Antologia Panorâmica do Conto Baiano – século xx

LIVRO_Antologia_Panoramica_do_Conto_Baiano
ANTOLOGIA PANORÂMICA DO CONTO BAIANO – SÉCULO XX
Gerana Damulakis (org.)
Ilhéus/Itabuna. Editus, 2006.
366 páginas.
(71) 3237-2810

 

  • A LITERATURA BAIANA CONTEMPORÂNEA

 

APRESENTAÇÃO

A proposta deste trabalho é apresentar um painel de contos antológicos que foram publicados no século XX. Haverá faltas, como já é praxe nas antologias, mas a pesquisa colheu nomes e contos importantes da literatura baiana. A justiça também esteve presente; aqui não há ausências justificadas por desafetos, assim como não foram deixados de fora escritores ou escritoras, porque a organizadora não aprecia seu estilo, ou seus temas. A lição sobre do que se trata uma antologia panorâmica foi aprendida e tomada do professor Hildeberto Barbosa Filho, da Universidade Federal da Paraíba.

O ensaísta paraibano, Mestre em Literatura Brasileira, em sua reunião de ensaios críticos As Ciladas da Escrita (João Pessoa: Idéia, 1999), define as antologias literárias panorâmicas como aquelas que objetivam dar uma visão global da produção literária local, desde os seus momentos iniciais definidos (começo de um século, por exemplo) até o momento de sua publicação, ou outro momento datado pelo organizador. Tais antologias assumem o caráter meramente documental quando, na verdade, seu objetivo não vai além da preocupação em reunir os autores e seus respectivos trabalhos de um ponto de vista sistematicamente cronológico e evolutivo. A pretensão, portanto, é cobrir a produção literária como um todo dentro de um século. Ainda com Hildeberto Barbosa Filho, temos a divisão das antologias literárias panorâmicas em documentais e didáticas; ambas são maneiras lógicas de se ter acesso ao corpus literário de uma determinada sociedade ou de uma determinada época, pois que devem ser motivo de consulta preliminar a qualquer estudo. Seus serviços como documento histórico-literário respaldam a pesquisa especializada.

Ainda se pode dizer das antologias que elas dão uma visão sistemática de conjunto, uma visão primeira sobre determinada produção literária, com suas características e contornos específicos; daí, sua indiscutível relevância. Por outro prisma, se considerarmos a dificuldade de acesso às fontes históricas e críticas e a falta de dinamismo do que Hildeberto Barbosa Filho chama de “sistema literário”, ou seja, a política editorial com suas tiragens mínimas, com as ineficazes distribuição e circulação, que resultam na falta de divulgação dos livros e autores, então, contando ainda com a inexistência de segundas, quanto mais terceiras ou quartas edições dos livros, o que se conclui é que a primeira (e única) edição se esgota e vira raridade.

Nesta panorâmica podem-se encontrar algumas raridades e, seguramente, muitos contos antológicos; antológicos no sentido que os gregos usam: inesquecíveis. Mas, em suma, o que tornará um conto antológico é o tempo, é na lembrança através do tempo e, assim, ele alcançará o rótulo de conto inesquecível. Enfatizo que é razão de orgulho a inclusão das raridades. O leitor atento saberá identificá-las.

Apesar de vir produzindo contos de qualidade literária há um século, a contística baiana não tem tido a divulgação e a notoriedade que merece, haja vista a sua exclusão nas antologias que pretendem mostrar o melhor do conto brasileiro. Excetuando-se os escritores que residem no Centro-Sul do país, não encontramos um autor baiano nas listas daqueles que escreveram as jóias do século XX. Mas a Bahia segue praticando o gênero com qualidade inquestionável desde Xavier Marques, nascido em1861, na Ilha de Itaparica, e há cada vez mais contistas; é certo que o conto é o gênero mais realizado depois da poesia. A Bahia é tida como a terra dos poetas; atualmente, é, sem dúvida, também a terra dos contistas.

A situação no tempo e no espaço de cada autor não foi levantada porque, para tanto, dá conta da biografia e da bibliografia a Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, editada pelo Ministério da Cultura, Fundação Biblioteca Nacional e Academia Brasileira de Letras.

