Radiografia do Medo

Meticulosa biografia de Anne Frank amplia visão sobre a mais famosa vítima do nazismo e revela informações mantidas em segredo por mais de 50 anos.
Jornal A Tarde – 19/09/00
Carlos Ribeiro

O famoso diário de Annelies Marie Frank (1929-1945) suscita uma questão intrigante: como um evento, em escala macro, da história – uma guerra mundial que deixou um rastro de cerca de 55 milhões de mortos – tem, como documento mais eloqüente das atrocidades praticadas, um simples diário, escrito por uma garota de apenas 15 anos, num momento, inclusive, em que ela não tinha muito mais que uma pálida noção da tragédia que se desenvolvia ao redor? A mais tocante denúncia da catástrofe política de extraordinárias proporções, provocada pelo delírio nazi-fascista, não foi feita por um jornalista, escritor ou intelectual sobrevivente dos campos de concentração (a exemplo do testemunho de Soljenitsin em relação aos campos de trabalho da Sibéria, na URSS), mas por uma temperamental garota judia-alemã, que escreveu um simples e lírico diário durante os 25 meses que viveu, com a família e mais quatro pessoas, escondida no quarto dos fundos de um prédio de escritórios, em Amsterdã.

Anne Frank continua sendo, 53 anos após a publicação do diário, a mais famosa vítima do nazismo. Nascida em Frankfurt, fugiu com a família para Amsterdã, quando tinha apenas quatro anos de idade. Em 1942, os Frank e a família Van Pels entraram na clandestinidade, na Prinsengracht 263. Em agosto de 1944 são traídos e presos, e, finalmente, em março de 1944, aos 15 anos de idade, ela morre, de frio, fome e maus-tratos, junto com a irmã Margot, em Bergen-Belsen, apenas um mês antes da libertação do campo pelas tropas britânicas.

É essa, em linhas gerais, a história que a jornalista austríaca Melissa Müller conta em Anne Frank – Uma Biografia, um alentado volume de 395 páginas, lançado recentemente pela Record. O livro é um relato minucioso da tragédia dos Frank, desde o nascimento até a morte de Anne em Belsen. Como toda boa biografia, é, no entanto, muito mais do que um registro da história pessoal da personagem retratada. As páginas mais consistentes são as que nos fazem entender melhor um determinado momento histórico: no caso, o avanço sorrateiro do pesadelo nazista sobre um povo surpreendentemente apático, alimentado pela esperança de que as coisas não poderiam, jamais, chegar ao ponto em que efetivamente chegaram.

A biografia mostra, ainda, um lado desconhecido da menina Anne, revelado em cinco páginas inéditas do diário que foram censuradas pelo pai, Otto Frank, e que permaneceram, por mais de 50 anos, desconhecidas do grande público. Páginas nas quais transparecem os conflitos de Anne com a mãe e observações argutas sobre o relacionamento dos pais, além de referências à sexualidade que começava a desabrochar.

A autora de Anne Frank – Uma Biografia se propõe a ampliar a percepção fragmentada de Anne, por meio de um olhar geral de fora, o que faz com admirável eficiência. Claro que não conseguirá, jamais, esclarecer “os pressupostos que capacitavam os homens a fazer desumanidades tão inconcebíveis”. Mas, pelo menos, amplia e aprofunda as perguntas. O que já é alguma coisa.

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