Capitu Mandou Flores

LIVRO_Capitu_Mandou_Flores
CAPITU MANDOU FLORES
Contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte
Rinaldo de Fernandes (ORG)
São Paulo: Geração Editorial, 2008
527 páginas – tel.: (11) 3256-4444
producal.editorial@terra.com.br
www.geracaoeditorial.com.br

  • CAPITU MANDOU FLORES NO CENTENÁRIO DE MORTE DE MACHADO
  • A TAREFA DE RECONTAR MACHADO DE ASSIS

 

APRESENTAÇÃO
DESAFIO CRIATIVO

No centenário da morte de Machado de Assis, a Geração Editorial lança uma coletânea audaciosa e sem precedentes: um grupo de 40 autores brasileiros de alto nível pratica o exercício original, estimulante e desafiador de recriar, a partir do tema, dez das melhores histórias do maior escritor brasileiro de todos os tempos. O livro – “Capitu mandou flores” (Geração Editorial, 528 pags., R$ 49,90) surgiu da idéia do premiado contista, doutor em Letras pela Unicamp e professor universitário Rinaldo de Fernandes, autor de antologias de sucesso como “Contos Cruéis” e “O Clarim e a Oração”, da mesma editora. E será lançado no próximo dia 10, em São Paulo, às 18h30, na Livraria da Vila de Pinheiros (Rua Fradique Coutinho, 915), com palestra do escritor Nelson de Oliveira e leitura de trechos por 18 dos 40 autores.

Na década de 70, o escritor Osman Lins já havia proposto a cinco autores – Antonio Callado, Autran Dourado, Julieta de Godoy Ladeira, Lygia Fagundes Telles e Nélida Pinõn –, além dele próprio, recriar o lendário conto “Missa do Galo”, o que fizeram com grande maestria e resultou no livro Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema. Ninguém, até agora, havia proposto a empreitada de se recriar 10 histórias e publicá-las juntamente com as recriações.

Na presente antologia, os dez contos reescritos são o próprio “Missa do Galo” e ainda “A Cartomante”, “O Espelho”, “Noite de Almirante”, “A causa secreta”, “Pai contra mãe”, “O Alienista”, “ Uns braços”, “O Enfermeiro” e “Teoria do medalhão”. Para ampliar o projeto, alguns autores recriaram também trechos e situações do romance Dom Casmurro. Além dos contos originais de Machado de Assis – e um resumo de Dom Casmurro – o livro contém também cinco ensaios sobre a obra de Machado.

Para que serve um livro como este? Em primeiro lugar, informa a editora, trata-se de um reencontro com a obra de Machado de Assis, nos cem anos de sua morte. Ler – para as novas gerações – ou reler 10 das melhores histórias de Machado é sem dúvida uma experiência literária e humana muito rica. Ler como autores consagrados, emergentes ou promissores recontaram as mesmas histórias é também exercício intelectual mais do que estimulante.

Entre os autores, estão consagrados como Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Hélio Pólvora e outros, emergentes, como Daniel Piza,André SantÁnna, Fernando Bonassi e Nelson de Oliveira. Veja aqui a lista completa, por ordem alfabética: Aldo Lopes de Araújo, Aleilton Fonseca, Amador Ribeiro Neto, André Luís Gomes, André Sant’Anna, Andréa del Fuego, Antonio Carlos Secchin, Bernardo Ajzenberg, Carlos Gildemar Pontes, Carlos Ribeiro, Cecília Prada, Daniel Piza, Deonísio da Silva, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Godofredo de Oliveira Neto, Hélio Pólvora, Ivana Arruda Leite, João Anzanello Carrascoza, Leila Guenther, Luiz Costa Lima, Lygia Fagundes Telles, Marcelo Coelho, Maria Alzira Brum Lemos, Maria Valéria Rezende, Marilia Arnaud, Mário Chamie, Moacyr Scliar Nelson de Oliveira, Nilto Maciel,Pedro Lyra, Raimundo Carrero, Regina Zilberman, Rinaldo de Fernandes, Ronaldo Cagiano, Sérgio Fantini, Silviano Santiago, Sônia Maria van Dijck Lima, Suênio Campos de Lucena, Tércia Montenegro, W. J. Solha

A Geração Editorial acredita que este livro ficará entre as obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea.