GERANA DAMULAKIS
Crítica literária e ensaísta

Conto
O ASSALTO

Dez horas da noite. Marcos espera o ônibus no ponto próximo ao Clube do Bahia, na Boca do Rio. Horário ruim aquele para Marcos esperar o ônibus. Você sabe, Salvador não é mais aquela cidadezinha provinciana dos anos 60/70. Somente no último final de semana, nada mais nada menos que 12 coletivos foram assaltados. Em um deles, o cobrador foi morto com um tiro na cara. Em outro, um tiroteio entre os assaltantes e um policial civil resultou em sete pessoas feridas, incluindo um bebê e uma anciã que saltou do veículo em movimento, quebrando as duas pernas e sofrendo rachaduras na bacia. Outra mulher, mais gorda, ficou entalada na janela e só pode ser libertada cinco horas mais tarde, graças à ajuda de um maçarico.

Só rindo, pensa Marcos. O diabo é que em muitas dessas tragédias cotidianas há quase sempre uma nota humorística que torna a coisa toda um tanto inverossímil: anciãos que encontram forças para saltar de um ônibus em movimento, maridos que fogem às pressas deixando mulheres e filhos para trás, gente correndo para um lado, gente gritando para outro, uns se espremendo em janelas, outros se esbarrando em cercas, outros ainda metendo os pés em poças de lama. Só rindo.

Marcos se lembra de dois assaltos hilariantes ocorridos com amigos seus. Um deles, um conhecido maestro foi abordado de chofre, numa praça em São Paulo, por um homem armado, que o abordou aos gritos de: “Passe a carteira, corra e não olhe pra trás!”. Assustado, o maestro entregou uma carteira de cigarros que levava à mão e fugiu em disparada, sem olhar para trás. O assaltante, paralisado, durante alguns segundos pela surpresa, correu atrás dele, em seguida, gritando: “Essa carteira não! Essa carteira não! Quero a outra! A outra!”. Mas o maestro não voltou para entregar a outra carteira.

Em outro assalto, no bairro de São Cristóvão, próximo ao aeroporto, um amigo de infância, publicitário e jornalista, acordou no meio da noite, com o ruído da porta da frente da sua casa sendo arrombada. Vendo que não tinha outra saída, gritou para um cachorro imaginário: “Calma, Rex! Calma, Rex!” e latiu, engrossando a voz o máximo que pôde: “Au, Au, Au”. O efeito foi imediato: a porta parou de se mexer, passos rápidos ecoaram na varanda e o portão bateu com força, na noite, lá fora. O bandido nunca mais voltou.

Presença de espírito e sorte, pensa Marcos. Isto é que é preciso ter: Presença de espírito e sorte. Mas quantas outras histórias não tiveram um final assim tão feliz?

