Poesia (Maleita) não se Enjeita

A irreverência ácida de Fernando Peres tem uma serventia: a de corroer algumas máscaras construídas historicamente com a matéria-prima da hipocrisia, das convenções, das conveniências, dos interesses e privilégios de uma sociedade cuja face não é, geralmente, tão asséptica e risonha como demonstra. Sem medo de andar na contramão, o ex-integrante da famosa Geração Mapa continua funcionando a todo vapor – ou, para usar uma linguagem mais atual, On Line, em Tempo Real, no seu compromisso intelectual com esta que é uma de suas maiores paixões: a Bahia artística, a Bahia histórica. Prova disso é a sua intensa produção: somente no ano passado, lançou o misto de ensaio/ficção Crônica do Encobrimento ou Relação do Almotacel Expedito (Edições Égua Dor), organizou a coletânea Gregório de Mattos: O Poeta Renasce a Cada Ano (Copene/Centros de Estudos Baianos e Fundação casa de Jorge Amado) e, pela Coleção Nordestina, da Edufba, em parceria com Silvia La Regina, Um Códice Setecentista Inédito de Gregório de Mattos. Agora, mal esfriam os fogos que anunciaram o despontar do novo milênio, as prateleiras das livrarias exibem sua Febre Terçã, volume de poemas, lançado pela Corrupio, anunciando, na seqüência, mais dois livros: Poemas de um Cristão e Bula Pro Nobis. Na entrevista a seguir, feita por escrito, Peres fala do seu novo livro e de sua visão sobre a poesia que é feita, hoje, no Brasil. “Estou ficando velho”, admite ele, que nasceu em 1936, mas lembrando que continua ardendo, em seu espírito, mais do que nunca, a “febre necessária”, a “maleita de quem escreve poesia ou literatura”.

Carlos Ribeiro – O que caracteriza a “febre terçã” que acomete o poeta Fernando da Rocha Peres, em relação à que matou o poeta Gregório de Mattos, em 1695, no Recife? E o que representa o livro Febre Terçã, no conjunto da sua obra?
Fernando da Rocha Peres – A poesia é a constatação de um “sintoma” permanente na vida de um poeta. Observar as “coisas” e os homens com a “febre” necessária, o comprometimento, esta é a “maleita” de quem escreve poesia ou literatura. A “terçã” que matou Gregório de Mattos, aparece em mim “somatizada”: só sei que ela é, no meu caso, uma metáfora maior, e não uma “febre” que pode ser mensurada. Ela acomete e pronto! Não há “poetrometro” que registre. Cada um com sua febre.

CR – Você termina cada uma das estrofes do poema “Caixa no. 4”, com uma interjeição: “hoje estou péssimo!” Isto é apenas um recurso poético ou uma espécie de náusea finissecular? O poeta não teve motivos para soltar fogos e comemorar a entrada do novo milênio?
FRP – Não é recurso, nem naúsea. É uma condição do ser humano: um dia bem, o outro “péssimo”. O importante é dizer sobre os dias aziagos, aqueles nos quais a gente acorda “deprimido”, desacreditando em nossa vidinha idiota e rotineira. Construir uma vida de compromissos com o mundo, com a família, com a escola, com o hospital, com a rua etc, é a saída para deixar de estar “péssimo”! Creio que não há razões para ser fogueteiro. Todos, em toneladas, já foram detonados na passagem do milênio, inclusive em Salvador. Depois da luzeira, volta a escuridão, e dentro dela há de encontrar a lamparina, sem individualismos.

CR – O que você pode dizer sobre o seu livro de poemas Bula Pro Nobis, anunciado para breve? Aliás, a palavra “bula” parece, como muitas outras, em seus livros, remeter a uma notória fixação por medicamentos. Por que isto?
FRP – O livro Bula Pro Nobis está em processo. São poemas antigos e novos. O termo “Bula” pode ter inúmeras significações ou lições, aproximações, desde o verbo bulir. Pode ser bulimia, Bula Papal, bula de remédio, bula timpânica, bula qualificatória, de indulgências, e assim em diante. Tenho uma ligação muito forte com remédios, do verbo “remediar”: algo que existe para corrigir, melhorar não só a saúde do homem, mas também a sociedade. Talvez, neste duplo sentido, eu seja diplomado em “hipocondria”, pela Universidade da observação. Não tenho o “remédio” para a cura mas procuro. Um outro livro vai sair antes e leva o título de Poemas de um Cristão!

CR – Qual a sua opinião sobre a literatura, e, mais especificamente, sobre a poesia que é feita, no Brasil e na Bahia? Como você vê por exemplo, a intensa movimentação cultural em relação ao tempo das Jogralescas, que você vivenciou? Pode-se dizer que estamos menos provincianos, hoje?
FRP – A literatura é uma ferramenta, um bisturi talvez, para realizar o belo e o feio. As palavras são os emplastros, as pomadas. No Brasil e na Bahia, temos uma literatura de prateleira alta e baixa. E só discernir, na farmácia. O rebuliço cultural é outra coisa. No país há uma política de “eventos”, de coisas efêmeras, e a Bahia é o lugar onde a efeméride, a “efemeridade”, está mais presente. As Jogralescas são o passado, com um saldo positivo, até hoje. Se estamos mais ou menos “caipiras”, de lá para cá, é só olhar e deduzir. Província somos, pois o sul nos ignora, os literatos. A não ser que você insista em penetrar na corte. Nossa mentalidade não é mais provinciana, mas é mesquinha.

