Subúrbios da Memória

Jornal A Tarde – 22/05/04

Depois de ter completado 30 anos de poesia, fato comemorado devidamente com a edição do livro Delírio do ver (Bahia: Prosa e Poesia, Fundação Cultural e Imago), que reúne uma mostra da sua produção no período, Maria da Conceição Paranhos continua sendo uma das escritoras mais talentosas e atuantes da sua geração – não a de 70, da qual diz estar mais próxima em idade, mas da combativa geração de 60, pela qual diz ter sido seqüestrada.

Autora de uma obra que abrange poesia, ficção e ensaio (grande parte dela ainda inédita), Conceição cativa o leitor por um texto marcado tanto pela erudição – com várias referências à mitologia, à história e a ciência –, como pela singeleza, um casamento feliz apontado por Celina Scheinowitz.

Um exemplo da primeira qualidade é a longa Ode a Anadiômena; da segunda o delicado e musical poema “As três Marias”, dedicado a suas filhas. Minhas meninas passeiam na luz./ São tão pequeninas, minhas meninas./ Vejo-as tão leves, escuto seu canto,/ enquanto as horas cessam seu andar. Culta, sensível, fina (às vezes ferina), Conceição é sempre uma autora instigante, não apenas para se ler, mas para conversar. Como o leitor pode constatar na entrevista a seguir.

Carlos Ribeiro – Delírio do Ver reúne uma mostra de 30 anos da sua poesia. O que existe de comum em livros publicados em momentos tão diversos da sua vida, a exemplo de Chão circular, As Esporas do Tempo e Minha Terra e Outros Poemas?
Maria da Conceição Paranhos – Sim, o Delírio faz uma coleta de alguma produção de minha lavra no decorrer de 30 ou mais anos de poesia. Creio que o que há em comum entre este e os outros livros é a devoção à poesia – o que, para mim, em um nível, corresponde à minha devoção à vida ela mesma, o ser humano como sua expressão maior. Num segundo nível, há a minha devoção à linguagem, à expressão poética (que não se confunde com “comunicação”, já que a poesia não é objeto de uso), a busca da melhor forma para veicular os conteúdos apreendidos pela percepção e sensações do poeta. Em todos os meus textos, em poesia ou prosa, costumo dizer que as coisas e as pessoas “me atravessam”. Parada ou em movimento, de repente algo ou alguém está atravessando meu corpo – como se vê em alguns filmes que tratam de questões de espiritismo ou ficção científica. A leitura também desperta em mim essa sensação insólita. Outras vezes, uma palavra ou um verso se escande em meus ouvidos, e a sensação é a mesma. Às vezes, esses momentos chegam a ser de dor, física mesmo, perco a respiração. Mas são frações de segundo ou de um tipo de tempo imensurável. Também pode acontecer o inverso: vejo através de objetos e pessoas. É meio assustador. Depois vem o poema ou o conto ou o que vier. Sempre foi assim comigo. Cada poema meu resulta de uma forte experiência vivida – seja mesmo pela rememoração. Isto sempre foi assim e me fazia sentir diferente, deslocada em meu círculo de amizades. Não havia a quem transmitir tais experiências. Então eu escrevia, e continuo escrevendo, muito. Daí o tal “delírio”.

CR – No poema “Fábula”, o “eu lírico” define-se como um lobo – um lobo que excedeu o mundo e o perdeu; um lobo tocado pela solidão, pelo repúdio (não diz do quê) e por uma ânsia de águas virgens. Esta é também uma boa definição da escritora e da mulher Conceição Paranhos – um lobo em pele de cordeiro ou, ao contrário, um cordeiro em pele de lobo?
MCP – Não há pele. Maria da Conceição Paranhos é cordeiro e é lobo, como todos nós, humanos. E somos muitos outros animais. Veja os bestiários, que desde sempre atraíram a atenção dos escritores. Recentemente me referi a este aspecto do ser humano – ao comentar o livro Estranhuras, de Fernando da Rocha Peres. Quanto a meu “lobo”, ele define a voracidade pela vida ela mesma, a gula de fruir a maravilha que é estar viva entre meus semelhantes, irmãos. A solidão, o repúdio são as conseqüências diretas da celebração da vida sem disfarces, a vida como Nietzsche a entendeu – em sua força atordoante, que ultrapassa essa realidade brutal para a qual somos empurrados pelas armas mortíferas do sistema capitalista. E o “repúdio” não é “do quê”, é “de quem”: de quem compactua com a farsa de um existir depauperado dos mais altos valores do ser-se humano – inclusive os valores do “cordeiro”, valores de uma paz e de uma harmonia que emanam da alegria amorosa de estar vivo e deleitar-se com a doce graminha do cotidiano vivido com inteireza e beleza. Porque a verdade, meu amigo, esta pertence a Deus, já que só temos rápidos flashes dela em nosso caminhar por essas bandas terrenas. Um dos meios de divisar a face dessa verdade é a beleza.

CR – Em “Insônia”, um dos seus poemas de que mais gosto, você fala das “[…] sobras de um dia já perdido”, e faz um apelo ao “subúrbio encantado da memória” para que lhe traga de volta um amor. Seria inconveniente perguntar sobre que perdas marcaram e impulsionam sua sensibilidade de poeta?
MCP – Perdas… Tudo é viver. O que fica no “subúrbio encantado da memória”, isto sim, é um tesouro para sempre. Esse poema, “Insônia”, foi feito quando eu era bem jovem. Já sentia, desde então, a realidade cruel da perda. Perda do quê? Talvez do próprio instante que, inelutavelmente, passa. Se há um impulso revertido em favor de minha poesia será sempre um movimento vital, contra as forças de Tânatos. Se o que sobra é entendido como o que excede, não há perdas. O excesso de dor também é lucro nesse sentido.

