Livro: Lançamento – O Árduo Caminho

Jornal A Tarde -15/05/00
Carlos Ribeiro

Existe perdão para todos os erros, mesmo os mais hediondos? O homem que se entrega a práticas abomináveis poderá, um dia, pela força do arrependimento, alcançar as mais elevadas honrarias e glórias espirituais? Tais são as questões colocadas por uma antiga lenda medieval – a lenda do papa Gregório, retratada no texto francês Vie de Saint Grégoire, que, por sua vez, inspirou a epopéia em verso intitulada Gregorjus, do poeta medieval alemão Hartmann von Aue.

É a história da criança – gerada pelo relacionamento incestuoso dos filhos gêmeos do duque de Grimald, na torre mais alta do castelo, em torno da qual corujas voltejavam, envolvidos com um gozo que era “como um fogo-fátuo que dança sobre o pântano” – que, lançada às tormentosas águas do mar do Norte, dentro de um barril, teve a ventura de ser encontrada, numa remota ilha, por um abade, que lhe deu educação religiosa. Aos 17 anos, descobre sua origem, e decide realizar longa e perigosa jornada em busca dos pais, reproduzindo, assim, a tragédia edipiana no contexto do cristianismo medieval, que ganhou, no século XX, uma versão primorosa, na pena de um dos seus mais importantes escritores.

O Eleito (editora Mandarim, 271 páginas, R$ 29,50), com tradução de Lya Luft, é esta versão. Thomas Mann, o escritor. Publicada em 1952, em plena maturidade do autor de José e Seus Irmãos, o romance proporciona um mergulho em um mundo mágico, dilacerado pela eterna luta entre o bem e o mal. Poesia e erudição combinam-se, adequadamente, num texto que – apesar dos registros variados de linguagem, na qual são entremeadas frases e mesmo diálogos em francês e em alemão arcaico de permeio ao uso do latim – conserva uma saborosa fluidez.

Vale ressaltar o engenhoso recurso de um narrador onisciente, mas falho nos julgamentos, às vezes, irônicos, às vezes, piedosos, perfeitamente identificável na figura de Clemente, o Irlandês, responsável, com suas intervenções, por alguns dos melhores momentos do romance. No capítulo Quem Toca os Sinos?, que é, também, um dos mais belos momentos do livro, Clemente refere-se ao “espírito da narrativa”, que, embora concentrado em sua “monacal pessoa”, conserva, ainda, “muito daquela individualidade abstrata que o capacita a tocar, simultaneamente, todos os sinos das basílicas titulares de Roma”.

Embora não seja relacionado entre as obras-primas de Mann, O Eleito é um dos mais gratificantes romances do escritor. Belíssima história de erros, mas, também, de perdão e remissão.

Paul Thomas Mann (1875-1955), Prêmio Nobel de Literatura, em 1929, é um dos mais importantes escritores do século XX, autor de clássicos como Os Buddenbrooks (1901), Morte em Veneza (1912) e A Montanha Mágica (1924). A erudição, o refinamento do estilo e uma visão extremamente crítica da sociedade do seu tempo são algumas características da sua obra. Era filho de uma brasileira, Júlia da Silva Bruhns Mann.

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