.

Muito tempo antes de sequer sonhar em ser um escritor, eu já construía naquele espaço acanhado do apartamento, no Taboão, a minha obra, que era o meu próprio mundo, um mundo de horizontes largos e luminosos, no qual eu reinava como um herói intrépido, mas generoso, que com sua espada combatia piratas, serpentes, índios e monstros pré-históricos. Tão largos eram os meus domínios que me custou crer, quando lá retornei muitos anos mais tarde, que ali um dia coubessem tantas maravilhas, naquelas paredes, salas e pátios sujos e decadentes.

Essa melancólica constatação traz-me à memória uma passagem do livro Terra dos Homens, de Exupéry, quando ele diz, referindo-se ao parque onde costumava brincar quando menino, “que naquela província, que era para nós o infinito (…) não entraremos nunca mais. Porque é à infância, e não ao parque, que seria preciso regressar”.

Para falar de mim, preciso voltar àquele mundo maravilhoso que entretanto se perdeu para sempre (digo esta palavra com reservas, pois, como Ulrica, personagem de Borges, também penso que “sempre é uma palavra que não é permitida aos homens”). E, como não posso reencontrar aquele “tempo perdido”, só me resta, também agora, assumir essa ficção que teço sobre mim mesmo, procurando convencer-me – e a vocês – de que ela é real.

Vivi muitas histórias, mas me entristece saber que não poderei contá-las. Porque, para contar a minha história, eu precisaria transmitir o sentimento que vivi em cada momento, o que é impossível. Até mesmo os fatos, meras aparências da verdadeira história, que se passa na intimidade de cada sujeito, são inexpugnáveis: como contá-los sem que, de algum modo, os recriemos? Sei, portanto, que se me resta alguma coisa a fazer, resume-se em escrever sobre esta impossibilidade.

* * * *

Mas deixemos esses arrodeios de lado e vamos direto ao assunto que vim tratar neste encontro. Em primeiro lugar, devo confessar que tenho ainda muitas reservas em me autodenominar publicamente como um escritor. Por quê? Se escrevo há muitos anos, se tenho sete livros escritos, embora apenas três publicados? Se algumas pessoas – raras, é verdade, mas por isso mesmo preciosas – me reconhecem como tal? Posso arrolar alguns motivos, que não são definitivos, mas que apenas expressam a minha visão particular deste assunto.

Em primeiro lugar, acho que um escritor precisa ter leitores. Precisa estar presente nas livrarias, no mercado editorial. Seus livros precisam correr de mão em mão, enfim, circular, existir. Um bom livro não pode ficar por aí dormindo em berço esplêndido, se fazendo de especial ou de incompreendido.

E, em segundo lugar, acho fundamental mesmo que o escritor tenha as suas obras analisadas e estudadas pelos críticos literários, ao meu ver muitas vezes injustiçados, como se não coubesse a eles essa tarefa tão importante e fundamental que é manter a obra viva, perene, renovada. E como somos carentes disto aqui, apesar dos esforços altamente louváveis de alguns.

Por isso relutei em aceitar o generoso convite que as minhas amigas e mestras Evelina Hoisel e Myriam Fraga me fizeram, de me apresentar neste espaço. Considero-me um escritor que ainda está dando os seus primeiros passos, mesmo que já tenha nas costas o peso de algumas centenas de milhares de palavras escritas, suadas, sentidas, feridas, doadas.

* * * *

Voltemos, porém, à minha história. Por volta de 1965, a minha família mudou-se para Itapuã, na época um bairro de pescadores já invadido por veranistas, que, entretanto, se comportavam bem melhores que os veranistas de hoje em dia, em geral famílias pacíficas que só queriam viver em paz. Embora já veraneássemos lá desde o início dos anos 60, foi com essa mudança que os meus horizontes se alargaram de forma até então nunca imaginada. Ali eu não dispunha mais apenas de vôos imaginários, mas sim de vôos reais! Itapuã me dava a consistência que faltava ao meu mundo de fantasias. Um mundo novo se apresentava para mim: um mundo de caminhos inexplorados, de matos, mangues, dunas e mar; de cobras venenosas que invadiam nosso jardim; de histórias fantásticas; de moleques malvados que eu enfrentava, agora não mais tão senhor de mim. A duras penas eu percebia que já não era mais imbatível. As minhas batalhas ganhavam a substância real e concreta das brigas de rua, proporcionando àquele menino uma súbita e inesperada maturidade.

