Novos Olhares Sobre Veríssimo

ESTUDOS – Livro traz 12 ensaios de especialistas e uma entrevista inédita com Antonio Candido sobre a obra de Érico Veríssimo.
Jornal A Tarde – 29/01/2002

Carlos Ribeiro 

Érico Veríssimo costumava definir-se como um “contador de histórias”. Sem dúvida que se tratava de um grande contador de histórias. Tal definição costuma remeter, entretanto, a um patamar mais modesto da criação literária em relação à chamada alta literatura. Do contador de histórias pode-se esperar personagens bem-delineados, descrições convincentes dos cenários ou ambientes onde as cenas desenrolam-se, diálogos bem-elaborados e um bom enredo, que prenda a atenção do leitor até o final da história – pois, naturalmente, há de ter-se, necessariamente, uma história.

Estaria, portanto, além do horizonte do “mero” contador de histórias, um tratamento literário marcado por um maior aprofundamento psicológico dos personagens, por um mergulho no zeitgeist (espírito da época), por um trabalho mais inventivo com a linguagem – a fina carpintaria que se costuma associar à obra de um Flaubert, de um Henry James, de um James Joyce, ou entre nós, de Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Machado de Assis.

O contador de histórias é comumente definido como um autor fácil, o que demandaria, portanto, certa má vontade por parte da crítica mais “requintada”. Mas, embora tais distinções sejam corretas, em muitos casos, pode-se questionar se, em tantos outros, não denotem apenas uma boa dose de preconceito.

A irregularidade da obra do escritor gaúcho, marcada por excelentes momentos – como no primeiro volume de O Tempo e o Vento, ou em Caminhos Cruzados – e descaídas gritantes, como em Saga e em Olhai os Lírios do Campo, parece ter empurrado a obra de Veríssimo, paulatinamente, nos últimos 20 anos, para uma área de sombra, principalmente no ambiente universitário. Mas é importante lembrar – e é Antonio Candido, um dos mais importantes críticos do Brasil quem chama a atenção para este fato – que a imperfeição não é, necessariamente, uma característica exclusiva dos chamados autores menores.

Numa entrevista de 5/8/2000, incluída no livro Érico Veríssimo: O Romance da História (Nova Alexandria, 224 páginas, R$ 25), Candido lembra ter escrito, no rodapé que mantinha no jornal A Folha da Manhã, nos anos 40, uma espécie de defesa do autor contra o que chama de “falsos requintados”. Tais restrições, segundo ele, são características de uma obsessão, presente na crítica literária, sobretudo a de língua inglesa, com o romance bem-feito, a well made novel. Ou seja, com o rigor na construção e a perfeição do estilo. Mas, diz ele, “é preciso ter em mente que pode haver obras perfeitas sem graça, e grandes obras imperfeitas”. Ele cita como exemplo Guerra e Paz, de Tolstoi, e, em escala mais modesta, Fogo Morto, de José Lins do Rego.

Érico Veríssimo, diz Candido, é um desses autores irregulares, mas que, “apesar disso, é um grande escritor”. Escritor, portanto, cuja obra deve ser reeditada, conhecida pelas novas gerações e estudada pelos especialistas. O lançamento desse O Romance da História é, portanto, um tributo mais do que merecido ao escritor gaúcho.

Além de um artigo inédito e da entrevista de Antonio Candido, na qual ele traça um panorama da obra ficcional de Veríssimo, o volume traz 12 ensaios empreendendo uma análise do processo de criação do escritor nos três volumes de sua trilogia épica: O Continente, O Retrato e O Arquipélago.

Os ensaios são assinados por Jacques Leenhardt, filósofo, sociólogo e diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris; Sandra Jatahy Pesavento, historiadora e professora titular de História do Brasil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Lígia Chiappini, crítica literária, titular de Literatura Brasileira da Freie Universitat, de Berlin; e Flávio Wolf de Aguiar, escritor e diretor do Centro Angel Rama de Estudos Latino Americanos.

São abordados os seguintes temas: Narrativa e História em O Tempo e o Vento, O Retrato de Rodrigo Cambará, O Romance da Dispersão do Sentido e Memória do Passado e Memória do Futuro (Leenhardt); A Narrativa Pendular: as Fronteiras Simbólicas da História e da Literatura, A Temporalidade da Perda, Floriano no Espelho: o Mágico e o Lógico e A Memória da Terra: Missão Feminina (Pesavento); O Continente, a Estância e os Escravos, Campo e Cidade no Retrato, Flora-Floriano: Impasses do Escritor nos Anos 30? (Chiappini) e O Sobrado, a Fonte e o Poço (Aguiar).

O livro inclui ainda uma seleção de fotos do acervo pessoal de Antonio Candido e de Érico Veríssimo.

EDITORA: NOVA ALEXANDRIA
TELEFONE: (11) 5571-5637
E-MAIL: NOVAALEXANDRIA@NOVAALEXANDRIA.COM.BR 

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