O EDITOR

Conto
MINHA BOA SENHORA

I

Não sou pessoa má. Mas, o que é, afinal, uma pessoa boa ou má? Nosso coração, desde muito cedo, é atravessado por sentimentos contraditórios, não é mesmo? que sequer podemos entendê-los. Você mesmo, improvável leitor, se pudesse adentrar os meus pensamentos, haveria de concordar comigo. Mas você não pode adentrar os meus pensamentos, e isto me dá um prazer secreto que, misturado, aqui, com este medo, este medo tão grande, se torna ainda mais intenso. Para dizer a verdade, confesso que gostaria, sim, que você pudesse adentrar os meus pensamentos. Não compartilhá-lo torna meu prazer, e esta dor, incompletos. Assim como um quadro, que pintássemos, em segredo, com cores alegres e tristes, com imagens radiosas e aterrorizantes, que se complementam – e tivéssemos que guardá-lo num sótão da nossa casa. E que, sempre que alguém nos visitasse, tivéssemos o impulso de mostrá-lo, recuando, num último momento, tomado de profundo pesar.
Não sou pessoa má, veja bem, mas, a cada vez em que me coloco diante desse quadro imaginário, quase que hipnotizada por ele, acrescento-lhe uma ou outra pincelada: algo que aviva a cena inicial, pois o quadro representa algo que aconteceu – e que preferia ter esquecido. Algo que, com o tempo, torna-se mais real.
Não sou dessas pessoas que idealizam o passado. Ao contrário. Com a passagem do tempo, tendo a perceber, com mais clareza, com mais intensidade, as motivações secretas que movem minhas atitudes. Mas nada disto se reflete em minha vida real. Você sempre me verá uma pessoa assim, como eu sou: alegre, simpática, prestativa. Uma pessoa comum. Por isso, talvez, tenham lembrado de mim quando a mulher – a viúva rica, que vivia sozinha, no antigo sobrado do Rio Vermelho, adoeceu.

II

É uma mulher difícil, mas você saberá lidar com ela, disse o médico da família a quem recomendaram meu nome. O Cardoso, sabendo da minha precisão, me fez esse favor. Bem, não é difícil imaginar por que ele indicou meu nome. Precisavam de alguém que, tal como a anciã, não tivesse família, nem filhos. Precisavam de uma enfermeira à moda antiga, que soubesse passar, lavar, cozinhar. Uma ajudante com educação esmerada, como já não existe mais, e, como disse o Cardoso, com um senso de ordem apurado. Além, disse ele, pegando no meu ombro, de paciência. Muita paciência. Em suma: A velha tinha “idiossincrasias que deveriam ser relevadas”. Como era natural, perguntei quais. Ele sorriu, e, estreitando mais sua mão pesada no meu ombro, acrescentou: não se incomode com isto agora. Cada coisa no seu tempo.

III

Mudei-me para a casa da velha senhora rica. Levei comigo um quase nada: três mudas de roupa, alguns objetos pessoais e este diário. Além, é claro, de todas as minhas reservas de paciência e boa vontade. A velha tinha idiossincrasias. Ninguém a aturava, nem as velhas amigas das associações beneficentes. Gastava mais enfermeiras que remédios, disse o Cardoso, rindo, como se estivesse a contar uma piada.
Achei-a no jardim. Cuidava das plantas; não se dignou a me olhar. A casa era, também, muito velha, e espelhava com precisão a minha nova senhoria. Paredes descascadas, portas que davam para corredores escuros. No quintal, árvores desfolhadas exibiam garranchos sinistros. A velha, que sofria de doença pulmonar obstrutiva crônica, precisava de doses diárias de hidrocortizona e nebulização. Tratou-me bem uns dias, devo reconhecer. Queixava-se, com freqüência, de falta de ar; falava horrores das enfermeiras que me sucederam: prestavam para nada, comiam mais do que deviam, arrastavam asas para os porteiros da vizinhança, grudavam os olhos nas novelas na TV, ela que se danasse!
– Querem vida mole, sabe como é esse tipo de gente, não é? – grudou os olhos nos meus, como se querendo perscrutar, no meu mais íntimo, o que pensava daquilo.
Bem… Para ser sincera, eu não pensava nada. Disse-lhe que há um grande despreparo geral das pessoas nesses tempos bicudos. Ela me olhou com estranheza. Os olhos duros pareceram rir, por um momento. Não aprovava, talvez, a expressão, mas concordou com o veredito. Consolava-a o fato de que alguém mais achasse que vivemos um período de grave decadência moral. “No meu tempo conhecíamos o valor das pessoas pelo sofrimento que sabiam suportar”, sentenciou, no que concordei de imediato.