CR – Que balanço faz da sua geração literária?
MCP – Pertenço a uma geração de extraordinário poder combativo, crítico e criador. É uma geração de produção esfuziante. Embora mais próxima, em idade, à década de 70, comecei a publicar muito cedo, e a geração 60 me seqüestrou. Aliás, seqüestro consentido, pois meus valores se identificam com os dessa década. Trata-se de uma época de luta e de resistências política e intelectual sem precedentes no século XX. As perdas de maior vulto foram realmente as mortes e as torturas inomináveis, vergonhosas para uma nação. Nossos sonhos pareceram acabar. John Lennon chegou a dizê-lo. Mas a luta estudantil, o movimento operário, toda a experiência vivida por nossa geração criou os fundamentos para a retomada da democracia e das liberdades no Brasil.

CR – A Academia de Letras é um bom lugar para um escritor – bom no sentido de ser um lugar de criatividade, mobilização, intercâmbio, motivação e incentivo cultural? Qual a sua opinião sobre essa instituição, principalmente na Bahia?
MCP – As Academias de Letras deveriam ser um espaço aprazível e profícuo para o escritor, sem dúvida. Mas, infelizmente, acabam por ser arredias e, mesmo, hostis aos escritores – dadas as concessões de ordem política que se vão fazendo em suas histórias, bem como a insistência em preservar alguns rituais anacrônicos – embora eu ache os rituais indispensáveis às instituições de modo geral. A nossa academia não é exceção: o que parece é que lá não existem (em oposição ao seu passado) mais vagas disponíveis para criadores – em prosa ou em poesia – a despeito de acadêmicos de valor que ali se encontram. No entanto, não se configura como uma academia “de letras” em sentido restrito. Nossa academia pode até ter algumas características que você evoca como desejáveis, mas não é, certamente, um lugar de criatividade. Além da tolíssima vaidade de ser acadêmico. O fato é que reúne pessoas de várias áreas do conhecimento e ação: ciências, jornalismo, política, administração, judiciário, clero, promotores de cultura, etc., além de alguns poetas e escritores em ficção e poesia, que são minoria, no entanto. Não sei muito bem onde andam as “letras” por ali.

CR – Apesar de ter publicado 11 livros, entre poesia, ficção e ensaio, e do reconhecimento da crítica, você tem ainda um grande número de inéditos. Fale desses trabalhos e do que podemos esperar da poeta, ficcionista e ensaísta Conceição Paranhos.
MCP – É verdade, tenho muitos inéditos. Tudo indica que em 2004 alguns irão a público. Vou me esforçar para isto – o que, para mim, não é fácil, pois não freqüento vida literária e não disponho de meios para chegar a editoras famosas – o que todo escritor almeja. O que tenho pronto: Poemas Místicos, Coita de Amor, Estudos de Geometria Espacial, Poemas da Rosa, Poemas da Puberdade – todos de poesia. Embora eu me considere predominantemente poeta, já publiquei livro de contos e há um outro livro volumoso pronto, de contos também, O Frasco de Máximo Augusto. Finalmente, um livro volumoso de teoria e crítica, Os Trabalhos de Hércules na Oficina de Orfeu, sobre os diferentes modos de aproximação do poeta à realidade efetiva ou à experiência empírica. Tenho, além disso, dois romances inconclusos – e talvez assim permaneçam: Os Escombros da Cidade e Meu Pé de Pau-Brasil. Digo que talvez assim permaneçam, porque perdi a motivação para continuá-los. São narrativas longas, que demandam muita palavra. E cada vez mais desconfio da palavra nesta sociedade em que nos foi dado viver testemunhando a impossibilidade de sobrevivência de vasta margem da população. Verdade é que temos de falar pelos que têm sua voz emudecida. Mas isto se resolve com poucas palavras, mesmo para evitar leis que não se cumprem e decretos que nada resolvem: é de ação que precisamos.

Rosa Branca

Maria da Conceição Paranhos

Fugiu a pomba do país das nuvens
sonho ou miragem da estadia humana – é aquela rosa lívida e mimosa,
Branca de Neve, parecendo morta.

Em barca de cristal se vai, contida,
denso aroma e fulgor ali se movem
para o momento incerto da descida,
ao derramar-se o aroma da corola.

E mais se encerra a rosa em seu retiro
frágil, tão frágil, parecendo morta –
e a sua essência aérea e luminosa

queda divina em oração, transida,
grácil, tão grácil, parecendo viva,
e o vento empurra o carrilhão
das horas.


Rosa Violada

A minha dor não mora em minha casa,
mas num jardim de séculos correndo
em seu tropel mordaz. O tempo abrasa,
e o engenho dessa hora vai sofrendo.

Nas avenidas largas da cidade
os carros atravessam a linha torta
– cavaleiros em motos, sem idade
vieram me abordar à minha porta.
Um levou-me o relógio, outro o anel,

o meu cordão de ouro se partiu,
e o quarto bandoleiro me sorriu,
ao ter o meu olhar dentro do seu.

Sacou da cinta uma arma enrubescida,
beijou-a e deu-me a rosa
e a minha vida.

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