Em Itapuã dei os meus últimos passos de menino e entrei de cabeça na adolescência, refletindo de repente a minha própria condição de criança e de homem – da criança e do homem que lutavam agora uma guerra mais dura, dentro de mim. No Colégio Lomanto Júnior, do qual meu pai era vice-diretor e professor, conheci aqueles que viriam a ser os meus melhores amigos. Comecei a perceber também vagamente que o paraíso conquistado a duras penas não era eterno: uma cicatriz começava a se formar pouco a pouco no corpo ferido do bairro, que vivia, da mesma forma que eu, um processo de transformação acelerado.

Comecei então a fazer as minhas primeiras anotações: cadernos que passava a encher com letras miúdas registrando neles as minhas vivências. A fantasia, ferida pela realidade do mundo dos homens, ganhava consistência no papel, que era também depositário das minhas alegrias. Vieram as paixões amorosas – cujas dores eram agravadas pela minha timidez – e pouco a pouco a consciência, ainda embrionária, da realidade social e política do meu país.

Naquela época, não me passava pela cabeça ainda que pessoas pudessem estar sendo torturadas e mortas nos chamados “porões da Ditadura”, enquanto eu mergulhava na descoberta e conquista daquele mundo fascinante. Acreditava, sem nenhuma sombra de dúvida, que este era realmente um país que vai pra frente. Não sabia que eu também era vítima de um massacre silencioso, do qual só iria me dar conta muitos anos mais tarde. Sim, porque, se as gerações anteriores tiveram que travar uma luta mortal com um inimigo real e concreto, nós, da nossa geração, ou pelo menos uma boa parte dela, tivemos que enfrentar um inimigo talvez mais solerte e insidioso: a nossa própria ignorância e alienação, propositadamente imposta a nós pelo sistema, este dragão da maldade que, não se enganem, continua vivo e vigilante.

Estamos no início dos anos 70. Aos 14 anos de idade começo a minha vida de farras, como mascote de uma turma que era, entre outras coisas, boa de copo e de briga, numa época em que não era incomum a rivalidade entre turmas de bairros, todas elas boas de copo e de briga. Eu mesmo era muito esquentado e brigava a murros por qualquer olhar um pouco mais atravessado, o que, devo confessar, aumentou muito o número de cabelos brancos da minha querida mãe. Mas logo comecei a me interessar por atividades, digamos, mais nobres: fundei com um amigo um clube de cinema, em 72; ingressamos no Clube da Editora Juvenil, voltada para o estudo de histórias em quadrinhos, dirigida pelo jornalista Gutemberg Cruz, em 73; comecei a freqüentar um curso de cinema ministrado pelo professor Guido Araújo, em 74, onde tive contato com obras-primas da Sétima Arte, como O Encouraçado Potemkin e um estranho filme japonês, Mulher de Areia, do qual nunca mais ouvi falar, bem como do cinema nacional, que me era então completamente desconhecido. Em 1976, aos 17 anos, não me passava ainda pela cabeça a idéia de ser um escritor, mas já sabia que o meu futuro estava relacionado de alguma forma ao uso da palavra. Embora desde cedo demonstrasse aptidão para o desenho, pensando mesmo em tornar-me um cartunista ou caricaturista, terminei me decidindo pelo curso de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

* * * *

Chego aqui a um dos mais importantes divisores de água da minha vida. Ao entrar para a Universidade, numa turma que contava com veteranos, como Carlos Sarno, Beraldo Boaventura e na convivência com intelectuais como Ruy Espinheira Filho, Othon Jambeiro e André Setaro, os quais destaco pela amizade e pela boa vontade que sempre tiveram com um jovem jornalista iniciante, tive finalmente que decidir entre a cômoda tranqüilidade da minha ignorância e um nível intelectual compatível com a profissão que escolhi. Havia lido muito pouco até então, apesar de ter à minha disposição a biblioteca relativamente pródiga do meu pai. Lembro-me de algumas poucas obras mais marcantes que me ficaram na memória: O Tronco do Ipê, de José de Alencar, A História Universal, de H. G. Wells, As Aventuras de Tibicuera, de Érico Veríssimo e a famosa narrativa de Hans Staden, sobre a sua aventura entre os tupinambás, no litoral brasileiro, após ter sido vítima de um naufrágio descobri então nas páginas de escritores como Poe, Tchekov, Dostoievski, Hemingway, Steinbeck, Hermann Hesse, Orígenes Lessa, Robert Louis Stevenson, Aldous Huxley e George Orwell um espaço onde me sentia completamente a vontade: a minha praia.

