Síntese e Irreverência

Apresentação do livro Haicontos, de Uaçaí de Magalhães Lopes

Carlos Ribeiro

“Deixa mulher e filhos. Foi ver cigarros e nunca mais voltou”.
Este parágrafo poderia ser o início de uma história policial ou de mistério. Não é. Aqui, no livro de Uaçaí de Magalhães Lopes, ele é a própria história: completa na elipse radical do que não é contado. A história, assim, inclui o que é ocultado, o que se insinua na face oculta dessa forma literária que o autor, muito sugestivamente, designa como um haiconto.

O que seriam esses haicontos? Uma ousadia, talvez, quem sabe uma impossibilidade: a de sintetizar em uma, duas ou três linhas, as características dos dois gêneros literários que, na poesia e na prosa, primam pela máxima concisão. No hai-kai (ou haicai ou hai ku), forma poética difundida no Japão, no século XVI, por nomes como Issa, Buson e Bashô, a tentativa de representar num poema rigorosamente metrificado, com 17 sílabas (5-7-5) a essência da natureza, captada como um instantâneo, um flash, não mediado pela razão, mas pela apreensão direta dos fenômenos do mundo, tal como buscado pelo zen budismo. No conto, cujos principais atributos são a densidade e a intensidade, aliadas à noção de limite, presentes na obra de mestres como Tchekov, Kafka, Machado, Bábel e Hemingway, a possibilidade de registrar fragmentos da vida, na forma de narrativas com um único núcleo dramático, marcado pela tensão e por uma alta carga de significado, atributo da grande literatura, conforme nos lembra Ezra Pound.

A proposta de Uaçaí soaria pretensiosa não fosse a irreverência, aliás, bem baiana, de seus haicontos. Com picardia, como em “Adultério I”: “– Então ele veio com aquela conversa… Você sabe né?… Aí eu dei”; com ironia, como em “O bom baiano”: “Via das dúvidas, comunista baiano não pisa em ebó”; como preceito, como em “Contraste”: “É na frialdade da noite que as mangas amadurecem”; com o toque do macabro, como em “O corpo”: “Lá estava o corpo, meio deteriorado, um luxo, no lixo”; ou, ainda, como um jogo de palavras, como em “Sertaníada II”: “Lampião era um demônio, Corisco uma peste e Maria, bonita”, Uaçaí constrói seu livro como um brinquedo: um jogo de armar sentidos, de brincar com as palavras e sua sonoridade. Ora como máxima, traindo a idéia de uma narrativa; ora como diálogo (“Espirra com o cheiro do armário e morre. / — Alergia? / — Não, marido.”), o que move Uaçaí é o espírito lúdico do texto. E mais não pretendemos dizer, pois que uma apresentação longa e fastidiosa soaria, decerto, contraditória com tudo que, neste livro, é síntese e concisão.

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