Autores baianos – Um panorama

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Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia / P55 Edições, 2013, 492 páginas

Autores: Adelice Souza – Aleilton Fonseca – Állex Leilla – Antonio Risério – Carlos Ribeiro – Daniela Galdino – Florisvaldo mattos – Hélio Pólvora – João Filho – Karina Rabinovitz – Kátia Borges – Lima Trindade – Luís Antonio Cajazeira Ramos – Mayrant Gallo – Myriam Fraga – Roberval Pereyr – Ruy Espinheira Filho – Ruy Tapioca

O livro “Autores Baianos: Um Panorama” foi lançado na Feira de Frankfurt 2013, na Alemanha. A publicação de 492 páginas reúne textos de 18 autores de distintas gerações, perfis e gênero, traduzidos para os idiomas alemão, inglês e espanhol. O foco da publicação é na distribuição estratégica, direcionada a agentes literários e editoras. A P55 realizou o conceito visual gráfico, editoração, capa e gestão do projeto editorial.

Acesse o livro aqui

 

À BEIRA DA CATÁSTROFE

Uma vaga apreensão tomava o espírito de Alberto sempre que, por um motivo ou outro, não se encontrava mergulhado em suas atividades costumeiras: trabalhando na universidade, indo ao cinema com sua mulher, resolvendo negócios, pagando prestações, batendo pernas pelas livrarias…

Talvez tudo aquilo se devesse a um sentimento de culpa por não estar fazendo alguma coisa útil, que se encaixasse na rotina diária – alguma coisa que pudesse considerar normal, longe dos tempos mortos, do silêncio inquietante, da estranheza das coisas. Algo, pensava ele, que o distraísse da estranha realidade dos objetos inanimados, do espaço que os separava, do silêncio presente, todo o tempo, por trás dos ruídos familiares, das ações e das palavras que compõem o que se costuma chamar de cotidiano.

Como se existisse outra história, paralela, misteriosa, que não se concretizava com palavras, fatos e acontecimentos. Uma forma de ser e existir que ele apenas pressentia, ao sair por algum motivo do traçado habitual dos seus passos. Era o que sentia quando, no meio da tarde, chegava mais cedo do trabalho e se deixava ficar sentado, no sofá, na sala do apartamento, numa outrora silenciosa travessa do Caminho das Árvores. Podia ouvir a empregada preparando o jantar, um ou outro carro passando na rua, um passarinho cantando no alto de uma mangueira, o porteiro conversando com alguém no prédio em frente. E, envolvendo tudo, aquele estranho sentimento de gravidade, de profunda gravidade da vida.

Já sentira aquela mesma sensação, algumas vezes, após acordar de um cochilo, depois do almoço. Ao abrir os olhos, vinha-lhe de súbito uma profunda estranheza do existir, uma sensação quase insuportável de ser, de estar, por algum motivo profundamente misterioso, habitando uma bola solta no espaço, cercada de vazios, de ser uma consciência, um pensamento que sequer tem a percepção de quem é, verdadeiramente. Sentia, então, abater-se sobre si uma forte percepção da sua responsabilidade.

Era também uma percepção moral, e qualquer relativismo desaparecia, naqueles breves instantes, diante da compreensão da gravidade de qualquer erro.

Nesse momento, seu pensamento voltava-se sobre si e sondava, invariavelmente, seus sentimentos mais íntimos, suas relações com as pessoas: sua mulher, seu filho, seus irmãos, com os amigos, com a empregada, com o porteiro, com os colegas de trabalho. E sentia um alívio quando convencia a si próprio que os tratava a todos bem, conforme suas possibilidades. Mas estariam realmente todos bem? E quais eram as suas possibilidades?

Mesmo que estivesse em dia com sua consciência, não podia evitar a sensação desconfortável de que tudo ia mal com o mundo, lá fora. Usava esta expressão como uma forma de defesa. Algumas vezes, tomado por um estado de profunda melancolia, saía às ruas, geralmente no final da tarde, e via, com lucidez insuportável, uma tristeza oculta por trás dos risos e gestos, derramada no rosto das pessoas que circulavam nos ônibus, nos automóveis, nas calçadas; nos que ficavam parados nas esquinas, nas portas dos edifícios, nas janelas das casas, nas avenidas, parques e ruas de Salvador. E tudo era tão diferente dos tempos em que, ainda estudante, circulava pela cidade que sempre amara e que então lhe parecia, ao contrário, um mundo luminoso, repleto de promessas, de sonhos, de possibilidades que nunca se esgotavam.