Algumas obras me marcaram particularmente nesta primeira fase: o conto “A Aposta” e “Enfermaria No. 6”, de Tchekov; “Crime e Castigo”, de Dostoievski; “Demian”, de Hesse; “As Vinhas da Ira”, de Steimbeck; “Ana Terra” e “Um Certo Capitão Rodrigo”, de Érico Veríssimo; “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tostoi; e as “Histórias Extraordinárias”, de Edgar Alan Poe. Gostava muito das crônicas do Ruy Espinheira Filho, publicadas na coluna “Temponáutica”, na Tribuna da Bahia – crônicas estas que já conhecia e admirava, antes mesmo de conhecer o seu autor.

* * * *

Até novembro de 1977, entretanto, ainda não me ocorrera a idéia de escrever qualquer coisa além das minhas anotações pessoais. Aconteceu-me passar o feriado de Finados com amigos no povoado de Amoreira, na Ilha de Itaparica, onde tive uma experiência estranha compartilhada com um vagabundo, que imagino hoje tenha colocado alguma droga fortíssima na minha bebida. Resumindo: fiz uma viagem tão inacreditavelmente forte que ainda no dia seguinte pensei ter encontrado o Nirvana, materializado num pedaço de isopor, ao qual batizei como “Om”, mantra indiano que nos liga à força cósmica, ao Ilimitado, ao Indizível.

Naquele mesmo passeio tomei uma pancada violenta na perna, que me deixou fora do circuito universitário por mais de um mês. Na confluência do Nirvana e da dor, apareceu uma outra novidade, quando tomei conhecimento do Concurso Permanente de Contos, organizado pelo Adinoel Motta Maia, no saudoso Jornal da Bahia. Com tempo de sobra (graças à cirurgia que tive de fazer na perna), e motivado pelo concurso, resolvi colocar no papel a experiência transcendental que vivi na Ilha. Surgiu então o meu primeiro conto, “O Encontro”, publicado em janeiro de 1978, no JBa. Escrevi em seguida, um outro conto, “Há Nuvens Negras no Horizonte”, retratando o medo da Guerra Nuclear que naquela época eu acreditava ser inevitável, também publicado no Jornal da Bahia.

Então eu era um escritor? Não, com aqueles dois pequenos contos, eu não me achava apenas um escritor, e sim O Escritor. Alguns meses depois esta imagem seria um pouco mais consolidada com a minha participação no Clube da Ficção, movimento de profissionalização do escritor baiano, criado pelo Adinoel Motta Maia, e que reunia entre outros as consagradas figuras de Ariovaldo Matos e Vasconcelos Maia, além de Gláucia Lemos, Orlando Pereira dos Santos e Aleilton Fonseca.
Embora discordando de algumas premissas do movimento, o que me levou a não assinar o manifesto do grupo, colaborei nos dois números da revista Aqui Ficção, que, entre outras novidades, passou a ser vendida na rede de supermercados Paes Mendonça. Hoje posso dizer que aquela experiência foi importante para mim, na medida em que abriu de forma generosa e desinteressada os caminhos para um escritor que mal entrava na casa dos 20 anos.

Na seqüência, por volta do ano de 1981, tomei conhecimento do I Encontro de Literatura Emergente, que estava sendo organizado no Instituto de Letras da UFBA, então localizado no bairro de Nazaré, por Myriam Fraga, Evelina Hoisel, Antônia Herrera e Judith Grossmann. O encontro teve o grande mérito de movimentar um segmento cultural que estava mergulhado numa certa pasmaceira – que foi em geral a tônica nos anos 80. Contando com as presenças entre outros dos escritores Nélida Piñon e Silviano Santiago, este também crítico e teórico de literatura, o evento foi palco de uma inesperada performance do grupo Poetas da Praça, que acabou o encontro, virando literalmente a mesa.

