Nem Mesmo os Passarinhos Tristes

Apresentação do livro Nem mesmo os passarinhos tristes, de Mayrant Gallo

Carlos Ribeiro

Desde que despontou, no final dos anos 90, com o surpreendente Pés quentes nas noites frias, Mayrant Gallo revelou-se exímio praticante de um gênero ficcional cuja excelência consiste na concisão, na “noção de limite”, tal como definiu Julio Cortázar.

Ao domínio da técnica do conto, no que ela pode extrair de plena expressividade, trouxe para os seus leitores um universo próprio, inconfundível e inquietante de situações insólitas e seres deslocados, à margem dos grandes discursos, marcados pela dúvida e pela perplexidade – outsiders mergulhados num labirinto de sombras e desesperança, numa Salvador mil anos-luz distante da imagem otimista, folclórica e solar que lhe é comumente atribuída pelos discursos oficiais.

Marcada por indagações existenciais, colocadas de forma elíptica, nos entrelugares e zonas limítrofes percorridas pelos seus personagens, a ficção de Mayrant tem nas entrelinhas a sua grande vocação. E é nos curtíssimos textos deste Nem mesmo os passarinhos tristes que elas se tornam mais eloqüentes. Afinal, se “No ônibus, um homem deixa pender a cabeça, agarrado pelo sono. Não só pelo sono. Não só pelo sono” (“O túnel da noite”), somos instados a (re)construir a história daquele homem sobre o qual nada sabemos, mas que podemos imaginar. Algo, aliás, bastante salutar num tempo de idéias domesticadas e imagens pré-fabricadas.

Os 135 contos/poemas deste livro trazem, pois, a densidade e a intensidade de seus livros anteriores, e consistem num apelo à imaginação dos leitores, instados a ser co-autores das histórias aqui apenas entrevistas. Um apelo que se vale, em muitos casos, do registro poético para que seus dramas e cenas, ao fim da leitura, continuem ecoando em nossa sensibilidade.

Merece especial atenção a série de 16 mini-contos policiais, reunidos sob o título “As aventuras de Nicolau & Ricardo”. Histórias nas quais os dois agentes da lei, despidos de qualquer glamour, correm atrás de assassinos e são vencidos pelo cansaço; atropelam e abandonam uma mulher numa estrada deserta, à noite, e não abrem os jornais por mais de um mês; sonham com férias impossíveis, pois “o crime não pára”, os “criminosos tiram energia do sol e se renovam como insetos”, e, ao final, “sempre levam vantagem”. Mas que também sonham com amores possíveis… ou impossíveis.

Eis aí, meus amigos, a insólita ficção de Mayrant, na força do seu nonsense, de sua acidez e de sua admirável ironia.

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