Torpedos Verbais

ENSAIOS – Em seu mais novo livro, Tom Wolfe faz críticas ácidas a aspectos da chamada contemporaneidade.
Jornal A Tarde – 22/01/02

Carlos Ribeiro 


O que prefere o leitor: um livro que confirme suas idéias e concepção de mundo e que o deixe satisfeito, após a leitura, com a agradável sensação íntima de que “é mesmo assim que as coisas são”? Ou aquele que, mesmo contendo posicionamentos opostos aos seus, o instigue a pensar, a refletir, até mesmo a indignar-se? Se a segunda opção for a preferida, eis aqui uma boa sugestão de leitura: Ficar ou Não Ficar (Hooking Up, Rocco, 260 páginas, R$ 29), do escritor e jornalista americano Tom Wolfe.

É claro que, a depender das convicções de cada pessoa, uma mesma obra pode pertencer às duas categorias acima referidas. Mas, no que se refere ao livro de Wolfe, o tom de polêmica impõe-se, em várias direções, de forma que fica difícil distinguir, muitas vezes, o que poderia existir de “conservador” e de “progressista” no pensamento do autor (aliás, as aspas céticas nesse tipo de conceituação são assinaladas por Wolfe, em diversos trechos da obra, como características de uma sociedade cujos valores estão sendo progressivamente demolidos).

Em linhas gerais, Ficar ou Não Ficar é uma bem-dosada mistura de reportagem, ficção e ensaio sobre temas diversos, como sexualidade, literatura, marxismo, artes plásticas, informática, neurociência e jornalismo. Nele, Wolfe – um dos criadores do novo jornalismo, nos anos 60 – faz um retrato satírico da sociedade americana (por extensão, também, da nossa, afinal, vivemos num mundo globalizado), lançando torpedos carregados de ironia sobre algumas tendências mais marcantes da chamada contemporaneidade. Mais propriamente sobre aquelas que caracterizam uma cultura que afunda, dia após dia, num terreno minado, por exemplo, por “doutrinas obscuras”, como se refere ao estruturalismo, o pós-estruturalismo, o pós-modernismo, o desconstrucionismo e as teorias reader-respons, ou por teorias reducionistas, como as da neurociência e da sociobiologia.

São quatro capítulos, subdivididos em 14 ensaios e um posfácio. No primeiro, que dá título ao volume, ele traça um quadro de como era a vida do cidadão americano na virada do milênio. A ênfase nos costumes sexuais (sobretudo entre os jovens) serve para mostrar a extrema banalização das relações, agravada, por outro lado, pela excessiva valorização das aparências. “No ano 2000, era normal que um alto executivo bem-sucedido chutasse a esposa e acabasse um casamento de duas ou três décadas, simplesmente porque o revestimento subcutâneo dela estava deteriorando-se e os ombros e as costas estavam avolumando-se como os de um arremessador de peso”, diz ele.

No segundo, A Fera Humana, Wolfe conta a história da ascensão da indústria dos computadores e da internet, no Vale do Silício, na Califórnia. Demonstra, aqui, uma das características marcantes do estilo jornalístico que ajudou a criar, ao incorporar elementos da ficção ao texto jornalístico, dando mais ênfase à subjetividade dos personagens envolvidos na história.

A melhor parte desse capítulo, entretanto, é a reflexão que faz sobre a relação entre a sociobiologia e a neurociência – teorias que pretendem reduzir as ciências humanas e sociais a ramos especializados da biologia – e a análise mordaz sobre afirmações pseudocientíficas relativas à era digital, às quais chama de “digibesteiras”. Analisa, também, o ceticismo radical da ciência moderna, que, como previu Nietzsche, já está voltando-se sobre ela mesma, “questionando a validade de suas próprias fundações, desmoronando e se destruindo”.

Mas é, provavelmente, a terceira parte do livro – Vita Robusta, Ars Anorexica – a mais polêmica. No capítulo No País dos Marxistas Rococós, o autor assesta suas baterias contra os intelectuais da esquerda americana, que não conseguem, segundo ele, reconhecer a grandeza do “império americano” – leia-se grandeza num sentido positivo, das conquistas sociais; um país, segundo o autor, no qual um simples ladrilheiro pode dar-se ao luxo de fazer um cruzeiro pelo Caribe. Para Wolfe, esses intelectuais “revelam-se tenazes como mulas empacadas” ao não reconhecerem a realidade configurada após a queda do muro de Berlim e o massacre da Praça Celestial (NR: ainda não havia ocorrido o 11 de setembro de 2001).

Apesar do tom triunfalista e de afirmações arrepiantes, como aquela em que, citando Nietzsche (!!!), ele vê os Estados Unidos como “o metro pelo qual todos os outros (países) devem ser medidos”, e de distorções gritantes, como no paralelo que faz entre o nazismo e o comunismo, ignorando diferenças filosóficas e doutrinárias fundamentais, Hooking Up não deve ser lido sem considerar sua alta carga de ironia. Aliás, o próprio estilo dândi do autor (que se veste totalmente de branco), denuncia seu estilo autoparodiador.

O livro – que inclui ainda um artigo recente em que Wolfe critica seus colegas romancistas, Norman Mailer, John Irving e John Updike, aos quais chama de “meus três patetas”, e um outro, escrito em 1965, no qual ataca a revista New Yorker – deve ser lido com uma peneira fina, do discernimento. Só assim poderá tirar-se, dele, um melhor proveito.


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