A rua está deserta. Apenas Marcos e duas mulheres esperam o ônibus. Marcos acende um cigarro, jurando que aquele será o último. Dá duas baforadas, joga-o no chão e pisa nele com raiva. Uma das mulheres olha para ele com ar de censura, como se dissesse: então é assim que você faz com a sua cidade, sujando-a toda, você não recebeu educação da sua mãe não, seu animal? Marcos olha para ela, de relance, com raiva, mas depois afasta esse pensamento da cabeça e diz pra si mesmo: Estou ficando velho. Este mundo não é mais para uma besta velha como eu, que passou a vida inteira fumando e sujando as ruas sem nunca pensar que estaria fazendo algo errado, mas agora, olha para os lados, agora me sinto como se um milhão de olhos ficasse o tempo todo me vigiando, me censurando, me lembrando que não valho porra nenhuma mesmo e que o mundo não perderia nada se um vagabundo metesse uma bala nas minhas fuças. Sacode a cabeça como se quisesse afastar aquelas idéias, como quem afasta moscas de uma bicheira. Olha de novo para a mulher e vê que é apenas uma mulher comum, como qualquer outra, deve trabalhar em alguma dessas churrascarias de terceira classe, que se multiplicam na orla marítima, deve estar voltando para casa, agora, para cuidar do marido bêbado e dos filhos famintos, então por que ela o olhou com aquele olhar tão altivo, tão carregado de censuras, se não tem nem onde cair morta?
A mulher pega um ônibus; a outra, com cara de beata, olha-o de relance, como se tivesse medo dele, como se não quisesse ficar ali sozinha com ele, àquela hora da noite, como se ele fosse o próprio Satanás, e pega o primeiro ônibus que aparece. Marcos fica sozinho, um pouco impaciente. Logo em seguida chega um velho arrastando um saco pesado, que coloca pela porta da frente de outro ônibus, entrando em seguida pela porta do fundo e Marcos olha o relógio. Quando o ônibus sai, fica uma nuvem de fumaça preta que se dissipa muito lentamente. Marcos sente a fumaça impregnar-se em seus poros, nos seus cabelos, nas suas narinas, uma podridão das maiores, pior do que aquilo só o caminhão do lixo, que merda, ele resmunga, sentindo crescer dentro de si uma revolta pelo péssimo serviço de transporte da cidade, por aquela porcaria à qual se referem pomposamente como “o sistema de transporte urbano da capital”. Lhufas. Pensa nos políticos, esse monte de bosta, que nunca faz nada de concreto para melhorar a vida do povo; e pensa em si mesmo como um pária: um saco de carne e ossos com o rosto marcado e os cabelos grisalhos e roupas amassadas, um homem fracassado que, aos 52 anos de idade, continua dependendo de transportes coletivos e que não faz nada para mudar esta merda! Se ainda vivesse há alguns anos, num tempo em que as pessoas acreditavam que podiam mudar o mundo. Lamentava não ter peito para liderar um movimento revolucionário e dar um fim àquele nhém-nhém-nhém de neoliberalismo e de democracia social, vejam só o que esses merdas ficam inventando para enganar esta vasta população de mongolóides. Também pudera: 200 milhões de palhaços cuja principal distração é assistir programas de auditório, dançar músicas ridículas, ler escritores esotéricos e autores da moda, como esses sabichões da… como é mesmo o nome? Psicolinguística? Não, Neurolinguística, vê se pode, pelo amor de Deus, todo mundo reprogramando as suas mentes vazias pra encher as burras desses mauricinhos que, em qualquer país sério do mundo, seriam mandados embora a cacetadas, mas não existe mais nenhum país sério no mundo, até a França, vejam só, até a pátria do Existencialismo homenageia escritorezinhos de ocasião, até o clero, cuja vanguarda era dignamente representada por nomes respeitáveis, como os de Don Hélder Câmara, Paulo Evaristo Arns e Dom Pedro Casaldáliga, dá lugar agora a esses padres dançarinos, que levam a multidão a ficar por aí pulando feito pulgas e cantando baboseiras sem fim, oh meu Deus, ou sou eu que estou ficando para trás, rançoso, rancoroso, amargurado? Deveria também largar de lado essas idéias antiquadas e saltar também para o meio do palco, deste feérico show business e buscar a minha fatia do bolo deste mundo globalizado? E onde está a merda desse ônibus que não aparece? Olha o relógio mais uma vez, olha para os lados, sente um silêncio estranho. Deseja que o seu ônibus apareça logo, mas ele não dá as caras. Vê então um homem que se aproxima, com um “ar” distraído, a uns 50 metros de distância. Logo atrás dele, dois outros homens, um branco e um negro, sobem a rua, aproximando-se do abrigo onde ele está. Sente o impulso de correr, mas… para onde? Por quê?

Calma, pensa. Não há de ser nada…

Os homens aceleram o passo, cada vez mais e, a uns 30 metros, abordam o sujeito. Conversam alguma coisa, não dá para ouvir o que dizem, parecem pedir um cigarro, o homem verifica os bolsos, como se procurasse algo, desiste, gesticula, os dois parecem impacientes, apontam para algum lugar do outro lado da rua, parecem nervosos, um deles coloca a mão no bolso, retira alguma coisa, é uma arma, é uma arma, oh meu Deus, pensa Marcos, olhando para os lados, sem saber o que fazer, eles vão matá-lo! Um deles, o de pele mais clara, dá um tapa no homem, um tapa forte na cara, como se batesse com uma tábua grossa. O outro avança e dá uma coronhada na cabeça; falam alto, agora, já dá para ouvir o que dizem. Querem que entregue a carteira. Xingam o homem. Gritam com o homem. Esvaziam-lhe os bolsos, arrancam-lhe o relógio, mandam-lhe tirar os sapatos e a camisa – estão berrando agora, e ele não consegue pensar; ele quer pensar, quer raciocinar, quer articular alguma palavra, alguma ação, mas a única coisa que consegue fazer é tentar se esconder atrás da pilastra de cimento do abrigo, e olhar. Vê outro tapa, outra coronhada, um pontapé na canela. O homem sapateia, com as mãos estendidas na frente, num ar de desamparo, patético. As mãos do homem parecem dizer: vejam, eu não vou resistir, eu sou um pobre diabo que nem merece morrer. E o homem fica esperando levar outro chute, a qualquer momento. Abaixa-se um pouco, como se quisesse ajoelhar-se. O outro aproveita para atingir-lhe a cabeça com a sola do pé, e pisa-lhe o pescoço, enquanto o outro grita:

