O Velho Braga passado a Limpo

Biografia revela aspectos pouco conhecidos da vida do mais importante cronista brasileiro
Carlos Ribeiro

O mais importante cronista brasileiro tem agora, finalmente, uma biografia à altura da sua importância como autor de muitas das mais belas páginas da prosa lírica em língua portuguesa. Lamenta-se apenas que o autor desse Rubem Braga: Um cigano fazendeiro do ar, lançado pela Editora Globo no final de 2007, não tenha tido a possibilidade de ver o fruto de seu trabalho. Marco Antonio de Carvalho jornalista e escritor capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, morreu em 25 de junho do ano passado, meses antes do lançamento do livro.

Diz o autor, em nota datada de dezembro de 2005: “Escrever a biografia desse homem – cronista, jornalista, tradutor, editor, entusiasta das artes plásticas, impaciente com todo intelectualismo, correspondente de guerra, um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, apaixonado (nem sempre platonicamente) por mulheres belas e inteligentes, amigo de vários dos maiores nomes da cultura nacional, cônsul no Chile e embaixador no Marrocos, ecologista antes que a palavra sequer existisse em português (apesar de confessar que preferia caçar a escrever), um dos primeiros cronistas a produzir textos para a televisão, comodista e prático que decidiu onde e quando morrer – foi um fardo e um prazer, uma obsessiva loucura. O que não é uma novidade”.

Fez muito bem, Marco Antônio, em persistir na árdua tarefa que se impôs. Em texto fluente, bem escrito e muito bem documentado, ele consegue fazer um registro vivo e cativante da vida de Braga e prende a atenção do leitor nas 592 páginas do volume. Nele está a história familiar do cronista desde a chegada ao Brasil, em 1870, de seus tios-avós, João, Joaquim, Francisco e Maria das Graças Marques de Carvalho, e, posteriormente, de sua avó Anna Joaquina, viúva e grávida de seu pai, Francisco Braga. Instalaram-de incialmente em Guaratinguetá, interior paulista, onde adotaram Braga como sobrenome – “como vários imigrantes portugueses que, ao se transferirem para o Brasil, passaram a ser reconhecidos não mais pelo nome da família, mas pela região de origem”.

O jovem cronista

Nas páginas de Um cigano fazendeiro do ar estão os principais fatos da infância e adolescência do cronista: o nascimento de “Rubinho”, a 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, para onde sua avó e seu pai se mudaram após alguns anos vivendo no Rio de Janeiro; a infância e a convivência com os irmãos, particularmente Newton, ao qual era mais ligado; o fascínio pelo rio Amarelo e pela praia de Marataízes, tantas vezes lembrados em suas crônicas; o ambiente político e cultural de Cachoeiro no início do século XX; a ida com a irmã Carmozina para a Primeira Exposição do Centenário, no Rio de Janeiro, em setembro de 1922; o primeiro trabalho, na Farmácia Central, do irmão Jerônymo; o incidente que resultou em sua expulsão do colégio Pedro Palácios; sua mudança para o Rio de Janeiro e, depois, para Belo Horizonte, onde terminaria os estudos do curso secundário.

É quando, aos quinze anos, começa a publicar crônicas e artigos no jornal Correio do Sul, fundado em 1928 por Jerônymo e Armando de Carvalho Braga. Aos dezenove faz a cobertura, como jornalista de O Diário da Tarde, de Minas Gerais, da revolução constitucionalista. Aos 21, como repórter e cronista do Diário de São Paulo, já é um dos nomes mais conhecidos da imprensa brasileira: suas crônicas são republicadas em vários estados pelos jornais da cadeia Associados de Assis Chateaubriand. “É então uma pequena celebridade, suas crônicas são lidas em todo o país e, de alguma forma, o leitor atento sabia que em seus textos havia algo de novo e bom, uma combinação única de lirismo com cenas do cotidiano”, diz Carvalho.

Em 1933, com apenas vinte anos, escreve sobre a infância como se fosse um velho memorialista – o velho Braga, como passaria a chamar-se, a partir de então. Um paradoxo: um escritor que já começou velho e que, no entanto, nunca envelheceu.

