Verve Demolidora

HUMOR – Dois livros trazem uma boa mostra do pensamento crítico de um dos mais importantes pensadores brasileiros.
Jornal A Tarde – 10/09/02

Carlos Ribeiro

 

Ele é do tempo em que “relógio tinha ponteiros” e que “o ar ainda era incondicionado”. Responsável por uma boa parte do que se fez de melhor, na imprensa e na cultura brasileiras, nos últimos 50 anos, o jornalista, humorista, escritor, tradutor, autor de peças de teatro Millôr Fernandes pertence a uma geração de intelectuais cuja consciência profissional está, também, o que é muito importante, na capacidade “de não encher o saco do leitor”.

Despertar o senso crítico, denunciar imposturas e revelar a hipocrisia – sem firulas ou arrodeios – são algumas conseqüências do trabalho que o Guru do Meyer faz nas 5.142 frases, pensamentos, preceitos, máximas, raciocínios, elucubrações, apodos, desvarios, gnomas, motes, escólios, reflexões, estultilóquios, prótases, galimatias, leviandades e heresias que reuniu, em sua Bíblia do Caos (624 páginas, R$ 21), lançado em 1994 e reimpresso, este ano, pela L&PM, de Porto Alegre.

Além dessa obra, Millôr lançou, recentemente, pela mesma editora, mais um livro: Crítica da Razão Impura ou O Primado da Ignorância (70 páginas, R$ 14), no qual desconstrói, sem qualquer pretensa imparcialidade crítica, os livros Brejal dos Guajas, de José Sarney, e Dependência e Desenvolvimento na América Latina, “Opus Magno sociológico de Fernando Henrique Cardoso” – ou melhor, segundo ele, de FhC, superlativo de PhD.

Acidez

O livro reúne os textos publicados em 1988, no Jornal do Brasil, nos quais o autor de Devora-me ou te Decifro desanca, sem dó nem piedade, e com assumida parcialidade, as obras de dois (ex e atual) presidentes do Brasil. Atitude nada recomendável – do ponto de vista dos manuais de redação –, não fosse ele mesmo o autor e os criticados: 1) um político (Sarney) que “depois de tudo o que fez ao país (…) ameaça agora abandonar a política para se dedicar à literatura”; 2) de um ex-ociólogo da Sorbonne, gênio da “profilática hermenêutica consubstancial da infra-estrutura casuística”, cujo melhor efeito da sua obra é deixar-nos todos flabbergasted, isto é, doumbfounded. Entendeu?

Elogiado “por gente da melhor qualidade pra julgar literatura”, como Josué Montello e Leo Gilson Ribeiro, Brejal dos Guajas não encontra a mesma condescendência por parte de Millôr, que não deixa pedra sobre pedra, na “tentativa de entender o livro, o autor e o país em que nasceu um e foi publicado o outro”. Tudo isto para chegar à conclusão de que Brejal é “o único livro que conheço errado da primeira à última linha”. Ou melhor, que “só pode ser considerado um livro porque, na definição da Unesco, livro ‘é uma publicação impressa não-periódica com um mínimo de 49 páginas’. O Brejal tem 50. Materialmente, Sir Ney excedeu-se em uma página”.

Chumbo grosso

Dirão os críticos do crítico que o Guru do Meyer excedeu-se e que o livro de Sarney pode não ser tão ruim assim, embora também não possa ser pior. No que terão completa razão. Mas o que dizer da leitura feita por ele da obra magna de FhC? Sobre ele, diz Millôr, após transcrever alguns trechos de um pedante sociologuês: “O que me impressiona é que esse homem, que escreve mal – se aquilo é escrever bem o meu poodle é bicicleta – e fala pessimamente – seu falar é absolutamente vazio, as frases se contradizem entre si, quando uma frase não se contradiz nela mesma –, é considerado o maior sociólogo brasileiro”.

Talvez alguns leitores achem que este não é o melhor Millôr. De fato, há momentos em que a inteligência dele está mais para a sutileza voltairiana do que para a demolição causada por um F-15. Estes, provavelmente, se sentirão mais à vontade na leitura de A Bíblia do Caos, em que, de forma menos personalizada, podemos ler frases como estas, com as quais encerramos esta resenha:

“Quando o matrimônio é por interesse devia se chamar patrimônio”.

“Fique tranqüilo: você pode não estar preparado pra inteligência artificial, mas o computador está cada vez mais preparado pra sua burrice natural”.

Ou o seguinte (e atualíssimo) epigrama: “Esculápio?/Nem pensa!/Mais gente morre de médico./Que de doença”.

Tem-se dito.


EDITORA: L&PM
PREÇOS: R$ 21 (A BíBLIA…); R$ 14 (CRÍTICA…)
TELEFONE: (51) 3225-5777
E-MAIL: INFO@LPM.COM.BR
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