Radiografia do Mito

LITERATURA – Um dos mais importantes romances de William Somerset Maugham retrata imposturas do meio literário inglês, nos anos 30. 
Jornal A Tarde – 08/01/02

Carlos Ribeiro 

William Somerset Maugham (1874-1965) é um desses autores cuja reputação situa-se na instável fronteira em que se encontra o reconhecimento da crítica com o geralmente esnobado sucesso popular. Foi um dos mais famosos escritores ingleses do século XX, e, com estilo refinado, marcado na maioria das vezes por uma ironia mordaz, deixou obra extensa, com 20 romances, 12 livros de contos, 23 peças teatrais, três narrativas de viagem e 10 volumes de ensaios e memória.

Desse conjunto sobrassaem alguns títulos memoráveis. O mais importante deles – considerado, geralmente, como sua obra-prima – é o romance semi-autobiográfico Servidão Humana, de 1915, seguido, dentre outros, por Um Gosto e Seis Vinténs (1919), baseado na vida do pintor Paul Gauguin, e O Fio da Navalha (1944), adaptado para o cinema, em 1946, com Tyrone Power, em 1984, com Bill Murray. Dentre os contos, Histórias dos Mares do Sul, de 1921, marca presença sobretudo pela atmosfera e pela maestria na forma como contrapõe a mentalidade rígida e preconceituosa dos ingleses com a dos nativos. É deste volume o famoso conto Chuva, também adaptado para o cinema.

Mas há um outro romance, ainda pouco conhecido do público brasileiro, que é também um dos mais importantes títulos de Maugham: O Destino de um Homem (Cakes and Ale or The Skeleton in the Cupboard, 272 páginas, R$ 24), que a Editora Globo coloca novamente no mercado, numa segunda edição revista, com tradução de Moacir Werneck de Castro e prefácio de Sérgio Augusto de Andrade.

Trata-se de um livro sobre escritores – mais especificamente sobre o estreito círculo dos escritores ingleses no período posterior à Primeira Guerra Mundial -, temática que chegou a um ponto culminante nas novelas reunidas no volume A Morte do Leão, de Henry James (leitura obrigatória), e que, aqui, no romance de Maugham, realiza-se plenamente, embora sem o status de obra-prima.

O romance consiste, em última instância, numa radiografia dos interesses que movem os homens para a fama e dos esforços que são feitos para consolidá-la. Ou ainda: dos mecanismos envolvidos na construção e na perpetuação do mito. Muito acertadamente, Sérgio Augusto de Andrade assinala, no prefácio, que esse é “um romance sobre as formas da impostura”. Impostura do próprio ofício de escritor.

A história, narrada na primeira pessoa pelo romancista William Ashenden – que tem características bastante similares às do próprio autor -, retrata a trajetória de William Driffield (geralmente associado a Thomas Hardy, embora Maugham costumasse negá-lo) -, célebre romancista que, após a morte, torna-se objeto de uma biografia, escrita por outro escritor, Alroy Kear. Com sua habitual ironia, Maugham, pouco a pouco, expõe questões perturbadoras da vida do biografado, sobretudo as que são relacionadas à primeira mulher dele, Rosie Driffield, uma garçonete que o traía com todos os seus amigos, e que, aos poucos, torna-se o ponto central do romance: o “esqueleto numa xícara”, à qual se refere o título original.

Na tentativa de construir uma biografia laudatória de Driffield, Kear depara-se com fatos perturbadores, que procura contornar, sendo lembrado por Ashenden que “é muito difícil ser ao mesmo tempo gentleman e escritor”. Ou, em outras palavras, que “não se pode fazer a omelete sem quebrar os ovos…”

O Destino de um Homem é, como outras obras de Maugham, uma tentativa de se encontrar o que existe de verdadeiramente humano por trás das convenções, dos interesses e das imposturas com as quais se maquia a realidade. Segundo Anthonny Burgess, “a obra mais engenhosa e sagaz de Somerset Maugham, além de um dos melhores romances de seu tempo”.

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