O talentoso rapaz manteria o seu prestígio de “poeta de humor agridoce”, como dele diria Manuel Bandeira, ao longo de sessenta anos, até sua morte, em 1990. Mas era difícil, logo nos primeiros anos, admitir que se tratava de um jovem autor, motivo pelo qual muitos leitores acreditavam ser, aquele Rubem Braga, pseudônimo do autor de A cinza das horas. Não por acaso, pois, como assinala o biógrafo, “O poeta Bandeira (…) foi o escritor que mais influenciou o cronista, na busca da clareza, da simplicidade, de ‘uma espécie de franqueza’ de quem não se enfeita ‘nem faz pose para aparecer’.”

Registro histórico

Marco Antonio de Carvalho reconstituiu, ao longo de dez anos, tempo que levou para escrever e publicar a biografia, a atuação pública de um autor que registrou, em suas crônicas, reportagens, artigos e entrevistas praticamente todo o século XX, no Brasil. Isto é, se podemos considerar, como querem alguns historiadores, que o século XX começou, neste país, com o Movimento Modernista e a chegada de Vargas ao poder, e terminou com a derrocada da utopia socialista, reflexo da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS.

A partir do início da atividade de Braga como jornalista, sua vida pública passa a ser associada a todos os grandes acontecimentos da história do Brasil. História que está contida, como peças de um quebra-cabeça, nas cerca de 15 mil crônicas publicadas pelo autor. Carvalho contextualiza habilmente a vida do cronista, relacionando-a com os fatos históricos, sociais e culturais que a envolvem. A revolução modernista de 22 e seus principais personagens, os conflitos em torno da sucessão presidencial de 1930, o golpe de Vargas e o Estado Novo, as perseguições políticas, a prisão de Anísio Teixeira, Graciliano Ramos, Prestes e Olga Benário, o bombardeio de navios brasileiros e a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, cuja campanha ele cobriu como correspondente de guerra do Diário Carioca, as visitas de Marcel Camus, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Miguel Torga, Manuel Puig e Pablo Neruda (que se hospedou no apartamento de Braga no final dos anos 60) ao Brasil, o início da Guerra Fria, a revolução cubana, a eleição de JK e a construção de Brasília, o surgimento da Bossa Nova, a renúncia de Jânio Quadros, o Golpe de 64 e a repressão militar, a modernização da imprensa brasileira, os festivais de música popular e a redemocratização são alguns dos acontecimentos registrados, não como meras citações, mas integradas à trajetória do escritor – fatos com os quais ele dialoga, em sua obra, e não raro interfere, como jornalista, viajando, entrevistando, combatendo e/ou apoiando seus protagonistas.

Jornalista combativo

Carvalho destaca a intensa participação política e social de Braga, que ficaria lembrado, entretanto, como o cronista de temas amenos (dos passarinhos, das borboletas, da infância, dos pés de milho e, sobretudo, das belas mulheres). Estes temas, de fato, predominaram nos últimos trinta anos da atuação de Rubem, como conseqüência, talvez, do seu crescente desencantamento com a atuação política e também dos ataques que sofreu tanto à direita como à esquerda do espectro político.

“Rubem vai aos poucos abandonar as discussões políticas e partidárias e, com o passar do tempo, tomar-se de inteiro asco por debates sobre esse tema. É um cético, e talvez apenas Machado de Assis seja mais que ele em questões que envolvam política. É parente do romancista nesse sentido, homens que sabem que o partidarismo parece exigir do ser humano apenas o que há nele de mais mesquinho”.

Diz Braga, em carta endereçada à escritora Lygia Fagundes Telles: “Sou um homem horrivelmente afetivo e, ao contrário do que muitos pensam, odeio ferir pessoas. Mas não tenho apenas emoções pessoais. Tenho atrás de mim 15 anos ou mais de lutas políticas. Se nunca fui bom político, nem cheguei a militar realmente em nenhum partido político (…) também nunca larguei de todo meu modesto trabuco de franco-atirador”.

“Mais de meia dúzia de cadeias e vários perigos de morte atestam isso. Quanto ao integralismo, fui dos primeiros a lutar contra ele: em 33 ou começo de 34 eu já merecia uma nota especial da Chefia Nacional e uma tentativa de seqüestro. No Rio, no Recife, em Cachoeiro, em São Paulo, um pouco por toda parte, eu os combati. (…) Conheci-os bem, porque os ouvi me insultando, atirando contra mim, me cercando numa estação, matando um velho amigo, denunciando-me à polícia quando eu estava escondido, fazendo pressão sobre um diretor de jornal para me despedir – e até mesmo porque estive preso na mesma cela com vários deles”.

