O Século do Espanto

100 ANOS – Historiadores, sociólogos e educadores fazem uma radiografia do século XX, em coleção lançada pela Civilização Brasileira.
Jornal A Tarde – 18/02/01
Carlos Ribeiro

“O horror. O horror…” A sombria expressão do personagem Kurtz, no romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, poderia ser uma epígrafe ideal para o século XX. Mas o século que conheceu os efeitos abomináveis do colonialismo inglês, do totalitarismo, do Holocausto, da intolerância racial e religiosa e das ditaduras na África, na América Latina e no Oriente Médio, foi também o mesmo que proporcionou, à humanidade, os mais extraordinários avanços técnicos e científicos, o maior conhecimento da mente, do corpo humano, da natureza e do cosmos, e que alimentou algumas das mais belas utopias.

É este período extraordinário da história da humanidade que é analisado, por meio de diferentes perspectivas e abordagens metodológicas, na Coleção O Século XX, lançada pela Civilização Brasileira. São três volumes, organizados por Daniel Aarão Reis Filho, Jorge Ferreira e Celeste Zenha, nos quais estão reunidos 25 artigos, escritos por 22 autores. No primeiro, O Tempo das Certezas: Da Formação do Capitalismo à Primeira Grande Guerra, é traçado o panorama de uma época tomada pelo sonho de unificação do mundo do capitalismo mercantil e industrial. Mas, também, pelas resistências que adviriam dos problemas criados pela industrialização e a conseqüente competição por mercados e capitais, que desembocariam na Primeira Guerra Mundial.

No segundo, O Tempo das Crises – Revoluções, Fascismos e Guerras, analisa-se a Crise do Capitalismo Liberal, no rastro da qual viriam as revoluções russas, o socialismo soviético e o complexo caldo ideológico europeu que resultaria na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria. São também analisados o modelo de acumulação capitalista do pós-guerra, representado, sobretudo, pelos Estados Unidos, e a crise civilizatória reforçada pelo processo de permanente internacionalização da economia mundial que abriria as portas ao fenômeno da globalização.

Em O Tempo das Dúvidas – Do Declínio das Utopias às Globalizações, ao lado de uma análise sobre a expansão, apogeu e desagregação do mundo socialista, ganha relevo questões periféricas, como as lutas de libertação nacional no Terceiro Mundo e a tomada de consciência pelos povos colonizados (sobretudo na África e Oriente Médio), e as guerras árabe-israelenses. O mal-estar existente nas sociedades capitalistas, que desembocam no movimentado ano de 1968, é abordado no capítulo 1968: Rebeliões e Utopias, de Marcelo Ridenti. A Questão Nacional no Mundo Contemporâneo, Globalização e Nova Ordem Internacional e Mídia e informação no cotidiano contemporâneo são outros temas enfocados por autores como Marco Antonio Pamplona, Octavio Ianni, Celeste Zenha e Ciro Flamarion Cardoso.

A coleção, segundo seus organizadores, tem o objetivo de ajudar os estudantes de segundo grau e graduandos de ciências humanas a pensarem nos problemas do século que expirou e refletir sobre os desafios do século que se abre, além de dar subsídios ao professor de segundo grau, “que dispõe de tão poucos instrumentos para apoiar suas aulas de história contemporânea, sobretudo no período posterior à Segunda Guerra Mundial”. É evidente a intenção de adotar uma linguagem acessível, alcançada de forma satisfatória em textos como O Colonialismo como a Glória do Império, de Edgar de Decca; Cultura e Política nos Anos Críticos, de Leandro Konder; e Globalização e Nova Ordem Internacional, de Octavio Ianni, para citar apenas um de cada volume.

Vale dizer que, embora complementares entre si, cada volume pode ser comprado e lido de forma independente e de acordo com os interesses específicos do leitor.

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