O Fantástico no Cotidiano

FICÇÃO

Cadeiras Proibidas, de Ignácio de Loyola Brandão, ganha nova edição, acrescida de cinco contos inéditos.

O fantástico esteve sempre presente na literatura, mas foi no século XX que ele adquiriu uma de suas formas mais fascinantes: a de mostrar espantosas fantasias sob a aparência da mais absoluta normalidade. Ray Bradbury, um dos mais brilhantes nomes da science-fiction, matou a charada ao dizer que a melhor história fantástica é aquela que induz no leitor a sensação da “irrealidade na realidade”. Em outras palavras: a que preserva a sensação de verossimilhança, essencial para atingir o efeito estético exato, no leitor.

A fantasia exacerbada, sem o vínculo com a realidade, é uma fantasia pobre. E Kafka, mestre absoluto do gênero, sacou isto perfeitamente ao manter a representação realista, mesmo que em situações espantosas: seu Gregório Samsa, que acorda subitamente transformado num inseto, bem como o quarto onde se desenrola o drama, têm preservadas as suas características objetivas – o que só faz aumentar a sensação de estranheza do leitor.

Além disso, segundo Bradbury, a boa literatura fantástica jamais deve ser desvirtuada por qualquer mensagem moralizadora. Antes, ela deve conquistar o leitor, conforme lembra José Paulo Paes, em seu prefácio à antologia Maravilhas do Conto Fantástico, pela “casualidade” dos seus enredos.

As premissas, acima colocadas, podem ser identificadas, em boa parte, no livro Cadeiras Proibidas, de Ignácio de Loyola Brandão, que chega à sua 9ª edição, acrescido de mais cinco contos inéditos, pela Global Editora. São, no total, 38 histórias curtas, nas quais o autor de Zero, nos apresenta uma extensa galeria de personagens – pessoas comuns, vivendo experiências banais do dia-a-dia – que, sem explicações lógicas, defrontam-se com situações para lá de insólitas.

Numa delas, um homem vê surgir um buraco – um orifício perfeito de dois centímetros de diâmetro – na mão esquerda. Orifício este que faz com que seja rejeitado e abandonado por todas as pessoas das suas relações, até que encontra seus semelhantes sob um viaduto. Em outra, um cidadão vê sua casa invadida por homens que realizam uma “inspeção de rotina” para detectar se ali encontram-se “cadeiras proibidas”, desenvolvendo um diálogo no mais absoluto nonsense. Uma metáfora cujos ecos de O Processo são bastante evidentes.

As histórias se sucedem, mostrando ora um personagem que entra num envelope, endereça-o a si mesmo e se extravia; ora outro que vê sua orelha crescer, continuamente, obrigando a cidade a (para não ser sufocada) cortá-la e consumi-la, como carne, distribuída à população. Numa outra, um franzino funcionário público flagra, com inabalável naturalidade, um grande lagarto verde comendo o filho mais velho, de três anos e meio. Ele não vê nada mais a fazer do que deitar-se, sem dizer nada à mulher, e dormir. Afinal de contas, “Se gritasse, o lagarto iria embora?”

Não é por acaso que a maior parte dos contos tenham sido escritos e publicados no jornal Última Hora, nos anos 70, quando a ditadura militar exercia uma censura férrea sobre livros, filmes, discos, peças teatrais e… jornais. Daí o caráter metafórico das histórias, escritas por um autor que se via forçado a ter que disfarçar a realidade sob o manto da fantasia. Histórias, entretanto, cujo interesse permanece atual, graças às qualidades literárias do texto e à visão irreverente e corrosiva do autor. E, também, a esse absurdo sempre renovado, chamado Brasil.

EDITORA: GLOBAL
PÁGINAS: 144
PREÇO: R$ 18
TELEFONE: (11) 3277-7999
E-MAIL: GLOBAL@GLOBALEDITORA.COM.BR

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