Melhor Poesia Está no Nordeste

O escritor Ivan Junqueira fala sobre poesia e antecipa algo da conferência que fará sobre a obra de Ruy Espinheira Filho

Jornal A Tarde – 22/09/04
Carlos Ribeiro 

O presidente da Academia Brasileira de Letras, Ivan Junqueira, faz conferência sobre a poesia de Ruy Espinheira Filho, sexta-feira, às 17 horas, na Academia de Letras da Bahia. O evento, promovido pela ALB, Revista Iararana e amigos do autor baiano, marca a passagem dos 30 anos de poesia de Ruy.

Autor de nove livros de ensaios, seis de poesia – um deles, Sagração dos ossos, vencedor do Prêmio Jabuti, em 1995 – e de 13 traduções, incluindo obras de grandes nomes da literatura universal, Junqueira é um dos mais importantes intelectuais em atuação no País. Escreveu os ensaios Sombras luminosas, publicado no livro O encantador de serpentes (Alhambra, 1987) e O lirismo elegíaco de Ruy Espinheira Filho, em O fio de Dédalo (Record, 1998), nos quais destaca os seguintes aspectos na poesia do autor de Memória da chuva: o apuro formal, a coerência interna, a “emoção recolhida em tranqüilidade”, o elemento surpresa, o ludismo e a ênfase na memória.

A palestra é uma justa homenagem ao escritor baiano, autor de 21 livros, incluindo poesia, conto, romance, ensaio e infanto-juvenil e que vem desenvolvendo uma reflexão sobre a poesia moderna, tendo publicado recentemente dois livros de ensaios, sobre Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Nesta entrevista, Ivan Junqueira fala sobre a poesia das três últimas décadas, ressaltando a atuação dos poetas do Norte e Nordeste, regiões onde, segundo ele, está sendo feita a melhor poesia hoje no Brasil.

A TARDE – Como ensaísta, o senhor vem destacando a atuação de vários poetas, alguns deles já bastante conhecidos por grande parte dos leitores, em nível nacional, a exemplo de Alexei Bueno, Floriano Martins, Donizete Galvão, Dora Ferreira da Silva e Ruy Espinheira Filho. É possível estabelecer o perfil das gerações literárias que vêm se firmando ao longo dos últimos 30 anos?

Ivan Junqueira – Não se pode falar em um perfil de uma determinada geração literária. Nos últimos 30, entra o período de afirmação da geração de 1960, estudado por um livro importante, do Pedro Lyra; há o perfil da poesia alternativa; há o que sobrou da geração de 60, com a Poesia Práxis, por exemplo. E há a geração de 70, 80, da qual se fala muito do pós-modernismo, mas que prefiro falar de um modernismo, ou melhor, de uma modernidade tardia. Eu acho que, a partir dos anos 80, se produziu uma poesia importante no Brasil, a exemplo dos autores que você cita na sua pergunta, incluindo a do Ruy Espinheira Filho.

P – Mas pode-se citar alguns pontos em comum entre esses autores?

R – Em toda produção, ainda que não seja geracional, tem três períodos: o primeiro, de combate; o segundo, de vigência, e o terceiro, que é o de confirmação da obra. O Ruy Espinheira Filho está nesta fase, como outros também. E há ainda uma geração posterior, dos anos 90, da qual não se tem ainda uma visão nítida, por faltar um distanciamento. De modo que não se pode falar num perfil, nem no de uma geração, porque a última que mereceu este nome foi a de 60. O que tem depois é um mosaico heterodoxo de poetas que não estão filiados a um ideário. Cada um procurou o próprio caminho, o que é, aliás, uma característica da pós-modernidade, inclusive na volta à poesia medida, com metro e rima. A pós-modernidade é aberta a todas as experiências, incluindo um retorno à poesia do passado.

P – Dentro desse mosaico, dá para se dizer onde está sendo feita a melhor poesia hoje no Brasil?

R – Eu já falei sobre isto diversas vezes, e vou dizer aqui: a meu ver, a melhor poesia está sendo feita no Nordeste: na Bahia, em Pernambuco, no Ceará, no Maranhão. Até mesmo no Amazonas. De forma que acho importante que os poetas fiquem onde estão, defendendo seus rincões de origem. Já passou o tempo daquele processo migratório que aconteceu no Modernismo, porque, naquela época, os poetas ficavam isolados. Hoje, com a facilidade de comunicação, dos meios eletrônicos, já não é necessário aos poetas atravancarem o Rio de Janeiro e São Paulo.

P – Que pontos o senhor identifica a favor da poesia que é feita no Norte e Nordeste? O que faz dela a melhor, em sua opinião?

R – Em primeiro lugar: o autor, quando vive na sua província, tem contra ele a distribuição, mas tem a favor um processo de independência espiritual maior do que a do que está em um centro produtor. Faz uma poesia mais descontaminada. Ele transcende o regionalismo dele ao falar de sua aldeia. Um exemplo disso é um escritor extraordinário, Juan Rulfo (ficcionista mexicano), que está editado em 36 línguas. É como dizia Tolstoi: “Se queres ser universal, fale de sua aldeia”. Outra coisa: o poeta do Nordeste fala da alma dele, que é a coisa mais profunda no ser humano. O espírito borboleteia, fala de fora para dentro. A alma fala de dentro para fora. O espírito é uma coisa mais intelectual; a alma é mais enraizada. O escritor do Nordeste está mais preso às raízes dele.

P – Quais os principais aspectos da poesia de Ruy Espinheira Filho que o senhor pretende destacar em sua conferência?

R – Eu conheço bem a poesia dele, da qual posso destacar alguns pontos, a exemplo da coerência interna. Ruy é o mesmo poeta desde o primeiro verso publicado em Heléboro, há 30 anos, até o último, do livro mais recente. Ele tem identidade, o que é difícil deixar incólume através de uma obra grande como a dele. Coerência que, como afirmo no meu ensaio (A poesia elegíaca de Ruy Espinheira Filho, em O fio de Dédalo, 1998), atesta uma identidade espiritual que, apesar de ser transformada continuamente, não se corrompe jamais. Costumo usar a imagem do carvalho heideggeriano, que, apesar de sua aparente imobilidade, está em permanente e imperceptível movimento.

P – O senhor cita também o elemento surpresa enfatizado por Poe em seu Poetic Principle, e, lembrando a definição de Wordsworth, da “emoção recolhida em tranqüilidade”.

R – Sim. O elemento surpresa era defendido por Poe: numa obra de arte, como na música, há um encaminhamento para uma coda, que é uma síntese que tem que envolver uma coisa surpreendente. Se não houver isto, a obra está morta e o leitor dirá: “Não aconteceu nada?” Outra coisa é que Ruy se vale da língua com grande apuro formal. Pode-se ver como ele se nutriu com a leitura de autores da língua portuguesa e de outros países. Quanto à frase de Wordsworth, esta é a única forma de a poesia atingir o leitor na medida certa. O que é transformado em verdadeira arte é a emoção que se recolhe em tranqüilidade. Não é no momento do impulso emocional que se faz poesia. Não acredito na obra que se valha da emoção instantânea. O processo não é como um transe. É lento e exige um processo de maturação para que se transforme em arte. E há ainda um outro ponto, que é a maneira como ele lida com a questão da memória. Sem memória não existe o processo de criação literária. Mesmo quando você despersonaliza, a presença da memória é importante. O aprendizado envolve memória pessoal e coletiva. Sem isso não se consegue fazer poesia que possa ser transmitida ao outro.

P – Numa rápida consulta ao site da Academia Brasileira de Letras, verifica-se uma intensa programação de eventos. Está ultrapassada a noção da Academia como algo estático e retrógrado?

R – Esta visão está ultrapassada há mais de dez anos. Hoje, a Academia planeja uma porção de coisas que pode executar, porque não depende de ninguém, ela tem receita própria. Ela é uma casa de cultura muito operante, não apenas em relação a conferências e seminários, mas também no setor de publicações, na comissão de lexicografia (que cuida dos dicionários e vocabulário da Casa) e nos centros de memória. Promovemos uma série de concertos de música erudita, e há os prêmios que ela dá anualmente: o de Poesia, o de Ficção, o de Ensaio, o de Literatura Infanto-Juvenil, o Prêmio Machado de Assis, o de Tradução, criado há dois anos, e o Prêmio José Hermírio de Morais, que contempla geralmente obras ensaísticas, mas não só. No ano passado, foi um poeta, o Bruno Tolentino, quem ganhou.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *