Ovelha Negra e Amiga Loura

SÔNIA COUTINHO

Em plena maturidade de seus recursos expressivos, Sonia Coutinho traz, neste Ovelha Negra e Amiga Loura, uma obra densa e despojada de quaisquer artifícios. É, talvez, o livro mais radical de uma escritora que, durante toda a vida, optou pela radicalidade como forma de romper as barreiras de um mundo provinciano, e firmar sua identidade, como mulher e escritora, para além dos padrões estabelecidos.

Os 12 contos deste livro – que, a despeito da diversidade de personagens e das histórias nele reunidas, pode ser lido também como novela, tal a unidade do fio que liga os conflitos nele expostos – não se concentram, entretanto, nessa radicalidade, e sim no duro preço pago por ela. Radicalidade de uma geração de mulheres que pode se identificar, por esse ou aquele motivo, com as diversas personagens aqui representadas.

Em todas elas estão presentes a solidão, o envelhecimento, as marcas profundas da desintegração familiar, da perda do afeto e da crença no “amor de salvação”, a resistência ao esmagamento moral, psicológico e físico, o trauma sexual infantil, enfim, as dores profundas relatadas por alguém que se sente como se tivesse saído de um campo de concentração. Mas que nos traz também um sentido de purificação pelo sofrimento e o reencontro da alegria nas pequenas coisas do cotidiano.

Ovelha Negra e Amiga Loura revela a consciência de quem, em algum momento da sua vida, descobriu que “uma peça do seu mecanismo interior estava fora do lugar”. E que realiza no ato da escrita a saga necessária para colocar essa peça no lugar, ao mesmo tempo que perquire se este lugar realmente existe.

As personagens aqui retratadas vão muito além de um ilusório e unívoco eu autoral. Se algum ponto em comum entre autor, personagens e narrador pode ser ressaltado, é a coragem inerente ao ato de trazer à luz conflitos profundos e dolorosos que representam uma identidade coletiva, reflexo de nosso tempo e lugar. E que, portanto, despido deste ou daquele aspecto circunstancial, diz respeito a todos nós.

Assim, em vez de ler este livro a partir da amargura que pareça transpirar de suas páginas, deve-se lê-lo a partir da sabedoria que lhe é intrínseca, e que transparece na frase da narradora a respeito do personagem Igor: “Sua experiência com a doença lhe ensinou o fundamental – a morrer. / E, quando se aprende a morrer, aprende-se a viver”.

Ovelha negra e amiga loura
Sonia Coutinho
Editora 7Letras – 95 p.Tel: (21) 2540-0076

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