O encontro deixou, entretanto, um saldo positivo de contatos, intercâmbio entre os emergentes, muitos dos quais ainda continuam emergindo, 16 anos depois, o que dá uma idéia do quanto estávamos no fundo. Grande parte desses companheiros desapareceram, outros tantos optaram por outras profissões mais rentáveis, e uma outra parte continua produzindo, amadurecendo o trabalho que já começa a despontar, agora, quando começamos a nos tornar respeitáveis senhores e senhoras de meia idade. Dentre esses companheiros, destaco os então jovens escritores que tiveram seus primeiros livros publicados na Coleção dos Novos, idealizada e concretizada por Myriam Fraga, então coordenadora do Departamento de Literatura da Fundação Cultural da Bahia. Como ficou demonstrada na coletânea organizada por mim e pelo escritor e professor de literatura Aleilton Fonseca, intitulada Oitenta e publicada em 1996 pela Editora BDA, todos os integrantes da Coleção dos Novos continuam produzindo, sendo que grande parte deles concluíram ou estão por concluir suas teses de Mestrado e Doutorado em Literatura, o que dá uma idéia do trabalho desenvolvido pela comissão editorial da Coleção, então composta pelos escritores Ruy Espinheira Filho, Guido Guerra, Capinam, Claudius Portugal e pela própria Myriam.

Na Coleção dos Novos foram publicados 14 livros de 14 autores. O meu, que foi o número 3, intitulava-se Já Vai Longe o Tempo das Baleias. O livro, um pequeno volume de contos, de 71 páginas, retratava na maioria das suas histórias, as transformações ocorridas no bairro de Itapuã, antigo povoado de pescadores de baleias.

Mais ou menos por essa mesma época, atraído pelo ideal romântico dos chamados escritores alternativos ou marginais, havia publicado às minhas próprias expensas, uma pequena história intitulada “Chico Tripa e a Medonha Serpente da Lagoa do Abaeté”, a qual vendia de mão-em-mão, acreditando inocentemente que poderia dispensar a intermediação das editoras. Apesar do meu empenho, nunca ganhei mais em cada saída do que gastava, em comidas e bebidas, nos próprios bares. Mas valeu a pena pelo que bebi, comi e curti.

Mas foi também em 81 que iniciei uma atividade, sobre a qual iria concentrar o melhor da minha capacidade profissional, nos 15 anos seguintes: a de repórter especializado em meio ambiente. Talvez, em algum lugar de mim, acreditasse que defendendo a causa ecológica, estaria preservando dentro de mim mesmo alguma coisa que começava também a se perder. Em parceria constante com o fotógrafo carioca Luiz Cláudio Marigo, iniciei uma jornada que me levaria da caatinga do Raso da Catarina às geladas paisagens antárticas, do litoral cearense à densa e misteriosa floresta amazônica, dos cerrados do Parque Nacional das Emas em Goiás às ilhas marinhas dos Abrolhos. O que os meus olhos viram, as minhas mãos tocaram e o meu coração sentiu nessas jornadas, só eu sei – ou talvez nem eu mesmo saiba mais, considerando a infidelidade da minha memória.

Descortinei também outras paisagens, interiores, talvez ainda mais belas, sobre as quais acho que não vale a pena falar, simplesmente porque não tenho palavras para exprimi-las – e aqui está talvez a minha maior carência como escritor: a de não saber representar o que há de verdadeiramente Belo. Antes, prefiro voltar-me para o lado obscuro e sombrio da existência humana, buscando talvez naquele que considero o meu maior mestre na literatura – Franz Kafka – a minha maior inspiração.

Nesses 15 anos de atividades como divulgador científico (prefiro essa definição à de jornalista ecológico, pois nunca me considerei um militante na acepção do termo que o aproxima de um apostolado), devo confessar que deixei a literatura, minha grande paixão, em segundo plano. Tive também outras razões que me levaram a isto, mas que não vem ao caso falar aqui. Produzi pouco, muito pouco, em esporádicos surtos de criatividade, em detrimento de uma prática mais sistemática. Ainda assim, encontrei tempo para escrever um volume de contos, em parte inédito; uma novela narrando uma viagem que fiz de carona, com um amigo; uma outra novela de aventuras infanto-juvenil; e mais recentemente um romance, também de aventura, mas nesse caso mais num sentido simbólico, tomando como base a simbologia do Santo Graal.

Nesse período, publiquei alguns contos nas principais revistas e suplementos literários de Salvador. Em 1988, ganhei o Concurso de Contos da Academia de Letras da Bahia – importante porque eu mesmo já estava duvidando se era de fato um escritor. Mas, na longa noite editorial que foi os anos 80, para os escritores novos ou emergentes, os meus livros continuavam inéditos. Tentei algumas editoras do sul do país, inutilmente.

Não sei dizer se foi ruim ou bom ter aqueles livros não-publicados. É possível que me arrependesse de tê-los publicados, não sei. Hoje me encontro com três livros de juventude inéditos nas mãos e já não sei o que fazer com eles, mesmo porque já não sou o jovem e entusiasmado autor que os escreveu. Devo rescrevê-los, adequá-los à minha visão atual? Não sei, não sei… De todo modo, posso dizer que valeram como exercício e aprendizado.

Finalmente, no final de 1995, encontrei a oportunidade de publicar os meus trabalhos através da Editora BDA, uma editora surpreendentemente disposta a limpar as gavetas dos escritores baianos. Era, entretanto, um risco: eu não sabia se ela era de fato confiável, ou seja, se eu poderia realmente confiar-lhe os meus melhores trabalhos. Resolvi então fazer uma experiência: selecionei alguns contos e pequenos textos do que se pode chamar de prosa poética, na falta de uma definição melhor, e os publiquei. A resposta? Não sei. Entre a manifestação carinhosa de alguns e o silêncio de outros, estendi a minha própria dúvida, e apenas uma certeza: a de que, aproximando-me já dos 40 anos, ainda procurava encontrar a minha própria linguagem, a minha própria forma de expressão.

O livro de 88 páginas, intitulado O Homem e o Labirinto, tem alguns textos que me são particularmente caros, se não em termos da sua qualidade literária, pelo menos em termos do meu afeto. Lê-los me transporta a momentos em que pude sentir verdadeiramente, no meu espírito, o sentimento poético. Apesar de uma sensível e bem escrita resenha publicada pelo jornalista Elieser Cesar, em A Tarde Cultural, que lhe cedeu bastante espaço, não tive uma resposta mais consistente ao livro, que acho eu caminha hoje para o esquecimento (estarei enganado?).

A experiência da publicação resultou, entretanto, numa espécie de provocação, ou seria mais adequado dizer: num desafio. As dúvidas quanto à minha capacidade de escrever algo que tocasse mais nas pessoas, ou melhor, que as sacudisse, mexeram com os meus brios. E a única resposta que pude dar não foi outra senão a de sentar-me diante da tela do computador e não mais escrever, mas sim vomitar palavras – algumas, aliás, ocultas num recesso de mim de tal forma que eu mesmo as desconhecia – e assim compor outro livro. Custei a encontrar o título que melhor lhe coubesse. Achei finalmente este: O Chamado da Noite, que acho eu, traduz bem um estado de espírito que não é apenas o meu, mas também o de um grande número de pessoas que chega às raias do século 20 sem ter muitos motivos para celebrar o futuro (a não ser nos aspectos mais superficiais do desenvolvimento tecnológico com seus cantos de sereia).

Mas não sou, também, um pessimista. Acredito que, mais dia menos dia, chegaremos num momento em que palavras como Paz, Amor e Fraternidade deixarão de ser apenas meros símbolos desgastados pela estupidez humana. De certa forma, o meu Chamado da Noite é também uma celebração à beleza que o ser humano reflete, no seu cotidiano, através da poesia.

Trecho de O chamado da noite:

A verdade, meus caros leitores, é que já não consigo manter o ritmo desses escritos. As imagens, que antes vinham aos borbotões, à minha mente, já não respondem ao meu chamado. Sinto-me um deserto. Sinto-me um deserto vasto, como o deserto de Tanganica, que o explorador inglês Richard Burton atravessou em uma das suas inúmeras aventuras. Richard Burton é um dos personagens históricos que mais me fascina: não apenas pelas suas aventuras exteriores, mas sobretudo pela coragem que teve de enfrentar as regiões mais obscuras e tenebrosas do seu espírito. Aliás, é esta descida aos infernos que é a verdadeira – e mais perigosa – aventura. Talvez esta obra me exija esta aventura. Mas não quero realizá-la. Basta-me uma tristeza fria. Essa tristeza. Não sei nem se posso descrevê-la, embora viva procurando fazê-lo. Ao descrevê-la poderei olhá-la e, talvez, compreendê-la. Saber o que é esse eu. Me pergunto: o que és?