Ele mudara ou foi a cidade que se deixou conspurcar, ao ponto de ficar esvaziada de todas as suas potencialidades, dos seus sonhos, da sua utopia? Por que diabo aquela sensação de estar à beira de uma catástrofe irremediável? Mas tudo estava tão normal! E, no entanto, parecia que o desastre já começara – como um incêndio no porão enquanto as pessoas, sem saberem, dançam e negociam e fazem planos nos andares superiores de um velho edifício. “O horror! O horror!”. Lembrava-se sempre da exclamação de Kurtz, no romance de Conrad, e vez em quando se flagrava balbuciando aquelas palavras. Era horrível o que a vida – seria melhor dizer: o Sistema – fazia com as pessoas, destruindo todos os seus sonhos, pulverizando toda a beleza e a juventude, e todas as potencialidades e possibilidades negadas. Que desperdício!

Alberto sentia vontade de ir mais fundo naquela sensação, de mergulhar na dor coletiva que se ocultava por trás dos gestos habituais, das palavras cordiais, dos sorrisos, dos tiques que compunham todas as relações, mas não tinha coragem suficiente. O hábito, aquele sólido repertório de convenções, parecia-lhe uma camisa-de-força que todos vestiam, inconscientemente, para não ver a realidade.

Como se todos estivessem hipnotizados, para não poder ver que há um dragão no jardim, um esqueleto no armário, o medonho cão Cérbero que habita o Hades particular de cada um – suas mentes, seus lares: aqueles pontinhos de luz que via, à noite, quase sempre com um misto de fascínio e terror, quando sobrevoava a cidade num avião. Meu Deus! Quantas abominações não acontecem na intimidade dos lares, no recesso das famílias!

Era quase insuportável pensar. E o que mais o incomodava era a convicção, presente lá no fundo da sua consciência, de que não valia a pena fazer nada para mudar. A consciência do horror era, para ele, um segredo guardado a sete chaves.

Sabia que não devia dizê-lo, sob pena de ser subtraído (nem que fosse pela arma covarde do escárnio) por aqueles que desejasse libertar. Não era covardia, mas sim – o que talvez fosse muito mais grave – apenas a sensação de que não valia a pena fazer nada. Para que sacrificar-se por pessoas que desejam, mais do que qualquer outra coisa, continuar sendo prisioneiras? Não havia mais espaço no mundo para heroísmos. Se houvesse, certamente não seria ele o herói.

O herói estava morto. Morrera em algum lugar do trajeto da sua própria vida, mas não podia dizer exatamente onde. Alberto, que já alimentara e acreditara em tantas utopias, vivia agora para preservar a sua integridade moral como uma onstrução particular – como uma casa que constrói em cima de uma árvore, no quintal, a qual vistoria diariamente para ver se permanece limpa e sólida, como um refúgio à estupidez do mundo. Um lugar pequeno, entretanto, para caber muitas pessoas; um lugar seleto, no qual podia colocar sua família e um ou dois amigos, mas cujas portas jamais poderia escancarar para o mundo.

Tinha sua reserva moral (a expressão parecia antiquada, mas fazia questão de preservá-la) como uma planta, no jardim, que todos os dias regava e sobre a qual se apoiava para se relacionar com o mundo. Tinha, às vezes, vontade de colocar os pés num terreno neutro, numa outra dimensão, na qual poderia fazer tudo o que quisesse sem que fosse atingido por qualquer conceito, ou preconceito.

Uma das suas diversões preferidas era deixar-se entregar à fantasia de que habitava aquele lugar. Era um estimulante exercício de imaginação, inofensivo, é verdade, mas que se constituía, sem que ninguém o soubesse, numa espécie de vingança contra o mundo, contra tudo aquilo que a civilização, com seus valores, representava em sua vida. Era seu único espaço de liberdade, no qual ninguém, nem mesmo as pessoas mais íntimas das suas relações, poderia penetrar.