IV

Talvez não o devesse. Vivemos uma lua-de-mel de sete dias. No oitavo passei a entender seu ideal – e a decadência das minhas antecessoras. Aos poucos o diabo foi mostrando sua cara. De repente, já não havia hora para atender as impertinências da moléstia e do temperamento. Ela passava, a qualquer momento do dia e da noite, para um e outro lado da casa, arfando, pela falta de ar; queixava-se da umidade, do reumatismo e de três ou quatro sintomas que variavam de acordo com metereologia: ora o nariz pingava, incessantemente, e eu tinha que levar de imediato um determinado lenço que nunca estava onde ela dizia ter guardado; ora inchava-lhe os pés, e gritava pelas chinelas, metidas em sabe-se lá que gaveta de qual cômoda, cuja chave colocara na bolsa preta pendurada num dos seiscentos cabides que acumulava na casa antiga da Rua da Paciência. Ora pedia que arrastasse móveis, pesados e escuros, para um lado e outro das salas, e, se havia uma lâmpada qualquer que se apagasse, tinha que lhe dar solução de imediato.
– Sei o que quer. A minha morte. Não posso viver muito tempo, e o que faz: acelera-me o fim! Há de ir, há de rezar ao pé da minha sepultura. Mas voltarei para te puxar as pernas, estás me ouvindo? Voltarei para te puxar as pernas.

V

Agravava-se, enfim, o seu estado de saúde – e o humor, que já era péssimo, azedou de vez. Já não tinha pejo de me acumular os nomes: era burra, pedaço d´asno, idiota, preguiçosa, esquisita, solteirona, era tudo. Não havia com quem compartilhar a fama: amigos, se ela os tinha, escassearam até sumir de vez. Só restava o médico – e, por trás dele, na sombra da sombra, o Cardoso. Restava eu, sozinha para um dicionário inteiro. E quanto mais eu falava em desistir, mais o Cardoso e o médico se empenhavam na minha permanência. Ela, a velha senhora, não me poupava elogios, diziam. Afirmava ser eu a melhor enfermeira que pisara, até hoje, o velho casarão da Rua da Paciência. Eu não acreditava, mas agia como se. E ia ficando. Talvez, devo confessar, por ver que a saúde da minha senhoria minguava a olhos vistos. Não lhe dava dois meses. Inclusive, segundo me disseram, ela havia feito um testamento. Acreditei nisto, mas não me ocorria quem seria tão ruim para ser lembrada pela megera.
Passamos uns dias de trégua, até que, na noite de vinte e quatro de agosto, a velha, alegando não sei o que sobre o açucareiro, atirou-me ao rosto uma xícara de chá, que achou amargo. Escapei do objeto, que se espatifou na parede, mas a intenção me pegou em cheio. Retirei-me da copa sob uma chuva de imprecações. Perdi, naquele momento, a escassa dose de piedade; restava-me um fermento de ódio e aversão.