– Minha tristeza é como um álbum de fotografia esquecido numa casa em ruínas. Eu chego nessa casa e me sinto tentado a mexer nos papéis velhos que vejo ali jogados. São cartas de amor, restos de diários e fotos de alguém que já não tem rosto. O seu rosto foi comido pelas traças.

– A minha tristeza é saber que um dia o meu rosto numa fotografia será comido pelas traças. Minha tristeza é saber que o meu rosto na fotografia já foi comido pelas traças. Minha tristeza é esta efemeridade.

Ando na noite procurando um amor que me eternize. Mas esse amor ainda não tem nome, nem rosto, nem corpo, nem voz. Esse amor nem sequer pode me escutar. Penso então que nem isso adianta: andar na noite é um ato vazio. Andar na noite é ser apenas uma sombra: uma sombra triste como a do poeta Augusto dos Anjos sobre uma ponte no Recife. Como um castelo gótico sem fantasmas, porque é preciso que existam fantasmas num castelo gótico, mas o meu é um castelo gótico sem fantasmas. É um vento soprando sobre uma sepultura vazia, sobre uma ilha no mar, o mar. Uma ilha no mar é uma imagem de mim. Gosto de ver-me assim: uma ilha habitada por aves pelágicas e memórias ancestrais. Estarei me expressando corretamente? Memórias ancestrais. Sou também, quem sabe?, aquele pterodáctilo pousado sobre o rochedo; e na minha antiguidade só existe isto: um ser medonho pousado sobre um rochedo; ou nem isto: apenas um urro – um urro inumano ecoando ecoando sobre as pedras, entre os vulcões. Esta é uma paisagem sem amor. É um cenário de desolação, de não-vida, de nem-ser. E é este, pois, meu caro leitor, o dia que se abre como uma garganta sedenta diante de mim: este dia tem um nome: noite – o seu inverso, o meu reverso. E é ele que grita por uma presença, porque tudo nele é uma ausência. Duelente mis dolencias, si algun dia me hás querido. Enseña-me a ser feliz, porque infeliz yo he nacido. Então, meu amor, eu sou esse trem noturno que corta as cidades – as cidades do mundo. E sou também o rosto que olha pela janela. O rosto refletido na janela. Veja, o rosto desse rapaz, que é muito sério, esse rapaz é muito sério e seus olhos são flamas que se consomem: como somem na noite esses olhos que palmilham cada pedra do caminho, cada árvore na floresta, cada estrela, cada sonho; e ele segue noite após noite investigando todos os sonhos do mundo, do antes e do depois, procurando-te, pois que me disse uma velha bruxa medieval que as feiticeiras assim vivem, de sonho em sonho, de nuvem em nuvem, de flor em flor, mas são muitas as flores desta floresta – são infinitas! E como te reconhecerei se nem sei ainda qual é o teu perfume? Se nem sei, aliás, se a bruxa tinha razão; se não era apenas uma louca demente esquecida no pátio frio de um hospício; se nem sei… Mas você poderia ser tantas! Tantas que ficaram pra trás, como Jacira, a garota de cabelos castanhos e pele alva, que além de tudo era inteligente, e eu, mesmo criança, mesmo criança sabia que isto é essencial: suas palavras eram como diamantes. Jacira que me tratava como um bom amigo, e seu afeto doía. Porque somente seu amor justificaria o querer ser daquele menino, porque tudo em mim era só essa promessa – mas as noites daqueles tempos – por que sempre a noite? – eram como um parque de diversões que estava para abrir: podíamos ver a roda-gigante, o pipoqueiro, as montanhas russas, os carrinhos – e ficávamos ali, e eu ficava ali. Mas o parque nunca abriu. Você recuou dos meus olhos e perdeu-se como tantas outras coisas numa lembrança – tornou-se ar. E hoje já nem lembro do seu rosto, Jacira. Aliás, já nem me lembro de você. Minha tristeza é uma coisa sem importância: um simulacro. Por isso continuo andando nessas ruas que, agora, são limpas, muito limpas e seus becos já não escondem demônios. Um homem insuspeito passa por mim e perde-se em passos – que passam, que passam. E tudo passa. Eu preciso de espaço para ver tantas coisa