De “jornalista em busca da voz das ruas”, para o qual a atividade de repórter é, embora a contragosto, um trabalho braçal, Braga torna-se, a partir dos anos 60, quando se instala no famoso apartamento de cobertura da rua Barão da Torre, o cronista do Rio e de Ipanema. “Um homem urbano, que vivia no bairro mais célebre da cidade do Rio de Janeiro e um dos mais incensados nomes da imprensa brasileira – mas, ainda assim, sonhava, como sempre sonhou, em retornar, voltar a viver na roça, entre as coisas simples da vida”.

Rei de Ipanema

Muitas páginas da biografia são dedicadas às relações amorosas de Braga: com Zora Seljan, mãe do seu único filho, Roberto e com quem se casou em 1936, ano em que publica seu primeiro livro, O conde e o passarinho; com Tonia Carrero, então mulher do arquiteto Carlos Thiré; com Bluma Wainer, mulher do jornalista Samuel Wainer, entre muitas outras. A paixão que nutriu por diversas mulheres casadas indica sua aversão a relações estáveis e consolidadas. Após a separação de Zora, manteve-se solteiro até o fim da vida.

Outros aspectos notáveis da vida do cronista são abordados, na medida certa, pelo biógrafo: os desentendimentos com Humberto de Campos, Di Cavalcante, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, que não o incluiu em sua Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira; a convivência com Graciliano Ramos numa pensão no Catete; a amizade com a turma de Minas (Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos); a antipatia a Tom Jobim, à Bossa Nova e ao cinema brasileiro; a filmagem de cenas de Terra em Transe, de Glauber Rocha, em sua cobertura; a atuação como editor na Editora do Autor e na Sabiá; as traduções; sua admiração por Roberto Carlos, Manoel de Barros, Rita Lee e Amyr Klink; suas experiências como Cônsul no Marrocos e embaixador no Chile; suas passagens por Recife, São Paulo, Porto Alegre, Paris e Havana; sua atuação como defensor do meio ambiente e a amizade com o ornitólogo Augusto Ruschi; seu crescente isolamento, ao final da vida, e, finalmente, a doença e a morte devido a um câncer na laringe. A sua cremação e as cinzas, lançadas por seu filho Roberto nas águas do Itapemirim.

A biografia de Marco Antonio Carvalho chega num momento de intensa revalorização da obra do cronista, com estudos acadêmicos feitos sobre ela e com a instituição, pela Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, em parceria com o Governo do Estado do Espírito Santo, da Bienal Rubem Braga, que chega, em junho próximo, à sua segunda edição. Um bom momento para a reedição de suas obras completas, nas quais encontram-se a sensualidade, a ternura, o anarquismo, o tédio, a poesia e o humor destacados por Carlos Drummond de Andrade. Elementos que, para o poeta de Itabira, “manipuláveis por qualquer um”, mas, reunidos pelo cronista, “formam um composto especificamente bragueano, que até dispensa assinatura”.

Rubem Braga: Um cigano fazendeiro do ar
Marco Antônio de Carvalho
Editora Globo
592 páginas

O autor

Marco Antonio de Carvalho (1950-2007) nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (ES). Foi professor de Literatura Brasileira e atuou como repórter, redator e editor nos jornais e revistas Última Hora, Veículo, Transporte Moderno, Reposição & Negócios, Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo e Agência Estado. Foi também tradutor, revisor e autor dos livros infantis Branco total, A história do lobo e Pato sem patrão e A dança, biografia do coreógrafo Klaus Vianna, entre outros. Morreu em 25 de junho de 2007, meses antes do lançamento da biogradia de Rubem Braga, na qual trabalhou durante dez anos.

Trecho

Na volta ao Brasil, descobre que o Rio de Janeiro é outro: o otimismo da era JK tinha acabado, a cidade foi esvaziada com a mudança da capital, havia um clima pesado de extremismo político, a discussão era acerba e preconceituosa, o país era uma confusão onde ninguém se ouvia, muito menos se entendia. E Rubem engordara vilmente durante o tempo marroquino.
Rubem torna-se uma celebridade, apesar de nunca posar de prima-dona. Vive o paradoxo de ser um descrente que crê, um casmurro cercado de dezenas de amigos, um solitário rodeado de mulheres. O envolvimento ou pretenso com mulheres continua. Casadas, em geral, uma forma de se defender, talvez: “Casadas, não iriam morar com ele”, ironizava a amiga Rachel de Queiroz. “O que ele não quer é bancar mulher nenhuma”. Mas até Rubem concorda que seu cotidiano seria um caos para qualquer mulher razoável.

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