Esse lugar – que chamava de Lunaris, numa referência ao romance Solaris, de Stanislav Lem –, era uma forma especial de pensar. E de sentir. Só mais tarde descobriria que era, de fato, um lugar. Um estranho mundo mutável que, com o tempo, adquirira o status de realidade – estranha, mas nem por isso menos real. Nele, Alberto dava-se ao prazer às vezes pervertido (se tal palavra fizesse sentido naquele lugar), de refazer pessoas, de reconstruir acontecimentos, de eliminar todos aqueles que o aborreciam. Nunca, é verdade, de modo violento ou cruel. Preferia sempre alguma solução que o fizesse rir. Mas sempre procurando lembrar-se que suas emoções não poderiam nunca, jamais, ser manifestadas. A fronteira entre aquele mundo e este tinha que ser, sempre, preservada. Por isso, talvez, Alberto fosse um homem sério, ou um pouco distraído. Sua mulher, Judite, queixava-se sempre daquela sua qualidade. Ela nunca se cansava de se espantar com a facilidade com que Alberto se desligava das coisas. Como conseguia dormir – e até sonhar – num instante, às vezes até de pé, encostado numa parede. Ele chegara mesmo a confessar-lhe, sem que ela lhe desse crédito (mas era verdade!), que já dormira correndo.

– Foi num exercício de Educação Física, há muitos anos, no colégio. Era muito cedo, eu estava com muito sono e…

Apesar de tudo isto, Alberto era uma pessoa normal. E não era, de forma alguma, um pessimista, ou um sonhador. Havia nele uma bem dosada mistura de Quixote e Sancho, de forma que, apesar de se sentir um pouco deslocado entre os seus semelhantes, tocava sua vida sem maiores problemas. Ia bem em seu trabalho: ensinava Literatura Brasileira na universidade. Gostava de ver-se cercado pelos alunos. De certa forma, a sala de aula era uma espécie de extensão daquele mundo paralelo, quando dava sorte de encontrar, entre os estudantes, quem acompanhasse suas peregrinações. Para ele, o ensino de Literatura não tinha nada em comum com qualquer outra disciplina. Não era uma ciência, era uma comunhão; as aulas eram – ou deviam ser – um ritual, no qual se partilhava uma experiência estética que se prolongava além da sala, que acompanhava cada um dos membros dessa confraria, em todos os momentos da vida. Lembrava-se frequentemente de um artigo publicado numa revista sobre uma academia de judô em Paris, em cujo interior havia a seguinte inscrição: o Judô começa lá fora, do outro lado desta porta. O aprendizado de Literatura tinha que ser, portanto, um re-direcionamento da sensibilidade, um engajamento. Mas no quê? Para quê? Uma das características da personalidade de Alberto, talvez a que ele mais se esmerava em ocultar, era a compreensão cristalina de que ele não tinha absolutamente certeza de nada. Por isso admirava, com um secreto e sincero ardor, todas aquelas pessoas que tinham convicções, embora ficasse verdadeiramente alarmado quando se sentia convicto de qualquer coisa. Sabia que nenhuma mudança radical e efetiva no mundo seria possível sem que houvesse essa estranha qualidade, que lhe parecia ser, ao mesmo tempo, a mais extrema forma de lucidez e de alienação. Espantava-se que alguém pudesse ter certeza do que quer que fosse no mundo, e se perguntava, às vezes, se seria capaz de largar tudo para seguir um líder carismático, alguém que avivasse uma chama que sabia existir em algum ponto do seu coração. Mas acreditava que essa pessoa não existia. E nessas horas podia até ver o seu coração como um abismo inexpugnável em cujas profundezas algo extremamente valioso se apagava, dia após dia.

Ele precisava descer até lá, mas lhe faltava determinação. Faltava uma crença de que valeria a pena sair dos seus cuidados para arriscar-se. Por isso, nessas horas, preferia refugiar-se em Lunaris.

Alberto gostava de caminhar pelas ruas da sua cidade, com as mãos no bolso de um casaco (gostava de ver-se assim, embora não tivesse nenhum casaco), sob rajadas de vento de um inverno inexistente. Gostava de ver o emaranhado de becos e ladeiras que não levava nunca a lugar nenhum. Gostava do emaranhado de fios que pendiam dos postes antigos. Gostava das manchas de limo e lodo que cobriam as paredes dos casarões abandonados. Agradava-lhe a idéia de que, a qualquer momento, um daqueles casarões antigos desabaria sobre sua cabeça. Gostava da idéia de saber que sobreviveria ao desabamento. E de que teria, quando chegasse em casa, à noite, algo para contar. Gostava da idéia de ser um sobrevivente. Ele era um sobrevivente. Mas do quê?