virem e irem: meu sentimento precisa de espaço: preciso de espaço para me ver criança de mãos dadas com minha madrinha América cantando Alegria Alegria; ela é uma lembrança de coqueiros e mar, a certeza de que Vinícius continuaria cantando aquela música, de que iríamos sempre passar uma tarde em Itapuã, porque não passar uma tarde em Itapuã é uma traição. Não passar a tarde em Itapuã é não ouvir o ruído familiar do DKW do meu pai, chegando – e nós podíamos ouvi-lo de muito longe, desde o momento em que ele ligava o carro, no Ginásio Lomanto Júnior, e vinha com seu sorriso largo e sua incomensurável generosidade. Meu pai, eu não posso acreditar que você não venha mais para este lar que nem mais existe, e eu preciso de muito espaço para sentir, porque meu sentimento tem muitos quartos e salas e pátios – meu sentimento é uma casa grande, é um quarto escuro, é um quarto iluminado, meu sentimento é um quarto onde vejo o desenho de uma menina pelo qual me apaixono – e é possível uma coisa dessa, meu Deus, apaixonar-me perdidamente por um desenho!? Mas eu achava que ela existia – não como menina de carne e osso, mas como desenho mesmo. Eu achava que ela tinha vida e vivia em algum lugar – só não consegui descobrir onde. E em tudo o que eu lia, eu via apenas eu – e eu era tantos: Tarzan matando uma cobra gigante sobre uma árvore; Bolinha enfrentando a turma da zona norte; Huguinho, Zezinho e Luizinho usando suas táticas de escoteiros; Mickey vencendo o Mancha Negra; os Sobrinhos do Capitão. Coisas de criança. Criança? Mas as pessoas subestimam tanto esses pequeninos! Talvez o meu amor às crianças seja apenas um resto do amor de mim; do menino que se foi – e se um gênio me concedesse um desejo, gostaria de me ver uma vez, de ver em mim os meus pensamentos e sentir apenas uma vez os sentimentos do menino que quis crescer. E se eu pudesse dar-lhe um conselho daria apenas um: mas agora vejo que tal coisa seria uma inutilidade, que seria um absurdo interferir, seria uma violência estar lá, porque o meu único lugar é aqui. Aqui tem muitos nomes. Aqui tem um nome só. Aqui tem muitos eus. Aqui tem um eu só. Aqui tem o eu que sorri, que se sente feliz. Sim, porque ouço ainda os latidos de Sultão e Diana, nossos cães valentes que enchiam com seus passos vigorosos minhas manhãs: seus ruídos chegavam com aqueles primeiros raios de sol filtrados nas telhas ou com aquelas gotinhas de chuva tamborilando no telhado, com o ruído da minha mãe preparando o mingau na cozinha – e aquilo era tudo o que me bastava. Eu nunca pensei que o ruído da minha mãe preparando mingau pudesse acabar. Porque, para mim, ela era mais, muito mais, do que o Superman, ela era invencível, imortal. Hoje a vejo de costas para mim, andando num corredor que escurece. E cada dia ela anda mais uns passos e seu vulto perde lentamente seus contornos – e com ele todos aqueles momentos eternos que não são mais. Porque, meu querido leitor, a presença dela eram braços que me envolviam e confortavam – e todo mundo precisa de braços que envolvam e confortem. Mas ela era também uma voz que cantava lindas cantigas nordestinas que aprendeu nos confins de Sergipe, nos confins de um tempo ainda mais remoto – um tempo que está além do que essas páginas podem alcançar. O Grande Pretérito. Minha mãe, seu dotô, era a própria voz do sertão que se sobrepunha à superfície do Brasil: ao Brasil que aparecia todas as noites no Repórter Esso. E aquilo era muito bonito para mim, não porque tivesse um homem gordo que falava coisas incompreensíveis, mas porque existia um aparelho, um homem e uma voz. Porque também o som para mim era uma coisa muito real: ele tinha forma, consistência, durabilidade. Eu quase podia pegá-lo. Quase. E, pois, era assim a vida daquele menino – mas nem todos os livros do mundo seriam suficientes para eu contar a sua história.

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