Território Livre do Sexo

Contos do Porto da Barra
Marcos A. P. Ribeiro
Editora 7 Letras, 83 páginas, R$ 28
Tel: (21) 2540-0076

Para Marcos A. P. Ribeiro existem, basicamente, dois tipos de escritores: aqueles que vão ao encontro das expectativas do leitor, escrevendo o que ele está esperando; e os que vão de encontro às expectativas do leitor, “contestando certezas convencionais, não somente em conteúdo, mas na forma, no ritmo, na estrutura”.

Embora se auto-defina como um autor do segundo tipo – seu “romance do absurdo”, de busca existencial, Todas as coisas são iguais, lançado em 2002 pela Secretaria da Cultura e Turismo, é um exemplo disto –, Marcos revela agora, em seu mais recente livro, Contos do porto da Barra, lançado recentemente pela editora 7 Letras, do Rio de Janeiro, uma vertente oposta da sua ficção. Não no sentido de um produto fabricado para o mercado, mas de um texto que, longe de qualquer intenção experimental, oferece ao leitor descrições claras e límpidas de situações que têm como objeto central o sexo. Ou melhor: a sexualidade, em suas diversas manifestações.

De fato, os personagens dos oito contos de Marcos, ao contrário dos indivíduos excessivamente pensantes do seu romance, existem na ação que é movida unicamente pelo instinto, pela intenção de viver plenamente o gozo, no presente. Não por acaso o autor coloca, como uma dedicatória-epígrafe impessoal, a frase: “Aos que sabem que a realidade só pode ser compreendida através dos sentidos”.

São, pois, os sentidos, levados à sua máxima intensidade, no gozo erótico, o principal tema do livro – e o Porto da Barra, seu cenário luxurioso. “Samuel Johnson (1709-1784) disse que quem está cansado de Londres está cansado da própria vida. Afirmo que quem se cansa do mar do Porto da Barra se cansa dos próprios sentidos”, afirma o personagem narrador do conto “Úrsula”:.

A maioria dos textos deste Contos do Porto da Barra obedece a um esquema simples: um homem de classe média, intelectual na faixa dos 30 anos, se aproxima de um objeto disponível do seu desejo – a jovem nadadora em “A tartaruga”, a turista argentina em “Úrsula”, dois jovens estrangeiros em “O Carnaval dos holandeses”, a estudante de 19 anos em “Chuva” – e, após um breve diálogo, sem maiores formalidades, faz sexo com elas, com descrições minuciosas do ato sexual, no mar, dentro de automóveis, num apartamento. Em apenas um caso (“A ovelha desgarrada”), a “presa” escapa ao jovem conquistador.

Muito diversamente da obscuridade dos objetos de desejo do cineasta espanhol Luis Buñuel, com suas perspectivas em profundidade, nos contos acima referidos não há conflitos de permeio, nem qualquer traço de complexidade emocional ou psicológica. Em lugar da escuridão passional, o sol fulgurante do lado de baixo do Equador, sob o qual nada escapa ao eterno instante do prazer. “Formávamos o casal mais perfeito e feliz do mundo porque não havia nada que quiséssemos que não estivesse no instante. Tínhamos nos dado exatamente o que de mais intenso poderíamos ter desejado”, diz o narrador de “Úrsula”, após o sexo, no interior de um Gol, no Alto de Ondina.

O hedonismo evidente nos contos de Marcos A. P. Ribeiro se ajusta com perfeição ao cenário de suas histórias. Mas os melhores momentos do livro acontecem quando, ao superar o registro naturalista, ele aprofunda os sentimentos, conflitos e contradições de seus personagens. É quando “a ponte do real para o literário”, mediado pelo sexo, como é dito na orelha do livro, se concretiza, de fato – fazendo surgir “o humano demasiado humano de cada um”. Isto é evidente nos contos “Jonas, Filhinho-de-Papai” e “Valtércio, Carnavalescamente” (únicos com personagens gays, curiosamente os únicos narrados na terceira pessoa), e em “Telminha”, no qual o indefectível narrador-conquistador-tímido-mas-infalível-trintão, alter ego do escritor, narra sua relação com “a mulher mais livre sexualmente que conheci. A única a encarar todas as possibilidades de seu desejo com absoluta naturalidade. A única a dissociar perfeitamente sexo e afeto, à maneira masculina”.

Com uma prosa límpida, elegante e precisa, Marcos A. P. Ribeiro, médico natural de Jequié, autor dos livros Vagas obscenidades (poesia), A Faculdade de Medicina da Bahia na visão de seus memorialistas (1854-1924) (história) e do referido romance Todas as coisas são iguais, além de tradutor de autores como Dashiell Hammet, Lawrence Felinghertti e Robert Lowell, consegue transitar na fronteira do erótico com o pornográfico sem, em nenhum momento, ceder à apelação da sordidez e do mau gosto. Prosa que, nas suas já bastante explícitas descrições do ato sexual, nas suas mais diversas e heterodoxas formas, dispensaria as ilustrações de Vauluízo Bezerra. Afinal, em se tratando da instigante combinação de sexo e requinte, há de se abrir espaço para a imaginação.


ENTREVISTA COM MARCOS A. P. RIBEIRO

SEXO NÃO “CHOCA” MAIS NINGUÉM


O sexo ainda é um tabu? Descrever o ato sexual, com minúcias, como você faz neste Contos do Porto da Barra, ainda incomoda a quem escreve e a quem lê?

Não creio que sexo ainda seja tabu. Sexo não “choca” mais ninguém. Sobretudo, depois da internet, que representa uma revolução para a expressão da sexualidade. Pretendi, com os contos do Porto da Barra, fazer uma espécie de inventário do desejo e das possibilidades de sua manifestação, num ponto geográfico específico muito importante: o Porto da Barra. O sexo é o significante, a sexualidade é o significado.

De seu ponto de vista, como escritor, existe o medo de ser tachado com o rótulo de “pornográfico”?

Não existe o medo. E se o fosse, estaria em muito boa companhia: James Joyce. Ulisses foi proibido nos EUA por ter sido considerado pornográfico.

Fale um pouco sobre a escolha do Porto da Barra para o cenário do seu livro. A paráfrase que o narrador faz de Samuel Johnson, no conto “Úrsula”, poderia ser aplicada a algum outro lugar?

Parodiando o sábio da fábula, diria que não sei se poderia ser aplicada a algum outro lugar porque não conheço todos os lugares…. mas, certamente, dos lugares que conheço, particularmente no Brasil, é ao que mais a paráfrase de Johnson se aplica. Freqüento o Porto há uns 25 anos. Sou nadador contumaz e regular daquela enseada, em cujas águas já vi baleias, tartarugas, moréias, orgias, sexo em dupla, sexo solitário. O Porto é provavelmente o lugar mais democrático de Salvador. Ali todos convivem bem: intelectuais, artistas, atletas, anônimos, famosos, respeitáveis, marginais. Fuma-se maconha livremente no Porto. Faz-se muito sexo em suas águas, sobretudo nos barcos. Poder nadar diariamente em suas águas tranqüilas, as quais os moradores dos bairros próximos podem ir andando, é um extraordinário privilégio dos soteropolitanos.

Henry Miller, Anais Nïn e D. H. Lawrence ainda podem servir de referências para a literatura erótica ou pornográfica do século XXI? Mudou alguma coisa na nossa forma de ver o sexo na pós-modernidade?

De certo modo, eles ainda são referências. Porque escreveram num momento em que escrever sobre sexo era algo libertário, quase revolucionário. Foram pioneiros. Existe também um interesse histórico em se saber como a sexualidade era percebida naquele momento. Há uma belíssima cena em Anais Nïn, sobre a relação erótica de um homem maduro com duas meninas, que hoje seria considerada pedofilia. Ela a descreve como se desconhecesse o conceito. O orgasmo de Lady Chatterly também é magnífico.


O poeta Luiz Antonio Cajazeira Ramos fez uma observação perspicaz sobre o seu livro. Segundo ele, os melhores contos são justamente os dois (“Jonas, Filhinho-de-Papai” e “Valtércio, Carnavalescamente”) em que os protagonistas são homossexuais. Os demais seriam mais esquemáticos: o homem de classe média, infalível, que come todas as beldades que aparecem no caminho. Ele estranha também que os “contos gays” sejam os únicos escritos na terceira pessoa. O que você acha dessas observações?

As preferências literárias refletem interesses e projeções pessoais. Outros leitores preferiram outros contos. E por que “estranha”? Por que deveria eu escrever os contos sobre gays na primeira pessoa? Há alguma regra literária sobre isso? O escritor é livre para eleger, ao seu bom prazer, as pessoas gramaticais através das quais se manifesta. Ou seria o “estranhamento” de Cajazeira Ramos um chamamento ao politicamente correto? Como se eu devesse escrever os contos sobre gays na primeira pessoa para demonstrar que não tenho preconceito contra gays? Politicamente correto é apenas para os que precisam ser políticos. Não é o meu caso.

Como você define este Contos do Porto da Barra, em relação ao seu livro anterior, o romance Todas as coisas são iguais? De imediato, percebe-se uma mudança radical entre personagens excessivamente pensantes, no romance, para os deste novo livro, que se revelam na ação…

Esses contos são peças literárias mais rápidas, mais ágeis, com pinceladas velozes numa tela. Pretendem retratar algo específico: a vida antropo-erótica do Porto da Barra. São, de certo modo, menos ambiciosas, mais próximas de modelos já consagrados pelo mercado. Todas as coisas são iguais é mais ambicioso, mais intelectual, mais distante dos modelos valorizados pelo mercado, quase sem interesse comercial. São duas possibilidade um mesmo escritor.


O tédio, ou mais precisamente uma espécie de desencantamento existencialista, é uma marca muito forte do seu livro anterior.

O tédio é um grande problema pessoal. Goethe disse: “Se os macacos chegassem a sentir tédio, tornar-se-iam humanos.” Acho que só conheço uma cidade quando sinto tédio no lugar. Já pensei em escrever um livro sobre o tédio: haveria, por exemplo, o tédio relativo: o preso na cela – se estivesse em liberdade, não sentiria tédio. O tédio absoluto: o homem livre, saudável, com dinheiro para fazer o que quiser, ir aonde quiser, e mesmo assim sente tédio.

Você concorda que há nele uma certa indefinição quanto ao gênero? Uma espécie de mistura de romance e ensaio?

Sim. Se este livro tem uma genealogia, é a dos romances-ensaio, dos quais a literatura germânica é pródiga: O homem sem qualidades, de Musil; Os sonâmbulos, de Broch, por exemplo. Escrevi-o do modo mais pessoal e sincero. É verdade bruta, sem lapidações mercadológicas.

Como você se define como romancista?

Existem basicamente dois tipos de escritores: aqueles que vão ao encontro das expectativas do leitor, escrevendo o que ele está esperando; e os que vão de encontro às expectativas do leitor. Eu sou desse segundo tipo. Não sei se sou bem- sucedido, mas a minha intenção é esta: contestar certezas convencionais, não somente em conteúdo, mas na forma, no ritmo, na estrutura.

Estas características não são dominantes, entretanto, no seu livro de contos. Pelo menos, não há nenhuma intenção experimental…

Esta questão está respondida acima. Um escritor: muitas possibilidades.

Você não acha questionável essa tendência a associar qualidade com experimentalismo, no sentido positivo, ou com popularidade, no sentido negativo? Existem livros de excelente qualidade literária e que são também bastante populares.

Mas nem todos procuram essa popularidade. Perguntaram a Umberto Eco como se escreve um livro de sucesso. Ele disse que há duas possibilidades: ou se repete uma fórmula consagrada ou se joga todos os dados no computador e se recebe uma resposta. Então, existem escritores que buscam repetir uma fórmula.

Umberto Eco é um bom exemplo de que a qualidade e a popularidade não se excluem. Você não acha que O Nome da Rosa é um excelente romance?

É um bom livro, mas do ponto de vista artístico, não. É diferente de um Celine, de um Kafka. Ou Robert Walser. Você percebe que há uma fórmula por trás. John Updike é assim. É diferente de se ler O castelo, de Kafka. Eco e Updike são escritores talentosos que têm compromisso com o gosto médio. Autolimitam-se, restringem-se voluntariamente para agradar à massa. Para mim, são previsíveis, facilmente circunscritíveis. A vida é breve, a arte é longa.

A concepção de vanguarda e de experimentalismo não soa um tanto ultrapassada? O espírito do que chamam de pós-modernidade não traz, quando muito, a proposta de novas combinações do que já foi feito?

Sim, mas o fato de não existir mais a novidade não quer dizer que não possa haver. Não é uma impossibilidade. Há, portanto, a possibilidade de se ter visões originais. Recentemente li no caderno Mais!, da Folha de São Paulo, um conto de Zulmira Ribeiro, chamado “Região”, que aborda a realidade de um ângulo novo, com ritmo e metáforas novas. Não é revolucionário, mas é original.

O que provoca o tédio numa sociedade marcada pelo ritmo veloz dos acontecimentos e por uma sucessão tão grande de novidades tecnológicas? Será que o fato de haver tantas novidades amortece a possibilidade de senti-las de forma mais intensa?

Vivemos numa época em que o mercado substituiu a política, e a mídia, a economia. Não há mais debate estético, ideológico, existencial. As pessoas que têm vinte anos hoje, não querem mudar o mundo. Há trinta anos, queriam. A frase de Chico Buarque é emblemática: “No meu tempo todas as moças bonitas eram de esquerda” Predomina uma espécie de conformismo cínico.

Você quer mudar o mundo?

Não: quero que o mundo não me mude.

Mas, voltando ao assunto do tédio, correr, dia após dia, a 300 quilômetros por hora, pode ser profundamente tedioso, não é? Parece ser este o caso da nossa civilização.

As novidades tecnológicas são estimulantes, mas, como disse alguém, as pessoas têm hoje grandes instrumentos de comunicação, como a internet, mas não têm o que dizer. Há uma paralisação ideológica, estética. A tecnologia conspira contra a reflexão, o pensamento. Vivemos uma época de paralisia intelectual. Mas não é a primeira nem será a última. Como disse Murilo Mendes: “O homem é um ser futuro, um dia seremos visíveis.”

Alguns críticos apontam essa decadência na literatura brasileira, que não nos deu mais nenhum grande nome depois de Guimarães Rosa ou Clarice Lispector. Mas, pergunto: será que temos condições de avaliar este momento sem que haja um certo distanciamento?

Só o tempo pode dizer isto. A questão pode ser a seguinte: quem chegar aos 50 anos, com intensas experiências vividas, pode não achar nada de novo. Todo ponto de vista é sempre geracional. O último grande escritor que li foi Ferdinand Céline. Aqui no Brasil, talvez o último grande nome seja realmente Guimarães Rosa. Na década de 70 não me ocorre ninguém. Rubem Fonseca tem um grau de inovação, mas não sei se é um grande escritor. Não existe um escritor que tenha uma obra nacional, fora dos guetos. Com um nome que seja referência para as pessoas, como Drummond, Bandeira. O último grande poeta nacional brasileiro é Ferreira Gullar. Manoel de Barros poderia ser, mas sua obra é muito setorizada.

Ao que se deve, na sua opinião, essa suposta decadência?

A história é cíclica. Há uma ressaca. Outro motivo é que tudo aquilo, pelo que as gerações anteriores lutaram, não deu em nada. O comunismo desapareceu, as propostas sociais desapareceram, as idéias de liberdade, de não-consumismo ou de não-capitalismo, se perderam. O mercado ganhou. Então as pessoas acham que não vale a pena fazer nada, que a luta foi inútil. O projeto de transformar o mundo fracassou.

A ressaca ou o sentido cíclico das coisas, para usar imagens que você mesmo utilizou, nunca são definitivos. Existe um forte movimento social, humanitário e de defesa dos direitos humanos, hoje, no mundo.

Sim, eu acho que dizer “fracassou” é muito forte, mas o fato é que o mundo está regido pelas mesmas regras. É claro que houve uma mudança sexual, algumas mudanças de costumes, mas como disse Belchior, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. Hoje, todo mundo defende seus interesses pessoais e os dos seus grupos. É difícil alguém que defenda uma causa. Talvez a única exceção seja a ecologia. Hoje, já não há o intelectual combativo, que represente a consciência da comunidade. O último talvez tenha sido Sartre. No Brasil, todos falam apenas em seu nome ou de seu grupo.

O geógrafo Milton Santos fazia. Por falar nisso, ele dizia que a única possibilidade de mudança ocorre hoje entre as classes pobres.

Acho uma idéia interessante, mesmo porque é quem tem interesse em transformar alguma coisa. O intelectual que anda pelo mundo discutindo Kafka, filologia, participando de coquetéis, não quer mudar nada. Muda a quem o mundo incomoda, quem está em situação de desvantagem. O fato é que as pessoas hoje estão pouco receptivas à utopia. Há produção de questionamento quando as pessoas estão disponíveis, quando há “mercado”. Quando não há, as pessoas fazem besteirol. Como as pessoas saem de casa para ver besteirol. Eu jamais sairia de casa para ver besteirol. Seria uma…

Besteira! (Risos) A justificativa será então criar mercado para os artistas.

Isso é bom para os atores, para o dono do teatro. Mas que importância tem para a sociedade, para a reflexão crítica?

Mas vamos falar mais um pouco do seu livro anterior. Pra começar, quero perguntar se, realmente, todas as coisas são iguais? E por quê?

O nome original do livro era Conhecimento Inútil, mas depois achei que ninguém iria ler um livro com esse nome. Eu acho que conhecimento é um vício. É uma necessidade humana, mas não conduz a nada. Não traz felicidade, mas o homem é fadado a conhecer. “O conhecimento nunca trouxe felicidade a ninguém, apenas sofisticou o sofrimento”. É um ciclo vicioso, um beco sem saída. Traz falsas expectativas, falsas esperanças. Então, não é necessário conhecer porque todas as coisas são iguais. Ou seja: não é possível o conhecimento.

Mas, se todas as coisas são iguais, que mal há em assistir ao besteirol?

Eu não vou ver o besteirol porque seria perda de tempo, algo como uma bofetada em minha inteligência. Embora inútil, amo o conhecimento. È o leitmotiv de minha vida. Ver Shakespeare que pelo menos traz conhecimento, prazer intelectual, estético. Quanto mais refinada é a consciência, mais aguda é a percepção da dor.

Você publicou seu primeiro livro, Vagas Obscenidades, em 1982, pela Coleção dos Novos da Fundação Cultural da Bahia. Por que levou tanto tempo para lançar outro livro?

Por falta de oportunidade. Publiquei poemas na Iararana, na revista Cult, artigos no caderno Cultural. Estou realizando traduções. E escrevendo livros que acho que só serão publicados e valorizados (se forem!) após minha morte. Escrever é lançar uma mensagem numa garrafa no oceano do tempo. Algum leitor do futuro poderá recolhê-la

Você ainda exerce a medicina?

Não. Eu abandonei a medicina, que é a profissão de formação mais penosa e de maior prestígio social para escrever.

Mas você acha incompatível a profissão de médico com a de escritor? Tchekov e Guimarães Rosa eram médicos…

Para mim é. Eu li A Montanha Mágica entre um paciente e outro. E aquilo me cansava, me provocava mal-estar moral. A única solução foi deixar a medicina, pois deixar A Montanha Mágica me deixaria infeliz. Tchekov era um médico rural, era diferente. E Guimarães Rosa foi médico até uma parte da vida, depois foi diplomata. Exercer a medicina hoje numa grande cidade significa ter dois ou três empregos e nenhum tempo para si. Minha única obrigação é ler.

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