Longe do Éden

Carlos Ribeiro

Quem vem acompanhando o desenvolvimento da obra literária do ficcionista Aramis Ribeiro Costa, certamente há de ter observado sua habilidade em contar histórias; sua competência e sensibilidade na construção de personagens que agem, vivem, sentem como pessoas reais, de carne e osso; sua capacidade de situá-los num cenário verossímil e plenamente reconhecível pelo leitor – as ruas, becos e paisagens da cidade de Salvador; e, sobretudo, o seu estilo enxuto, com uma boa noção do timing, do ritmo da frase, da precisão do diálogo. Estranhamente isolado dos movimentos que definem as gerações de escritores baianos, Aramis é um autor que vem construindo sua trajetória solitariamente, livro após livro, de forma consistente, nas diversas facetas do seu talento: a novela, a poesia, o romance e o conto. Sobretudo neste último gênero, no qual vem conseguindo, muitas vezes, unir as qualidades de um inventivo construtor de tramas e de um autor para o qual cada frase é resultado de um duro trabalho do estilo.

Como diz Hélio Pólvora, em ensaio publicado no livro Itinerários do Conto (Editus, 2002), “o ficcionista Aramis Ribeiro Costa passa ao barro de suas criaturas o sopro vital e, depois, as acompanha”. E, podemos acrescentar, carrega os seus leitores com ele, num périplo às vezes cômico, às vezes dramático ou trágico, como se pode ver nos bons contos “Itapagipe”, de A Assinatura Perdida (Iluminuras, 1996) e “Miséria”, de O Mar que a Noite Esconde, editado em 1999, também pela Iluminuras.

Com estilo preciso, que revela o autor atento às idiossincrasias da natureza humana, Aramis alcança, ao nosso ver, melhores resultados quando consegue obter o “singular efeito único” a que se referiu Edgar Allan Poe, em contos curtos e de impacto, como o já citado “Miséria”, “Mãe” e “Assassino”. Mas é também em algumas de suas histórias de de maior fôlego – a exemplo da novela Episódio em Curicica, editada em 2001 pelo selo As Letras da Bahia – que o escritor reafirma sua versatilidade. Talvez seja nessas histórias mais longas, caracterizadas por um enredo mais elaborado, que se possa perceber (já que mais distante do “nocaute” das histórias curtas, no sentido referido por Júlio Cortázar), alguns elementos expostos por Pólvora, ou sejam: o estilo despojado, a postura discreta do narrador, “a transparência da prosa na fluência da frase”, a competência narrativa de quem “está atento ao compromisso de contar histórias”. Não propriamente com “modéstia”, pois que esta, apenas aparente, oculta uma boa e saudável ambição. Aliás, é preciso estar-se atento para o fato de que o enredo das histórias de Aramis são apenas um bom pretexto encontrado pelo autor para que possa esmiuçar os sentimentos e pensamentos; as contradições, angústias e, às vezes, as perversões dos seus personagens, bem como suas paixões.

Pois são essas paixões que colorem de vermelho as páginas da mais recente publicação de Aramis, O Fogo dos Infernos (Iluminuras, 2002). O livro, um volume enxuto de 158 páginas, reúne quatro novelas, independentes e autônomas, como assinala o escritor Antônio Torres, nas orelhas, mas com algo em comum: a forma inexorável como seus personagens são consumidos pelo fogo de sentimentos e emoções que os fazem, num determinado momento, perder o controle de suas vidas.
Na primeira, “A Porta Fechada”, um homem de meia idade relata ao seu antigo colega de ginásio, narrador da história, as desventuras de uma paixão juvenil por uma garota de programa. Na segunda, “A História de Joselita”, retrata a trágica desventura de uma singela moça do interior (mais precisamente de uma “perdida rocinha entranhada nos matos, perto de Saubara”), que, ao buscar o sonho da realização amorosa e da ascenção social na cidade da Bahia, termina deparando-se com uma desilusão profunda, que a faz perder a razão, e a sua própria vida, num “delírio erótico”. Uma história de Cinderela sem final feliz e, ao nosso ver, a que é menos bem realizada. Na terceira, “Domingos de Sol”, Aramis mostra ao leitor, numa vertente mais humorística, até que ponto um inocente sonho de consumo – a construção de uma piscina –, pode levar um pacato pai de família do subúrbio de Salvador, à exasperação. Por fim, na história que dá título ao livro e que é, seguramente, a melhor do volume, a paixão erótica que devora um adolescente é também o seu caminho para a maturidade – um ritual de passagem ao fim do qual este encontra a si próprio, como “uma espécie de herói solitário”.

A compreensão desse fogo – cuja associação com o vocábulo “inferno” pode ser enriquecida se dissociada de uma conotação católica, moralista: seria antes a força elementar, inconsciente, que distancia o homem do domínio de si pela Razão – passa a ser a percepção da fragilidade do ser humano perante uma força avassaladora que se impõe sobre os destinos das pessoas ao seu redor, e o seu próprio destino. “(…) O calor, o fogo, o fogo dos infernos, cujas labaredas não poupavam ninguém e eram poderosas ao ponto de modificarem as vidas, fazendo meu pai e a mulher do vizinho deixarem as suas famílias, Valdete deixar a nossa casa, seu Agenor trair dona Arlinda, minha mãe perder o emprego e eu próprio perder a minha visão inocente das pessoas. Naquela noite, não consegui dormir, o pensamento obsessivo nessas reflexões que me concluíam uma nova concepção da própria vida (…)”.

Por fim, vale destacar a importância que a cidade de Salvador – sobretudo a Salvador mais tranqüila, dos anos 60/70 – tem, nos livros de Aramis e que é confirmada, mais uma vez, neste seu novo livro. Uma Salvador, entretanto, como disse Antônio Torres, em recente conferência na Fundação Casa de Jorge Amado, com referências a novos escritores baianos (entre os quais o próprio Aramis), “sem farofa e sem dendê”. Crua e, sob muitos aspectos, à margem da alegria, longe do Éden que caracterizava algumas obras de escritores do passado.

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