CR – Quais são os poetas e escritores baianos da atualidade que dignificam o ofício das Letras na língua de Vieira, Gregório e Sosígenes? Aproveitando a oportunidade, gostaríamos de saber sua opinião sobre quem foi ou é o último grande poeta baiano do século XX.
FRP – Nesta direção prefiro lembrar os que “dignificaram”, desde Gregório de Mattos (1636 – 1695), passando pelo século XIX, com Castro Alves, e o moderno Godofredo Filho. Prefiro lembrar os mortos, para não ter que elogiar os bons e vivos, os que estão no meu aprisco, criando assim um rol de ressentimentos e ressentidos.

CR – Você geralmente publica os seus livros – e parece se orgulhar disto – por editoras baianas, a exemplo desse Febre Terçã, que sai pela Currupio. Diz, inclusive, “que de nada adianta publicar um livro no sul se o nordeste existe com seus poetas e sua gente, que vem construindo o Brasil desde o século XVI”. Esclareça melhor essa afirmação. Afinal de contas, não continua sendo muito mais vantajoso para o escritor publicar numa grande editora do eixo Rio – São Paulo?
FRP – Para criar o nosso espaço “municipal”, inventamos as edições Macumaíma (em homenagem ao grande brasileiro Mário de Andrade). Ela não mais existe, pois nunca pretendeu ser uma “casa editora”, do ponto de vista comercial e mercadológico. Digo que não vale a pena insistir e publicar pelas editoras do sul, no eixo Rio-São Paulo, pois de nada resulta mendigar um livro. O que importa é saber se a sua poesia é boa ou má, e isto eles não avaliam. Do século XVI ao XIX o norte e nordeste construíram o Brasil, e a nossa literatura, inclusive com o romance (Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado), no século que findou. Havia uma hegemonia do outro Brasil, o de cá, com sua economia, e seus homens de grande envergadura cultural: basta ler Sousândrade e Jorge de Lima, dois grandes poetas, de tempos diferentes e feitura outra. A editora Currupio, de Arlete, Rina e Cida (as três mulheres do “Vinho Jurubeba Leão do Norte”), cumpre um grande enlace com a cultura baiana.

CR – A que se deve o fato de a balança do prestígio pender quase sempre para o sul, e mais especificamente para os paulistas e cariocas? A culpa é deles ou dos baianos, que continuam, 500 anos depois do encobrimento, alimentando um certo complexo de colonizado?
FRP – Tudo isto não passa de uma luta de poder. O Brasil é dois. Os do sul ignoram o que fazemos, nas letras e nas artes. Exceto na música, pois sustentando o som há uma indústria de entretenimento, e a palavra de “gurus”. A culpa não é dos baianos, nem deles. A culpa é da nossa formação binária. O que chamo de “encobrimento” é o resultado de uma colonização, de um desencontro, fermento da nossa identidade. A Bahia vem reagindo, talvez, não por inteiro, a este sentimento de isolamento econômico e cultural. Não sinto-me colonizado, mas “encoberto” hoje com a globalização e a perda do sentimento de nacionalidade que vai se instalando na juventude atual.

CR – Na dupla condição de acadêmico e de estudioso da obra de Gregório, qual a sua opinião a respeito do resultado do Prêmio Nacional Gregório de Mattos, instituído pela Academia de Letras da Bahia e divulgado recentemente? Você acha que o fato de um poeta baiano ter ganho o prêmio representa bem a qualidade da poesia que é feita no nosso Estado?
FRP – O prêmio vale quanto pesa, em laurel, publicação e compensação financeira. A Academia de Letras da Bahia tem o seu lugar, e conta com o apoio da Copene, com sua política de incentivar o que é novo. Penso que o próximo concurso deveria ser com ensaios, valorizando a produção universitária, em diversos setores do conhecimento das humanidades e das letras. A comissão que julgou os livros concorrentes ao prêmio deve ter feito a escolha certa. Não conheço este livro do vencedor, o poeta Luiz Antonio Cajazeira Ramos, nem os dos outros inscritos de lá, e, por este motivo, não posso dizer da “qualidade”.

CR – Como se define o jeito irreverente do poeta Fernando Peres? Afinal de contas, não é todo dia que se vê um acadêmico colocar tiras de quadrinhos como prefácio de um livro seu, ou ilustrar dados biográficos com uma foto sua quando bebê.
FRP – Sempre fui “irreverente”, mas jamais mal educado, grosso, invejoso. Isto não quer dizer que deixo de reverenciar quem tem valor e defende as coisas da Bahia. O meu jeito de ser “crítico” vem dos tempos em que juntei-me com amigos no Colégio da Bahia, nas calendas dos anos 50 do século passado. Estou ficando velho. Se escolhi um cartunista, um chargista, para prefaciar Febre Terçã, foi pela simples razão do Angeli ser, no momento, um crítico genial da “circunstância” brasileira que vivemos. A condensação da linguagem de uma banda desenhada é direta e fascinante: vale tanto quanto os tratados de teoria da literatura ou os prefácios convencionais e laudatórios. A minha foto de bebê, na capa e no interior do livro tem a ver com a “febre” que acomete as crianças e o adulto. Uma crise de “febre” pode resultar em suores e humores, “rima e solução”, pensando em CDA. Uma crise febril nos retira os miasmas.

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