Momento Fecundo da Poesia

O poeta, ensaísta, crítico literário e professor de literatura brasileira da Faculdade de Letras da Ufrj Antonio Carlos Secchin esteve em Salvador, no dia 15 de dezembro, para duas atividades importantes: o lançamento da segunda edição revisada e ampliada do seu livro João Cabral: A Poesia do Menos e Outros Ensaios Cabralinos (Topbooks e Universidade de Mogi das Cruzes) e para a solenidade de divulgação do Prêmio Nacional Gregório de Mattos, instituído pela Academia de Letras da Bahia. 

(Secchin participou da Comissão Julgadora do Prêmio, ao lado de Ruy Espinheira Filho e Florisvaldo Mattos). Antes de vir à Bahia, o autor de Ária de Estação e Poesia e Desordem concedeu entrevista a A Tarde Cultural, via e-mail, na qual falou sobre o livro de ensaio, que, lançado em 1982, recebeu o 1º Prêmio no Concurso Nacional de Ensaios Literários do INL/MEC, em 1983, e o Prêmio Sílvio Romero da Academia Brasileira de Letras, em 1985, tendo recebido ainda o que o autor considera sua maior honraria: a declaração do próprio João Cabral de Melo Neto de que, dentre os críticos que já se debruçaram sobre sua obra, foi ele “quem melhor analisou os desdobramentos daquilo que pude realizar como poeta”. Vale dizer que críticos do porte de Eduardo Portella, Antônio Houaisss, José Paulo Paes, Carlos Felipe Moisés, Benedito Nunes e Ivan Junqueira já teceram diversos elogios a Secchin, realçando, entre outros aspectos, o seu “esplêndido domínio verbal”, sua “visão iluminadora”, servida “por um notável poder de síntese”. Adiante, a entrevista com o escritor. 

Carlos Ribeiro-Esta é a segunda edição do seu ensaio João Cabral: A Poesia do Menos, que foi editado em 1985. Qual é a tese principal do livro e o que foi acrescentado nessa nova edição?
Antônio Carlos Secchin – Contra a tradição do ornamento e de uma retórica do excesso (hipérboles, adjetivação abundante), Cabral propõe uma espécie de poética do mínimo – vocabulário restrito e obsessivo, desconfiança frente aos “mistérios” do verbo. E, numa relação especular, essa poesia esvaziada reflete a aridez do sertão nordestino que ela incorpora – poesia do menos sobre um real desfalcado. A nova edição do livro é acrescida dos principais ensaios que escrevi sobre o poeta a partir de 1985, dentre eles Marcas, que foi a conferência com a qual obtive o posto de professor titular na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

CR – Houve necessidade, nessa nova edição, de uma atualização dos pontos abordados e defendidos na tese inicial? Existem alguns pontos que tenham envelhecido?
Secchin – A rigor, quase não mexi no texto original. E por uma razão bem simples: escrevi-o sem pagar tributo às teorias estruturalistas que então estavam em moda. Optei por um exercício amoroso de compreensão daquele universo sem subordiná-lo a este ou aquele teórico. O resultado – espero- é um texto fluente, que ajude o leitor a compreender a complexidade da obra cabralina, e que não a usa como pretexto do que quer que seja.

CR – Ao poeta é geralmente atribuída uma relação amorosa com a palavra, o que, dentro de uma determinada ótica, significaria uma relação de excesso, de profusão e transbordamento. A desconfiança de Cabral, em relação ao signo linguístico, contradiz isto?
Secchin – De certo modo, sim; mas o desamor ao signo linguístico “cheio” não implica desprezo a suas variantes mais depuradas. O problema – sobre o qual o próprio poeta nos alertou – é que se confunde poesia com lirismo, quando o lirismo é apenas uma (certamente a mais ostensiva) das manifestações do poético. Cabral não deseja ser “lírico” (com todas as conotações de subjetividade e sentimento que a palavra carrega), quer ser poeta contra e apesar do lirismo.

CR – Como você define a importância da obra de João Cabral para a literatura brasileira?
Secchin – Creio que a maioria da crítica o situa como um dos três mais importantes poetas brasileiros do século XX, ao lado de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Por outro lado, sua obra é tão arraigadamente pessoal que não propicia discípulos, e sim imitadores. Nesse sentido (e diferentemente de Bandeira e Drummond), a obra dele é mais fechada. A não ser que dela se extraiam lições muito genéricas, como “rigor”, “ênfase na objetividade” etc.

CR – João Cabral afirmou que considerava esse seu ensaio o melhor livro publicado sobre a obra dele. Trata-se de um elogio importante, considerando-se que existem centenas de estudos sobre a obra do autor de Morte e Vida Severina. O que mais o entusiasmou nesse seu livro?
Secchin – Creio que, de fato, João Cabral é o autor mais estudado da poesia brasileira. Sempre acolhedor, recebeu-me em sua casa, no Flamengo, inúmeras vezes, e certamente observou o entusiasmo e a dedicação que eu votava à sua obra. Para minha alegria, dele ouvi, certa vez, que meu estudo era aquele em que ele mais se reconhecia. Isso se deve, suponho, ao que antes afirmei: tratei de realizar uma excursão minuciosa (atravessando quinze livros) em sua obra, tentando esclarecer questões e torná-la mais “legível” ao interessado, em vez de afugentar o leitor com exibições eruditas de terminologia esotérica.

CR – A extrema concisão e “objetividade” dos poemas de Cabral representa, realmente, um distanciamento do lirismo, como queria o autor? Alguns acham até que ele, dessa forma, distancia-se da tradição lírica da poesia brasileira para aproximar-se de uma concretude, estabelecendo liames, a nosso ver questionáveis, com a poesia concreta. O que você acha disto?

Secchin – Tratei do problema num dos ensaios do livro, o já citado Marcas. Acho questionável essa apropriação concretista do legado cabralino. Para começo de conversa, inexiste em Cabral o viés eufórico e autoritário dos que se supõem donos da verdade do verbo. Trabalhar com elementos concretos é uma coisa, ser concretista é outra.

CR – Por quê você optou por não usar a fortuna crítica, então existente, sobre o autor na elaboração da sua tese e do livro?
Secchin – Uma fortuna crítica tão colossal pode ser paralisadora do pensamento, induzindo à pressuposição de que tudo já está dito. Isso, é claro, não significa que devamos desprezar essas vozes; devemos conhecê-las para não ficarmos prisioneiros de sua sedução, e arriscarmo-nos a ir além delas. Conforme disse no livro, somente com a escuta atenta dessas falas pregressas é que podemos localizar onde começa o seu silêncio. E, em decorrência, a possibilidade de também falarmos.

CR – Você acaba de concluir sua participação na comissão julgadora do Prêmio Nacional Gregório de Mattos, instituído pela Academia de Letras da Bahia. Como você vê o nível dos poetas participantes e, de uma maneira geral, da poesia brasileira, atualmente?

Secchin – A boa poesia é minoritária, seja neste concurso, seja em qualquer parte. Assim , não me espantei com o fato de a maioria dos livros não atingir um nível satisfatório. Quanto a tendências, julgo o momento fecundo, com bons poetas se destacando fora do eixo hegemônico Rio-São Paulo. É ótimo que caiba à Bahia a iniciativa de patrocinar um prêmio desse porte. E sinto-me honrado de integrar o júri ao lado de poetas reconhecidos em todo o país, como Florisvaldo Mattos e Ruy Espinheira Filho.

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