Sinal de Alerta

Entrevista – ANTONIO BRASILEIRO

Jornal A Tarde – 22/03/03
Carlos Ribeiro 

sinaldealertaO ensaio Da Inutilidade da Poesia (Salvador: Edufba, 169 págs.), do poeta, ficcionista, professor de literatura e artista plástico Antonio Brasileiro, lançado no final do ano passado, é uma instigante provocação a quem faz, estuda e pensa a poesia, mas também uma advertência. Ao voltar-se para questões complexas, como a linguagem e a inspiração poéticas, a relação entre arte e experiência, o lirismo e o social e a poesia
como manifestação do inconsciente, Brasileiro chega a conclusões preocupantes, como a de que a inutilidade à qual se refere no livro é um eloqüente sinal de que a nossa civilização está doente. “Se uma sociedade faz ouvidos mochos à poesia, esta sociedade não deve ir muito longe”, diz ele.

Mas, lembra Brasileiro, a crise é momentânea, mesmo porque “A derrocada da poesia seria a derrocada da civilização”. Ao abordar esse tema, o que ele faz, conscientemente, é chamar a atenção para o caráter “quase sagrado” da poesia, e para a necessidade de uma tomada de posição do poeta, que exerce um papel cada dia menos importante na sociedade. Hoje, nenhum poeta oferece perigo, diz ele. “Pode-se deixá-los inteiramente à vontade, são inofensivos. Inúteis, na melhor das hipóteses”.

No livro, que é fruto da tese de doutorado em Letras, que defendeu em 1999, na Universidade Federal de Minas Gerais, Brasileiro transita por uma constelação luminosa de autores, que vão de Platão aos integrantes da famosa Escola de Frankfurt (Walter Benjamim e Theodor Adorno), passando por nomes como os de Immanuel Kant, Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Ernst Cassirer e, principalmente, Paul Valéry e Martin Heidegger. A inexistência de referências a autores mais próximos a nós, como Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Alfredo Bosi, é, segundo ele, resultado de um viés próprio na abordagem do tema. “O que se escreveu sobre isto no Brasil acaba por ser bem pouco”, afirma Brasileiro. “Diria mesmo que, assim como o fiz, nada se publicou”.

Carlos Ribeiro – O que atraiu especialmente a sua atenção para esse tema, ao ponto de dedicar-lhe uma tese de doutorado? Escrever sobre a inutilidade da poesia, numa sociedade utilitarista como a nossa, não é também uma tarefa inútil?

Antonio Brasileiro – O que faço, no fundo, é falar mais alto. Não creio, certamente, numa força maior da poesia nos tempos atuais, mas daí a achá-la inútil de uma vez por todas, vai alguma distância. Aí teríamos que rever o sentido da palavra “utilidade” e toda essa coisa de estarmos no mundo, a fazer o que, etc etc. Quando falo da “inutilidade” na poesia, estou me referindo a esse sentido corriqueiro empregado pela sociedade. Mas o título do meu livro é provocante, o que me parece um bom sinal: algo ainda de respeitável, quase sagrado, há na poesia. Mas um livro sobre essa inutilidade não deveria ser igualmente tão inútil. Trata-se de um ensaio, perfeitamente acessível ao leitor inteligente. Uma carta, diria melhor, endereçada aos poetas e aos leitores de poesia para sugerir-lhes uma tomada de posição. E, acabada a leitura, o leitor só se sente agradecido, pois sua confiança na poesia é confirmada.

CR – Você diz que, hoje, nenhum poeta oferece perigo, e que ele, na melhor das hipóteses, é um inútil. Isto é um sinal de decadência?

AB – Sim, nenhum poeta oferece perigo. Pelo menos quando suas armas são só as palavras. Há que ver que os processos de comunicação ficaram autônomos, doentemente autônomos, pois já não precisam veicular nada, a rigor, mas tão só se mostrar. Algo como “o sucesso pelo sucesso” se tornou a doença do nosso tempo – quer dizer: algo (ou uma pessoa, dá no mesmo) faz sucesso justamente porque faz sucesso. Como se vê, tudo bem baratinho; dispensa-se a qualidade e tudo o mais. Ora, como se pensar que os valores reais da arte venham a ter voz numa situação dessa? A coisa é ainda mais grave quando se pensa que a própria noção de valor foi atingida. Nos cursos de Letras, por exemplo – e isso deve ocorrer não apenas no Brasil -, professores que não entendem efetivamente o fenômeno poético – diria, mesmo, o fenômeno artístico – ou “ensinam” assim mesmo, ou esposam aquelas teorias que dizem não haver nada de especial no “discurso” da arte. Um deles quis me convencer que não havia diferença entre um poema e uma bula de remédio.

CR – Você dá ênfase à filosofia para discutir questões literárias. Há um capítulo inteiro dedicado a Martin Heidegger, além de referências constantes a outros filósofos, como Kant, Horkheimer, Adorno, Wittgenstein, e, até mesmo a orientais, como D. T. Suzuki, Lao Tse e Chuang Tzu. Passa ao largo, entretanto, de teóricos/poetas mais próximos a nós, como Mário de Andrade, que nos legou muitos estudos sobre a poesia. Por que essa opção?

AB – Preferi abordar o tema da criação poética por um viés todo meu. Os filósofos ou poetas/teóricos que citei são estrangeiros, é verdade. Antes, contudo, são autores já meus conhecidos há dezenas de anos. Mas o que se escreveu sobre isto no Brasil acaba por ser bem pouco. Diria mesmo que, assim como o fiz, nada se publicou. Assim como você citou Mário de Andrade, outros amigos me lembram de Manuel Bandeira ou Alfredo Bosi, que de uma maneira ou de outra, em suas cartas e escritos menores, abordaram o assunto. Mas, repito, jamais com a intensidade como o fiz.

CR – Você diz que a poesia não tem outro fim senão ela mesma. Mas, não acha que, em certas circunstâncias, um poema ainda pode representar perigo para o status quo?

AB – Platão achava que os poetas ofereceriam perigo, pois queria construir um estado perfeito – que, no seu modo de ver, era mais para racional. Nesse caso, a “irracionalidade” da poesia não era algo aconselhável. De todo modo, Platão se enganava. Mas hoje não há uma sociedade ideal sendo erigida. Pelo contrário, nunca estivemos tão estúpidos. A má fé é o que impera. À utilidade atrelam-se perfeitamente os interesses. E a arte “desinteressada”, no melhor sentido desse desinteresse, não é um trunfo do nosso tempo. Para ser breve, direi que a própria “verdade”, em qualquer dos seus sentidos, está, para certas pessoas, ultrapassada. Ou melhor: espezinhada. Mas isto é assunto comprido.

CR – O que podemos esperar da poesia num mundo marcado pelo predomínio do mercado, da globalização e dos fundamentalismos nas suas diversas formas?

AB – A crise da poesia é momentânea. O mundo não pode viver sem poesia. Não existiria. Quando falo da poesia, entendam-me: arte. Mas a arte maior, não essa cada vez mais vendável e de fácil apelo entre as pessoas massificáveis. É a arte que diz o que é o mundo. Inclusive essas pessoas todas que transitam por aí, e não só eu e você, só existem – como seres humanos com uma história de dor e de alegria – porque a arte os fez existir. A derrocada da poesia seria a derrocada da civilização. Isso, é claro, não é algo tão difícil de acontecer. Por sinal, começamos o século XXI com o pé direito rumo ao destrambelhamento. Meu livro é um alerta. Que chegue a muitas mãos, é o meu desejo. 

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