VI

Passaram-se outros dias e outras agressões. Compreendi por que a vingança é um prato que se come frio. Comecei, pouco a pouco, a dar razões à velha para se enfurecer. Fazia-o com ar casual, e pedia desculpas, para logo incidir nas mesmas falhas. Desdobrei-me em gentilezas, suportei ameaças. Não podia correr o risco de me denunciar ao médico; nem dela me dispensar. Suportava as agressões com o fervor do monge que se auto-flagela com um chicote, e, em carne viva oferece loas ao Senhor.
Enfim, o dia chegou. Não lembro qual foi o estopim. A megera lançou-me, mais uma vez, ao rosto, um objeto – e, mais uma vez, errou. Gritou-me impropérios. Respondi com lágrimas calculadas e um pedido qualquer de desculpas. Deixei a velha, sozinha, na copa. Tranquei-me no quarto. Não enxergava coisa alguma à minha volta: a cama, o guarda-roupa negro, o tapete rosa com bordados de pastores e ovelhas, dois livros e os óculos sobre a cômoda, a janela com os postigos abertos, as paredes azul-claras desbotadas; o travesseiro, os envelopes, as contas e a noite, a noite, lá fora. Nada disso se apresentava aos meus olhos, mas os ruídos, todos os ruídos, chegavam, com minuciosa precisão, aos meus ouvidos: o tique-taque do velho relógio, na sala, um ou outro carro, risos e vozes de crianças, na rua, cachorros latindo distantes, o vento soprando no jardim, pensei ouvir as estrelas que pulsavam; e, ali, mais próximo, como se dentro do quarto, a respiração da velha, falhando, a voz engrolada, as mãos derrubavam os pratos, tateavam na mesa, no ar, e, com uma clareza que lhe dava uma concretude assombrosa, o meu nome proferido pela boca que agonizava. Dizia-o, pude perceber com clareza, com um misto de terror e doçura que achei impossível haver naquela mulher: dizia o meu nome como o de um deus; com a certeza absoluta de que a atenderia. Eu era, para ela, a mais cara das criaturas.
Por alguns instantes, todos os ruídos: da rua, do vento, da noite, das estrelas, desapareceram. Eu ouvia, agora, apenas a voz da mulher, o meu nome, o remédio que implorava, a voz que enfraquecia, mais e mais. Sentada na cama, eu só tinha um único desejo: o de que aquilo, enfim, terminasse. Sabia que a crise aguda da DPOC levaria poucos minutos. Bastava-me ser forte. E ficar, imóvel, como o centro do mundo.

VII

Não sou pessoa má. Mas, o que é uma pessoa boa ou má? Nosso coração, desde muito cedo, é atravessado por sentimentos contraditórios, não é mesmo?, que sequer podemos entendê-los. Toquei, enfim, o alarme. Liguei para o Serviço de Ambulância Móvel. Vinte minutos e os médicos chegaram com seu inútil aparato. Levaram-na ainda com vida, mas logo depois, como eu previra, foi-me passada a notícia do falecimento. Fiz, ali, sozinha, na sala, entre o sofá e o velho televisor, uma dolorosa expressão de tristeza. Eu havia cometido algo, mas nada no mundo me faria admiti-lo. Eu interpretava para Deus – e assim continuaria fazendo, até o fim da vida, se não sentisse a necessidade de colocar tudo isto aqui, neste diário, que lançarei ao fogo. Cheguei a pensar na fuga, alegar uma desculpa qualquer e desaparecer. Mas seria confessar um crime que não cometi. Fiquei, mais uma vez.
Amortalhei o cadáver e enterrei-o com meus escrúpulos. Fez-se o sepultamento, com um punhado de gente e uma nota no jornal. Fingi a tristeza que, de algum modo, sentia. Rejeitei, com delicadeza, os elogios: fora, sim, a mais fiel das companhias; mais do que enfermeira, a amiga nas horas mais difíceis. Prova disto, informaram-me, dias depois, fora a herança que deixara para “a mais digna das enfermeiras”, aquela “cujo valor era atestado pelo sofrimento que soubera suportar”.
Sou a herdeira universal dos bens da viúva. Não me passou pela cabeça rejeita-los. Convenci-me de que o merecia. Convenci-me de que ela, minha boa senhora, tinha lá suas virtudes. E que éramos, no fundo, almas afins. Limitei-me a encomendar uma missa para o eterno descanso da falecida, na igreja de Santana. Respirei, quando tudo acabou. Estava em paz com os homens.

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