– Quarenta e três anos de idade é uma vida – dizia, sempre que botava os pés em Lunaris.

Por isso, a idéia da morte não o assombrava. Espantava-se com a quantidade inesgotável de lembranças e sensações que lhe habitavam, embora quase todas adormecidas. Mas sabia que elas estavam lá – ou melhor: aqui, dizia, tocando a cabeça com o dedo indicador. Não tinha certeza sobre o lugar em que estavam, verdadeiramente. Mas sempre que uma palavra descuidada, uma música ocasional ou um cheiro qualquer lhe abriam as portas da Recordação, ele se redescobria como outro homem. Ou melhor: como um território mágico sobre o qual se derramam inesgotáveis sensações.

– Às vezes penso que já estou morto para mim mesmo, para, pelo menos, 95% de todo o meu passado. Veja quantos livros já li – diz ele, mostrando sua biblioteca para seu amigo. – Mas nada, ou quase nada me lembro deles. De forma que é como se não os tivesse lido. De que vale então haver lido tanto?

O amigo diz que não é bem assim, que ele está exagerando.

– Esses livros fazem parte de você, meu velho. Esses livros são você.

Alberto achou graça na forma como ele falou – e vasculhou sua memória para lembrar qual, dentre as centenas de personagens das obras que atulhavam sua estante, falava daquele jeito.

– Gatsby!

– Eu não disse? – acrescenta o amigo, com um sorriso. – Nem tudo que não lembramos está morto dentro de nós, meu velho.

Era por essas e outras que Alberto gostava de Lunaris. Lá sempre havia algo interessante para lembrar. Ou para esquecer. Porque o esquecimento é o lado oculto da lembrança, entende, meu velho?

Alberto anda pela cidade, com a cabeça baixa, mergulhado em seus pensamentos, com as mãos no bolso, mas todos os ruídos (dos automóveis, das pessoas, das máquinas, do vento, dos pássaros, dos cães) lhe são estranhos. Ele é, naqueles momentos, algo que não existe, que nem tem um nome. Mas logo ele lembra que precisa voltar para casa – e se acha, mais uma vez, para se perder depois, indefinidamente.

 

O QUARTO DA INFÂNCIA

A música tocava longe? Veja, ela agora parece com o ruído do mar, lembra-se? Era um mar noturno aquele, que vinha de longe, da escuridão profunda, como um grito que se arrebentava em brancas espumas na beira da praia. E você podia ouvi-la muito bem, deitado com sua mãe no quarto, que era o mesmo quarto, o quarto da infância, mas que ficava num lugar diferente agora: um bairro a beira-mar que ainda permanece vivo na tua lembrança, meu amigo, enquanto seguras com força as grades do portão deste imenso hospital que se estende daqui para o passado. Veja: você está com a sua mãe, deitado na cama, olhando o telhado de telhas vãs e as paredes feitas com óleo de baleia, e sua mãe canta uma canção qualquer de ninar, enquanto você pensa: onde está meu pai? Onde está o meu irmão? E teme por eles, porque já aprendeu que a vida é como um grande menino que brinca com a gente como se fossem bolinhas de gude, que às vezes rolam pelo bueiro, despencando pelos canos escuros do subterrâneo e se perdendo para sempre do nosso olhar – e não foi assim que aconteceu com aquele menino que simplesmente deixou de aparecer e disseram-lhe apenas que ele morreu, mas esta palavra não explicava nada, porque ninguém sabia dizer para onde ele foi, de forma que ele permanecia presente, todo o tempo, talvez mais do que nunca, como se estivesse atrás do muro, ou do poste, ou no quartinho do fundo e fosse aparecer a qualquer momento, e isto era terrível, porque ele nunca aparecia, e você corria e olhava como se pudesse flagrá-lo na sua traquinagem, mas você nunca se decidia se ele estava lá, ou se ele sempre estava lá – e para onde iam todos os mortos? Para onde iam todos os mortos do mundo? Haveria muros e quartos suficientes para todos eles se esconderem? E você pensava nisto, ali, deitado na cama, abraçado com sua mãe, mas você era tão pequeno ainda, e alguém poderia dizer: Não, ele não poderia ter um pensamento assim tão profundo, porque ele era tão pequenininho. Mas enquanto seu pai e seu irmão não apareciam, o mundo era um monstro disfarçado que ria do seu medo, e entre você e ele havia apenas a sua mãe que contava histórias de um tempo muito antigo, e às vezes você duvidava até dela, e pensava (com terror) que ela voltaria o rosto para você e você veria que o rosto dela era o de um monstro, ou mesmo do próprio diabo, e você fechava os olhos para não ter de enfrentar a realidade de uma transformação assim tão irremediavelmente triste, porque não haveria mais salvação – e tudo se transformava – o quarto, o silêncio do quarto, a voz dela, as ondas longe, o vento nos coqueiros – numa goela medonha que se abria para devorá-lo, e você desejaria correr pelos corredores escuros, abrindo portas e fugindo e correndo pela noite adentro até não pensar, porque era apenas isto o que você queria, meu menino, e você atravessaria todas as noites da sua vida e sentiria todos os medos, e veria todos os monstros, e sentiria na pele o ataque maciço dos monstros, como naquela noite em que você acordou gritando, desesperado, porque formigas e aranhas subiam pelas suas pernas, pela sua barriga, pelos seus braços, e você gritava desesperado, e seus pais acendiam a luz e lhe sacudiam e lhe acariciavam e lhe diziam: veja, meu filho, não tem nenhuma aranha aqui, e você ainda as via por frações de segundo e as via desaparecer, como milagre, e soluçava muito, meu pequeno menino, e todos os seus medos se resolviam assim com esse “clic” mágico do interruptor e com a luz que lhe revelava os rostos familiares dos seus pais, que eram Deus com o seu tremendo poder de aniquilar de um só golpe com todos os males do mundo – e não era exatamente isto que acontecia agora, com o seu pai chegando com o seu irmão e acendendo a luz da sala, que clareava o quarto suavemente, e você abria os olhos e via que era mesmo a sua mãe que estava ali, ao seu lado (não seria o próprio diabo que sabia se disfarçar tão bem?, você ainda era capaz de pensar isto, mas logo não haveria mais dúvidas e você se envergonharia de ter pensado isto), e sentiria vontade de dizer:

