Labirinto de Surpresas

RESENHA – Primeiro livro de Julio Cortázar traz enfoque surpreendente do mito de Teseu e do Minotauro.
Jornal A Tarde – 06/11/01

Carlos Ribeiro

 

É comum que um grande escritor seja conhecido por seus títulos mais populares e de maior aceitação da crítica. Mas é, muitas vezes, em seus livros considerados menores que se podem encontrar algumas chaves para a compreensão de sua obra. Ou alguns dos seus mais deliciosos momentos.

Este é o caso de Os Reis, primeiro livro assinado por Julio Cortázar, que a Civilização Brasileira coloca à disposição do leitor brasileiro. Publicado em 1949 (11 anos depois de o escritor argentino ter lançado, com o pseudônimo de Julio Denis, um pequeno livro de sonetos intitulado Presença), o livro é um misto de poema dramático e peça de teatro, em cinco cenas, na qual o autor de Octaedro recria o mito de Teseu, que penetra no labirinto para matar o Minotauro.

O que Cortázar mostra em Os Reis é algo muito diverso do quadro uniformemente iluminado do mito grego, onde todos os personagens têm papéis claramente definidos. Ao trazer a história da dimensão clássica para o existir humano, imediato e concreto, de qualquer tempo, o autor acrescenta zonas de sombra ou – como diz Ari Roitman, na apresentação – desenvolve “variações que produzem surpreendentes efeitos de sentido.”

Aqui, o Minotauro não é um monstro sangüinário, mas um ser em elevado estado de consciência, filósofo ou poeta, encerrado no sombrio labirinto de pedras, mandado construir pelo rei Minos, por constituir-se em uma ameaça ao seu poder. Conforme disse o próprio Cortázar, em entrevista a uma revista: “Teseu, o herói, é um indivíduo sem imaginação, que está ali com uma espada na mão para matar os monstros que são a exceção ao convencional. O Minotauro é o poeta, o ser diferente dos outros. Por isso o encerraram, porque representa um perigo para a ordem estabelecida.”

É num complexo jogo de ambigüidades que transitam, em Os Reis, personagens habilmente concebidos e construídos, como o rei Minos, atormentado pela existência do ser que deseja que morra, mas que não pode matar. Prisioneiro – mais do que o Minotauro – do labirinto que mandou construir. “Lá reside, legítimo habitante, essa tortura das minhas noites, Minotauro insaciável. Lá medita e urde as portas do futuro, as pálpebras de pedra que sua perfídia sagaz ergue na muralha contra o meu trono. Meus sonhos aguçados de chifres (…)”, diz ele.

O medo terrível e avassalador do monstro, do ser de exceção, encontra eco completamente diverso em Ariadne. Para ela, esse medo está mesclado com um intenso fascínio, na percepção das afinidades que estão além das aparências exteriores. O novelo, que entrega a Teseu, não visa trazer o herói de volta para ela, após a morte do monstro; mas, sim, trazer o próprio monstro, após a morte de Teseu. “Vem, irmão, vem, amante, afinal! Surge da profundidade que nunca ousei vencer, assoma da fundura que meu amor derrotou! Brota agarrado à linha que o insensato te leva! Nu e rubro, vestido de sangue, emerge e vem a mim, ó filho de Parsífae, vem à filha da rainha, sedenta de teus lábios rumorosos!”

No encontro de Teseu com o Minotauro, quando este se submete mansamente à morte, certo de que só assim encontrará sua vitória definitiva, é que a história encontra seu clímax. Ele sabe que Teseu não consegue vê-lo. Diz: “É como se olhasses através de mim. Não me vês com teus olhos. Nem sequer tua espada me está justamente destinada. Deverias golpear com uma fórmula, uma oração: com outra fábula”. E, mais adiante, acrescenta: “Olha, só há um meio para matar os monstros: aceitá-los.”

Os Reis, segundo Roitman, é “um Cortázar quase pré-cortazariano”, “um poema dramático de tom clássico e ambição universal”, ainda distante do “estilo que força poderosamente os limites da linguagem e da imaginação”, mas escrito com vigor e rigor. É mais um título de Cortázar que a Civilização Brasileira coloca à disposição do leitor, com primorosa capa de Evelyn Grumach e tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. Nos últimos dois anos, a editora relançou O Jogo da Amarelinha, Obra Crítica – Volumes 1 e 2 e Octaedro, entre outros que vêm sendo publicados desde o início dos anos 80.

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