Obras-primas de Anton Tchekov ganham nova edição

A Tarde 14/10/06
Carlos Ribeiro

Embora avesso a experimentações lingüísticas, Anton Pavlovitch Tchekov (1860-1904) foi um grande renovador do conto e da dramaturgia, em sua época, mais especificamente aquela em que, como assinala Boris Schnaiderman, “(…) já se iniciavam os acontecimentos revolucionários que haveriam de subverter toda a estrutura da existência descrita por Tchekov”. A ênfase que ele dava, no teatro, ao “subtexto”, como bem definiu Stanilavski, também está presente em seus contos, de forma que o que precisa ser lido são, muitas vezes, as entrelinhas, aquilo que não é dito.

O silêncio passava a ser um grande recurso para denunciar “a tragédia da trivialidade da vida”, “o retrato terrível e vergonhoso de suas vidas, no turvo caos da existência cotidiana da burguesia”, conforme definiu o escritor Máximo Gorki.

O realismo de Tchekov, portanto, diversamente do que ocorre com freqüência em obras da atualidade, na qual viceja um neonaturalismo muitas vezes inócuo, tem sua força na captação das subjetividades, dos sutis movimentos que ocorrem no íntimo de seus personagens.
Em outras palavras, na capacidade de perceber e registrar nossa humanidade – a ponto de, ao retratar pequenos funcionários, camponeses, crianças e profissionais liberais, dentre tantos tipos humanos que povoavam as vastidões da Rússia no final do século XIX, torná-los universais, e, portanto, tão próximos de nós neste início do terceiro milênio.

SILÊNCIOS – Em oposição ao enredo mirabolante, aos recursos fáceis para fisgar os leitores, o autor russo contrapõe o silêncio, a atmosfera, aquilo que deixa “em suspenso”, ao final de suas histórias – e que ecoa, infinitamente, em seus leitores, após a leitura. Anton Tchekov tinha um olhar profundamente amoroso em relação ao ser humano.
Era um observador “enamorado da humanidade”, como disse dele Virgínia Woolf, e não seu detrator.

Para os admiradores da obra tchekoviana, e para os que desejem conhecê-la, a boa notícia é a reedição, pela Editora 34, da coletânea O beijo e outras histórias, com tradução do russo de Boris Schnaiderman.
Nela estão presentes alguns dos trabalhos mais admiráveis do autor: o delicado conto que dá título ao livro, no qual aparece, como diz Schnaiderman, “o tema do amor”, no caso o amor idealizado de um jovem oficial da artilharia russa por uma mulher que o beija, por engano, na sala escura da mansão de um general aposentado; e o intrigante conto “Kaschtanka”, no qual são retratadas as aventuras e desventuras de uma cadela, mistura de basset e vira-lata, que se perde do dono e passa a ser criada por um amestrador de animais; a tocante história de um desencontro amoroso, em “Viérotchka”; o sombrio “Uma crise”, cuja semelhança com Memórias do subsolo, de Dostoievski, é ressaltada por alguns críticos; e duas novelas, “Uma história enfadonha”, com o subtítulo “Das memórias de um homem idoso”, e a magistral “Enfermaria nº 6” , narrativa cuja impressionante semelhança com a novela “O alienista”, de Machado de Assis, é ressaltada por Schnaiderman: “Evidentemente, Tchekov não podia conhecer o texto machadiano, que saíra dez anos antes no Brasil. Mas a preocupação de ambos com o limiar razão/desrazão e como ele é tratado pela sociedade fez com que ambos narrassem as desventuras de um psiquiatra que acaba internado no estabelecimento que dirigia.”

“Evidentemente, Tchekov não podia conhecer o texto machadiano, que saíra dez anos antes no Brasil. Mas a preocupação de ambos com o limiar razão/desrazão e como ele é tratado pela sociedade fez com que ambos narrassem as desventuras de um psiquiatra que acaba internado no estabelecimento que dirigia.”

O beijo e outras histórias
A.P. Tchekov
Editora 34 272 páginas (11)3816-6777 R$36

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