– Mãe, você me desculpa?

E ela perguntaria:

– Por quê, meu filho?

E você não teria coragem de dizer:

– Porque eu pensei que você era o diabo.

E diria apenas:

– Por que tive medo de você.

E apagaria logo todas essas bobagens da sua cabeça, porque alguém ligaria a TV, que tinha o poder de dissolver todos os fantasmas do seu espírito, talvez por isto gostasse tanto dela, e sentia mesmo um grande prazer ao vê-la estremecer como um monstrinho zangado atiçado pela variação de energia, muito frequente naquela época. Por isso seu pai, que dava jeito em todas as coisas, instalara um grande estabilizador de voltagem, o que não impedia que em alguns horários, principalmente às seis da tarde, houvesse uma queda geral da energia e a imagem ficasse quase desaparecendo. E diante do televisor, meu menino, quem sabe não poderias estender sua visão para o futuro, para um pequeno apartamento onde você estaria sozinho, aos quarenta anos de idade, diante da tela de um computador (e o que era um computador? Você nunca ouvira falar dele!), mas você o/se veria batendo rapidamente os seus dedos nas teclas que fariam tlec tlec tlec, e você, sozinho ali, diante do televisor, diria para ele, quase que num sussurro: “Ei! O que fazes aí?”. E ele responderia: “Escrevo a tua história, meu pequeno eu”. E você perguntaria por que terras seus pés já correram, que estranhas paisagens seus olhos percorreram, por quem seu sentimento palpitara.

E ele falaria das estradas desertas do Maranhão onde você quase morreu, de um velho sobrado na Barroquinha, onde velhos ocultistas desejaram reinventar o mundo, das margens largas do Velho Chico, onde mangas maduras se precipitam sobre as águas e nas manhãs suaves os barqueiros gritam – entre Propriá e Colégio – que os índios xocós estão em pé de guerra, e você correrá para lá em busca de uma notícia e de uma esperança vã, e seus olhos serão varados pelas nuvens derramadas no vasto céu do ontem, dos campos verdes do sertão das Alagoas, onde o macaco avoa e as sanfonas gemem contando versos que afloram nos campos, entre os bois mansos, numa sinfonia de mugidos e silêncio, repentistas, jagunços, mulheres que caminham pelas estradas poeirentas com seus potes de barro na cabeça, jipes atravessando lamaçais, rios imensos, rios perigosos com suas grandes serpentes devoradoras, caboclos sobre palafitas, meninos e macacos guaribas gritando sobre as copas das árvores, cobras rápidas, rasteiras, estádios de futebol e bandeiras e gritos e hinos e a multidão valorosa e triste deste país que tu amas mais que tudo. Sua glória será andar por esse mundo sem fim, escreverá o homem na tela do seu computador, mas o menino não mais o vê. Lá está o velho xerife ocupando o teu lugar agora nas duas pequenas retinas, meu velho, e tu não tivestes a chance de dizer-lhe tudo o que desejaria, no fundo do teu peito, dizer-lhe? Mas continuas escrevendo noite adentro, como um velho mestre da arte de navegar, e teu computador é como uma galera fantasma que corta o céu noturno com suas velas brancas enfunadas pelo vento sul: vai vai vai que o céu negro já nada pode contra ti: vai que já nem mais precisas desta bússola, pois para ti, na noite dos teus anos, qualquer lugar é lugar; vai vai vai que nenhuma menina te espera na margem do rio (quem sabe não foi ela também devorada pela serpente de 15 metros chamada Tempo?). É noite, meu amigo, e encontras tempo para te reconciliares com o teu futuro? Estendas teu tapete para a aurora que logo virá no alvorecer de mais um século, que é apenas um segundo de Cronos, este deus imponente que se senta agora ao teu lado, e diz: Morrerás em breve e tuas páginas também amarelecerão, e tuas letras ficarão embaralhadas, como os infinitos dados que lanço sobre as eras. Por isso, levanta-te e caminha, pois não há mais tempo a perder! Vai vai vai com tua caravela, que és o descobridor de um novo continente: o teu. Lança o teu chicote sobre as costas dos escravos das galés, bate com força, homem, para não te veres tragado pelo redemoinho do tempo, pelo redemoinho das palavras, pelo redemoinho do silêncio, pelo redemoinho voraz desses olhos que tragam o mundo como um imenso sorvedouro, o Nada. Vai vai vai, esporeia este cavalo e fá-lo voar! Incendeia suas crinas e lança-te pelas pradarias do velho Cochise que ainda fuma o seu charuto nos desvãos do abismo: não vês a fumaça se erguendo no horizonte? Vai, homem, ecoa teu grito de guerra, levanta tua machadinha e lança-a sobre os canhões e os jatos PT-15 da Força Aérea do Amargedom, corra, corra pelas ruas desertas desta cidade, sob as lâmpadas de néon, sob a chuva e vê se te resta algum fôlego para cantar. Ressuscita teus mortos: os poetas malditos desta cidade ainda circulam pelas ruas: Gregório, Anísio, Manta, Short, tuas vozes ainda ecoam sobre os velhos casarões, longe, bem longe, dos shopping centers, das praças limpas e dos parques perfumados. Sois fantasmas de um tempo sepultado, mas sobre o qual ainda não lançaram a última pá de cal. E não o farão, pois não deixarei que apaguem os teus rostos do porvir. Prometo, amigos. Nem que para isto tenha eu também que vestir esta capa negra, este chapéu de abas largas, estas sandálias rotas e esta roupa surrada que me afastam do grande festim dos bem-sucedidos, dos que sentam à mesa do rei e se locupletam, e fingem não ver que ele está nu. Poetas malditos da Bahia, ainda sobrevivem nas catacumbas, como os cristãos de outrora, e teus passos ecoam na avenida Contorno, na Ladeira da Praça, no Santo Antônio Além do Carmo, além de todos os olhos que já não podem vê-los. E eu – por que eu? – lhes dou a mão que se estende e fica parada no tempo, inutilmente, talvez. O menino desliga a TV. É tarde. Logo mais os galos cantarão sobre as cercas dos quintais.

Itapuã dorme ainda na madrugada de 1963. E este pequeno apartamento do Edifício Trevian, na rua Agnelo de Brito, na Federação, nesta madrugada do ano do dia 16 de junho de 1999, já cede ao cansaço da hora. Um carro passa na rua em frente: seus faróis iluminam por alguns segundos o homem de olhar furtivo que mergulha no labirinto dos becos. A chuva cai sobre os telhados. O relógio trabalha compassadamente: tac tac tac. Chove melancolia sobre o mundo. Feche a janela. Faz frio. Faz muito frio, meu amor.

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