Novos Rumos da Literatura

REFLEXÃO Intelectuais baianos iniciam, sexta-feira, no MAM, uma série de debates sobre literatura e artes contemporâneas. 

Jornal A Tarde – 04/12/02
Carlos Ribeiro 

Com a abertura do Salão Nacional de Artes Plásticas, que acontecerá no próximo dia 15, o Museu de Arte Moderna da Bahia pretende iniciar uma ampla reflexão sobre os rumos que as artes contemporâneas estão tomando, hoje, no mundo e, especialmente, no Brasil. A discussão, entretanto, não se limitará ao campo das artes plásticas.

Ela abrangerá outros segmentos da cultura, a exemplo da música, da dança e da literatura. E é esta última que dá o pontapé inicial no processo, com a realização, nesta sexta-feira, a partir das 17 horas, no auditório do MAM (Solar do Unhão), de uma mesa-redonda, que contará com a participação da crítica de literatura e colaboradora de A TARDE Gerana Damulakis; do poeta, ficcionista, ensaísta e professor de Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana Aleilton Fonseca; do poeta, contista e ensaísta Aramis Ribeiro Costa e do poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos, que adiantam, na entrevista a seguir, algumas de suas idéias.

Em tempo: o evento, que tem apoio do MAM, é uma promoção da iararana – revista de arte, crítica e literatura e será enriquecido com uma apresentação musical de João Liberato (flauta) e João Raone (violão).

P – Que tendências podemos observar na literatura que é feita, hoje? 
R – Aramis Ribeiro Costa – Eu vejo um momento de liberdade com qualidade. Depois da literatura ter passado por escolas muito rígidas e movimentos muito marcantes, eu acredito que chegamos a um momento de maior liberdade de criação, que nos permite criar como desejamos, seguindo a nossa intuição. Não há mais padrões tão rígidos.

P – O que você quer dizer, exatamente, com esses padrões?
R – Aramis – Nós tivemos no Brasil um excepcional escritor, que foi José de Alencar, hoje um escritor prejudicado, porque esteve muito preso aos padrões da escola romântica. Isso afasta, hoje, a literatura de Alencar do grande público e Alencar está sendo um pouco esquecido, não está sendo nem reeditado. Já Machado de Assis conseguiu fugir das escolas, criou uma literatura própria e isso faz com que a literatura de Machado seja hoje uma literatura atualíssima. Você lê Machado de Assis hoje como ele era lido no tempo dele, com o mesmo prazer, com o mesmo encantamento, e acredito que ele seja hoje até mais valorizado.

Gerana Damulakis – Eu penso que o escritor, e não só o escritor, mas o homem, tem uma tendência a falar da liberdade, mas também, paradoxalmente, há uma necessidade de se enquadrar, de ter regras a seguir. E, no meio dessa liberdade toda, há tendências já muito claras, e há compartimentos estanques. Eu acho que essas tendências estão cada vez mais se acentuando. É o caso do conto, que tem uma tendência neonaturalista mais nítida, formando, afinal de contas, um padrão. Não nos moldes do romantismo, que tinha regras muito fixas, mas não há dúvida que as tendências são formadas e o escritor tem necessidade de ser inserido nessas tendências.

P – Você identifica essa tendência mais nessa geração dos anos 70, 80? Onde você situa isso?
R – Gerana – No pessoal que estreou de 80 para cá. Isso aí é bastante nítido: o urbanismo, o escritor hoje em dia é o escritor da classe média, ele reproduz o meio dele, e o meio dele é a classe média. Não existe uma voz falando de uma classe popular, sobre os problemas dessa classe. Não existe essa voz. Aleilton é uma exceção, mas, em geral, esta é a grande tendência.

Luís Antônio Cajazeira Ramos – Eu acho que a literatura está em crise. Logicamente que a literatura é de classe letrada, você tem que ter educação formal, você tem que saber ler e escrever, e ao longo dos últimos séculos, saber ler e escrever foi um privilégio. Mas desde o surgimento da revolução industrial e da entrada do século XX, com o surgimento da cultura de massa, todos esses novos veículos de comunicação e de linguagem, isso que a princípio poderia alimentar a literatura e o consumo da literatura, tem trazido, entretanto, um certo prejuízo.

Aleilton – Ao meu ver, não há uma crise na literatura. O que há são crises de paradigmas em cada momento histórico e, sobretudo, o que estamos vendo hoje é uma crise de recepção, uma vez que formou-se um público no romantismo, de meados do século XIX em diante, uma elite, a classe média, a burguesia, e tinha uma massa de leitores em formação. No século XX, o que nós assistimos foi ao surgimento de uma cultura de massa e essa massificação não trouxe essa população para a literatura; trouxe mais para outros veículos, para outras formas de entretenimento, e a literatura teve que disputar com outras formas, sobretudo a partir de meados do século XX, com a cultura das mídias.

P – O que vocês têm a dizer com relação à Bahia, à literatura baiana, ao momento que a gente vive?

R – Aramis – Não há crise de produção na Bahia. A produção baiana é muito boa, tanto em quantidade quanto em qualidade. Os grandes problemas da Bahia nós já conhecemos, que são a distribuição, a vendagem, o isolamento, que na verdade não é só da Bahia, é do Brasil, que é um arquipélago de culturas, de literaturas. A literatura que se torna nacional, realmente, é aquela literatura que vem do sul e que consegue a conexão nacional. As outras permanecem isoladas. Este é o grande problema, mas tanto em quantidade quanto em qualidade, a produção baiana é ótima.

Cajazeira – Eu que circulo muito, não vejo por aí uma poesia melhor do que a que se faz na Bahia. Quem lê poesia no Brasil atentamente diz isso, que a poesia que se produz na Bahia, em Pernambuco, no Ceará, é de muito mais qualidade e vigor do que a que se produz em outros centros mais cantados e decantados. A mesma coisa é a prosa de ficção. O problema é que a indústria da divulgação, a indústria cultural está nos grandes centros, que são o Rio e São Paulo. E se você não passa pelo batismo lá, fica meio complicado.

Aleilton – Recentemente, fui convidado para dar um curso sobre literatura baiana na Uneb de Teixeira de Freitas e ali cerca de 40 alunos, na sua maioria professores universitários e do ensino médio, ficaram encantados com os textos e os nomes de autores baianos. Eles disseram: nós não conhecemos, não sabíamos que existia essa riqueza de literatura baiana contemporânea e pediram para se criar ali, no curso de Letras, uma disciplina chamada Literatura Baiana. E nos cursos de Letras da Bahia não há, geralmente, essa disciplina. O que nós precisamos é conhecer, divulgar, fazer com que os nossos professores sejam divulgadores, a partir de um conhecimento que venham a ter sobre a nossa literatura.

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