– Tire as calças! Tire esta merda logo ou eu vou pipocar a sua cabeça, tá me ouvindo? Eu vou pipocar sua cabeça! Agora! Agora!

Marcos fecha os olhos. Ouve o estampido. Ouve passos e as vozes, agora bem mais próximas. Discutem entre si. Um quer ir embora, parece ter medo; o outro quer terminar o serviço. O serviço. O serviço. Que serviço? Precisamos apagar o cara, diz o homem. Ouve passos. Sente agora um objeto frio encostar-se à sua fronte. Alguém ri. É um riso nervoso aquele, pensa Marcos. É um riso de medo. É um riso de desespero. Ele mesmo sente vontade de rir, mas fica apenas ali, desamparado, com os olhos fechados, esperando o tiro. Já não sente medo ou terror. Sente apenas resignação, ou melhor: uma profunda pena de si mesmo. Sente-se pequeno, insignificante.

– Espere – diz o outro. – Deixa ele. Vamos embora, porra, vamos embora!

Marcos abre um pouco os olhos e vê, à sua frente, um homem inquieto que se agita para um lado e outro. Sente vontade de rir quando recebe um murro forte no ouvido. Cai sobre a calçada ouvindo sons desconexos. Parece estar vivendo uma alucinação, uma bad trip provocada por uma droga forte e ainda desconhecida. As imagens que lhe vêm aos olhos agora são confusas – manchas pretas alternadas com luzes intensas, que se embaralham, impedindo-o de ver qualquer forma mais familiar. Tenta levantar-se uma, duas vezes e despenca de lado entre o asfalto e o meio-fio. Fecha e abre os olhos; percebe agora o som dos gritos alucinados dos homens e – como temia – um disparo: um tiro seco. Em quem atiraram? Pensa. Está tão confuso que não consegue saber se foi ele quem recebeu o tiro. Sente, entretanto, a sola do tênis que o empurra para o lado, e ouve a voz:

– Vamos embora! Deixe o babaca! Você não ouve, porra! Deixe o babaca!

– Filho-da-puta – berra o outro. Atira mais uma vez. O outro o puxa pelo braço.

– Vamos. Vamos.

Marcos relaxa o corpo; fecha os olhos. Ouve os passos distanciando-se. Parece ouvir ainda a respiração alterada do moribundo, um suspiro, silêncio. Depois, longe, muito longe, um carro passando, latidos e mais nada. De repente lhe vêm à mente imagens que há muito tempo esquecera ou das quais nunca tomara conhecimento: sua imagem refletida no espelho na casa antiga de uma namorada, no Politeama, em 1982; um vagabundo que lhe pedira dinheiro (e que ele não dera), há remotos 20 anos; um menino (ele mesmo) sobre uma jaqueira, no interior, surpreso com a idéia de que um dia iria morrer e tentando adivinhar como seria; morreria pilotando um avião, em pleno Atlântico, como um herói; seria alguém na vida, um homem importante, e muitos chorariam a sua morte; o rosto dos seus pais, avós, bisavós e todos os seus antepassados refletidos em espelhos, que se sucediam interminavelmente, no tempo, e todos lhe sorriam. Pensa que todos eles estão mortos, e isto lhe parece ao mesmo tempo extraordinário e banal. Extraordinário porque todos aqueles seres foram, um dia, como ele mesmo, seres reais, pessoas que viveram, pensaram, sentiram e morreram. Banal porque não existe nada mais banal, pensa, do que isso: nascer, viver, crescer, sentir, morrer. A única diferença entre ele e os seus antepassados, é que não deixaria descendentes. Isto, somente isto, o faz sentir-se triste. Pensar que, no futuro, no momento supremo da morte, ninguém pensará nele – e ele não terá para quem sorrir.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *