Liberdade Negada

Neste segundo volume da trilogia iniciada com o romance Enseada dos segredos, Morgana Gazel afirma um fazer literário cuja principal característica é a de comunicar uma experiência humana intensa e rica, numa linguagem sóbria, acessível e despojada de artificialismos. Para a autora, a literatura deve atingir o maior número possível de leitores, razão pela qual é preciso conciliar simplicidade e profundidade, o que nem sempre é muito fácil. Tocar a sensibilidade do leitor que aprecia uma boa trama amorosa, por exemplo, pode ser o viés adequado, como no presente livro, para realizar, no decorrer da história, um objetivo mais ambicioso: o de proceder a escavação, gradual e às vezes perturbadora, dos conflitos e traumas de seus personagens.

Em Liberdade negada, o que se apresenta, inicialmente, como uma estratégia afetiva entre os protagonistas, Fred e Sara, desdobra-se em camadas nas quais se encontram significados cada vez mais complexos: da dimensão individual da misteriosa personagem feminina aflora uma dimensão política que estende suas raízes para os obscuros “anos de chumbo” da ditadura militar implantada no Brasil, em 1964. Procede, assim, a autora, uma análise que ultrapassa a dimensão psicológica, pessoal, para radiografar as nefastas consequências advindas da intolerância ideológica – inclusive, e sobretudo, no âmbito doméstico, no espaço íntimo dos afetos familiares.

Nesse sentido, este livro é também um “romance de formação”, construído retrospectivamente através do depoimento – pungente e doloroso – de Sara ao seu amoroso interlocutor. Ao narrar a dramática travessia que realiza, desde o paraíso perdido da infância e adolescência, até o despertar de sua consciência social e política na relação com o pai, tenente-coronel do Exército, com a prima Maria Augusta e com o ativista político de esquerda, Flávio, seu primeiro namorado, Sara realiza sua odisseia pessoal em busca da compreensão e, consequentemente, da cura para a dor profunda que lhe foi infligida por sucessivas perdas e humilhações.

Pelo traçado de sua obra, pode-se acreditar que Morgana Gazel (pseudônimo da psicóloga e matemática Noêmia Meireles), percebe a palavra e o ato de narrar como instrumento para a cura emocional e espiritual. Nessa perspectiva, este livro guarda um interessante parentesco com um dos mais interessantes filmes contemporâneos, A vida secreta das palavras (2005), da diretora espanhola Isabel Coixet. Em ambos os casos, as duas protagonistas femininas (a enfermeira Hanna, personagem do filme, interpretada por Sarah Polley, e a professora Sara) conseguem, não com pouca resistência e sofrimento, desmontar suas armadilhas e armaduras internas graças a uma escuta amorosa, feita de avanços e recuos, num tecido narrativo construído com extrema delicadeza.

Morgana/Noêmia, em sua dupla face de escritora/psicóloga, sabe evitar as soluções fáceis e as classificações simplistas. O aspecto “curativo” da narrativa não descarta os desencontros e as impossibilidades; a composição do drama não cede às caricaturas dos vilões e mocinhos. A verdadeira tragédia aqui exposta é a da incomunicabilidade humana, construída e alimentada pela intolerância e pela dificuldade, quando não incapacidade de se entender o outro, esse indecifrável enigma.

Carlos Ribeiro

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