As Palavras Conduzem Outras Palavras – Antologia de Contos e Crônicas de Autores Baianos Contemporâneos

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AS PALAVRAS CONDUZEM A OUTRAS PALAVRAS – ANTOLOGIA DE CONTOS E CRÔNICAS DE AUTORES BAIANOS CONTEMPORÂNEOS
José Carlos Barros (Org.)
Salvador, 2004, 233 páginas

Contistas: Aleilton Fonseca, Alexandre Takei, Almir de Oliveira, Ângela Peroba, Anna Amélia Marback, Aramis Ribeiro Costa, Augustin Trigo, Ayêska Paulafreitas, Carlos Ribeiro, Cássia Lopes, Dalva de Andrade Monteiro, Gláucia Lemos, Mabel Veloso, Márcia Rios, Margot Valente, Maria Antônia Ramos Coutinho, Mary Arapiraca, Menandro Ramos, Miguel Carneiro, Orlando Pereira dos Santos

Contos
ALÉM DA PORTEIRA
Para Nelson Ribeiro, com carinho

A tarde lança as últimas réstias de luz sobre a cortina do quarto. Na cama amarela, que adquiriu há cerca de vinte anos, numa loja de antiguidades, o velho homem sente-se um pouco como aquele sol. Sua vida desce, lentamente, sobre as cercas no campo. Está na hora do crepúsculo e ele pode até admirar a beleza do arrebol (há quanto tempo não ouve aquela palavra, que é parte, como tantas outras, do seu rol de coisas desusadas. Como suas travancas, caçuás, arandelas, atavios, gabolas e traquitanas). Aceita isto, seu crepúsculo, seu arrebol, como um fato, como algo que sempre esperara – mesmo no tempo em que isto parecia ser impossível. “Eu também já fui imortal”, pensa, com um sorriso débil, enquanto sua mente capta lembranças, que empalideceram ao longo dos anos, mas que agora ressurgem com uma clareza inesperada. O menino catando mangabas e pitangas em Itapuã, escondendo-se nos túneis formados pela vegetação nas dunas do Abaeté, ouvindo do seu pai a história do pássaro que, sob a mira do caçador, cantava: “Não me mate ainda não, pobre homem. Eu sou o pássaro rei dos pássaros, pobre homem…”, e que ao ser comido, apesar de todas as suas advertências, explodiu a barriga do seu algoz e saiu voando para o obscuro mundo de onde veio; ou (era sua mãe agora, quem contava) da mulher que, habitando uma casa solitária à beira do mar, todas as noites gritava para o oceano misterioso: “Ondas do mar, venham me buscar, ondas do mar”, ao que estas respondiam: “De noite eu vou, de noite eu vou”; e um dia, ou melhor, uma noite, escura e silenciosa, elas foram buscar a pobre mulher, e o menino, que ouvia a história, afundava a cabeça sob os lençóis, com medo de algo que não fazia sentido, porque não era preciso que fizesse sentido. Agora, tantos anos depois, o velho homem ainda sente um frio subir-lhe a espinha e se emociona com essas histórias, que lhes trazem, junto com lágrimas, esse estranho misto de medo e prazer. Histórias que parecem encantamentos e que, de repente, abrem suas portas para o Grande Mistério. O abismo profundo do Pretérito Inenarrável, da Grande Noite, do Grande Dizer para o qual fechamos nossas portas que são hoje meras portinholas afetadas e estéreis de imagens sem potência. Ele pisa fundo o acelerador do seu velho corcel azul e vira as esquinas do tempo olhando, pelo retrovisor, a paisagem que passa a cem quilômetros por hora, com suas estranhas imagens. Tantas estradas! Tantas imagens. Um urubu pousado numa velha árvore, desfolhada, no sertão do Piauí; a locomotiva gemendo na noite de lua, café-com-pão-bolacha-não, como dizia sua mãe que lhe alisava os cabelos, enquanto tocava no rádio as canções de Carlos Gonzaga, João Só e Paulo Diniz, e na TV, Flávio Cavalcante fazia seu jogo de cena, Um Instante, Maestro! – e a TV era uma tela que chuviscava, enquanto faixas verticais e horizontais impediam-no de ver seu herói favorito – James West, ou Paladino, o defensor da justiça, ou Daniel Boone, e as tardes pareciam nunca acabar. Enquanto sua mãe lhe dava um prato fumegante de mingau de café, o seu tio e padrinho Nelson, doutor Nelson, levava-o para o hospital, aflito porque uma cobra mordera o seu dedo – e ele, um médico experiente, que dedicara muitos anos de sua vida a cuidar dos pobres, na sua farmácia, em Itapuã, sem cobrar um tostão, estava nervoso, e só agora, meu velho homem, só agora, você percebe quanto ele, ao seu modo, gostava de você. E você nunca o agradeceu. E nem é mais possível fazê-lo, neste distante futuro, quando o sol desce no horizonte e você vê o silêncio aproximar-se com seu inventário de perdas. É estranho, e irônico, que somente agora, quando seus olhos fecham, e o silêncio se aproxima do seu espírito, com seus pés de pomba, você estenda a mão e diga: Obrigado, meu tio. Ele certamente não saberá do que você está falando. Mas você rirá, mesmo assim, e se sentirá feliz, porque teve a possibilidade de falar da sua gratidão e ver que o tempo é o (de)sertão onde tudo se perde e se acha; onde tudo se resolve e todos finalmente se encontram. Nele você poderá refazer antigos gestos. Ou fazer os que você não teve coragem. Ouvir do seu pai aquele conselho que você negligenciou. Dizer a sua mãe, no leito de morte, que não se preocupe, porque você tomará conta dos seus irmãos mais novos. Acompanhar, passo a passo, a gravidez da sua mulher e ser-lhe sempre fiel. Chamar a atenção do seu filho, com energia, e sempre dar-lhe o seu amor exigente. Nunca esperar ser compreendido. Ter medo de errar, e nunca ter medo de errar. Andar na superfície fria da existência sem medo de morrer. E viver. Engraçado, não é, meu amigo, que somente agora você entenda o que é viver. Em seus estertores, lembra a personagem do romance O Poder e a Glória, de Graham Greene, que, diante do pelotão de fuzilamento, “sentia apenas um imenso desapontamento, por ter de comparecer perante Deus de mãos vazias, sem ter feito absolutamente coisa alguma”. Parecia ter sido tão fácil ser um santo. Um pouco de domínio próprio. Um pouco de coragem. “Sentia-se como alguém que tivesse perdido a felicidade, por questão de segundos”. E eu?, pensa o velho homem, com o fio de pensamento que lhe resta. Levarei em minhas mãos algo mais que essas lembranças que se dissiparão no tempo, como a poeira levantada pela tropa dos bois naquele sertão de antigamente? Quem poderá dizer? Que importa? O velho homem sente-se um pouco como o Coronel Aureliano Buendia, de Cem Anos de Solidão, que, diante do pelotão de fuzilamento, muitos anos depois, “havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Lembra uma frase do Zaratustra – “É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também minha alma é uma fonte borbulhante”. “Ê-ê-ê, boi. Anda depressa, está caindo uma garoa”, diz a canção de Zito Borborema.

É noite, já, e num canto qualquer da cidade, nesta sexta-feira, um homem toca, para além da porteira, a sua boiada de sonhos.

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